IÇA O DOIS!

Seminário sobre ALI?

Ano 10                  Artigo número 37_1 / 2010                          (Out/Nov/Dez)

 
Marinha do Brasil
 

Seminário sobre Apoio Logístico Integrado (ALI)

  Tomei conhecimento recentemente de uma notícia que muito me alegrou. Foi a da realização de um “seminário” sobre ALI. Os termos que recebi foram os seguintes:

”Visando aprimorar o Programa de Desenvolvimento de Submarinos
(PROSUB), a Coordenadoria-Geral do Programa de Desenvolvimento de
Submarino com Propulsão Nuclear (COGESN) promoveu, entre os dias 23 de
agosto e 2 de setembro, um Seminário sobre Apoio Logístico Integrado
(ALI).

O evento buscou otimizar a transferência de tecnologia na área
logística pela empresa francesa Direction des Constructions Navales et
Services (DCNS)
, uma das responsáveis pela efetivação do PROSUB com a
Marinha do Brasil (MB). A ideia é gerar subsídios relevantes para a
adequação do treinamento aos engenheiros e técnicos da MB, a ser
conduzido pela DCNS na França.

A primeira etapa teve uma semana de duração, onde foram apresentadas
palestras sobre o tema por parte da equipe da DCNS e de representantes
da MB, cujas Organizações Militares exercem atividades relevantes no
campo de ALI. Participaram do evento representantes da Diretoria-Geral
do Material da Marinha (DGMM), da Diretoria de Sistemas de Armas da
Marinha (DSAM), da Diretoria de Comunicações e Tecnologia da
Informação da Marinha (DCTIM), da Diretoria de Engenharia Naval (DEN),
da Diretoria de Abastecimento da Marinha (DAbM), do Arsenal de Marinha
do Rio de Janeiro (AMRJ), do Comando da Força de Submarinos (ComForS),
do Centro de Controle de Inventário da Marinha (CCIM), da Base
Almirante Castro e Silva (BACS), do Centro de Projetos de Navios
(CPN), do Centro de Manutenção de Sistemas da Marinha (CMS) e do
Centro de Apoio a Sistemas Operativos (CASOP). Nesse período, os
participantes da MB tiveram a oportunidade de conhecer a estrutura de
ALI da DCNS e vice-versa.

A segunda semana foi dedicada à visitas ao AMRJ, ao ComForS, à BACS,
ao CCIM, ao Depósito Naval no Rio de Janeiro (DepNavRJ), ao Depósito
de Sobressalentes da Marinha no Rio de Janeiro (DepSMRJ) e ao CMS.”

(Fonte: Marinha do Brasil)

Comentários:

De fato, fiquei muito contente ao tomar conhecimento da notícia sobre o evento porque o ALI é um assunto cuja importância não vem tendo a devida atenção e eu vejo nessa providência oportunidade impar para sua implantação e aperfeiçoamento na Logística naval.

Isso porque SEMINÁRIO é um “ grupo de estudos onde se debate a matéria exposta por cada um dos participantes ;” mas também pode ser “ um centro de criação ou de produção.

Da primeira definição concluo que tais medidas representam, realmente, um avanço dos conhecimentos sobre o ILS, que eu venho há tanto tempo propugnando na Marinha.

O que constrange, no entanto, é a “ ideia de gerar subsídios relevantes para a
adequação do treinamento aos engenheiros e técnicos da MB, a ser conduzido pela DCNS na França.
” é enquadrar tal medida na rubrica de transferência de tecnologia

Antes de tecer algumas poucas considerações sobre tal assunto, do qual me confesso ignorante (muito embora o venha estudando há mais de vinte anos), gostaria de recordar algumas marcas notáveis sobre o avanço de tal cultura.

Lembro-me quando no início dos anos 1980 o CDR(USN) Cowdrill ministrou o primeiro cusrso de obtenção de meios flutuantes para a MB. Embora eu não estivesse presente, soube que em uma de suas últimas lições, afirmou :

"We have talked for hours about the acquisition of weapons systems, specificaly ships. The topics of how many guns, radars and shafts, etc,etc, are lively ones which almost all naval officers enjoy discussing. Our topic now is one which you will you will seldom find officers discussing in the wardroom. It's not glamorous or exciting, but it is fully as important as the prior topics. Integrated Logistics Support."

E realmente, anos após anos, vim constatando o quanto de verdadeiro havia na sua afirmativa.

Em 984 a Diretoria de Engenharia Naval (DEN), líder no assunto de obtenção de sistemas navais de defesa, ministrava um terceiro, e creio que derradeiro, curso sobre a metodologia de obtenção de meios flutuantes na Marinha do Brasil, baseado nos conhecimentos obtidos do curso ministrado pelo CDR Cowdrill.

Numa das últimas aulas, creio que a décima terceira e a décima quarta, os instrutores falavam sobre o ALI e do papel daquela Diretoria no seu desenvolvimento.

Se aqueles foram momentos de aquisição de conhecimentos e de prática do ALI nos moldes do ILS no seu país de origem, talvez tenham sido os últimos. No momento em que a DEN perdeu atribuições de disseminá-los, tais conhecimentos pouco evoluíram na MB, principalmente porque não foram mais praticados .

Em xxxx foi criado o Centro de Projetos de Navio CPN desmembrando-o da DEN, e nele previa-se um Departamento de Apoio Logístico Integrado. [1]

Pela falta de encomendas de desenvolvimentos de sistemas ou equipamentos (devido à várias circunstancias conjunturais, algumas orgânicas, como a cultural, a MB vem vivendo na base de comprar projetos prontos e somente montá-los), o CPN praticamente nunca utilizou as ferramentas de Apoio Logístiico Integrado que obteve.

Em 2003 (vinte anos depois!) o Comandante da Marinha, motivado para o problema, mandou estudá-lo, determinando que fosse implantado e implementado na MB.

Em xxxx, devido ao empenho pessoal do então CMG (EN) Roberto Moura, aquele oficial reconheceu a importância do ILS, promoveu estudos sobre o assuntos e buscou organização que o praticasse e o desenvolvesse na forma do ALI.

Decorrente das determinações do Comandante da Marinha (ORCOM 12/2003), em xxxx nasceu o Núcleo de Apoio Logístico Integrado (NALIM).

Como não bastam só estruturas para promover o desenvolvimento de uma determinada atividade, o NALIM não conseguiu fazer muito em prol do ALI. Faltavam-lhe ferramentas apropriadas, gente qualificada, e embora tenha se apresentado oportunidades (construção de navios no Ceará, etc.) para poder aplicar os conceitos do ALI, nem que fosse para aprender e praticá-lo no momento oportuno, isso é, quando a MB recebesse a grandiosa tarefa de desenvolver sistemas de defesa, elas não foram aproveitadas.

Cada vez mais verificávamos o quanto a compreensão do que é o ALI se afastava dos princípios que o fundamentavam no país de origem. Isso deu margem à publicação de um artigo na Revista do Clube Naval com o título “APOIO LOGÍSTICO INTEGRADO É O MESMO QUE INTEGRATED LOGISTIC SUPPORT ?” em fev/2003.

Valendo-se de um mecanismo de discussão propiciado pelo Clube Naval, em 2003 alguns oficiais já na reserva se reuniram em grupo (Grupo de Interesse em Engenharia de Sistemas) para discutir, no campo da Logística, temas cujos conhecimentos fossem do seu interesse, e produzir textos cuja leitura pudesse contribuir para o aprimoramento dos sistemas navais. Naquela ocasião, o assunto escolhido foi a Logística de Obtenção, disciplina a qual está ligada figadalmente o ALI.

A finalidade estabelecida para tal estudo era a de identificar a razão, ou razões, da recorrência dos mesmo problemas logísticos de material, anos após anos, décadas após décadas, sem que tivessem solução satisfatória no serviço naval.

De imediato a meta estabelecida era a de identificar as falhas relativas à Manutenção, à falta crônica de sobressalentes ou peças sobressalentes, enfim, tudo que relacionasse a indisponibilidade de meios navais de defesa com essas funções logísticas.

Como são poucas as revistas para o público naval que publicam assuntos técnicos, foram selecionados outros veículos para a disseminação das idéias levantadas. Assim, alguns trabalhos foram depositados na Biblioteca de Marinha (Anais 2005 e 2006 Logística de Obtenção), os quais reuniam sugestões levantadas por mais de dois anos de debates no grupo como, por exemplo, a de dar ênfase ao preparo do Poder Naval, a de criar um Sistema Logístico, e de se aperfeiçoar e manter atualizado um diagnóstico do problema do ALI que o grupo elaborara, de aprofundar discussão sobre o sistema de obtenção na MB, da oportunidade da utilização da Engenharia de Sistemas, e outras.

Também a Internet foi bastante usada, sendo os sites em referência na nota de rodapé utilizados para a disseminação das idéias levantadas. (sobre submarinos em http://www.submarinosdobr.com.br e Logística de Obtenção em http://www.subnucleardobr.com.br/index.htm )

Em algumas circunstâncias foram encaminhadas, até mesmo, sugestões escritas à autoridades atuantes.

Procedeu-se à tradução das obras SYSTEMS ENGINEERING AND LOGISTICS de professor Blanchard, e o Handbook do ILS, de autoria do V. Jones, um clássico a respeito do assunto, trabalhos que serviram de fundamentos às discussões levadas a cabo pelo grupo.

Aliás a tradução do HDBK do ILS, esforço praticamente individual, não serviu só de base para as discussões, pois foi levada para a Diretoria Geral do Material por um dos oficiais da reserva que lá trabalhava e que, ao mesmo tempo, fazia parte do grupo de Interesse de Logística criado no Clube Naval. Lá foi gravada num CD amplamente distribuído em várias instâncias da Marinha.

Uma nota digna de ser mencionada – é a de que foi o Diretor do Departamento Cultural do Clube Naval, na ocasião Almirante Engenheiro Naval, oficial de elevada cultura e sensibilidade para a importância da abordagem técnica no processo gerencial da MB, a iniciativa de mandar adquirir no exterior a obra do Jones (2nd ed) e incorporá-la ao acervo da Biblioteca do Clube.

Embora útil aos trabalhos do grupo, tal obra teve baixíssima taxa de acesso por parte do público naval, corroborando o que dissera o CDR Cowdrill, por ocasião da sua cooperação com a MB. Desse modo, e se for confirmada a baixa procura ao livro, sua aquisição sõ foi extremamente útil às discussões no grupo, e pouco concorreu diretamente para enriquecer a cultura dos oficiais de Marinha.

 

Em 2005, Portaria 51 do DGMM mandou criar um grupo para desenvolver o ALI. Resultou num sistema que foi denominado SISALI, que aparenta ser nada mais que um sistema para controle do andamento da manutenção nos navios da MB (embora existam tantos disponíveis comercialmente, enquadrados na categoria dos Computer Management Maintenance Systema CMMS).

Embora trilhando caminhos difusos, o grande mérito da questão é que a MB já está descobrindo que algo mais tem que ser aprimorado para conseguir melhorar a disponibilidade dos navios. Ratifica tal impressão a criação do Centro de Manutenção de Meios.CMM, na estrutura daquela Diretoria.

No entanto, mesmo denominado de SISALI, acreditamos que tal “sistema” nunca produziu e não tem capacidade de produzir nenhuma Análise de Apoio Logístico, e nem mesmo tem atribuições dessa natureza.

Chegamos aos dias atuais quando, segundo o que podemos pensar como um “Plano de Aceleração da Defesa”, a Marinha foi contemplada com a obtenção por construção de algumas submarinos convencionais, base e estaleiro apropriados e a promessa francesa de “fornecimento de tecnologia para a construção de um submarino nuclear (exceto a planta nuclear)”. Decorre daí, então, o engajamento de várias organizações navais no problema. São elas: PROSUB, COGESN, Diretorias Técnicas, NALIM, CPN, CTMSP, DGMM, entre outras.

E é nesse instante que nossa alegria volta a ser manifestada, agora em função da segunda definição do que é seminário: “ um centro de criação ou de produção .”.

De fato, pode ter sido uma das primeiras constatações do Seminário a necessidade fundamental de

“Pressionar permanentemente o Ministério da Defesa no sentido dele produzir orientação e supervisão sobre todas as atividades Logísticas Militares, principalmente as de interesse coletivo (visando a integração) e a de interesse imediato para a Logística naval, como praticada na Marinha do Brasil.”

Relativas à Marinha do Brasil, podem ter sido constatadas as necessidades abaixo agrupadas como:

A. Organizacionais (necessidade de criar a autoridade e organização responsável pela logística );

B. De capacitação intelectual (necessidade de Aprimorar a Educação e o Ensino;

C. De procedimentos, processos e métodos – necessidade de criar o corpo de publicações que dissemine a base de conhecimentos logísticos e outras que sejam normativas para a condução da Logística.

Sendo idéia declarada do SEMINÁRIO sobre o ALI a de

gerar subsídios relevantes para a adequação do treinamento aos engenheiros e técnicos da MB, a ser conduzido pela DCNS na França .”

questionamos como poderão os engenheiros e técnicos da MB entender o problema do ALI se não forem abordadas questões como as acima classificadas? Será que se pensa que é possível proceder um “ análise de modos de falha, efeitos e criticalidade FMECA”, sem ter idéia do que são requisitos não funcionais ? Em outras palavras, requisitos tratados num Programa de Confiabilidade, Disponibilidade e Manutebilidade CDM ? Será que se pensa em proceder Análise de Apoio Logístico (ou de Sustentabilidade) sem conhecer sua metodologia, sem saber para que serve cada esforço analítico como da FMECA, da FTA, da MEA, da LORA? Será que se pensa que esses esforços possam ser desenvolvido sem documentação técnica apropriada, sem profissionais capacitados simultaneamente em disciplinas particulares e Logística?

Ficamos a imaginar como como reagiram tais oficiais e técnicos quando lhes falarem, na França, sobre análise funcional , sobre decomposição analítica de estruturas de tarefas , sobre codificação SMR , sobre base de dados das análises de apoio Logístico , sobre manutenção centrada na confiabilidade , entre tantos outros conceitos que não tem curso prático na MB? (por exemplo, Documentação, auxilio por computação, etc...)

Nosso contentamento, então, terá razão se no Seminário tiverem sido abordadas questões similares, e decorrente de sua possibilidade de ser “ um centro de criação ou de produção “ tiverem sido levantadas as soluções para aprimorar a organização, a cultura e os procedimentos na MB.

A esperança que decorre da realização de um Seminário de tal natureza é que dele decorram sugestões de soluções que contribuam para o aprimoramento do ALI, pois seu desenvolvimento na Marinha do Brasil, nos moldes do ILS praticado no mundo inteiro, depende da implementação de muitas delas. Se a Marinha vai atender ou não tais sugestões, é um outro capítulo.

O Seminário (cujo problema a ser resolvido e os resultados esperados devem ter sido perfeitamente identificados e explicitados por seus idealizadores) de ter se baseado na necessidade premente da MB ter um Sistema Logístico que trate tanto da Aplicação como do Preparo do Poder Naval.

Acreditamos, também, que na criação e na execução do Seminário tenha estado sempre presente que o ALI, importante metodologia no contexto da Logística Naval, também o é no contexto da Logística Militar, e portanto deverá ser desenvolvido segundo orientação do Ministério da Defesa, sem o que a idéia de integração das forças singulares estará comprometida.

Terá sido levantado, certamente, a necessidade da criação de Programas de natureza permanente, tanto do que trata da Confiabilidade, Manutebilidade e Disponibilidade, como do Apoio Logístico Integrado.

Deve igualmente ter sido ventilada a necessidade de aprimoramento da cultura do pessoal militar e dos civis que estarão envolvidos, pela aplicação de disciplinas importantes tais como a Logística de Obtenção, a Engenharia Logística, a Engenharia de Sistemas, a Gerência de Projetos, a Gerência da qualidade, entre tantas outras.

Certamente terá sido pensada a melhor solução para obtenção de “logísticos”, pessoas com conhecimentos em vários campos disciplinares e da Logística, de modo a trabalharem nos projetos.

Sem quere me alongar muito, o preparo dos oficiais e técnicos da MB já poderia ter começado há muito tempo, se a cultura fosse adequada.

Por outro lado, há muito já existe capacidade no Brasil para ter proporcionado aos seus oficiais e técnicos o preparo adequado sobre o ALI. Sobre essa metodologia falar em “transferência de tecnologia” é passar um recibo de incompetência gerencial e falta de sensibilidade técnica.

Muitos recursos serão jogados pelo ralo, as despesas serão enormes, mas quem as verificará?

A vinda da missão francesa ao Brasil, para o tal seminário, é uma aberração – é a primeira vez que um cliente ou fornecedor vai ao comprador para verificar sua capacidade de receber aquilo que ele tem para fornecer.

E se ele constatar que o comprador não tem capacidade? O que fará? Se negará a fornecer? Ou dará o golpe?

 

Depois, a gente reclama!.

NOTAS:

[1] Poderia ter sido Centro de Projetos Navais, Teria sidode maior propriedade no meu entender, pois assim poderia orientar e supervisionar uma metodologia única para todos os projetos desenvolvidos na MB, mesmo os executados por outros órgãos, como por exemplo projeto de sistemas de armas desenvolvido no IPqM, projeto de controle da propulsão desenvolvido pelo CASNAV, projeto do painel elétrico de controle das corvetas, etc)