Iça o Dois! Número 5                       Out/ 2002
O "IÇA O DOIS" RECEBEU E REGISTRA:

Amigo Capetti, Acos significa Antonio Carlos de Oliveira e Silva, seu colega de turma. Escrevi o pequeno conto anexo e perguntei ao Arlindo se a Força tem um jornal ou alguma publicação para recebê-la. Ele me disse que sim, mas q era eventual e me indicou a sua pg. Aí está. Se considerar digna de publicação e adequada ao espírito da pg, disponha dela. Aliás, disponha dela como quiser. Sua pg está ótima! Parabéns!

R: Prezado amigo, contribuições como a que v. está me enviando são benvindas, mais que dignas e merecedoras de serem publicadas na minha página.

Acho até que mereceriam local mais nobre para a edição, contudo, a dificuldade para encontrar tais espaços é sempre grande.

Sirva-se, e espero que os leitores mais ainda, pela qualidade da obra.

Abraços, Capetti

 

"Ele ainda está em patrulha

Fazia três dias que o submarino deixara o porto de Lisboa. Naquele dia, ao atingir a isobática de 200 metros, o navio mergulhou para a cota de 300 pés e iniciou a viagem submersa que faria cruzando o Atlântico até o Brasil.

O Oberon  havia sido construído na Inglaterra sob encomenda do governo brasileiro, era o quinto de sua classe e aprestava-se para entrar em serviço na Marinha do Brasil. Sua tripulação estava animada com a perspectiva da travessia submersa, seria a primeira de um submarino brasileiro, e contava os dias que faltavam para emergir à vista do farol da Ilha Rasa. As horas a bordo eram contadas rotineiramente, não havia dia ou noite, nem sol nem estrelas. Os exercícios enchiam o tempo, as milhas eram engolidas quase monotonamente.

As patrulhas sucediam-se, cada quarto realizava a sua, o comandante adestrava sua tripulação e exigia dos homens no mínimo tanto quanto ele mesmo dava para o navio. Era respeitado por isso.

O marinheiro que guarnecia o sonar no quarto de 0800 às 1200 era o melhor de todos. Ouvido privilegiado, conhecimentos completos, experiente, dedicado ao serviço, era capaz de reconhecer uma baleia, um cardume de golfinhos ou outro submarino que passasse ao alcance de suas emissões ou do seu sonar passivo.

O marinheiro acordou naquele dia como acordava em todos os outros. Não muito alegre, mas não zangado, fez sua faxina matinal, passou pelo rancho e apresentou-se para o entrar de quarto às 8h.

Às 0947 o sonar passivo detectou algo. Uma estranha freqüência chegou aos ouvidos do marinheiro. A princípio, ele apenas aguçou sua audição, escutou por alguns minutos e como não identificasse a origem, comunicou ao oficial de quarto. Este notificou o comandante, que logo veio para a estação de comando. O som foi transferido para o alto-falante e todos puderam ouvi-lo. Era como se fosse, um gemido muito triste, um lamento de mulher, um pedido de socorro. Todos estranharam aquilo, entreolharam-se, mas como silenciasse, não deram importância. Durou alguns minutos e acabou. O resto do quarto foi normal.

No dia seguinte, na mesma hora, aconteceu de novo. O mesmo som, novamente o comandante foi chamado e novamente silenciou após alguns minutos. Mas o marinheiro operador do sonar transformou-se. De alguma forma ele sabia que aquele som era dirigido para ele. Alguém, em algum lugar, tentava falar com ele. Pediu para trocar de serviço e o fato repetiu-se no outro quarto. Desta vez, ele nada disse. Ficou escutando e, num impulso incontrolável, emitiu um ping . O som cessou subitamente, mas ele percebeu que tinha estabelecido uma ligação. No quarto seguinte, antes que o som viesse, ele emitiu e desta vez o som veio em resposta. Sim! Havia alguém lá fora! Ele ficou transtornado. Passou a dormir e comer mal, fazia questão de entrar de serviço em outros horários, vivia em função daquele som. Logo perceberam que ele não estava bem até porque ninguém mais escutava o som. Só ele. O comandante quis baixa-lo à enfermaria, mas ele resistiu. Definhou a olhos vistos. Afinal, foi retirado da escala de serviço. Nenhum dos outros operadores de sonar conseguiu ouvir algo. Fosse o que fosse, tinha cessado.

Como melhorasse um pouco, julgaram que o trabalho lhe faria bem e ele voltou à escala. Logo no primeiro serviço tudo recomeçou e como ninguém ouvisse, só ele, foi levado delirando para o beliche, insistindo em comunicar-se com ela . Sim, para ele, aquele som vinha de uma mulher, de uma sereia, ele não sabia bem. Tiveram que seda-lo. Mesmo assim, ouviram-no entoando o som que ele dizia ouvir no sonar. Ele estava apaixonado por aquela anomalia!

Na véspera de chegar ao Rio, aconteceu o acidente. No crepúsculo vespertino um problema na cozinha deu início a um incêndio. O fogo alastrou-se com rapidez e violência e custou muito a ser debelado. O navio veio à superfície para que todos pudessem respirar ar fresco e para retirar a fumaça de bordo. O marinheiro foi levado para o convés em sua maca. Ele tinha no rosto um sorriso triste e as mãos abertas viradas para cima sugeriam um gesto de entrega ou de recebimento O escuro da noite e a azáfama das fainas de safar e salvar o navio propiciaram momentos de aparente abandono do marinheiro. Por segundos, ele ficou só. Ninguém percebeu quando ele esgueirou-se da maca e entrou no mar. Se tivessem visto, teriam também visto o sorriso de felicidade que ele tinha nos lábios e o brilho que seus olhos ostentavam como se estivessem vendo a mulher amada. Imediatamente foi iniciado o procedimento de busca, mas não o acharam. O comandante, consternado, decidiu passar a noite pairando e recomeçar no dia seguinte. Mas não encontrou seu marinheiro e isso é o pior que pode acontecer a um comandante. Arrazado, suspendeu a busca, expediu as mensagens pertinentes abriu inquérito e traçou o rumo para o Rio.

A chegada foi triste. As famílias dos outros logo souberam do acidente que já havia sido comunicado a família do marinheiro. Os pais dele foram ao cais, queriam ouvir do comandante o que tinha acontecido. Foram momentos difíceis. Como colocar um marinheiro doente numa maca no convés e deixa-lo só? Havia um incêndio, sim, havia outros tripulantes sufocados, intoxicados, tudo e verdade, mas  por quê abandonaram meu filho? , como puderam fazer isso ?

O comandante, também sofrendo, não tinha respostas para eles até porque não tinha abandonado o marinheiro , tão pouco o tinha deixado só. Seus olhos, como os dos pais do marinheiro, estavam cheios d'água. Mas lhes falou do marinheiro. Contou-lhes que ele tinha um ouvido privilegiado, que era muito organizado, que tinha muitos amigos, que todos gostavam dele e que ele amava a Marinha.

Mas não contou que ele tinha ficado louco e se apaixonado por uma sereia. Nunca entenderiam isso.

Também não entenderiam se o comandante lhes dissesse que seu filho continuava em patrulha.

Acos"

 

 

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SUMÁRIO:

SUBMARINO DE PROPULSÃO NUCLEAR NO BRASIL
CENTRO HIPERBÁRICO DA MARINHA
A Ilha Maldita (capítulo 3 - A destruição do pesqueiro


Apesar da idade, o artigo sobre o CENTRO HIBERPÁRICO DA MARINHA proporciona aos leitores uma boa perspectiva do quanto de tecnologia está nossa Força de Submarinos, e portanto, a Marinha do Brasil, envolvida. A responsabilidade é muito grande, mas os resultados alcançados, ao longo desses anos, não deixam margem a dúvidas do quanto são capazes nossos mergulhadores e submarinistas.

O artigo seguinte, sobre a construção do submarino nuclear brasileiro, de autoria do oficial que deu vida ao projeto, serve ao leitor como fonte de informações para saber o quanto de esforços desenvolveu a Marinha de guerra para levar avante o mais ousado empreendimento tecnológico de que temos conhecimento neste país, no limiar do século passado.

Sem recursos de origem orçamentária apropriados, nosso pessoal e todos os técnicos civis engajados no projeto mostraram o quanto a capacidade individual pode ultrapassar as deficiências que visões distorcidas e mentes embotadas geram, retardando o crescimento do nosso Brasil. O próprio autor (na opinião do IÇA O DOIS! um oficial cientista que jamais poderá ser esquecido na MB pelos serviços prestados, acima de tudo ao Brasil) foi vítima de inconformismos e insatisfações, geradores de mediocridade cultural que se sublimou ao longo do desenrolar  de tão importante jornada tecnológica.   

Segue neste exemplar a continuação da "A Ilha Maldita", obra de pura ficção, que narra estranhos acontecimentos vividos por submarinistas, mergulhadores, e outros militares, participantes e  testemunhas do que pode acontecer numa longínqua paragem do  Atlântico Sul, fatos dos quais até mesmo nossas autoridades duvidam.

*****

Chegamos ao último trimestre do ano.

É a oportunidade do IÇA O DOIS! agradecer àqueles que nos prestigiaram, lendo os artigos publicados, e de desejar a todos os nossos leitores um FELIZ NATAL  e PRÓSPERO ANO NOVO.

Apesar de todas as dificuldades que temos passado, temos a certeza que a família submarinista chegará ao final do ano contabilizando positivamente uma série de realizações profissionais e pessoais, razão pela qual só podemos esperar melhores dias no futuro bem próximo.

Afinal, todos nós, submarinistas, mergulhadores, pessoal de apoio, e nossos familiares, porque não? Ainda

"SOMOS MARINHEIROS ATÉ DEBAIXO D' ÁGUA"