Iça o Dois!                                              Número 26 jan/2008

EDITORIAL

Jan, 2008.

Nesse primeiro número do ano de 2008, buscamos focalizar no fato de que a simples alocação de recursos, sem o suficiente preparo intelectual, associado à falhas na estrutura administrativa militar, se comportará como o Programa de Aceleração do Crescimento. Muitos recursos serão enormemente desperdiçados, pois não se resolve da noite para o dia os grandes problemas logísticos - transporte, energia, etc. - sem conhecimentos técnicos científicos e sem planejamento. Com certeza muitos resultados serão pífios, infelizmente. A falta de pessoal qualificado será o grande gargalo.

Além do conhecimento vulgar de que tão usualmente os Chefes Navais lançam mão, esperamos que o conhecimento com fundamento científico cresça nas Forças Armadas, em especial na conjuntura, de modo a permitir que aqueles a quem cabem as grandes decisões, possam tomá-las segundo o estado do conhecimento. O preparo adequado dos que comandam e vão mandar na MB, resultará em VISÃO ESTRATÉGICA, farol para o emprego otimizado dos recursos que vierem a ser alocados - se vierem. 

A grande primeira questão passa pelo aumento salarial dos militares, sem o que a falta de pessoal será, como acima mencionado, o grande gargalo, não somente para o preparo, mas para a operação d diferentes ativos do poder naval. O artigo A QUESTÃO SALARIAL DOS MILITARES, de autoria do VA(Ref) Ruy Capetti,  procura informar sobre os aspectos particulares envolvidos.

O IÇA O DOIS republica, com especial carinho, o texto da carta do Almirante Sérgio Tasso, Oficial e submarinista de escol, em que manifesta seus sentimentos da amor a nossa querida Marinha, sentimento este comum a todos nós, mas que poucos sabem expressar como ele.

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MARINHA DO BRASIL, PAIXÃO DE TODA UMA VIDA.

VAlte(Ref) Sergio Tasso Vásquez de Aquino.

 

 Estive na Praia de Copacabana, desde o final da manhã do domingo, 27 de janeiro, para assistir ao Desfile Naval comemorativo dos duzentos anos da Abertura dos Portos às Nações amigas. Quantas emoções revivi!

Todo o amor, toda a paixão pela “mais nobre das profissões” tomaram de assalto, de novo, meu coração, ao acompanhar a passagem das silhuetas aguerridas e queridas tão de perto, quase ao alcance da fala... Como são belos os navios de guerra, como são majestosos e elegantes, ao singrar as águas do mar, que é seu lar! Com que orgulho e com que propriedade portam a Bandeira do nosso Brasil tão querido, já que são, com toda a honra, “a Pátria além da terra”! Assim foram incomparavelmente caracterizados, no dizer inspirado do poeta-marinheiro, meu dileto colega e amigo de mais de sessenta anos, o Almirante Élcio de Sá Freitas, no poema épico “A Volta dos Navios”, que escreveu, a meu pedido, para a Revista “A Galera”, dos Aspirantes de Marinha, da qual eu era diretor no longínquo ano de 1956...

 Que saudade senti das andanças pelo mar, de todos os navios em que embarquei na Marinha e que passaram a fazer parte de mim para sempre (ou fui eu que passei a fazer parte deles, porque os navios têm alma e conquistam os marinheiros que formam  suas tripulações?), da minha vida de 41 anos na Marinha! Foi uma doce emoção, que me apertou o coração e me levou lágrimas aos olhos. Marinha, Marinha, Marinha do Brasil, como te amo! Hoje, tanto como sempre, tua marca indelével toma conta de mim, com a força de uma primeira paixão!

O dia estava nebuloso e havia pouca gente na praia, para assistir ao desfile. Os meios de comunicação não fizeram propaganda extensiva do acontecimento, porque,  já de há muito tempo, não lhes interessa promover as Forças Armadas e divulgar a sua virtude, o seu valor, as suas nobres tradições e incomparável missão, para elevação e defesa da nacionalidade, porque também não estão interessados em contribuir para aperfeiçoar o povo, educar a infância/juventude, para desenvolver o País... Mesmo assim, no local em que minha mulher e eu nos encontrávamos, estavam uma família, de avós com neto de nove anos, e uma senhora da nossa idade, atraídas especificamente  pelo interesse em ver o desfile e aplaudir a Marinha.

Surgindo por trás da Ponta de Copacabana, despontaram os navios, saudados pela bateria de salva do Forte de Copacabana, cerimonial que se repetiu à sua passagem por todas as fortalezas da entrada da barra e da Baía de Guanabara. Em impecável formatura em coluna, seguindo as águas do guia separados por intervalo-padrão, anunciados e sobrevoados por oito helicópteros de Marinha, guinaram sobre a praia famosa, para depois assumir rumo praticamente paralelo à costa, para passar entre a Ilha de Cotunduba e o continente. A todos impressionou o aspecto impecável dos navios –Fragatas das Classes  “Niterói” e “Rademaker”, Navio-Tanque e Navio de Desembarque de Carros de Combate, Rebocador de Alto-Mar, Corveta, Navios Hidrográficos, Submarino e o belo veleiro, escola de marinheiros, “Cisne Branco”, que encerrou o desfile com sua gigantesca bandeira auriverde, que representa nossa terra e é a mais bela de todas neste mundo de Deus, ondeando garbosamente aos ventos!. Estava ali a Marinha tremendamente bem apresentada, com ponderável expressão dos  seus meios de superfície, aéreos e submarinos, conduzidos e guarnecidos pelo que tem de melhor: a heróica, dedicada e brava gente, que escolheu o mar como inspiração para sua vida e a Marinha para servir o Brasil e seu povo.

A senhora, que estava a meu lado, disse-me: “ Não imaginava que a Marinha estivesse tão bem! Só ouço dizer que ela e as outras Forças Armadas estão sucateadas e sem recursos!”

 Respondi-lhe:”Minha senhora, o responsável por esse milagre, de manter operativa, flutuando e combativa a Marinha, é essa gente dedicada e estóica, que entrega sua vida, seu esforço, seu trabalho honrado do dia-a dia e seus talentos para conservá-la eficaz e eficiente, apesar de todas as dificuldades e restrições. É o pessoal de Marinha, de todos os postos e graduações, civis e militares, que, juntamente com os irmãos do Exército e da Força Aérea, teima patrioticamente em cumprir sua Missão. Mas precisávamos de muitos mais meios e recursos, para garantir a realização do projeto nacional da grande Nação que, por direito, queremos ser. Temos, contudo, encontrado desinteresse e cerceamentos dos péssimos governos que se têm abatido sobre o País, que tudo negam às Forças Armadas e se comprazem impatrioticamente, porque teimam em ignorar sua fundamental importância para o Brasil livre e soberano, em desconsiderá-las e tentar humilhar e enxovalhar seus integrantes, por mero espírito de revanchismo malsão”

Meu coração brasileiro e marinheiro encheu-se de orgulho hoje, com a bela exibição da minha Marinha, a que tive a felicidade de assistir. Emocionei-me com os navios, os helicópteros, as manobras bem feitas e nos horários previstos, a impecável apresentação dos meios e do pessoal em postos de continência, o drapejar da Bandeira sem par, que prometi, um dia, defender com o sacrifício da própria vida! Como a Marinha foi Marinha hoje, e Brasil sempre!

 Voltei para casa feliz e emocionado. Paralelamente, porém, me foi surgindo uma dolorosa indagação na mente, na alma e no coração: como temos permitido que um bando de pessoas sem quaisquer qualificações, sem compromisso com a ética e a moral, com o Bem Comum e a felicidade do povo, com a grandeza, a independência e a soberania do Brasil, com a integridade do patrimônio nacional e com a implantação da verdadeira democracia no País se tenha assenhoreado de forma tão totalizante do poder em nossa terra, para fazer o mal sem escrúpulos e sem limites? Brasil, meu Brasil brasileiro, como tens sido traído e agredido, por anos a fio! Marinha, minha Marinha, como tens sido ignorada, vilipendiada e maltratada, colocada quase à míngua com teus briosos e sacrificados integrantes, o mesmo que vem acontecendo ao Exército e à Força Aérea, contigo gloriosos e bravos baluartes do Brasil!

Os bravos, os corajosos, os verdadeiros guerreiros da Pátria, aqueles que assumiram, com verdade, o compromisso solene de elevá-la e defendê-la têm de tomar posição firme e imediata, juntamente com todos os demais segmentos sadios da nacionalidade, para reverter a desgraça que se vai abatendo sobre a Terra da Promessa e da Esperança. Os fracos, os tíbios, os comprometidos por omissão com o mal que se espraia e do qual, assim se fazem coniventes, melhor fariam se se afastassem voluntariamente, dando lugar a  quem queira combater o bom combate. Confio em Deus que o Brasil será salvo. Para isso, oremos e trabalhemos, pois  a graça divina exige o complemento da ação dos homens de bem: o processo de conversão e salvação inicia-se com o convite do Senhor, mas tem de contar com a vontade e a adesão sinceras de cada um de nós. Deus conosco, havemos de devolver a Terra de Santa Cruz ao seu glorioso destino!  

Rio de Janeiro, RJ, 27 de janeiro de 2008.

 



SUMÁRIO

Aprimoramento do Ministério da Defesa

Entendendo a Assimetria.

A questão Salarial dos Militares

NOTÍCIAS:

Folha de São Paulo - 28/01/2008

O Brasil discute com a França a compra de submarino diesel-elétrico da classe Scorpène, por US$ 600 milhões, com pagamento em 20 anos e taxas européias, de 2,4% ao ano. A compra está condicionada a um pacote mais amplo que inclui a transferência de tecnologia de submarinos nucleares franceses para a Marinha brasileira.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, que está em Paris para encontros com o governo e com empresas de submarinos e de aviões da França, ressalvou ontem que "não se trata de uma viagem de compras,"  mas de discussão de uma "aliança estratégica" entre os dois países.
A base das conversas, segundo ele, é a garantia de transferência de tecnologia -algo que os Estados Unidos não aceitam, mas a França mantém com países como a Índia e a China.
Jobim e sua comitiva voaram a Paris em um jato Legacy -fabricado pela Embraer- da FAB (Força Aérea Brasileira), para dar "um sentido simbólico" a favor da indústria nacional.
Brasil e França têm pelo menos quatro projetos conjuntos em estudo na área de defesa: o dos submarinos, o de aquisição do caça Rafale, o dos helicópteros cargueiros Cougar e um acordo que deverá ser assinado amanhã por Jobim para ampliar a troca de oficiais e de exercícios militares entre os dois países, inclusive com facilidades aduaneiras, plano de saúde e de locomoção.
O presidente Lula enviou ontem para Paris uma procuração para Jobim ratificar o acordo nos encontros com o ministro da Defesa da França, Hervé Morin, e com o presidente Nicolas Sarkozy. Apesar de deter o ciclo de enriquecimento de urânio e de seu uso para propulsão de submarinos, o Brasil não tem a tecnologia para construir um submarino nuclear.
Segundo Jobim, o objetivo é desenvolver o projeto do submarino nuclear no Centro Experimental de Aramar, em Iperó (SP), e também estudar a criação de um novo estaleiro no país, com tecnologia comparti-lhada com os franceses.
Na quarta-feira, Jobim vai visitar a Base Aeronaval de Dugny e a base de submarinos de Toulon, onde pretende visitar um modelo nuclear. No dia seguinte, visitará os estaleiros da DCNS, que produzem o convencional Scorpène.
O ministro Roberto Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos), que acompanha Jobim, disse que o Brasil tem especial interesse no modelo militar francês, que tem apoio da sociedade e uma conexão direta com a indústria privada.
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