Iça o Dois! Ano 2 Número 2 2002

Nota do editor

Ainda buscando privilegiar a criatividade, mencionamos, por exemplo, o uso da matriz GUT, para auxílio no processo de tomada de decisão, uma idéia na mesma linha ferramental que os dois artigos publicados no  número 1, "Segurança do trabalho" e "Otimizando custos", e que poderá vir a se constituir em artigo, em edição futura, dentro da idéia de aperfeiçoamento dos procedimentos correntes em uso na MB. 

Muito embora apresentada como sugestão, a idéia do uso da Matriz GUT naufragou à meio caminho, arquivada no frio da mentalidade inelástica de alguma "cultura satisfeita", e portanto desmotivada para o aprimoramento dos processos navais. Sem o encaminhamento a quem de direito, a sugestão, tende, pois, a se tranformar em artigo de revista.

Mas, na mesma linha de privilegiar a criatividade, publicamos   artigo de Alvanir B. de Carvalho, conceituado modelista naval, "SUBMARINO MELLO MARQUES" (publicado no PERISCÓPIO exemplar  51, ano de 1997), em que o autor nos mostra que inteligência e criatividade eram também características de nossos antecessores navais. O interessante artigo excita o desejo de envolvernos com o modelismo naval, em particular voltado para a construção de pelo menos, nossos submarinos nacionais. Afinal, quem não gostaria de ver um modelo do submarino de Emílio Hess? será que ele poderia ser tornado operacional?

Segue reprodução da interessante notícia sobre o adestramento de salvamento de submarinos sinistrados (O PERISCÓPIO, exemplar  42/1988), de autoria do CC(SB) Arlei Caetano Franco, e que dá idéia das dificuldades profissionais a que estão sujeitos os submarinistas, razão para o contínuo e severo treinamento que  necessitam praticar.

Mesmo dentro deste rigor e severidade há espaço para a muita alegria e satisfação nos momentos em que se atinge o grau de treinamento requerido, juntamente com todos que compõe a equipe que opera um submarino, como nos dá conta a crônica do VAlte (RRm) Ruy Capetti (O PERISCÓPIO, exemplar 51), sobre a primeira saída realizada do TTSS, individualmente e pela guarnição do SB Humaitá(S 20), que comandou. 

"A Ilha Maldita" é uma obra de ficção, que narra estranhos acontecimentos vividos por submarinistas e outros militares, testemunhas do que pode acontecer em longínqüas paragens do  Atlântico Sul, e dos quais até mesmo nossas autoridades duvidam. É o caso do avistamento de estranhos objetos voadores na Ilha da Trindade.


SUBMARINO MELLO MARQUES

- Um modelo navegante de quase cem anos -

Alvanir B. de Carvalho

Introdução 

Acredito eu que o prezado leitor já viu de perto - ou, muito provavelmente, até mesmo já pilotou - um desses carrinhos de brinquedo, controlados por radio, ou então um modelo de barco, ou de tanque de guerra, ou até mesmo um avião ou um planador R/C. Daí que, para quem ainda não viu, imaginar que também existem modelos operacionais de submarinos, controlados por rádio, não irá causar tanta estranheza assim. Certo ? 

Todavia, você seria capaz de imaginar que, quase cem anos atrás, um modelo operacional de submarino fosse projetado e construído por brasileiros, modelo esse que manobrou na piscina da Escola Naval, numa época em que nem sequer sonhava-se que, um dia, o radio-control seria inventado? Mais importante, ainda, que fosse um modelo de submarino totalmente construído em metal, que o mesmo fosse dotado de lastro variável, sob controle - técnica essa somente agora utilizada pelos modelistas de submarinos dos Estados Unidos e da Europa - que submergiu e também emergiu, várias vezes, na presença de altas autoridades navais, inclusive o Dr. Campos Salles, então Presidente da República? 

Este modelo de submarino existiu - ou melhor dizendo-o, existe. Ele foi projetado e construído pelo CT Engenheiro Naval Luís de Mello Marques e - o modelo original- poderá ser visto no Museu Naval e Oceanográfico do Rio de Janeiro, onde ele se encontra em exposição permanente, numa vitrine instalada no Primeiro Andar daquele Museu (Rua Dom Manuel, 15 - próximo à Praça XV de Novembro)*1. A demonstração pública, perante altas autoridades navais, mais o Presidente da República, ocorreu no dia 27 de setembro de 1901. 

*1: uma réplica, em tamanho menor, poderá ser vista em exposição no Museu da Força de Submarinos, na Ilha de Mocanguê. 

Submarino Mello Marques - Vista lateral. 

Vejamos a curiosa história desse modelo precursor dos atuais modelos operacionais de submarinos, construídos por aí afora. 

Antecedentes Históricos 

O Brasil tem sido o berço esplêndido de uma plêiade de pessoas inteligentes, com capacidade inventiva acima da média mundial. Brasileiros inventaram a dirigibilidade dos balões, o relógio de pulso, a telha do fuzil, a máquina de escrever, o avião, etc. Também no Brasil fomos pioneiros no emprego de aeróstatos como pontos de observação elevada e de direcionamento de tiros da artilharia, assim como no uso de protótipos navegantes - o modelo do Monitor Alagoas, também em exposição no Museu Naval. O CT Luís de Mello Marques foi um desses inventores-pioneiros o qual, muito embora não possa ser considerado o pai do submarino, nem por isso deixa de ter seu nome incluído entre aqueles dos pioneiros na construção de modelos operacionais de submarinos navegantes. 

Na virada do século (1900), a palavra submarino não passava de um sonho duvidoso para a maioria das Marinhas de Guerra, de todo o mundo, cujos dirigentes olhavam com desprezo para aquela novidade engatinhante. Apenas alguns países modernistas, à exemplo da Inglaterra, França, Japão, Estados Unidos, Suécia, Argentina, Brasil e Chile possuíam algumas poucas unidades operacionais daquilo que prometia vir a ser uma arma de guerra com vastas potencialidades. 

O modelo do submarino Mello Marques foi projetado e construído como protótipo de um submarino de verdade, que se esperava fosse produzido no país. Infelizmente, as péssimas condições financeiras por que passava - uma constante na vida econômica da nação - aliadas ao incipiente estágio da industrialização brasileira de então e a decisão das autoridades navais da época, que optaram por adquirir submarinos já existentes, em vez de tentar desenvolver um projeto nacional, contribuíram para que o referido projeto não passasse de mais uma tentativa frustrada que, muito embora tendo provado "dar certo", nem assim foi levada adiante, o que é deveras lamentável. 

O Modelo Mello Marques 

Por volta de 1900, o submarino "Holland" já existia e suas linhas gerais eram do conhecimento público, pelo que o Engenheiro Naval Mello Marques, partindo daquele ponto, idealizou um "Holland modificado", dando-lhe o formato exterior de um Atum, peixe abundante em nossa costa. O submarino projetado por Mello Marques tem as seguintes características: 

- corpo pisciforme (lembrando um atum), construído totalmente em cobre com revestimento de uma fina camada de nickel, medindo 78 cm de comprimento e 16 cm de boca; 

- uma pequena torreta, instalada na parte dianteira do seu dorso; 

- um hélice único, de pás tipo cimitarra, com avanço hidrodinâmico, no estilo dos hélices dos modernos submarinos atômicos, também constituindo mais um dos inúmeros modernismos precursores daquele modelo; 

- leme vertical e lemes horizontais, na popa. O leme vertical tinha o formato recurvado, com recesso no centro, lembrando a cauda de um peixe. Todavia, os lemes horizontais, dada sua reduzida área, nos pareciam inadequados às finalidades a que se propunham; 

- dois tubos lança-torpedos, no nariz.  

Vista frontal do modelo apresentando a proa e os 2 tubos de torpedos.

Os tubos lança-torpedos do Mello Marques foram projetados para disparar torpedos de 14 polegadas de diâmetro. O navio carregaria dois torpedos, já instalados nos tubos de lançamento, e mais dois torpedos sobressalentes. 

Operacionalidade do Modelo 

Homem prático, Mello Marques mandou construir um modelo de metal, do submarino projetado por ele, tendo por finalidade fazer as demonstrações públicas mencionadas acima. O modelo media 78 cm de comprimento e tinha tanto o leme vertical quanto os lemes horizontais semi-rígidos. A propulsão seria fornecida por um motor elétrico, instalado num compartimento estanque, do mesmo jeito que hoje, quase cem anos depois, são construídos os modelos operacionais de submarino, rádio-controlados, encontráveis nos EEUU, na Europa e no Japão. 

Dados os avantajados peso e volume das baterias da época, Mello Marques viu-se obrigado a improvisar uma solução. Uma vez que as pequenas baterias recarregáveis, de Nickel Cadmium ou de Cromo, de tamanho portátil - amplamente utilizadas pelos modelistas de hoje - ainda não tinham sido inventadas, ele optou por suprir o motor elétrico a bordo do modelo com a corrente elétrica fornecida por uma bateria instalada em terra. Um longo cabo flexível, transmitia a energia necessária para girar o motor do modelo, quando este fosse para a água. 

Procedimento quase idêntico também era utilizado no que diz respeito ao controle do tanque de lastro. Para que se tenha uma idéia mais acurada da situação, basta que se diga que, nos modernos modelos de hoje, com o modelo navegando na superfície, acionando-se o radio-control, permite-se abrir válvulas de alagamento do tanque de lastro, o modelo embarcando água e passando a adquirir fiutuabilidade negativa, fato esse que o leva para o fundo. Numa situação inversa, com o modelo navegando submerso, acionando-se outro comando do radio-control, libera-se gás Freón ou CO2, contido em pequenos cilindros metálicos, instalados a bordo dos modelos operacionais de submarinos. A pressão do gás Freón ou do CO2 expulsa a água contida no tanque de lastro, o modelo voltando a adquirir fiutuabilidade positiva, levando o modelo de volta para a superfície. 

Ora, conforme já mencionado mais de uma vez, o radio-control ainda não fora inventado, nem tão pouco existiam cilindros portáteis contendo gás Freón ou CO2. Procurando contornar o problema, o Tenente Mello Marques optou por acoplar, ao tanque de lastro do seu modelo, uma mangueira flexível. Na outra extremidade, encontrava-se um compressor de ar. *2 Abrindo uma válvula existente no compressor, em terra, Mello Marques permitia que o ar do tanque de lastro do seu modelo escapasse para a atmosfera, o espaço interno do tanque de lastro sendo invadido pela água da piscina, o modelo afundando para diversos níveis distintos - navegação entre águas - segundo a intenção do operador. Numa manobra inversa, acionando-se o compressor, o ar era bombeado para dentro do tanque de lastro, expulsando a água nele contida, o modelo voltando a flutuar. Esta operação poderia ser repetida tantas vezes quantas desejadas pelo comandante/piloto. 

*2: - ainda hoje pode-se observar, nas laterais do casco do modelo existente no Museu Naval, os bicos de entrada dos cabos e mangueiras mencionados neste artigo.

Não resta a menor dúvida de que, ao contrário dos modernos modelos de submarinos rádio-controlados, que podem se afastar uma centena de metros do seu "comandante/piloto", o sistema descrito acima limitava, inexoravelmente, a capacidade operacional bem como o raio de ação do modelo construído pelo CT Mello Marques, que era obrigado a navegar em círculos. 

O autor e o modelo no Museu Naval

Vista Interior do Casco do Modelo 

Modelista-construtor de modelos operacionais de navios de guerra, era natural que eu me sentisse atraído pela história do modelo de submarino encontrado numa vitrine do Museu Naval e Oceanográfico - o modelo do submarino Mello Marques - pelo que passei a dedicar algum tempo pesquisando sobre o assunto. Evidentemente que, afora as informações obtidas em compêndios da Marinha, minhas observações físicas do modelo limitaram-se, nessa primeira fase, àquilo que qualquer visitante do Museu podia ver através da vitrine protetora do modelo. Isso posto, no ano de 1993, dando-me por satisfeito com o que havia recolhido de informações, escrevi dois artigos distintos, que foram publicados, o primeiro deles pela revista "In Depth", editado pela Associação de Modelistas de Submarinos, da Inglaterra, e o segundo artigo pelo "The Sub Committee Report", um boletim informativo publicado pela associação de modelistas de submarinos, dos Estados Unidos, por sinal, o maior clube isolado de modelismo naval, do mundo, com 580 ( quinhentos e oitenta) associados, quase todos construtores de modelos operacionais de submarinos, R/C. 

O assunto praticamente esquecido eis que, dois anos depois, uma importante coincidência veio contribuir para reforçar minha admiração pelo feito do Capitão-Tenente Mello Marques. Todo mundo sabe que os Museus recolhem, de tempos em tempos, os modelos expostos em suas vitrines, para submetê-Ios a processos de conservação e de manutenção. Isso posto, sabedor do meu interesse pelo modelo do submarino Mello Marques, o CC John Lionel Toledano, então lotado no Museu Naval, telefonou-me informando que o referido modelo havia sido retirado da vitrine, e que seria aberto para manutenção. Era grande a minha curiosidade sobre o interior do casco do modelo. Tendo em vista a possibilidade de "botar as mãos" no mesmo, mais que depressa desloquei-me para o Museu Naval, a fim de acompanhar aquela faina. 

Uma vez removidos os parafusos que mantinham unidas as duas partes do seu casco, o que vimos no interior do modelo causou-me espanto e admiração, sobretudo por ver que, num modelo de quase cem anos atrás, Mello Marques havia implantado técnicas refinadas, que eu pensava fosse privilégio dos modernos modelos de submarinos rádio-controlados, construídos pelos modelistas de hoje. Senão vejamos: 

- o motor elétrico ficava instalado na base do casco, o mais baixo possível, de modo a também contribuir para o baixo centro de gravidade do modelo, uma providência indispensável ao seu equilíbrio na água;

- o modelo dispunha de um pequeno tanque de lastro alagável sob controle do operador (idem, idem). Um furo permanentemente aberto no fundo do tanque de lastro possibilitava o alagamento/esvaziamento do referido tanque

- o modelo tinha um convés interno, dotado de forro removível, como que a indicar ser ali o local onde, no submarino de verdade, seriam instaladas, no futuro, as baterias do submarino verdadeiro. É curioso dizer que, removido aquele forro, verifica-se a existência de inúmeros compartimentos verticais, todos eles espaçados por igual, como que indicando ser ali, de fato, os locais das baterias do futuro navio; 

- o casco era constituído de duas partes, aparafusadas no lugar, técnica esta que - mais uma vez - é utilizada, hoje em dia, pelos modelistas modernos. 58 parafusos metálicos, de 3/4", espaçados a cada 2 cm, mantinham unidas as duas partes do casco. Uma mistura de fibras vegetais embebida em piche assegurava a estanqueidade do interior do casco do modelo.*3

*3:  - depois que examinamos e, vistoriamos o modelo por dentro, publicamos, em 1995, mais dois artigos ilustrados, sobre o assunto, nas mesmas revistas citadas anteriormente, fato esse que provocou nova troca Intensa de correspondência com modelistas de submarinos, residentes em diversos países.  

Vista interior do casco do modelo Mello  Marques

Conclusão 

Saudosismo à parte, ufanismo também posto de lado, diante da frustração de saber que o projeto original não foi levado adiante, o fato é que o modelo de submarino construído pelo Capitão-Tenente Mello Marques constitui mais uma daquelas invenções futurísticas, dignas de um Léonard de Vinci, ou de um Jules Verne, notórios visionários de coisas que somente o futuro iria provar serem possíveis de fazer. 

Finalizando, quero deixar bem claro que esta não é mais uma daquelas histórias de pescadores, em que o peixão, já dominado e quase puxado para dentro do barco, eis que o bruto foge, sem deixar vestígios. O modelo de submarino construído pelo CT Mello Marques existe e está lá, exposto numa das vitrines do Museu Naval e Oceanográfico, para quem quiser vê-Io, pois tocá-lo, acredito eu que somente no próximo período de revisão e de manutenção, daqui a uns vinte anos, talvez. E tem mais ...uma vez que as engrenagens internas do modelo estão praticamente intactas, a famosa demonstração pública, realizada em 1901, poderá ser repetida, com ou sem a instalação de radio-control, bastando que, para isso, recebamos autorização do Diretor do Museu Naval e Oceanográfico para fazê-lo. 

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Informações sobre o autor: 

Alvanir Bezerra de Carvalho é Economista e Administrador de Empresas. Funcionário público aposentado, um dos seus "hobbies" é o modelismo naval. Fundador e Presidente da Associação de Nautimodelismo Guanabara, Alvanir dispõe de mais de 400 planos de construção de diferentes tipos de modelos de barcos, em escala, elétricos, controlados por rádio, incluindo-se aí alguns planos de construção de modelos operacionais de navios de guerra, utilizados pela nossa Esquadra, assim como de modelos de submarinos. Cópia desses planos de construção poderão ser adquiridos por qualquer pessoa interessada no assunto, o mesmo se aplicando a seis fitas de vídeo de modelos de submarinos em ação - isto é, mergulhando, lançando torpedos, lançando mísseis, etc. - no decorrer de competições específicas, realizadas nos EEUU e no Canadá. 

Os interessados deverão contatar Alvanir no seguinte endereço: Rua Prudente de Morais, 790 aptQ 302, Ipanema, Rio de Janeiro - CEP 22420-040 - Telefone: 522-3569. E-mail: alvanir@infolink.com.br. 

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SUMÁRIO
 

Submarino Mello Marques - um modelo navegante de quase cem anos.
Salvamento de Submarinos: Treinamento
Primeira Saída do TTSS (Pequenas Lembranças da Vida em Submarinos)
A Ilha Maldita


SALVAMENTO DE SUBMARINOS: UM ADESTRAMENTO REAL

CC(SB) Arlei Caetano Franco 

É parte integrante da rotina anual de adestramento de nossos submarinos a realização, nas dependências do Centro de Instrução e Adestramento Almirante Átila Monteiro Aché, do ADESTRAMENTO DE SALVAMENTO INDIVIDUAL (ADESALVI). 

O ADESALVI consta basicamente de recordação dos recursos e procedimentos. específicos do sistema de salvamento de cada classe de submarinos realizada em sala de aula (Treinamento Seco) e exercícios de salvamento realizados no TANQUE DE TREINAMEN1O DE SALVAMENTO DE SUBMARINOS (TTSS) (Treinamento Molhado). Como requisito básico é necessário que o exame psicofísico anual de cada treinando esteja em dia.  

TANQUE DE TREINAMENTO DE SALVAMENTO

O treinamento molhado consiste na simulação do problema que deve ser resolvido após a perda do navio, caso o submarino chegue ao fundo do mar, impossibilitado de retornar à superfície (o que na maioria das vezes é decor- rência de alagamento) com pelo menos um de seus compartimentos ainda seco: os sobreviventes terão que ser retirados de bordo. onde a pressão ainda é aproximadamente a atmosférica, e depois de submetidos à pressão rela- tiva à profundidade na qual se encontra o navio sinistrado, deverão ser levados à superficie.. A necessidade de exposição à pressão do mar apresenta os riscos típicos que envolvem as atividades de mergulho,fato que levou as Marinhas mais ricas e desenvolvidas a investirem em veículos (sinos, há algum tempo atrás, e minissubmarinos, hoje) capazes de retirar a tripulação sem expô-Ia à pressão do mar. 

A GUARITA DE SALVAMENTO existente a bordo dos nossos submarinos é uma espécie de câmara intermediária que permite a necessária mudança de ambiente. O sobrevivente embarca neste compartimento que tem sua porta de entrada isolada do navio. Posteriormente, a guarita é alagada e sua pressão é elevada até a da profundidade do salvamento, o que chamamos de EQUILÍBRIO. Em seguida a porta de saída é aberta e o homem sobe à superfície com fiutuabilidade positiva. Esta força de ascensão é possibilitada por um colete salva-vidas que normalmente está embutido na própria roupa de salvamento, sendo este o caso do "Submarine Escape Individual Equipment" (SElE MK 7) Dentro da guarita será necessário inflar-se o colete e isto será feito usando-se ar comprimido. Neste momento apresenta-se um novo problema técnico: o colete poderia explodir com a expansão de seu volume no trajeto até à superficie, ao longo do qual a pressão do mar dimínui com a profundidade. Isto é resolvido colocando-se válvuJlas especiais que se abrem quando submetidas a uma pequena pressão diferencial. Assim, durante toda a jornada de subida, haverá um contínuo esforço do excesso de pressão e desta maneira o colete não se romperá. Ora, por quê não aproveitamos este excesso de ar? Sim, este fluxo é direcionado para um capuz que envolve a cabeça do sobrevivente de modo a mantê-Io sempre respirando. Mas este ar tem que ser puro e quando isto não for possível, não se usará o capuz e neste caso, para evitar problema semelhante em relação aos pulmões, o homem deverá exalar totalmente o ar durante a subida, assim se evitando a famosa EMBOLIA TRAUMATICA PELO AR (ETA) tão conhecida pelos mergulhadores, que vem a ser o rompimento dos tecidos pulmonares. 

O TTSS, local onde reproduzimos estas situações, possui os acessórios necessários à simulação desta problemática do salvamento individual. Conforme pode ser observado na figura, o tanque possui duas guaritas de salvamento (superior e inferior) e um compartimento de fundo. Neste último aces sório temos a condição de reprodução de uma outra situação do salvamento, por alagamento do compartimento, também passível de ocorrer a bordo. 

Obviamente, o exercício deve ser realizado dentro de determínados padrões de segurança para a vida humana, daí a existência do sino, da câmara de recompressão, dos abrigos intermedíários e do cabo guia, bem como a presença de uma equipe que inclui vários mergulhadores e um médico especializado em medicina submarina. 

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PRIMEIRA SAÍDA DO TTSS

(PEQUENAS LEMBRANÇAS DA VIDA EM SUBMARINOS)

VAlte(RRm) Ruy Capetti

Lembro uma época em que foi muito comum entre os Comandantes de submarinos selecionar algum evento que consideravam ter sido os primeiros a executar. Algumas marcas foram realmente notáveis pela natureza pioneira, como o primeiro pouso no fundo, ou o primeiro lançamento de um torpedo de combate; outras, notáveis apenas pela natureza inusitada da faina, mas que não mereceram continuidade.

O presente artigo visa recordar a primeira realização de uma das fainas que se tornaria rotina na vida dos submarinistas, tendo sido realizada quando eu era Comandante do Humaitá. Foi o adestramento de toda uma tripulação na saída pelas guaritas do tanque de treinamento de mergulho (TTSS) do CIAMA.

Sempre fui muito ligado às atividades de mergulho, não só por apreciá-las intensamente (tendo deixado de fazer o curso de mergulho autônomo, quando servia no NTrT Soares Dutra, por não ter obtido permissão do meu Encarregado de Divisão), como também por necessidade profissional. Como submarinista, não podia, (como nenhum deve), deixar de considerar o conhecimento básico de mergulho como fundamental para as fainas de salvamento. Sempre fui convencido de que todos os submarinistas deveriam ser obrigados a ter maior intimidade com o mar, principalmente no que diz respeito ao conhecimento das técnicas básicas do mergulho, permitindo, inclusive, aos oficiais que assim desejassem, como voluntários, realizar o curso de mergulho com aqualung, ainda que com as adaptações que se fizessem necessárias (por exemplo, não seria necessário mergulhar a 50 metros). Todos os demais submarinistas deveriam ser submetidos ao treinamento básico de saída livre no TTSS, em condições não traumáticas (água do tanque aquecida a uma temperatura confortável, iluminação farta, segurança total e ambiente de treinamento descontraído). 

A saída livre que se fazia, no meu tempo de curso (1962)  (e felizmente descontinuada), de um pseudo sino, com a mínima segurança, subindo livre de quatro ou cinco metros (uma das piores condições, quando as variações de volume do ar no pulmão são as maiores. A razão é facilmente percebida. Da superfície até dez metros de profundidade, o volume cai para a metade, digamos, 1 metro cúbico caí para 0,5 metro cúbico - a variação é de meio metro cúbico. Já de dez metros de profundidade aos vinte metros, o volume, muito embora caia novamente para a metade, de 0,5 para 0,25 metros cúbicos, varia, agora, apenas 0,25 metros cúbicos), no pier da BACS, muitas vezes com condições adversas de mar, era , na minha opinião, treinamento muito limitado, além de temerário.

Por isso, muito embora sem ser oficialmente, logo após o curso de submarinos, aproveitei muito do meu tempo vago para treinar mergulho com aqualung, cujos fundamentos básicos já aprendera quando guarda-marinha, durante a viagem de instrução. Devo a vários companheiros mergulhadores horas de paciência e carinho dedicadas ao meu aprofundamento naquele mister.

No entanto, faltava-me o treinamento básico em natação, tão essencial a quem se dedica ao mergulho autônomo, o que mais tarde veio a me causar problemas quando, servindo no submarino Riachuelo, fiz uma saída livre de cerca de trinta metros, na área Alfa. O planejamento do exercício fora errado, pois previa o retorno ao submarino em imersão, o que, dada às condições de mar e à referida falha no preparo em natação, não consegui realizar. Graças ao valioso auxílio do mergulhador que me acompanhava, e o providencial retorno do submarino à superfície, tudo acabou bem, finalmente. 

Mas voltemos ao tanque de imersão do CIAMA. Em certa ocasião, e após uma inspeção nos sistemas de alagamento e esgoto da guarita do fundo, juntamente com os Comandante Serra e CT Toscano, resolvemos fazer uma subida livre, testando-a do compartimento de fundo. Após o alagamento deste compartimento e equilibrada as pressões interna e externa, foi aberta a escotilha superior que dá acesso ao fundo do tanque. Muito embora com vinte metros de profundidade até o piso inferior, a saída por aquela escotilha tem cerca de dezoito metros até a superfície. 

Procedemos a subida normalmente. Para mim, com menor experiência nas fainas de mergulho, os dezessete metros pareceram duzentos! Muito embora com plena consciência de que o ar era mais que suficiente para chegar à superfície, devendo ser solto continuadamente desde o instante de saída do fundo até a chegada à superfície, algo dentro da gente parece comandar, pelo sentido de preservação, não soltá-lo, o que seria fatal se cumprido. Por isso é que se torna necessário praticar exercícios contínuos de saídas a menores profundidades para que o treinando adquira domínio da faina, e solte o ar com naturalidade, na proporção adequada. Nem mais nem menos, pois soltá-lo em excesso pode produzir flutuabilidade negativa, ocasionando maior esforço para alcançar a superfície. Este aspecto enfatiza a necessidade de usar o colete salva-vidas, não inflado, pois tornar-se-á necessário usá-lo em qualquer emergência, e na chegada à superfície. No caso do tanque, apenas a título de simulação da faina real, pois nele, dado os recursos de pronto resgate do pessoal que chega à superfície, inflá-lo não seria mandatório.

O que mais incomodou naquela saída livre foi a temperatura da água, exageradamente fria no fundo do tanque. E não era para ser diferente, pois no tanque não chegam os raios solares. A água, para ser confortável, não tornando o exercício uma tortura, tem que ser aquecida.

Fomos, portanto, os primeiros mergulhadores e submarinista a sair daquela guarita. Ao fazê-lo, tínhamos em mente conhecer as dificuldades da faina, para poder propô-la e executá-la com toda a tripulação do submarino Humaitá, então parado em um dos seus períodos de manutenção rotineiros

Tal treinamento veio a ocorrer pouco tempo depois. Nem todos os membros da guarnição se sentiam confiantes para realizar o exercício. Notava-se que o medo dominava alguns, e de fato viemos a constatar, mais tarde, na ocasião da realização do exercício, que umas poucas praças se recusaram a fazer a saída. Achei que não devíamos obrigá-los, mas sim continuar a preparação com a repetição de exercícios mais simples, que os permitissem dominar, pouco a apouco, o temor pela água.

Tive aqui, uma experiência muito interessante, de certo modo até jocosa. Entrei na guarita de dez metros com algumas daquelas praças que relutavam em fazer a saída livre, para dar-lhes o exemplo. Recordei o procedimento, disse-lhes que os esperava na superfície, e saí da guarita, ordenando o início do procedimento. Fiquei aguardando a chegada daquelas praças, certo de que a minha preleção os tinha motivado a proceder a subida. Qual não foi minha surpresa quando chegaram ao convés principal do tanque, sim, mas pela escada externa. Tinham fechado a guarita, pedido para esgotá-la, e saíram a seco. Afinal, seguiram a risca o meu exemplo. Nas fainas seguintes repeti o exercício, mas de maneira inversa. Os "incentivava" a sair, permanecendo junto até a saída do último homem, e então subia livre para a superfície, a fim de evitar que seguissem o "mau" exemplo dado por seu Comandante.

Entro, assim, por esta pequena lembrança, no rol dos Comandantes que alardeiam o pioneirismo de suas fainas, confessando que por alguma vaidade, mas, acima de tudo, pelo orgulho de ter prestado um serviço útil a nossa gloriosa Força de Submarinos. 

Aos 6 de janeiro de 1997.

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A ILHA MALDITA - O COMUNICADO de AVISTAMENTO DO OVNI -

Ao terminar a reunião dos subchefes do Comando de Operações Navais, uma dúvida pairava, relativa à atitude a ser tomada com relação ao episódio comunicado pelo comando do 1º Distrito Naval. No início do ano, quando do reabastecimento da Estação Oceanográfica da Ilha da Trindade, vários militares relataram, ao comandante daquela unidade, o avistamento de brilhosos objetos que pareciam voar em direção a ilha. Mesmo em noites claras, tais aparições eram iluminadas pela luz da lua. Com o céu mais escuro,   ainda podiam ser  observadas contrastando com as sombras produzidas pelos altos morros existentes na ilha. No regresso de suas saídas noturnas  para pescar, aqueles homens  descreviam o que parecia ser uma estrela se destacando do firmamento e pouco a pouco ganhando volume, se aproximava, em largos cículos, da ilha. Dada a natureza da comissão, em que o afastamento por meses trasnforma de certa maneira o comportamento e a percepção dos que serviam na estação, o comandante do destacamento até então ouvia apenas as estórias, e as atribuía a mais um desvio comportamental dos que a relatavam. 

Naquele dia o CT Sampajo Hernandes, após o término de um cansativo dia de trabalho, observava da janela de seu alojamento o céu escuro, ao NE da ilha, quando repentinamente vislumbrou um enorme objeto brilhoso cruzar seu campo de visão. Intrigado, e imaginando que podia ter sido uma visão, saiu para o pátio fronteiriço às edificações existentes. Varreu , numa busca minuciosa, todo seu campo visual, agora maior que o visto da sua janela, da ponta do Valado para a direita. As luzes da ilha já tinham sido reduzidas, em decorrência da rotina de economia de combustível. Somente o gerador que alimentava a frigorífica e a estação rádio continuava a funcionar e, para reduzir sua carga, todas as luzes desnecessárias eram desalimentadas. Afinal, à noite, nenhuma atividade era conduzida, exceto por alguns aficcionados da pesca que, corajosamente, a luz de lanternas, se dirigiam para pontos selecionados nas proximidades e lançavam linhas com vários anzóis. Não que precisassem fazê-lo àquela hora, em decorrência do hábito dos peixes, que são muito abundantes nas cercanias da ilha, mas sim porque era o único período vago que lhes sobrava. A posição dos cardumes existentes naquelas paragens só muda por força da direção do vento e do mar e os peixes apenas se deslocam para o SE ou S da ilha, para depois retornarem para o NE ou N, quando o mar fica menos batido. O lado oeste da ilha é bem menos explorado, por dificuldades de acesso, o que o torna praticamente  inacessível, principalmente depois da praia do Príncipe, na altura da ponta de 5 Farilhões ou da ilha do Racha. Lá, paredões de altura surpreendente recebem o impacto do mar na forma de grandes ondas que arrebentam contra as pedras violentamente.

Depois de cerca de meia hora de observação e certo de que mais uma vez a estranheza da paisagem lhe pregara uma peça, pois nada mais avistara, Hernandes dispôs-se a regressar ao alojamento, o sono já chegando mais forte, quando avistou novamente o que lhe pareceu um enorme objeto flutuando no ar, deslocando-se na descendente da direção da ponta Crista do Galo para o Valado. Logo logo o objeto sumiu por trás das elevações existentes. Atônito, o capitão Hernandes ficou como petrificado por alguns segundos, de pronto se refazendo, podendo observar, então, o reaparecimento do estranho objeto, agora na forma de um vulto quase sem brilho, voando bem baixo, quase no nível do mar, e lentamente se deslocando para E, indo sumir para os lados da praia das Tartarugas.

O capitão procurou alguém nas imediações que pudesse servir de testemunha para o fato que presenciara, ainda duvidoso de que seus olhos não o estavam traindo. Ninguém foi avistado. Permaneceu por mais algum tempo naquela posição, mas o sono o venceu, e adormeceu ao relento, sentado em dos pequenos bancos colocados na pracinha. Acordou alta madrugada, e voltando ao alojamento, imediatamente registrou em seu diário o inusitado fato observado, encaminhando-se, pela manhã, depois de infrutiferamente tentar localizar algum companheiro que tivesse presenciado algo, ao comandante do destacamento, a quem pediu que fizesse ofício ao comando do Distrito Naval, narrando o ocorrido. Ainda relutante, pois há muito ouvia estórias da mesma natureza, o comandante resolveu fazê-lo, principalmente por se tratar de um oficial cuja competência e seriedade eram por todos reconhecidas.

Dias depois, na sede, em reunião com o Comandante de Operações Navais, e depois de analisado o ofício recebido do Distrito Naval, o Chefe do Estado Maior do CON manifestara ao seu superior que todos os subchefes eram de opinião de que o assunto do expediente que o Distrito relatara,  não passava de  mais uma fantasia, atribuída à inhospitalidade da ilha, a qual devia ter afetado a capacidade de julgamento de mais um militar, e sem comprovação ou testemunhas que corroborassem o fato observado, não poderia sugerir nenhuma ação. Assim, só a prudência, ou o medo do ridículo, serviu de referencial para a decisão de arquivar-se o documento. (Continua)

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