IÇA O DOIS!
Segurança do Trabalho

Ano I  Número 1  2001                                    (Out/Nov/Dez)   CF(RRm) Jair Cláudio  Teixeira de Azevedo
Introdução 

Este artigo foi elaborado com a intenção de abordar alguns aspectos do tema segurança do trabalho, objetivando principalmente estimular as pessoas a se interessarem pelo assunto, que não faz parte diretamente da atividade fim, mas que certamente nela interfere decisivamente. Serão mostrados alguns modelos de avaliação de riscos e de análise da segurança do trabalho, bem como recomendações e sugestões para se evitar acidentes, porém, cabe ressaltar que são tão somente exemplos, que certamente não esgotam o tema.

Outros modelos, recomendações e sugestões existem e devem ser escolhidos de acordo com a atividade que será exercida. O mais importante não é falar sobre a forma de se ter segurança no trabalho e sim sobre a mentalidade de tê-la da melhor maneira possível. 

Prioridade

Toda organização deve ter como prioridade número um a segurança de seus funcionários, seja ela privada ou pública, civil ou militar. Ela deve preocupar-se em prevenir acidentes, doenças e danos físicos ou psicológicos ao seu pessoal, mesmo que não impliquem diretamente em perda de eficiência de sua atividade fim, pois tudo aquilo que representa um apreensão para seus funcionários certamente terá reflexos na operação normal e no desempenho da organização.

Nem sempre é fácil visualizar este conceito. Muitos são os funcionários que não crêem que a empresa possa se preocupar prioritariamente com a segurança, bem como há empresas que, erroneamente, não atribuem esta prioridade à segurança de seus funcionários, o que, mais cedo ou mais tarde, trará conseqüências à produtividade.  

Esta prioridade está bem caracterizada no modelo "Briefing Operacional", anexo ao ComOpNav260A, onde está previsto que a prioridade número um do submarino quando em operações no mar é a sua segurança. Analogamente podemos, e devemos, estender esta prioridade a todos os membros da tripulação quando no nosso dia-a-dia de bordo.

Conscientização

Nenhum programa de segurança será bem sucedido sem que todos aceitem a responsabilidade de prevenir acidentes, consigo e com os outros. Este programa, seja ele qual for, deve ser levado a cabo em todos os níveis organizacionais, procurando fazer com que todos se conscientizem de sua importância.

Outro aspecto importante é a necessidade de se ressaltar que as normas de segurança são para serem seguidas sempre, sob quaisquer circunstâncias, independentemente da magnitude dos riscos envolvldos, do tempo disponível para a realização da tarefa, da probabilidade da ocorrência de um acidente, da experiência individual de cada um, do fato da duração da tarefa ser rápida ou de ter sido executada anteriormente, várias vezes, sem ocorrer acidentes. A única ocasião prevista para não se cumprir normas de segurança é quando, conscientemente, avaliamos a necessidade de não fazê-lo para evitar um mal maior. Tal decisão deverá ser tomada por quem tenha a visão macro da situação, acompanhada da necessária autoridade e responsabilidade, sem perder de vista o princípio da oportunidade.

Treinamento

Os treinamentos são a melhor maneira de preparar o pessoal para o correto cumprimento das normas de segurança, bem como conscientizar a todos da sua importância, É responsabilidade da organização prover o treinamento para que seus funcionários observem as normas de segurança no desenvolvimento de suas atividades.

Avaliação de riscos

O processo de avaliação de risco s a seguir apresentado é utilizado para a identificação, avaliação e classificação dos riscos potenciais, de modo a ser possível tomar, em tempo hábil, as medidas de prevenção necessárias. Trata-se apenas de um processo, dentre outros existentes, que pode ser aplicado às operações não rotineiras.

Neste processo, são levadas em consideração: a Probabilidade de ocorrência de um acidente (P) e a Gravidade das conseqüências do acidente (G).

Assim, podemos estabelecer o risco decorrente de determinada operação como:

RISCO = PROBABILIDADE   X  GRAVIDADE

A probabilidade de ocorrência e a gravidade de um determinado acidente podem, por exemplo, ser extraídos das tabelas a seguir apresentadas:

Tabela de Probabilidade

0 Improvável (0% de chance) Historicamente, nunca ocorreu antes numa determinada área de trabalho definida, sob circunstâncias normais.
1 Remota (25% de chance) Não é provável que ocorra numa determinada área de trabalho definida, sob circunstâncias normais.
2 Ocasional (50% de chance) Já ocorreu antes, mas não se espera que ocorra novamente, numa determinada área de trabalho definida.
3 Provável (75% de chance) As chances são propícias para que ocorra numa determinada área de trabalho definida.
4 Freqüente (100% de chance) Ocorrerá pelo menos uma vez numa determinada área de trabalho definida.

Tabela de Gravidade

  GRAVIDADE PESSOAL MATERIAL MEIO AMBIENTE
0 Nenhuma Sem ferimentos Sem dano crítico ao material. Nenhuma poluição.
1 Insignificante Ferimentos leves. Primeiros socorros no local. Danos leves ao material. Não há a necessidade de reparo imediato. Pequena descarga de poluentes, sem afetar o pessoal
2 Marginal Ferimentos que requerem remoção, porém não são incapacitantes. Danos que necessitam de reparos imediatos no local para prosseguir com a operação. Descarga moderada de poluentes, contida e limpa por bordo. Leve exposição do pessoal.
3 Crítica Ferimentos que requerem remoção e são incapacitantes. Danos maiores que suspendem a operação temporariamente. Descargas maiores, necessitando de ajuda externa para contenção e limpeza. Exposição que requer remoção do pessoal exposto.
4 Catastrófica Ferimentos que resultam em morte. Destruição total de sistemas críticos ou destruição completa da unidade de operação. Descarga sem controle com sérios danos ao ecossistema local. Risco de vida para o pessoal exposto.

Uma determinada operação não rotineira pode então ser avaliada e classificada quanto a riscos potenciais segundo as tabelas de Probabilidade (P) e Gravidade (G) anteriormente apresentadas. Por exemplo, sua classificação pode ser P1-G3 (Probabilidade remota e Gravidade crítica), e sua avaliação de risco deve ser observada no gráfico a seguir:

 

P4        
P3        
P2        
P1        
  G1 G2 G3 G4
  onde:
  RISCO ALTO   RISCO MÉDIO/ALTO
  RISCO MÉDIO   RISCO BAIXO

No exemplo dado, P1-G3, o risco da referida operação é MÉDIO. Esta operação poderia ser, por exemplo, a manobra de içar um motor de combustão principal (MCP) para embarcá-lo, após uma revisão em oficina.

Este tipo de avaliação pode servir como orientação para o funcionário que realizará a tarefa, apontando o risco em potencial.

A organização pode também utilizar-se da classificação para estabelecer algumas medidas para aumentar a segurança, como por exemplo determinar que a partir de um determinado grau de risco a tarefa somente possa ser executada com autorização superior. 

Análise da Segurança do Trabalho (AST)

Tem como objetivo planejar e organizar as tarefas não rotineiras, de modo a identificar e minimizar os riscos envolvidos e maximizar a eficiência da organização.

A tarefa a ser executada deve ser planejada seguindo-se o procedimento previsto para sua execução, seja ela complexa ou simples. Caso não haja este procedimento, um deverá ser elaborado, pautado nas publicações disponíveis e na experiência adquirida ao longo dos anos. Para as tarefas que já dispõem de procedimentos de execução, os mesmos devem ser revistos periodicamente, antes e depois da realização da tarefa, de maneira a serem alterados sempre que necessário, tendo em vista tratar-se de um processo dinâmico, que visa sempre a melhoria das condições de segurança do pessoal.

Na revisão dos procedimentos já existentes, bem como na criação daqueles julgados necessários, devem ser identificados quais os perigos em potencial que estão envolvidos na execução da tarefa.

Após a identificação dos perigos em potencial, estes deverão ser evitados, adotando-se as ações a seguir descritas:

 

FASE DE PLANEJAMENTO  

Empregar métodos alternativos para a realização da tarefa. G1

Ex.: ao içar e manobrar um peso, alterar o seu trajeto, de modo que não passe sobre pessoas ou áreas críticas. Outro exemplo seria deixar de realizar uma determinada tarefa à noite, quando as dificuldades são maiores, para realizá-la durante o dia.

Utilizar o Equipamento de Proteção Individual

Ex.: cinto de segurança, óculos, luvas, capacete, colete salva-vidas, equipamento de respiração autônomo, protetor de ouvidos etc...

Usar a ferramenta adequada, da maneira correta.

Ex.: uma chave de boca maior do que a cabeça do parafuso poderá escapar e pessoas serem atingidas. Outro exemplo de má utilização de ferramentas é o uso de uma chave de fenda como alavanca ou como talhadeira, apontada para o próprio corpo.

Discutir com sua equipe de trabalho os riscos envolvidos na execução da tarefa, bem como o que será conquistado com o sucesso ou insucesso da mesma.

Ex.: ouça sempre os membros de sua equipe, incentive-os a darem sugestões e, principalmente, nunca os recrimine por darem uma sugestão infeliz, pois no futuro poderão deixar de lhe chamar à atenção para algo imperioso para a segurança.

Estabeleça rotas alternativas para escape em caso de emergência.

Certifique-se de que a equipe de trabalho é balanceada

Ex.: devem fazer parte da equipe tanto pessoas mais experientes como aquelas com menos experi6encia, as que têm uma maior capacidade profissional e as que não são tão capacitadas, mais idosos e mais jovens, etc..

Se for possível, execute um ensaio, passo a passo, da tarefa a ser executada, onde cada membro da equipe explique seu papel no grupo.

 

FASE DE EXECUÇÃO DA TAREFA

Nesta fase, as seguintes ações devem ser empreendidas:

Interromper qualquer trabalho quando um perigo não determinado anteriormente na fase de planejamento for identificado.

Corrigir atitudes inseguras de outros membros da equipe de trabalho.

Ter atenção durante a execução da tarefa.

Ex.: Quando a tarefa é realizada com muita confiança, a pessoa tende a executá-la "no automático" , sem prestar a devida atenção.

Manter o local de trabalho sempre limpo e arrumado.

Ex.: Materiais e ferramentas largadas no chão são uma séria fonte de acidentes.

Não permita que a pressa interfira na correta execução da tarefa.

Cumprir o procedimento de operação previsto para a execução da tarefa.

Observar as normas de segurança.

 

APÓS A EXECUÇÃO DA TAREFA

Verifique se a execução da tarefa ocorreu como planejado e identifique quais melhorias podem ser adotadas, de modo a tornar a tarefa ainda mais segura.

Verifique também se as normas de segurança foram cumpridas em sua totalidade e se foram suficientes para evitar perigos durante a realização da tarefa.  

Considerações finais

O presente artigo não teve a intenção de esgotar o tema "segurança do trabalho" e sim, tão somente, chamar à atenção para ele, pois sua amplitude é tão grande como importância. Os tópicos foram selecionados levando-se em consideração sua importância relativa dentro do tema e o interesse que poderiam vir a despertar naqueles que desenvolvem atividades onde há riscos envolvidos, com ênfase nas tarefas executadas a bordo e em oficinas.

A pretensão foi a de estimular as pessoas para o tema, contribuir para que todos aceitem a responsabilidade na prevenção de acidentes, consigo e com os outros, e ressaltar a necessidade da implementação de um programa de segurança do trabalho, seja ele qual for, em todos os níveis. organizacionais, procurando fazer com que todos se conscientizem de sua importância. Se isto não for possível, que pelo menos você se lembre deste artigo quando estiver em casa, realizando algum conserto de final de semana, descalço, sem luvas, sem óculos de proteção e utilizando ferramentas inadequadas, achando que nada vai acontecer porque, afinal de contas, você é PHD em segurança, a tarefa é rápida e fácil, o risco é pequeno e você já a executou várias vezes.

(Fonte O PERISCÓPIO Nº 55/2001)

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