IÇA O DOIS!
Otimizando Custos

Ano I  Número 1  2001                                    (Out/Nov/Dez) VAlte(RRm) RCapetti

OTIMIZAÇÃO DE CUSTOS, UMA PREOCUPAÇÃO DA QUALIDADE

A manutenção (considerando tanto as ações preventivas planejadas, como qualquer reparo eventual, de natureza casuística) dos sistemas e equipamentos de um meio naval, aeronaval ou de fuzileiros navais deve ser conduzida segundos princípios, universalmente aceitos, que evidenciam a qualidade (adequabilidade ao uso) do que vai ser feito, o prazo para ser feito, e os custos envolvidos.

O que se deseja evidenciar quando se aborda o terceiro aspecto - custos? A resposta, em termos genéricos, pode ser resumida como:

"realizar a atividade de manutenção ao menor custo, entendendo-se o menor custo não somente em valor absoluto, mas o menor custo em termos das melhores técnicas de engenharia (que garantam a qualidade desejada) e dentro do prazo programado (função das necessidades operativas)"

Em outras palavras, devemos procurar OTIMIZAR o custo das atividades de manutenção, em função de vários condicionantes como os citados, pois, ao alcançar o resultado desejado, com a melhor qualidade e dentro do prazo programado, e pagar por isso o menor custo, terá sido atendido o princípio da economia de meios.

Como isso poderá ser alcançado? De várias maneiras, e como exemplo, vamos procurar indicar um procedimento que, se adotado, pode contribuir, ou mesmo garantir que se otimizem os custos. As sugestões seguintes não são exaustivas, pois seguramente a criatividade do nosso pessoal encontrará outras maneiras de alcançar a mesma meta, mas elas ficam aqui registradas como um primeiro passo na abordagem do problema.

Para desenvolver o procedimento que vamos sugerir, dependemos de algumas suposições:

A primeira suposição é de que os sistemas /equipamentos estão listados segundo NÍVEIS DE ESSENCIALIDADE:

  • NÍVEL A - Essencial, sem o que o navio fica IM;
  • NÍVEL B - Importante para a segurançca do material e influi relativamente no sucesso da missão; e
  • NÍVEL C - Os demais equipamentos/sistemas não essenciais para a propulsão, missão ou segurança, e os não enquadrados em outro nível de essencialidade.

Outra suposição é de que cada equipamento tem definidas, em sua documentação, quais as características dos TESTES A QUE DEVEM SER SUBMETIDOS para evidenciar o resultado do serviço efetuado:

  • CLASSE I - Testes de plena operação para demonstrar o desempenho do equipamento de acordo com as especificações listadas no seu manual técnico ou outra documentação pertinente. Os testes realizados no equipamento são os exigidos na condição de   "como novo".  Estes testes poderão ser realizados na oficina ou à bordo, dependendo de fatores econômicos ou técnicos.
  • CLASSE II - Testes de operação parcial para demonstrar, com exatidão, as especificações listadas no manual técnico do equipamento. A conformidade das exigências incluirá algumas das contidas na lista de testes para a classe I. O serviço a ser realizado é basicamente um "recondicionamento" do equipamento, assegurando um perfeito desempenho no sistema a que pertence. Os testes poderão ser realizados na oficina ou à bordo, dependendo de fatores econômicos e técnicos.
  • CLASSE III - Testes operacionais mínimos para demonstrar que o serviço realizado por bordo foi satisfatório seguindo os testes especificados em projeto.
  • CLASSE IV - Testes de Instalação - são feitos para demonstrar a satisfatoriedade do serviço executado por bordo. Os testes não exigem especificações, ou procedimentos específicos. Laudos técnicos não são emitidos.

A terceira suposição é de que os serviços de manutenção ou reparo estão CLASSIFICADOS segundo a importância ou extensão:

  • A - RESTAURAR - revisão geral do equipamento, incluindo reparos ou substituição de peças e ajustes de modo a levar o equipamento às condições de aceitação (testes de aceitação) especificadas no projeto.
  • B - RECUPERAR - serviços necessários a fim de trazer o equipamento de novo para as desejadas condições de funcionamento (como operavam normalmente, antes da manutenção ou reparo).
  • C - REPARAR - reparar apenas o(s) defeito(s) específico(s) que impede(m) o funcionamento, como indicado no Pedido de Serviço.
  • D - ABRIR E INSPECIONAR - os serviços efetuados são apenas aqueles aprovados pelo Comando Tipo.
  • E - TESTAR - testar o equipamento ou sistema, para demonstrar o sucesso do serviço realizado, de modo a garantir o desempenho padrão, limitado ao serviço executado.

Fixados estes parâmetros, podemos construir a seguinte matriz:

CLASSE

DE

REPARO

NIVEL DE ESSENCIALIDADE
A B C
A
I I II
B
II II III
C, D
II III III
E
III IV IV
  TESTES REQUERIDOS

Exemplo: Vamos supor deva ser feito reparo na bomba de trimagem de um submarino, acionada por motor elétrico, a fim de RECUPERÁ-LA (assim especifica o Pedido de Serviço). Realizado o serviço, exatamente quais testes devemos submeter a bomba em questão (sem ser excessivo, nem pecar por falta, otimizando os custos), necessários para garantir o resultados do reparo?

(Os TESTES para este equipamento foram definidos como:

CLASSE I:

  1. verificação da vazão;
  2. verificação de aquecimento quando acoplada ao motor;
  3. análise de vibrações;
  4. vazamentos;
  5. rotação nominal e alinhamento;
  6. operação e emprego dos sistemas de controle;
  7. consumo de energia elétrica do motor; e
  8. variação de pressão através da bomba.

CLASSE II: a), b); d); e); f) e g) da lista da Classe I; e

CLASSE III: b); d) e e) da lista da Classe I )

SOLUÇÃO:  Pela listagem dos níveis de essencialidade, este equipamento é classificado como NÍVEL DE ESSENCIALIDADE A.

O reparo a ser feito é RECUPERAR, portanto CLASSE B.

Verificando pela matriz, os TESTES que se aplicam são, nem mais nem menos, os da CLASSE II.

Devem ser aqui abordados mais dois pontos, aos quais atribuímos suma importância:

Em primeiro lugar, não só para otimizar custos, mas também para efeitos de normalização, devemos pensar em padronizar muitos termos usados nas atividades de manutenção e de reparo, de modo que todos falem a mesma linguagem, evitando desentendimentos. Por isso deve existir formalmente um glossário que padronize e dissemine os termos e expressões usadas. Sugerimos, assim, que PARA ELABORAÇÃO DOS PEDIDOS DE SERVIÇO, sejam sempre usados os seguintes termos padrões:

AFERIR - determinar o erro correspondente a cada valor de saída do equipamento ou instrumento objeto da verificação, quando comparado a um padrão de referência, de modo a determinar sua acuracidade.

CALIBRAR - determinar os valores de saída de um equipamento ou instrumento de teste ou de medidas, em laboratório ou oficina de padrões, comparando-os com valores padrões conhecidos de entrada, relativos à grandeza cuja magnitude o equipamento ou instrumento destina-se a medir, receber ou transmitir, atuando sobre eles com as seguintes finalidades:

  • estabelecer as graduações da escala do equipamento ou instrumento;
  • ajustar os valores de saída de modo que a diferença em relação aos valores de entrada conhecidos não excedam a faixa de tolerância especificada;
  • aferir o equipamento ou instrumento em face dos resultados da calibração.

O processo de calibragem envolve o uso de procedimentos pré-estabelecidos, pessoal certificado e inclui a ajustagem ou reparos incidentais necessários de modo a trazer o padrão do instrumento sendo calibrado para dentro de limites especificados.

CONFECCIONAR - produzir ou fabricar o que é especificado, segundo as especificações fornecidas.

FORNECER - prover o que é pedido. Pode se referir a hardware (equipamento, componente, material, matéria prima, etc), como também pode se referir a apoio ou a software (relatório, plano, desenho, laudo, documento, treinamento, etc).

IDENTIFICAR - disseminar formalmente as características requeridas do material (identificação do aço, do metal, etc).

INSPECIONAR - examinar (inclusive realizando testes), medir, testar fornecimentos e serviços (abrangendo, como aplicável, matérias primas, documentos, dados, componentes e conjuntos semi-acabados) a fim de determinar se esses fornecimentos e serviços estão em conformidade com seus requisitos técnicos. No sentido de abrir/inspecionar/reportar, implica em reparar apenas o que for expressamente autorizado pelo Comando da Força Tipo.

LIMPAR - prover a limpeza de espaços de bordo ou do material por meios mecânicos ou químicos, como apropriado, de modo a deixá-los em condições adequadas a sua utilização quanto à habitabilidade ou em condições de pintura, ou de receber qualquer tratamento apropriado a sua conservação. No caso específico de tanques de materiais voláteis, inclui a desgazeificação.

MARCAR - prover alerta visual para todos que um espaço a bordo, um sistema ou equipamento, está sendo submetido a uma manutenção ou reparo. Envolve ações tais como colocar etiquetas de alerta em vávulas, interruptores e mecanismos de controle de modo a avisar que eles se encontram imobilizados numa determinada posição e devem assim continuar. É também a atividade de marcação preliminar, marcação definitiva com punção ou cordões de solda e a fixação de plaquetas de referência para alinhamentos necessários.

MEDIR - realizar uma seqüência de ações que definem uma tarefa metrológica propriamente dita. Aplica-se à ensaios, testes, análises, ou processos equivalentes. O resultado da medição, em geral quantitativo, é um valor, na maioria dos casos, observado, medido, lido e registrado.

PINTAR - prover a pintura do que é solicitado dentro dos padrões e especificações fornecidos. Inclui a preparação do local a ser pintado, com a remoção de qualquer obstáculo, proteção de equipamentos e aberturas, etc, tratamento adequado da superfície incluindo remoção de pintura antiga, bem como a aplicação do esquema de pintura especificado.

RECUPERAR - executar as ações necessárias a fim de retornar o sistema, equipamento ou componente, às condições seguras de operação, dentro de padrões especificados de funcionamento normal. Inclui testes de desempenho e registro das características especificadas.

REGISTRAR - anotar formalmente os desvios de especificações, os dados, os históricos, as ações corretivas, etc., documentando serviços realizados, reparos, manutenção, inspeções, correções de defeitos, etc., de modo a prover evidências objetivas para análise futura.

REPARAR - sanar apenas os defeitos específicos que impedem o funcionamento do sistema, equipamento ou componente (defeitos discriminados no Pedido de Serviço). Inclui testes de desempenho e registro das características especificadas.

RESTAURAR - proceder revisão geral, incluindo reparo ou substituição de peças, e ajustes, de modo a levar o equipamento/sistema às condições de aceitação especificadas em projeto. Inclui testes de desempenho e registro das características especificadas (como nos testes de aceitação).

SUBSTITUIR - retirar um  sistema /equipamento /componente e colocar outro no lugar, mantendo as mesmas características do original quando em perfeito estado. Inclui testes de desempenho e registro das características especificadas.

TESTAR - verificar atendimento dos padrões de desempenho. Compreende exames e medições destinadas a verificar uma ou mais características do funcionamento do sistema, equipamento ou componente. Os reparos efetuados serão de menor vulto, limitados a permitir a operação do sistema/ equipamento/componente apenas para o teste.

Finalmente, o segundo ponto a relembrar, é que para otimizar custos, devemos usar pessoal qualificado e certificado (homem certo no lugar certo), e procedimentos, de preferência formalizados, já previamente testados e padronizados, de modo a garantir que o que está sendo feito certamente se comportará conforme o especificado.

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