IÇA O DOIS!
Mataram a Meca

Ano I  Número 1  2001                                    (Out/Nov/Dez)   CA (RRm) Oscar Moreira da Silva
Não me lembro a data exata em que aconteceu, mas foi no ano de 1965.

O Comandante do Submarino BAHIA de então, CF Chagas, tinha muitas qualidades, das quais eu citaria a grande habilidade em manobrar o submarino e muita criatividade para fazer coisas diferentes e agradáveis.

Naquela época ele idealizou uma comissão, saindo do Rio de Janeiro indo até Recife, com o propósito, entre outros, de adestramento de navegação em áreas restritas, conhecendo e testando alguns lugares na costa onde um submarino pudesse, eventualmente, se abrigar. E assim foi, suspendemos do Rio de Janeiro e, depois de cada dia exaustivo de exercícios, fundeávamos ao anoitecer em um ponto da nossa costa - Enseada do Forno, Macaé, Benevente, Guarapari, e assim fomos subindo o litoral.

Passamos por dentro de Abrolhos, uma das mais bonitas paisagens marítimas do Brasil, e fomos fundear, em manhã de tempo bom, próximo a ilha de Santa Bárbara onde a Marinha de Guerra mantém, permanentemente, uma guarnição de faroleiros encarregada de operar e manter o importante e mais que centenário farol dos Abrolhos.

Desembarcamos em botes infláveis e fomos recebidos, com alegria e surpresa, pelos poucos habitantes daquela ilha, composta de militares da Marinha e seus familiares. Em vagas seguidas, passamos a entregar alguns suprimentos e sobressalentes enviados pela Diretoria de Hidrografia e Navegação. Aproveitava-se a oportunidade da viagem do Submarino "Bahia" para o reabastecimento de Abrolhos, interrompido em razão de avaria da embarcação que, partindo de Caravelas, deveria realizá-lo regularmente.

Paralelamente, em missão exploratória, eu, Wollstein e o nosso Comandante Chagas, fomos visitar o famoso farol, que para chegar ao seu tope tivemos que subir incontáveis degraus em espiral no seu interior. De lá de cima confirmamos a beleza da área, só conhecida por quem vem pelo mar.

Num morrote, mais afastado, coberto de relva verdejante, podíamos divisar algumas cabras pastando que, segundo os moradores, eram selvagens e arredias. Outros dois Oficiais, munidos de fuzis, tiveram autorização para caçar uma daquelas cabras, com o intuito de fazer um guisado a bordo. Enquanto isso, uma parte da

  tripulação se confraternizava com os ilhéus junto à praia próxima das casas, cuja arquitetura é muito interessante - os telhados têm seus declives voltados para dentro, pois a água para consumo que provem exclusivamente dos pirajás, comuns naquela área, são captadas por aqueles telhados e desaguam, através de calhas, em cisternas na parte central das casas.

Ainda lá em cima do farol, apreciando de um beiral a bela vista, as outras ilhas menores e, através das águas transparentes, os corais do parcel, ouvimos, ao longe, um tiro de fuzil. Instintivamente, nossos olhares voltaram-se para a fonte do estampido. Vimos várias cabras correndo, parecendo um "fungangá de baratas" (parodiando o saudoso Almirante Álvaro Alberto ). Os dois caçadores corriam em direção a uma delas estatelada no chão, aparentemente atingida pelo tiro e possivelmente morta. Pegaram a cabra pelas patas dianteiras e começaram a arrastar em direção ao povoado. Imediatamente, impelidos pela curiosidade, descemos do farol e fomos direto para lá ouvir o relato da insólita caçada.

Ao chegar próximo ao aglomerado de pessoas, começamos a ouvir choros e lamúrias das mulheres e crianças, repetidamente dizendo:

- "Mataram a Meca! Mataram a Meca!"

Logo soubemos - a Meca era, entre aquelas cabras selvagens que vagavam nos morrotes, a única mansa e que alimentava, com seu leite, as crianças da ilha. Nada mais se podia fazer, a não ser tentar compensar, dando aos ilhéus muitas latas de leite em pó do nosso paiol, além de muito se desculpar pelo ocorrido.

A carcaça da Meca foi colocada em um "pau de arara", retiraram seu couro, suas vísceras e, em seguida , a levaram de bote direto para a frigorífica do submarino.

Suspendemos de lá mais cedo do que o previsto com muitos acenos e nenhum sorriso. Até o apito de suspender fez um falsete, traduzindo o constrangimento geral da tripulação. A verdade é que a Meca navegou o tempo todo da comissão dentro da frigorífica, pois ninguém teve coragem de colocá-la no cardápio.

(Fonte O PERISCÓPIO Nº 55/2001)

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