IÇA O DOIS!

DURANTE A FALTA DE FUNDOS

Out/2003 Autor: Sergio L. Y. dos Guaranys

     Dificilmente algum governo posterior ao atual conseguirá livrar-se da situação orçamentária gravosa vivida hoje se não ocorrer revolução política. Situação gravosa é aquela onde persistem saldos devedores declarados e disfarçados, após criar novas rubricas de receita sem que desapareçam as atuais de despesa. Revolução política é a alteração forçada de procedimentos políticos, decorrente dos cenários sofrerem prejuízos mais rapidamente do que a sociedade os percebe. No momento os governos enfrentam compromissos fiscais buscando novos tributos e deformando arrecadações em vigor para poder administrar as dívidas deles e para dominar os políticos. Tais ações impedem investimentos e criam inadimplência de custeio porque a dominação consiste em dar dinheiro a eles. Então a revolução política deve primeiro diminuir o sustento de políticos e empregar o novo saldo da diminuição para reduzir as dívidas, a fim de atender o custeio e poder investir. Se o Presidente atual terá de fazer ou não a revolução nem ele sabe, mas enquanto não a fizer os atos administrativos possíveis são os compreendidos nos investimentos concluídos e no custeio cabível.

[como o Iça o Dois entendeu:  - os governos aumentam a arrecadação para se sustentarem, e aos políticos]

     A cultura do administrador brasileiro o habituou a fingir operosidade mediante o pranto por mais verbas e a esconder esforços de habilitação antecipada porque se não fizer assim aí mesmo é que jamais surgirá alguma verba. A habilitação antecipada foi desnecessária enquanto estivemos habituados a aquisições no Exterior, destruidoras de esforços brasileiros de projeto. A mera idéia de esforço, sobretudo antecipado, perde para a diretriz de preferir ao critério nacional o tirocínio do fornecedor de fora. As faltas de tirocínio e de ocupação do projetista brasileiro são inconvenientes discretos para o administrador. Discretos porque quando havia a alternativa externa não o convenceram a criá-los sem a expectativa de arrolá-los no currículo dele. Hoje é injustificado deixar de animar ensaios de configuração, confronto entre opções opostas e exercício intenso de projetar, porque perante insuficiência de fundos haverá ócio e perda de qualidade dos investimentos concluídos e dos custeios mantidos. Injustificado não fazer mas ainda inédito. A tecnologia é transmitida por ensino, mídia e consumo, este quase anulado pela escassez dos fundos. Os ensaios de configuração têm a virtude de iniciar a reposição da perda por falta de consumo.

[Comentário da redação: quem não chora, não mama - é lei do menor esforço buscar fora ao invés de projetar e fazer (habilitação antecipada)]

    A crise mundial de consumo forçou os projetistas experientes dos produtores famosos a deslocarem para os importadores a execução de seus projetos como única forma de obter renda deles. Um mesmo detentor de projeto cumpre contratos de extensão diversa com a clientela dele, ora exportando toda a mão-de-obra, todo o material e todo o controle, ora parte da mão-de-obra e do material, reduzido o controle à mera consultoria. Pratica aparente cessão da tecnologia de projeto porque teme perder a parte da clientela que ousar projetar, mas ao ceder orientação de execução está mantendo fechada a técnica dele de projetar e sem uso a nossa. Continua anestesiando nosso intelecto porque sabe que falta pouco para futuro encurtamento de fundos encorajar projetos locais, sabidamente inferiores porém viáveis. E então o projetista experiente do produtor famoso feneceria por falta de consumo capaz de preservar o tirocínio dele. Já estamos enfrentando origens de projeto até então desprezadas por nós. Duvidamos se elas passaram a ser pensadas por nós devido à redução de fundos acessíveis aqui ou de consumo lá, mas devemos aceitar sem recusa que nossos sistemas de aquisição se ocupem de aquisições virtuais. A idéia é tão surpreendente que pede tradução: encarregar organizações componentes de estudar aquisições que talvez jamais ocorram, mas cuja perícia possa treinar nossos projetistas. A prática comercial dos desenvolvidos manteve vantagem para eles no começo via economia de escala, mais tarde via ferramental, mas a crise econômica fez perigar a repetição de clientes ou até a existência deles, pois a competição por algum consumo deu aos consumidores acesso a entregas abreviadas e a parcerias de produção. Sobrou ainda para os desenvolvidos a faculdade de projetar cuja exclusividade está em perigo.

[como o Iça o Dois entendeu: pela falta de consumo o projetista externo transfere ALGUMA capacidade de fabricar aos importadores. Estes fingem que dominam o processo, os projetistas fingem que transferem tecnologia, mas topa, para evitar que a falta de recursos para consumo mate seu mercado. Nosso intelcto contínua anestesiado, pois não temos capacidade de projetar, somente de montar "kits revel". Devemos, pois, desenvolvê-la, pois é o que sobra: a "faculdade de projetar, cuja exclusividade está em perigo."

     O Brasil deseja alterar a produção local nas direções que realizem mais bem-estar da nação, ora provendo mais acesso aos menos hábeis, ora aumentando o valor agregado dos itens exportados, ora gerando ocupações mais numerosas ora ainda realizando formação de capitais fixo e financeiro. O País se encaminhou para o cenário hoje desfavorável a todas as direções citadas: ausência de capital financeiro, conjugada com dívida dificilmente administrável, com tributação asfixiante e uma quantidade de políticos largamente excedente da capacidade nacional de sustentá-los. A esses últimos somente ocorre aumentar o desfrute do Erário, cujo saldo deve crescer por tributação, descartada a redução do número deles. O documento intitulado Constituição Federal não protege dos políticos o Estado nem do Estado a Nação. Dito de modo simples: os políticos se apoderaram do PIB, qualquer acréscimo do PIB será arrecadado como tributo e em seguida exterminado pelos políticos, nada restando que possa concorrer para alguma das quatro direções citadas. Isto porque cessou o poder condigno entre políticos: o político obedecido tem de pagar ao obediente, faz isso com PIB. Então não há como esperar atendimento ao pranto por novos investimentos ou custeios. E se não há esperança de desfrute deles então estamos diante de dois imperativos: o primeiro é criar tirocínio e ocupação do projetista brasileiro (projetos de integração de componentes) e o segundo é criar produção intelectual para venda (desenvolver componentes), pois não é tributável. Continua valendo o pranto por mais recursos, ao qual deve juntar-se provisão cinzenta de descobertas a serem feitas pelos "amigos" nos noticiários do Exterior, capazes de mover por iniciativa deles alguma pesquisa conveniente ao provedor (provisão dominada por quem sabe Informações). Têm de começar ontem a criação de tirocínio e a produção intelectual explorando o ócio decorrente da conjunção que está gerando o encurtamento de verbas orçamentárias.

[como o Iça o Dois entendeu  - ante o quadro, duas alternativas: criar capacidade (de projetar, desenvolver e produzir) e empregos, e criar tecnologia para vender]

     Acho suficiente haver enunciado até aqui o problema, deixando ao administrador o encargo de definir as ações preferidas por ele, mas adianto como ensaio idéias convenientes para o Ministério da Defesa e para os Comandantes das Forças Armadas. Quanto mais não fosse para provar de vez que é correto o Ministro ser um civil e incorreto ser um militar.

     A linha de raciocínio do Ministro perante cada problema de força armada começa pelo tamanho da Força que convém à Nação (expresso pelo Governo), continua pela repercussão dele nas demais Forças e será definido pelos recursos entregues a ele. Pelo Brasil ter sido produto militar, as Forças Armadas sempre o consideravam assunto militar, enviesado pela ótica de cada uma delas. Todo civil brasileiro traz um mesmo modo de encarar fatos militares, modo embutido na formação cultural do povo brasileiro. Nada importa avaliar a exatidão do modo, mas afirmar que não é corporativo de alguma das forças ainda que o civil em questão tenha estado nalguma delas. O civil não tem condicionamento de Comando Imediatamente Superior, Comandante de Teatro e Comandante de Missão que invalida o trato de assuntos de outras forças por militar de uma delas. Desprovido do critério técnico de cada emprego não ousa impor aspecto técnico, imposição mais acessível ao militar de outra força. Há casuística volumosa sobre imposições inadequadas geradas por militar dentro da própria Força.

[como o Iça o Dois entendeu - é verdade, as FFAA se criaram segundo seus enfoques (militares), e não o da sociedade. ]

     No instante em que o Ministro dissesse a um dos Comandantes para pesquisar algum projeto, mesmo instruído pela assessoria do ministério, induziria o Comandante a esperar futura aquisição. Se um Comandante dissesse a seu Alto Comando para pesquisar algum projeto, induziria o Alto Comando a produzir desenvolvimento de tirocínio, a fim de completar ou atualizar alguma tecnologia, independendo de adquirir algum produto dela. Para precisar o conceito de tirocínio, citamos dois modos de transmitir conhecimentos, parecidos porém desiguais, usados por todas as Forças. Consistem em prover segundo um dos modos, exposição oral por um perito a uma audiência experiente no assunto. [debates]No outro modo a audiência não tem experiência no assunto.[palestras] As duas audiências compreendem as duas exposições, mas apenas a experiente poderá aproveitar tecnicamente a exposição porque aumenta o tirocínio possuído antes dela. Os mais elevados estabelecimentos de ensino de cada força costumam realizar exposições [palestras]sobre assuntos não dominados por suas audiências. Produzem ideologia (substituição de raciocínio por moda), mas não produzem tirocínio (poder de variar efeito). A ideologia tem sido visível nas redações de encargos endereçadas aos projetistas pelos planejadores, desde a época de fartura de importações.

      A produção de tirocínio de projeto envolve dois aspectos pouco praticados em nossas forças armadas porque eram prescindíveis: um consta da cooperação entre fornecedores e os projetistas da Força ou entre projetistas de órgãos distintos da mesma Força. Outro é a transferência recorrente de tarefas de execução (redes, fiação, acessórios etc.) do projetista para terceiros. A recorrência é devida às tentativas de satisfazer imposições físicas. Fica claro que por tratar-se de aquisição virtual e reinar escassez de fundos, está suspensa a transferência, que consome muito mais mão-de-obra que a concepção. O processo de aquisição virtual aumenta o tirocínio dos planejadores, pois intensifica a recorrência deles com os projetistas, mais conscientes graças à escassez de fundos. Desaparecem o acanhamento e a inadequação dos planejadores, perante notória especialização e mediante novo formato do diálogo com os projetistas. Houve tempo em que a cooperação e a transferência poderiam ter sido praticadas por qualquer das Forças, porque havia recursos financeiros, mas foi praticado o recurso ao Exterior, com prejuízo para empresários nacionais, todos oriundos das Forças. Perante escassez de fundos a oportunidade de cooperação e transferência se tornou mais essencial que nunca. Ainda não começamos a praticar carona recíproca, que começou noutros países pelo emprego de pessoal das fábricas em manejo técnico durante operações de combate, prosseguiu pelo consumo de estoques só nas fábricas e levou a Força a participar do desenvolvimento antes, da linha de produção durante e da melhoria depois, podendo comprar parte de sua encomenda a preço comercial e parte a preço de parceiro.

[como o Iça o Dois entendeu - em resumo, vai estudando, aprendendo, fazendo como no estudo de caso, para quando tiver recurso saber fazer o melhor]

      A criação de produção intelectual negociável pode ser cogitada após o Ministro opinar sobre a viabilidade do resultado financeiro poder ser tratado como aumento de eficiência administrativa, destinado a aumentar estoque nacional de tecnologia militar, independente do orçamento federal e, caso aplicável, transferível ao meio civil. Do contrário o resultado financeiro seria uma transferência de verbas do Ministério da Defesa para os demais órgãos do Governo, descabida por quem sofre cortes. Decorre justamente do esforço de técnicos imprescindíveis, transitoriamente ociosos devido a alguma escassez e pertence ao Estado. A finalidade desse ensaio de conveniências não é cooperar com os políticos no exercício da conjunção nociva produzida por eles, mas conseguir de modo fértil atenuar os danos da conjunção.

[como o Iça o Dois entendeu: em resumo, só vale produção intelectual negociável se trouxer proveito às FFAA. A finalidade do ensaio é buscar atenuar a situação.

RESUMINDO - na crise - estude, aprenda, para otimizar a administração, evitando desperdícios de qualquer natureza. Aprendendo, quando tiver rescursos, saberá fazer o melhor, e até já terá planejado para o melhor.]