A FLOTILHA DE SUBMARINOS E O LEVANTE DO ENCOURAÇADO SÃO PAULO


A ESSES HOMENS, NÃO LHES PODIA FALTAR A CORAGEM !

Um pouco de História - Parte 1

RMB 1/2003 Nr 123 (abr.mai/jun)   Valte (RRm) RCapetti  & CMG(RRm) Cascardo
 

INTRODUÇÃO

No conturbado período em que viveu o Brasil, nas décadas de 1920 e 1930, aconteceram vários movimentos militares, em alguns dos quais a Marinha esteve diretamente envolvida.

Um deles, ocorrido em 4 de novembro de 1924, conhecido como a revolta do encouraçado São Paulo, despertou-nos o desejo de maior aprofundamento histórico, em especial na participação da então Flotilha de Submersíveis, provocado, principalmente, pela manifestação de autores que, apesar de testemunhas, descreveram os eventos e caracterizaram atitudes de forma não condizente com o juízo que fazemos dos nossos primeiros submarinistas.

Estes homens abnegados, que pelo simples fato de guarnecerem máquinas infernais, ainda pouco desenvolvidas, e portanto inseguras, como eram os submersíveis naquela época, não poderiam deixar de ter uma grande dose de coragem, mas dela foram acusados de lhes faltar, no momento de aderir ao movimento, em novembro de 1924.

Assim se manifestou, cinqüenta e cinco anos após o evento, por exemplo, Carlos Alves de Souza, que na ocasião era Primeiro-tenente servindo como auxiliar no Gabinete do Almirante Alexandrino, então Ministro da Marinha:

"Fui ao Catete e depois de obter autorização do Presidente segui para o capitânia da Flotilha de Submersíveis. Senti da parte dos submarinistas a maior má vontade em cumprir as ordens do Ministro. Estavam todos comprometidos, mas não tiveram coragem de aderir ao movimento revolucionário. ..."(1)

A leviandade de tal afirmativa já foi provada, à saciedade, em outra ocasião(2), mas permaneceu-nos o desejo de melhor conhecer o episódio, com maior profundidade.

Alguém escreveu que a "História é uma farsa."

Acreditamos em tal afirmativa, na medida em que a História pode ser conformada segundo a visão polarizada dos vencedores, ou a visão viciada dos perdedores, quando deve sê-lo pela visão qualificada do verdadeiro pesquisador-historiador, imune às diversas influências que levam um indivíduo a narrar os fatos segundo seu ponto de vista particular.

No entretanto, tais pessoas sempre existirão, e é preciso consultar seus escritos com tolerância e paciência para detectar a verdade, escoimando da farsa os inconvenientes juízos de mérito, ou de valor, que levam a adaptar suas narrativas aos interesses particulares.

Esta verdade a que nos referimos deve ser muito bem curtida pelo passar dos anos. Consolidada no arrefecer dos ânimos e paixões, deve desvestir-se das vaidades e ser isenta da sanha de inserir-se, se testemunha ou partícipe, como ator importante ao qual pode ser atribuída autoria, ou participação proeminente nos fatos.

Sobre o levante do Encouraçado São Paulo, o autor, citado linhas atrás, escreveu com a autoridade que as lembranças passadas lhe permitiram, mas, lamentavelmente, traíu-se, ou pela falha de memória, ou por manifesta vaidade. Talvez o justifique a confissão de que estava em tempo de crise.

Se tal insurreição foi, conforme o libelo do Procurador Criminal da República interino Sobral Pinto, como decorrência do IPM instaurado

"senão o corollário necessario da propaganda subversiva desse pequeno grupo de insubordinados a que esta Procuradoria, na denúncia que offereceu sobre a conspiração chefiada pelo Capitão de Mar e Guerra Protogenes Pereira Guimarães, já se havia referido ..."(3)

é porque havia uma proposição perversa, da qual resultou tal corolário, e que não pode ser negligenciada, para que bem se possa entender os acontecimentos.

A limitação cronológica linhas atrás mencionada tem apenas o sentido de localizar o leitor para os eventos que pretendemos recordar, e não é demais relembrar que nela estão presentes todas as mazelas herdadas de um contexto mais amplo, desde a proclamação da República e continuando pelos diversos governos republicanos seguintes.

O QUADRO INICIAL

Comecemos por comentar que julgamos definitivamente equivocado considerar que na História importem mais os fatos do que as pessoas, uma vez que aqueles, em geral, só se explicam quando se conhecem as personalidades envolvidas; no caso em questão, os homens que chefiavam política e militarmente a Marinha, e principalmente, os seus comandados, dos oficiais aos mais modernos marinheiros da nossa Armada.

Os principais vícios da proposição referida restavam justamente sobre o mau gerenciamento do pessoal, e a excessiva centralização da autoridade, que redundantemente, agravava o primeiro. Eram falhas gritantes nos modelos adotados nas reformas conduzidas pelo Almirante Alexandrino1, que foi Ministro em três ocasiões distintas, inclusive a da revolta do Encouraçado São Paulo:

Senão vejamos:

a) a excessiva centralização administrativa (pela subordinação direta ao Ministro de grande número de órgãos, abrangendo a direção setorial superior e a prestação de serviços, e porque ele avocava a si, praticamente, todas as decisões, até nos menores detalhes, "o que intimidava e desestimulava os chefes setoriais e isentava responsabilidades nas soluções dos inúmeros e imensos problemas da administração Naval.")(4); e

b) o trato de problemas referentes aos diversos corpos e quadros de pessoal (fossem oficiais, inferiores ou praças) que era atribuído individualmente ao EMA e às diferentes Inspetorias Técnicas, não existindo, portanto, uma política única de pessoal. Assim, os quadros envelheciam, deteriorando as perspectivas de carreira. Por seu turno, as escolhas dos oficiais para as diversos comandos se davam muitas vezes mais pela simpatia que puramente pelo mérito.(4)

Esse tipo de gestão, mesmo depois da morte do Almirante Alexandrino, continuou a enfraquecer a organização administrativa da Marinha e o ânimo do pessoal. Ele eracaracterizado pela centralização da tomada de decisões de toda ordem, da qual resultaram hábitos perniciosos, tais como a falta de iniciativa dos escalões subordinados, o encaminhamento de quase a totalidade dos problemas à consideração superior, e a falta de cooperação horizontal na busca de soluções para os problemas comuns, entre outros.

Tal quadro veio a ser agravado iterativamente por fatores de fraqueza como

"a) a insuficiência, tanto em número quanto em qualificações, dos quadros de pessoal;

b) a dependência do estrangeiro para adquirir, reparar ou modernizar as unidades da nossa força naval, e para a obtenção de carvão combustível, sobressalentes e munição, itens necessários à movimentação, manutenção e adestramento das unidades navais e suas tripulações."(4)

A satisfação não podia ser total. Paulatinamente, pela imobilidade, se acentuavam a desmotivação profissional da oficialidade e mesmo a das guarnições.

Devemos lembrar que não se passara muito tempo depois das revoltas dos marinheiros2, e as feridas do ressentimento e da desconfiança talvez ainda não estivessem completamente saradas.

Naquela época, diversos fatores, tais como o comportamento dos chefes, a desconhecimento por muitos do que se passava, a má remuneração do pessoal, a baixa qualidade do elemento humano, que apresentava razoável índice de analfabetismo, o estado do material, as perspectivas de carreira, a experiência de Ministros civis no governo anterior, entre muitos outros, certamente não cristalizaram a disciplina espontânea e inconteste, como última palavra nos fundamentos da organização naval.

Excetuados os entusiasmados e crentes, pelas características das atividades que praticavam (como eram referidos os submarinistas e aviadores), talvez houvesse muito mando, mas ausência de liderança nos diversos elos da cadeia de comando.

A grande moldura desse quadro era a situação nacional, de insatisfação geral pelo domínio da República por uma oligarquia política, apoiada nos centros econômicos de Minas e São Paulo, a qual mantinha as rédeas do poder, aproveitando-se de legislação peculiar, o voto a descoberto e o controle eleitoral exercido pela Comissão de Verificação de Poderes nos níveis federal e estadual 3(e conseqüentes eleições fraudulentas).

Dela resultou a contaminação da jovem oficialidade do Exercito e da Marinha, evoluindo para movimentos militares que culminaram com a Revolução vitoriosa de 30, quando participou ativamente a facção política derrotada nas eleições presidenciais daquele ano.

Não é por demais lembrar a exacerbação do descontentamento aí pelo ano de 1922, quando se criou uma questão militar, da qual resultou o movimento que se denominou de Tenentismo.(4)4

Derrotados em 1922, não cessaram as atividades e os conspiradores infiltraram-se nas guarnições militares por todo o país.

Em 1924 eclodiram movimentos no estado de São Paulo(5 de julho), em Sergipe, Belém e Manaus(13 de julho) e no Rio de Janeiro. Nestes dois últimos episódios a Marinha teve papel saliente.

É nesse caldo de cultura que se inserem os movimentos revolucionários da década de vinte.

Dinâmico, mas autoritário, características que o tornaram um grande Chefe Naval, não fizeram o Almirante Alexandrino querido por todos.

Divididas as paixões, nos momentos de convulsão política, se apresentaram revoltosos e legalistas em todas os segmentos, entre eles os submarinistas.

A REVOLUÇÃO DE ISIDORO E AS REPERCUSSÕES NA MARINHA

A Esquadra, fundeada na cidade do Rio de Janeiro, executava zelosamente a sua rotina de exercícios. Os ecos da política mal chegavam aos navios, salvo os férteis boatos muito freqüentes na época, e que, quando circulavam, vinham enriquecidos com detalhes maliciosamente incorporados pela ironia, característica peculiar aos oficiais mais jovens. No dia a dia, a vida corria tranqüila, nada fazendo supor a proximidade de uma guerra civil, que se insinuava abaixo da linha do horizonte.

Todas as manhãs largavam, às 9 horas, do cais do Arsenal, as lanchas que transportavam os oficiais licenciados, de regresso para os navios. Enquanto aguardavam a hora de embarque, corria o Jornal da Praia a sua edição diária, com as rodas formadas pelos mais antigos que conversavam sobre o serviço, e os mais modernos, dedicados aos seus assuntos preferidos - os comentários sobre esportes e as namoradas.

A manhã de 5 de julho de 1924 constituíu-se em extraordinária exceção, com todas as rodas absorvidas por um tema único - o que estava ocorrendo em São Paulo? Falava-se com insistência na revolta da guarnição do Exército, mas sem detalhes que a esclarecessem.

Quando os oficiais chegaram a bordo foi-lhes dada a conhecer a comunicação oficial de que, desde as primeiras horas da madrugada, a capital paulista encontrava-se dominada por intensa luta, travada entre forças legalistas e revolucionários chefiados pelo General Isidoro Dias Lopes5, estes com significativa adesão de substancial parcela da Força Pública Estadual.

Lembrando 1922, dois anos depois, exatamente na mesma data, renascia o 5 de julho.

A bordo do CT Rio Grande do Norte o 1º Tenente Gerson Macedo Soares acabava de examinar os planos do navio com o Comandante Francisco Espiridião de Andrade, para determinar qual "o pontal avante, a meia nau e a ré", quando adentrou o oficial de comunicações com a mensagem acabada de receber, que determinava sustar o licenciamento.

Regressando para seu navio, o CT Matto Grosso, Macedo Soares presenciou a azáfama criada; outra mensagem, esta ordenando "promptidão rigorosa"; a vinda para bordo do Comandante da Flotilha de Contratorpedeiros, Capitão-de-Fragata Mário de Paula Guimarães, que ainda do interior da lancha determinou que o CT se aprontasse para largar rumo a Santos o mais cedo possível.

Dentro do pouco tempo disponível, foram tomadas providências em caráter de emergência: pedidos de sobressalentes ao Depósito Naval; escalar externos para chamar os oficiais; acender as caldeiras (mas como não havia lenha a bordo, obrigou o chefe de máquinas a buscar barricas velhas nas obras do dique da Ilha das Cobras. Os poucos oficiais a bordo, no seu dizer, pareciam "abelhas mestras" dando ordens, ou então, ao se cruzarem, trocando impressões e ousadas conjecturas.

Como os oficiais estavam desprevenidos, sem roupas no navio, Espiridião licenciou-os por duas horas, para apanhá-las.

Macedo Soares, ao chegar em casa e avisar à família que ia partir, deixou-a bastante apreensiva pelos riscos envolvidos, e mais ainda estupefacta, pelo inusitado dos fatos.

Ao regressar para bordo, deparou no caminho com os jornaleiros que apregoavam as primeiras notícias que, em sua observação, pouca atenção despertavam nos transeuntes.

No Arsenal Macedo Soares encontrou seu colega de camarote, 1º Tenente Roberto Faller Sissón, e passaram a aguardar a condução que os levaria para o Matto Grosso. Sua atenção foi despertada quando, em dado momento, um soldado do Exército, muito perfilado, apresentou-se na sala de estado ao oficial de serviço, Capitão Tenente José Leite Oliva:

" - Prompto seu commandante , onde é que descarrego a alfafa que está ahi numa carroça?

- Alfafa?

O Leite Oliva nada sabia de alfafas, mas o soldado explicou "que era para uma certa força que devia embarcar no Minas Geraes." (5)

Continuando suas observações, Macedo Soares testemunhou o intenso movimento que fora desencadeado pela urgência das providências tomadas:

"Chegara o almirante Frontin, director do Arsenal; andava dando ordens o commandante Amancio, director do material; viam-se officiaes que chegavam, chamados em casa por um memorandum urgente, ordenanças, soldados navais, taifeiros com embrulhos, em cujas pernas era atropelado um cachorrinho vagabundo e manco de uma pata traseira." (5)

Por volta das 21 horas embarcou numa lancha o chefe do Gabinete do Ministro Alexandrino, acompanhando o Almirante Aristides Mascarenhas, que fora preso e era conduzido para o Belmonte. Comentava-se que outras prisões tinham sido efetuadas.

Naquela mesma manhã, ao chegar a bordo do São Paulo, o 2º Tenente Augusto do Amaral Peixoto Júnior cientificou-se das ordens: rigorosa prontidão, e determinação de preparar o encouraçado para qualquer ação.

À noite de 5 de julho suspendia para Santos uma parte da Esquadra, constituída pelo Minas Geraes, Barroso, Benjamin Constant, Alagoas, Matto Grosso, Rio Grande do Norte, Amazonas, Maria do Couto, Tenente Lahmayer, duas esquadrilhas de aviões F-S-L; dois HS-2 e dois MF.

Segundo depoimento de Amaral Peixoto, o resultado desta expedição foi desastroso:

"Sem nenhum preparo essa Força foi até a capital paulista de onde regressou sofrendo sério revés. Milagrosamente escapou de ser aniquilada ou aprisionada." (6:10-16)

As notícias chegavam ao Rio e aos navios com exagerado aumento. Como conseqüência desse fracasso, e para apoio moral, o Encouraçado São Paulo, aos 18 de julho, recebeu ordens de preparar uma Companhia de Marinheiros, que deveria seguir viagem no mesmo dia. Foi designado para comandá-la o Capitão Tenente Augusto Pereira, oficial distinto, respeitado por todos os seus colegas, e que assinara na lista de voluntários, pois o Ministro da Marinha desejava que a oficialidade fosse toda de fiéis defensores do Governo.

Fato notável, a respeito de tal lista, é que nenhum Segundo tenente compareceu para subscrever o voluntariado governista, o que levou o comandante do navio a efetuar sorteio entre os oficiais para integrar o contingente que seguiria para Santos.

Amaral Peixoto foi sorteado, juntamente com o 2º tenente Carlos Alberto Saldanha da Gama, quem ele considerava "boníssimo", e que faleceu muito jovem. Contudo, apesar do sorteio entre oficiais de uma lista na qual nenhum segundo tenente aparecia, a nota lançada nas cadernetas subsidiárias de todos os oficiais dizia:

"Destacou voluntariamente como oficial do contingente que seguiu para Santos, afim de cooperar na ação contra o levante em São Paulo, em 18 de julho de 1924, chegando a Santos a vinte, seguindo para operações de guerra em São Paulo, onde permaneceu na linha de frente até 28, partindo a 29 por via férrea e regressando a bordo em 30 do mesmo mês." (6:10-16)

Amaral Peixoto e muitos outros oficiais discordavam da ordem de Alexandrino. Para eles, o aspecto técnico do emprego de uma tropa formada por marinheiros, não habilitados para lutar em terra, era discutível. Reconquistar a cidade de São Paulo, ocupada por tropas de infantaria do Exército, mais as da Força Pública, a primeira apropriada para manobras no terreno, e a segunda, preparada por uma Missão Militar Francesa e dotada de treinamento específico para o combate urbano, numa luta cujo objetivo seria a retomada de rua por rua, ou casa por casa, levava à certeza de que a ordem de Alexandrino constituía alto risco para os não habilitados expedicionários navais. No seu entender, a tarefa de combater na capital seria mais apropriada para o Batalhão Naval, apoiado pela Força Naval que ocupara o porto de Santos, esta sim em missão específica da Marinha. Segundo os discordantes, o emprego do Batalhão Naval teria sido a decisão adequada.

O que Amaral Peixoto se referiu como "apoio moral" mascarava apenas o emprego político da Marinha, uma vez que as considerações de ordem militar, seriamente criticáveis quanto ao emprego do contingente de marinheiros, foram de fato relegadas pelo aspecto político inerente, qual seja, o de demonstrar que a Marinha solidarizava-se com o Presidente Bernardes6 e lhe prestava apoio.

Com o abandono da cidade de São Paulo pelos revolucionários, no dia 287, os navios e a força naval desembarcada receberam ordens de regresso, pois caberia ao Exército continuar a luta em perseguição aos retirantes.

Ironia do destino, Amaral Peixoto não podia imaginar que cinco meses depois combateria o governo de Bernardes, tendo como companheiros os seus ex-adversários desta ocasião.

Macedo Soares, que continuaria legalista nas revoluções seguintes, sugeria não ter plena convicção do procedimento que adotara naquela ocasião, pois se questionava sobre a legalidade do governo do Presidente Bernardes:

" ... Si esse governo não é o governo da lei, nem do direito; não é um governo de bem, nem de boas intenções, nem de honra como affirmam os revolucionários em seus manifestos, o papel da Marinha nessa acção febril que desenvolveu, luctando contra a precariedade de seus proprios recursos, foi o mais impatriótico possível!

Á Historia para, no futuro, fazer o julgamento." (7:152)

A dúvida de Macedo Soares clareou-se seis anos mais tarde, quando o sucessor de Bernardes, o Presidente Washington Luiz, foi deposto pela revolução de três de outubro de 1930.8

Aldo Sá Britto de Souza9, 1º Tenente, imediato do submersível F-5, também revolucionário, faz a sua apreciação dos acontecimentos político-militares do ano de 1924, reputando como suas verdadeiras motivações dois aspectos que mais se destacavam; a insatisfação reinante no âmbito interno da Marinha com o Ministro Alexandrino, magnificada pela ainda maior rejeição ao Presidente Bernardes, e a revolução paulista de 5 de julho.

Inicialmente considerou a atuação de Alexandrino, que a partir de 1906, num interregno de vinte anos, foi Ministro de Afonso Penna, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca, Wenceslau Brás e Arthur Bernardes, num total de quatorze anos, com as prejudiciais conseqüências desta longa permanência do poder em um único centro de decisão.

Aldo Sá Britto de Souza fez uma comparação entre as gestões de Alexandrino e a do seu antecessor, o Ministro civil João Pedro da Veiga Miranda, com sensível desvantagem para o chefe naval, pois no seu modo de ver:

"O Ministro Veiga Miranda percebeu rápido a psychologia dos nosso officiaes de mar e procurou, com o fim de afastal-os da politica travada, despertar-lhes o amortecido amor á profissão. Velhas aspirações da Marinha, sepultadas nos relatórios e pareceres, foram exhumadas, e assim dados os primeiros passos para a futura concretização de medidas tendentes á solução dos principaes problemas navaes e suas conexões com a esquadra e a siderúrgica.10

A esquadra se fazendo ao mar em constantes e úteis exercícios, projectos de grande remodelações e de construcções navaes, tudo isso e mais a promissora vinda da Missão Americana, davam a impressão de que o Presidente Epitácio, por seu terceiro Ministro civil, queria repor a Marinha em seus devidos eixos. É bem de ver a impossibilidade de tal commetimento se tudo, ou quase tudo vem de há muito desalinhado.

Sympathisada por uns, repellida por outros, olhada com indiferença por terceiros, a idea subversiva não poderia germinar na Flotilha de Submersíveis, e ella, que era, dentro da nossa triste e real impotência naval, um núcleo efficiente da esquadra, era também na phrase de seu commandante de então, capitão de fragata Joaquim Buarque Lima - de inteira confiança do governo."(8)

Com o advento de Arthur Bernardes na presidência[1922 a 1926], Veiga Miranda transferiu o ministério ao Almirante Reformado Alexandrino de Alencar, que assumiu em 15 de novembro de 1922, aos setenta e quatro anos de idade. A partir desta data, Aldo Sá Britto de Souza identificou as graves e perturbadoras alterações no seio da Marinha, causadas pelo estilo centralizador característico da ação administrativa de Alexandrino, chamando-as de Mudança de Ambiente, e retratando-as como descreveu:

"Corre o segundo anno da presidencia Bernardes estando a Marinha, pela ultima vez entregue ás mãos do almirante Alexandrino. Sempre tive pelo velho marinheiro a admiração que se pôde ter pelos homens que sabem praticar lances de bravura, discordando, porem, do seu feitio de commandar. A officialidade da Flotilha, com excepções, das quaes algumas bem honrosas, era ou parecia ser hostil ao Ministro, alvo muitas vezes de perniciosos commentarios.

O governo vinha dia a dia se impopularizando. O sr. Arthur Bernardes, com aquele perfil psychopatologico riscado com mestria por Assis Chateaubriand em "Terra Deshumana", implantava com crueldade a Torquemada o regime da tyrannia. As promoções e recompensas por serviço pessoaes, as detestaveis provas de incondicionalismo exigidas para a mínima pretensão de direito, o maldito systema de espionagem com o conseqüente premio da delação, criavam uma atmosphera carregada de intrigas.

Revoltavam-se muitas consciencias.

A mudança de ambiente preparava os espíritos para a arriscada cartada da revolta, de todos temida pelo imprevisto das conseqüências, e por muitos desacreditada em face do insucesso recente.

O commando superior dos submarinos era agora exercido pelo capitão de fragata Castro e Silva (1924/25), que pelo seu trato fidalgo captivava a nós, os officiaes e que trazia a nossa minúscula Flotilha em constante treinamento, vivendo-se a bordo, uma vida de afazeres e competições, em excellente disciplina, magnifica camaradagem e admirável correção militar.

A revolta tinha já ahi francas sympathias. Só uma revolta - era a phrase commum ouvida ao commentar-se os actos que o governo vinha praticando. O movimento militar do general Primo de Rivera11 era muito applaudido entre os submarinistas, que sentiam a necessidade de um semelhante cá em casa."(9)

Reforçando as opiniões de Amaral Peixoto e Macedo Soares, Aldo Sá Britto de Souza realça as repercussões no âmbito da Marinha, da ocupação de São Paulo pelo General Isidoro Dias Lopes e, depois, da sua organizada retirada para a região do rio Paraná, onde a luta continuou por quase um ano, sem que os revolucionários fossem derrotados, malgrado os grandes esforços do Exército, Forças Publicas Estaduais e Batalhões Patrióticos. Para ele:

"Este importante acontecimento foi o factor impulsivo que iria atirar a idéa no terreno da realidade.

O 5 de julho chefiado pelo general Isidoro Dias Lopes exaltou os revoltosos sympathicos da Marinha e poz-lhes logo em actividade, do começo muito pouco úteis pela absoluta falta de coordenação entre os elementos esparsos.

A tensão de espíritos daquelles dias de apprehensões só fazia excitar, e como tal descobriu baterias12, mas mesmo assim os mais prestimosos trabalhavam e, no meio de absurdos e contraditorios boatos procuravam agir incontinenti.

Sobrevinham alternativas de encorajamento e de desalento quando, sem perder a fé na possibilidade da acção, sondando, balanceando elementos, obtendo adeptos pela persuasão, coordenando e bem vezes ouvindo soezes insultos aos que lutavam de armas na mão, iniciávamos a faina enervante de organizar a revolta; o desanimo, porém, nunca poude se implantar nas fileiras libertadoras da Flotilha. Dellas era soldado um destes typos de rara beleza moral, ardoroso e idealista, a par do physico empolgante e da intelligencia lúcida e culta que o fazem um forte - Ary Parreiras, tenente, então aluno da Escola de Submersíveis.

Entravamos, assim, com a irrupção do movimento de rebeldia em São Paulo, no terreno franco da acção.

Estávamos irmanados com os revolucionários, sem com elles termos tido entendimento, por ideal, por adhesão aos princípios pregados, por patriotismo, por anhelos communs, por anseios de dias mais felizes para o Brasil, o que acreditávamos obter derrocando o apparelhamento governamental montado e substituindo-o por outro, aos nosso olhos, menos impatriótico.

Agíamos no sentido de secundar as tropas do general Isidoro com um golpe talvez decisivo, pela surpresa na capital, se bem ainda desorientados por isso que não possuíamos um chefe com as necessárias credenciaes.

É quando, depois de ascultado por alguns dos nossos, o commandante Protogenes, sciente dos meios com que contaria, aceita a chefia do movimento."(10)

Muitos dos conspiradores não conheciam o seu chefe mas, na medida que o relacionamento era iniciado as simpatias pessoais cresciam, como constatara Aldo Sá Britto de Souza:

"Nunca servi com o commandante Protogenes. Felizmente não me enganei; factos posteriores transformaram o primeiro impulso sympathico pelo homem bom em admiração pelo chefe bom, que sabe amparar os commandados, que ouve as queixas dos pequenos, envidando esforços em minorar-lhes o soffrer.

Aureolado pelo prestigio que, de há muito vinha crescendo em torno de seu nome, foi a noticia da sua resposta affirmativa recebida com enthusiasmo por nós moços, temerosos até então das conseqüências que poderiam advir do paiz entregue no dia seguinte a meia dúzia de tenentes sinceros, porem, inexperientes."(11)

No Rio de Janeiro, na véspera da data marcada para o início do movimento realizou-se uma última reunião.

À casa do ex-governador do Maranhão Herculano Parga, em Copacabana, compareceu grande número de adversários políticos de Bernardes, como os senadores Antonio Muniz e Muniz Sodré, deputados Baptista Luzardo, Plínio Casado e João Batista de Azevedo Lima.

Protogenes leu para os presentes um longo manifesto que continha o programa da revolução, abordando temas de ordem política, desenvolvimento econômico, ressurgimento das liberdades públicas, reforma constitucional, anistia, etc.

Com a concordância dos seus termos pelos presentes, encerraram-se as providências de caráter tipicamente políticas.

Na parte militar o plano de ação também fora ultimado e relacionava o desenrolar pretendido dos acontecimentos:

- A rebellião explodiria às duas horas da madrugada de 21 de outubro, após Protogenes ter embarcado num dos encouraçados, cujo comando assumiria. Uma vez de posse do navio, ele ordenaria o sinal convencionado, uma salva de 21 tiros.

- Reconhecido o sinal, e só após, os participantes civis e militares entrariam em ação, cada um no local predeterminado, iniciando a missão que a cada um cabia, ou desenvolvendo a atividade que as circunstancias possibilitassem.

- A Flotilha de Submersíveis, aprestada desde o anoitecer, deslocar-se-ia do seu ancoradouro para as proximidades dos encouraçados, e com a ameaça de imediato torpedeamento forçaria a adesão das guarnições recalcitrantes.

- Da mesma forma o destróier Rio Grande do Norte largaria do cais da Ilha das Cobras, onde se achava atracado, afim de secundar a ação dos outros navios já rebelados.

- A Aviação Naval, cujo comando Protogenes vinha de deixar, e onde contava com amigos dedicados e decididos, prestaria logo o seu concurso com os meios valiosos de que dispunha, bombardeando os alvos selecionados.

 

A FLOTILHA DE SUBMARINOS E A CONSPIRAÇÃO PROTÓGENES

Domingo, 19 de outubro de 1924, o Capitão-tenente Attila Monteiro Aché13 recebeu uma visita em casa. Não era para tratar de assunto afável, ou conversação adequada ao dia sem serviço de bordo. Encobrindo a identidade do recém chegado, o anfitrião relatou o encontro como de

"Um amigo, que me comunicou que o movimento estava prestes a arrebentar e confirmou que o meu posto era o submersivel F-3."(12:28)

Anos mais tarde, com o seu linguajar característico, Aché descreveu em detalhes o diálogo havido naquela ocasião:

"-Olha, vai haver um levante na Marinha, chefiado pelo Comandante Protogenes, qual é a sua posição?

Eu, digo: - Olha, eu não sei nem quero saber. Vocês digam o que é que eu tenho de fazer e para onde eu tenho, devo ir, qual o dia e a hora, eu irei. Eu ficarei com a Marinha em qualquer circunstância.

Então eles me disseram: - Você vai comandar o F-3."(13)

Este encontro provocou duas reações. A primeira, de alívio, pelo fim de uma preocupante espera. A segunda, de caráter pessoal, revelava o conflito entre a participação revolucionária, plena de riscos, e a proteção da família. Por isso, Aché

"irritou-se com esta extemporanea visita, pois sua senhora ficou bastante desconfiada. Em casa nunca fallou estar envolvido nesse movimento, razão porque sua senhora tudo ignorava."(14:20)

Sua função era a de instrutor da Escola de Submersíveis, instalada a bordo do tênder Ceará, navio esse que tinha como principal função o transporte e apoio dos submersíveis.14

Como de costume o tênder arvorava o pavilhão de capitânia da Flotilha, constituída também pelos submersíveis F-1, F-3 e F-515, todos de fabricação italiana. O prefixo F indicava serem da classe Foca, tendo sido construídos no estaleiro da Fiat-Sant Giorgio. Com dez anos de vida ativa na Marinha, a adequada manutenção recebida resultara em igual condição operativa. Seu emprego básico visava à instrução mas, por serem dotados de torpedos com cabeças de combate, estavam capacitados a atacar quaisquer navios.

O submersível designado para Aché, o F-3, tinha como comandante o Capitão-Tenente Armando de Pinto Lima, que mantinha, permanentemente, a decidida postura de fidelidade ao governo. Em posição antagônica, e com franca adesão à conspiração, situavam-se os dois outros submersíveis, o F-1, comandado pelo Capitão-Tenente Nelson Simas de Souza, e tendo como Imediato o 1º Tenente Edgard de Oliveira, e o F-5, comandado pelo Capitão-Tenente Mário de Azeredo Coutinho, e imediatado pelo 1º Tenente Aldo Sá Brito de Souza.

Pinto Lima, desde a revolta de Isidoro Dias Lopes em São Paulo, acompanhava atentamente o estado de espírito de seus colegas, observando com preocupaçãoa crescente evolução da opinião dominante na Praça D´Armas, a qual, a partir de uma situação de neutralidade, evoluíra para a de franca simpatia, e posteriormente, para a de adesão à revolução que se delineava.

Mais de uma vez Pinto Lima tivera a oportunidade de manifestar ao Comandante da Flotilha, Capitão de Fragata José Machado de Castro e Silva, a sua nítida preocupação com a gravidade da situação vigente. Ele julgava que Castro e Silva não tinha uma adequada avaliação do que ocorria entre os seus subordinados. Sugeriu, sem ser atendido, medidas que, a seu ver, poderiam evitar as perigosas conseqüências do que estava por vir, como a substituição dos comandantes e imediatos dos demais submersíveis, e a transferência dos outros oficiais sobre os quais pairava suspeição. Pinto Lima, dois anos mais tarde, em petição que dirigiu ao Presidente Bernardes, reivindicando uma comissão no estrangeiro, por se julgar merecedor por ter terminado o curso de aperfeiçoamento de submersíveis "com distinção", relatou as providências que tomara naquela ocasião e que, a seu ver, o tornavam credor do Presidente:

"A conspiração havida na Flotilha de Submersíveis não me surpreendeu. Desde julho, com a revolta no Estado de São Paulo, notei que entre os Officiaes da Flotilha, havia alguns que, si não eram francamente revoltosos, nutriam, entretanto, sympathias por elles. Para esse Officiaes os boletins mandados publicar pelo Governo eram chamados de boatos officiaes, enquanto que os boatos derrotistas que corriam pela cidade eram as noticias do Comando em Chefe. A princípio cheguei a ter discussões com alguns d'aquelles que eu julgava sinceros, discussões estas que aboli pouco depois. "Com a retirada dos revoltosos de São Paulo, e as manifestações de regosijo havidas, uns se recolheram e outros augmentaram o seu despeito. Diante desses factos eu julguei que deveria andar melhor informado sobre os ânimos, e verifiquei que, na Flotilha, mais de metade dos Officiaes era sympathica aos revoltosos, e que seria capaz de tomar parte em algum movimento. Troquei impressões a esse respeito com o meu Immediato, com o Commandante Mario Hecksher e com o Assistente da Flotilha. Verificando depois que, apezar do fracasso de S. Paulo, não arrefecia o animo revoltoso na Flotilha, resolvi para não me confundir com os mesmos, agir claramente e abertamente. Passei, nas minhas preleções a fallar sobre taes assumptos e, resolvi fallar ao Commandante da Flotilha sobre providencias que, ao meu vêr, deveriam ser tomadas. Para isso, em dia que, infelizmente não me recordo, dirigi-me à câmara e ahi se achavam o Commandante da Flotilha, o Immediato, o Assistente e o Ajudante de Ordens. Dado ao Commandante da Flotilha o conhecimento do que o interessava a respeito do F-3, submersível ao meu Commando, levei a conversa para o assumpto da revolta, e os boatos que corriam. Disse então ao Commandante que não pensava que os animos na Flotilha estivessem tão propensos para o lado revoltoso, que eram muitos os Officiaes que sympathizavam com elles, alguns com cargo de confiança; que, si fosse o Commandante da Flotilha tratava de afastá-los da Flotilha. Não sei quaes foram as providencias tomadas; notei, entretanto, que os ânimos estavam cada vez mais exaltados."(15)

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Esclareceu-nos anos mais tarde Aldo Sá Britto de Souza, Imediato do F-5, e convicto revolucionário, como foi conseguida a adesão do pessoal subalterno, suboficiais, sargentos, cabos e marinheiros, indispensável para permitir a movimentação dos pequenos submersíveis. Deixou claro que a liderança exercida pelo comandante constituíra o mais importante fator de convencimento:

"Do commandante ao ultimo grumete a guarnição é um bloco homogêneo que vale o que vale o commandante. No mar o contacto é incessante, intimo. Em um submarino o pensamento do chefe é o pensamento de todos; juntos arriscam a vida, compartilham dos sacrifícios e penosos trabalhos, usufruem em commum os laureis das victorias, o que forja entre commandante e commandados os elos de uma cadeia de amizade e confiança recíproca.

Esta é a melhor das disciplinas, a verdadeira, a única, a estavel. Tem alicerces fundos, cavados nas mais nobres qualidades da alma, é acceita, é querida, sentida e não falsamente sustentada ao temor do castigo, ou como outrora, pelo estalar da chibata.

Era, portanto, dentro da disciplina que os indisciplinados tenentes iam levar os seus subordinados a apontarem as armas contra o falaz tabu da autoridade constituída.

Dentro da disciplina porque não era preciso alliciar, seduzir nem corromper para que fizéssemos cumprir as nossas ordens, desobedecendo nós as ordens superiores."(16:1)

Para Aché, a tentativa de angariar novos adeptos acarretava, às vezes, situações surpreendentes, e que se não resultavam em conseqüências dramáticas, era devido à camaradagem existente na Praça D´Armas:

"Porque nós não sabíamos, exatamente, quais os que estavam de um lado, ou de outro. Eu cheguei ao Reis16, e perguntei a ele:

- O negócio seguinte, é mesmo ?

Ele olhou para mim e disse:

- Olha Aché, eu sou do outro lado!" (17)

Segunda feira, dia 20 de outubro, a rotina no Tênder Ceará seguia o seu curso normal. Navio fundeado ao NW da Ilha das Cobras com amarração fixa do Arsenal, prancha passada para terra pela popeta de boreste, tendo atracado a bombordo os F-3 e F-5 e a boreste o F-1. Paus de surriola disparados. Energia elétrica fornecida pela usina da ilha. Toldos nos vergueiros. O mar estava calmo e o céu encoberto anunciava chuva.

Os licenciados regressaram como de costume, e dedicaram-se aos seu afazeres diários. Durante o expediente os conspiradores foram informados de que o levante estava marcado para às duas horas da madrugada seguinte, vinte e um, faltando as instruções finais, mas que estavam por chegar. Estas, porém, não sendo recebidas, cumpriu-se o horário de licenciados, e oficiais e praças baixaram à terra às dezesseis horas e meia.

Finalmente quando chegaram as instruções, o Primeiro-tenente Aldo Sá Brito de Souza comunicou ao Contra Mestre Luiz Avelino Pedreira que a rebelião irromperia na madrugada imediata, ordenando-lhe que mandasse chamar nas respectivas residências determinados oficiais da Flotilha, e que fosse, ele mesmo, a terra, buscar as praças que guarneciam os submersíveis.

O Contra Mestre Pedreira, que já prevenira as praças ao serem licenciadas, de que deveriam encontrar-se na Estação da Central do Brasil, às dezenove horas desse mesmo dia, para saberem se deviam ou não voltar para bordo, para lá se dirigiu, a fim de dar cumprimento às ordens que recebera do Tenente Aldo. Ali chegando providenciou que seguissem imediatamente para a Flotilha os marinheiros do F-1 e do F-5.

Voltando logo em seguida para bordo, chamou o cabo Nicomedes Moraes de Andrade, ao qual transmitiu ordem dos Capitães-tenentes Mario de Azeredo Coutinho e Nelson Simas de Souza (e que para isso supriram a importância de cento e dezenove mil réis), de que fosse à casa dos Capitães-Tenentes Attila Monteiro Aché e Candido de Azeredo Coutinho, chamando-os para bordo. Nicomedes, porem, ao chegar nas residências, foi informado de que os oficiais já tinham saído. Regressando, e dando conta do resultado da sua missão, foi informado pelo Contra Mestre Pedreira de que os oficiais que fora chamar, já se encontravam a bordo.

O Domínio da Flotilha

Reunidos então, os conspiradores começaram a executar as medidas necessárias ao domínio da Flotilha. Com este objetivo o Capitão-tenente José Brito de Figueiredo fez chamar, às vinte horas e trinta minutos, ao seu camarote, onde já se encontravam o Capitão-tenente Simas e o Primeiro-tenente Aldo - o Condutor Eletricista Benedito Amorim dos Santos e o Condutor Motorista Josino Augusto de Azevedo.[O autor do processo não discrimina os navios] Entregando-lhes 10 tiros de fuzil, mostrou-lhes a seguir uma lista, na qual, ao lado dos seus nomes, figuravam os dos Subofficiais Erico, Guarino e Dagoberto, que constituiriam o grupo que, comandado por um oficial, devia prender o Capitão Tenente Fernando Cockrane, logo ao iniciar o levante. Da mesma forma Brito de Figueiredo procedeu com o Contra-Mestre Pedreira. Chamando-o ao seu camarote, entregou-lhe munição que ali se achava, juntamente com o armamento existente no corredor dos arquivos, a bombordo do Ceará, para que fossem ambos distribuídos às praças que não tivessem revólver nem munição, o que de fato foi feito.

Ao sair de bordo, Aché fora ao Clube Naval, onde procurou descobrir se alguém sabia das indigitadas instruções, "pois estava interessado em conhecê-las", até que, por cerca das nove e meia da noite

"esteve com um amigo que lhe disse já estarem as instrucções a bordo." (18:20)

De posse dessa informação Aché, logo em seguida, dirigiu-se para o Ceará e, ao passar pelo Arsenal de Marinha, encontrou-se com o Assistente da Flotilha, Cockrane, que o convidou a retornar na lancha do Comandante. Aché recusou alegando que iria pela ponte. Este procedimento soou estranho, pois sendo os dois muito amigos, era natural que Aché aceitasse o convite. Portanto, o inesperado encontro levantou suspeitas. Cockrane aguardava Castro e Silva que estava no gabinete do Ministro Alexandrino, e ficou intrigado com a presença de Aché àquela hora, depois do expediente e, mais ainda, pela explicação que dele recebera - de que regressava para bordo naquela tardia hora da noite "por ter sabido que havia prontidão na Marinha."

Ora, Cockrane, que pela natureza da sua função deveria sabê-lo, desconhecia o fato. Comentou o ocorrido com o Ajudante de Ordens, Aristides Garnier, que, por sua vez, acrescentou que vira Aldo Sá Britto de Souza caminhando para bordo. Aumentaram-se, assim, as suspeitas, não só pelo regresso inusitado dos oficiais, já tidos como possíveis conspiradores, mas também pela estapafúrdia alegação de "prontidão". Ato contínuo, Cockrane alertou Castro e Silva do que se passava, e este, antes de retornar, encarregou seu Ajudante de Ordens de chamar os oficiais do seu Estado Maior, pelo telefone do Arsenal, para que regressassem prontamente para bordo.

Aché, por sua vez, comunicou aos demais conspiradores o imprevisto encontro com Cockrane, expressando-se que fora "pilhado" pelo Assistente. Estes, desconfiados, permaneceram na desconfortável expectativa de uma possível descoberta do movimento. Eram eles: José Brito de Figueiredo, Mario de Azeredo Coutinho, Nelson Simas de Souza, Ary Parreiras, Aldo Sá Brito de Souza, Benjamin Gonçalves da Costa; os Sub-Oficiais Vicente Guarino, Benedicto Amorim dos Santos, Josino Augusto de Azevedo, Luiz Avelino Pedreira, Freire Fontes, Erico de Souza Lacerda, Armando de Souza Gomes, Dagoberto de Miranda, Dyonisio dos Santos e Cicero Pinheiro de Mattos e os Sargentos Manoel Gonzaga e Ernesto Fernandes da Silva.

Castro e Silva, ao voltar de terra, nada observou de anormal no Ceará, e chamou o oficial de serviço, 1º Tenente Ary Parreiras, perguntando-lhe quais os oficiais que estavam a bordo. Parreiras informou-lhe que eram o oficial de serviço nos submersíveis, Capitão-tenente Edgard de Oliveira, o encarregado do Pessoal, Capitão-tenente José Brito de Figueiredo e Aché, que acabara de chegar.

Como o nome de Aldo Sá Brito de Souza não foi mencionado, e sabedor da sua movimentação, Castro e Silva desconfiou, também, de Parreiras.

Ele sabia, ademais, que Azeredo Coutinho "estava dispensado de comparecer a bordo naquele dia", mas, mesmo assim, ordenou a Cockrane que telefonasse para a sua residência. De lá informaram que "ele devia se encontrar a bordo". Pouco depois Azeredo Coutinho entrou na câmara, explicando que "tinha vindo para bordo em razão do exercício marcado para o dia seguinte, e que não se apresentara ao oficial de quarto porque havia chegado muito cansado do seu sítio no Estado do Rio." (19:38)

Em torno de Castro e Silva já se encontravam Cockrane, Garnier, Jorge Leite, Mattoso Maia e Hecksher, do seu Estado Maior. Este grupo inicial foi aos poucos se ampliando, com a chegada de mais oficiais como os comandantes dos submersíveis, sendo Pinto Lima o último, por volta das onze e meia.

À meia noite Castro e Silva alterou a escala de serviço, mandando que seu Ajudante de Ordens, Aristides Garnier, substituísse Ary Parreiras no quarto de zero às quatro. Como precaução adicional, encarregou Cockrane de percorrer o navio, inspecionando-o quanto à possíveis anormalidades.

Pinto Lima, ao se retirar da câmara, aí por volta da uma hora da madrugada de vinte e um, foi procurado por Cockrane, que o avisou para permanecer alerta, pois Attila Aché e Aldo de Sá Brito tinham vindo para bordo sob alegações que lhe pareceram pouco convincentes.

Com exceção da guarnição do F-3, que após o licenciamento não fora chamada de volta, estavam presentes todos os integrantes da Flotilha, legalistas e conspiradores, uns com mais certeza, outros com menos, na expectativa de que o relógio marcasse duas horas e que fosse ouvida a salva de vinte e um tiros que deflagraria o início da revolução. Nesta ocasião deveriam ser empreendidas ações, tomadas medidas e, principalmente, assumidas posições.

Em ambiente de convívio intenso e objetivos comuns, talvez a providência mais difícil ou desagradável fosse a prisão de colegas, que eram, além de tudo, amigos. Este assunto já vinha sendo discutido, mas sem chegar a uma conclusão definitiva. Para prender Cockrane fora organizada uma relação contendo os nomes dos Suboficiais e Sargentos participantes, mas sem a indicação do oficial que a chefiaria. E assim permaneceu até as oito e meia da noite, quando Brito de Figueiredo entregou tal relação ao Condutor Eletricista Benedicto.

Para a prisão dos outros legalistas, a situação era idêntica: inexistia indicação do oficial responsável.

Aché, quando reunira-se com os demais participantes para avisá-los de que fora "pilhado" por Cockrane, "recebeu de um deles a comunicação de ter sido escalado para prender, no momento do levante, o Capitão-tenente Assistente da Flotilha". Coerente com a posição que já assumira, Aché manteve-se inflexível:

" - Como da vez anterior, declarei que tal não o faria por ser muito seu amigo." (20:20)

Em outro depoimento, anos mais tarde, ao referir-se a este episódio, Aché acrescentou mais detalhes, esclarecendo qual a nova solução encontrada para o complicado problema:

" - Eu cheguei a bordo, nós combinamos que, quem não aderisse, nós dávamos uma xeroca neles, para eles perderem os sentidos, um clorofórmio, que era justamente para que eles não tivessem uma reação contra nós, e não houvesse da parte de quem quer seja a oportunidade de atirar e matar o companheiro, e assim nós fizemos." (21)

Esta alteração nas ordens que já tinham sido dadas, desacompanhada do correspondente esclarecimento, provocou reações de desalento entre os Suboficiais e Sargentos que participariam das detenções.

Mais ainda, o Suboficial Josino, ao indagar de Brito de Figueiredo qual o oficial que lhe acompanharia na detenção de Cockrane, não obteve resposta.

Em outra tentativa, quando vários oficiais estavam reunidos, foi informado que aguardavam a chegada do Comandante da Flotilha.

Como este regressasse e nada acontecera, Josino retirou-se para o seu camarote, não sem antes comunicar aos colegas que se desligava do movimento revoltoso por julgá-lo em condições precárias. Para Josino, a participação dos oficiais era fundamental, e como entendera de que isto não aconteceria, decidira não mais tomar parte na rebelião.

O mesmo aconteceu com o Condutor Benedicto Amorim dos Santos. Incumbido de participar da prisão do Capitão-tenente Jorge Leite, indagou a Brito de Figueiredo qual o oficial que o acompanharia. Não obtendo resposta conclusiva, comunicou aos seus colegas que abandonava o movimento.

À uma hora da madrugada Azeredo Coutinho chamou o Contra Mestre Pedreira, que fazia a intermediação entre os oficiais e a guarnição, e ordenou-lhe que, sem fazer ruído, mandasse as guarnições do F-1 e F-5 para bordo dos respectivos submersíveis, providência que foi prontamente efetivada.

A rotina de preparar para suspender foi cumprida, e em especial foram montadas cabeças de combate nos torpedos, pois os submersíveis deviam se deslocar para as proximidades dos encouraçados e forçar a adesão dos navios indecisos ou recalcitrantes.

Enquanto aguardavam o sinal convencionado, os Suboficiais Luiz Avelino Pedreira, Dagoberto de Miranda, Cícero Pinheiro de Mattos e Armando de Souza Gouvêa combinaram prender no compartimento dos acumuladores os colegas que se recusassem a aderir ao movimento.

As guarnições do F-1 e F-5, por terem sido chamadas para regresso em horário fora de expediente normal, motivaram alterações na rotina de bordo que dificilmente passariam desapercebida pelo oficial de quarto e contramestre do horário. O trânsito atípico, pela prancha passada para terra, dos licenciados que regressavam, o maior afluxo de marinheiros ao rancho noturno, o desusado número de macas ocupadas nas cobertas, não poderiam, de forma alguma, passar desapercebidos ao pessoal de serviço. Até meia noite, o quarto fora exercido por simpatizantes da conspiração, o que de certa forma poderia explicar porque tais indícios não tivessem sido comunicados à Castro e Silva.

No entanto, fica sem explicação plausível o fato de que, mais tarde, quarenta e duas praças fossem despertadas, deixassem seus alojamentos cobertas abaixo, subissem ao convés, transitando, metade para boreste em direção ao F-1, e a outra metade para o F-5, atracado a bombordo, e novamente esta movimentação passasse desapercebida.

O quarto, nesta ocasião, era exercido pelo Ajudante de Ordens de Castro e Silva que, do seu posto no portaló, tinha perfeita visão dos acessos aos submersíveis, além de estar perfeitamente alertado para a possibilidade de acontecerem fatos anormais. Reforçando a vigilância exercida por Aristides Garnier, Cockrane, com a mesma finalidade, percorria o navio inspecionando-o.

Por seu turno, na expectativa dos acontecimentos, reuniam-se na popeta de boreste o Primeiro-tenente Aldo Sá Brito de Souza, os Capitães-tenentes Comissário Candido de Lobato de Azeredo Coutinho, José Brito de Figueiredo, Edgard Paula de Oliveira, Nelson Simas de Souza e Mario de Azeredo Coutinho. De onde estavam era possível serem avistadas, na direção de Niterói, as luzes dos encouraçados fundeados no poço. Chovia intensamente, contudo, sem constituir impedimento para que o clarão e o estrondo de uma salva de vinte e um tiros, ansiosamente esperada, não fosse facilmente reconhecidos. Azeredo Coutinho recomendara que, uma vez recebida o sinal, cada qual procurasse o posto acertado e cumprissem as missões planejadas: prender os oficias legalistas, a iniciar por Castro e Silva, suspender com os F-1 e F-5 e tomar o comando do F-3 e do Ceará.

Aché nos relata o que se passou após os submersíveis terem sido guarnecidos e a esperada salva não ter acontecido:

" - Ficamos revoltados a noite inteira. Quando estava clareando o dia um marinheiro apareceu lá a bordo, dizendo que o comandante Protogenes tinha sido preso com outros oficiais, e que não ia haver a revolta.

Então nós nos desrevoltamos: tiramos as cabeças de combate, botamos as cabeças de exercício, mandamos todo o mundo para as macas, de maneira que quando tocou faxina não havia o menor traço de que a Flotilha tinha estado revoltada." (22)

As Novas Tentativas

Não se tendo ouvido o sinal convencionado, Azeredo Coutinho ordenou ao Contra Mestre Pedreira que fizesse regressar para bordo do Ceará, mais uma vez sem ruído, as guarnições do F-1 e F-5, o que foi prontamente cumprido.

A beira do deslanche, mesmo depois de tomadas todas as providencias combinadas, deixou, entretanto, de chegar às vias de fato a Flotilha, em razão do cumprimento da ordem de só iniciar o levante após ter ouvido a salva de 21 tiros, queimada* por um dos encouraçados.

A prisão de Protógenes e o conseqüente malogro do levante não desanimou, contudo, os conspiradores. Pelo contrário, serviu de pretexto para mais profundamente motivarem a guarnição. Azeredo Coutinho e Aldo Sá Brito de Souza disseminaram que o governo estava prendendo oficiais, impondo-se, portanto, uma reação. Propalaram, ainda, no seio das praças da Flotilha, que o Comandante Protógenes fora espancado pela Polícia, assertiva essa reforçada por Simas de Souza que lhe atribuía como razão o fato de que se buscava, por todos os meios, desmoralizar a Marinha. Esta, em conseqüência deveria reagir, a fim de restaurar, perante o país, o seu prestígio abalado.

Assim persistiram os revoltosos, mantendo acesa a chama de levar avante os planos contra o Governo. Combinaram, então, para a madrugada de 23 seguinte, a irrupção de novo levante. Renovadas as mesmas providências do dia 20, por ordem de Azeredo Coutinho, mais uma vez abortou a deflagração do movimento, pela mesma razão, o estrito cumprimento à determinação de que ele só seria iniciado após o sinal convencionado, que seria originado no encouraçado São Paulo, e que mais uma vez falhou.

Apesar daqueles repetidos insucessos, os esforços não cessaram. Os contínuos fracassos foram atribuídos, pelos revoltosos, à intensa vigilância que as autoridades navais, e a Policia do Marechal Fontoura, vinham mantendo sobre os oficiais suspeitos.

Para contorná-la, mesmo que com razoável grau de incerteza, ficou atribuída à guarnição a iniciativa do novo movimento na Flotilha, o qual se daria na noite de 24 para 25, simultaneamente com outros que, na mesma data, eclodiriam em navios da Esquadra. Os oficiais chegariam a seguir e assumiriam a chefia do movimento.

Na sexta-feira, 24, ao ir para bordo, Aché encontrou no Arsenal um oficial que lhe disse "ter ouvido um zum-zum de que as guarnições da Flotilha, do Rio Grande do Norte e do São Paulo se revoltariam de madrugada, com ou sem oficiais ...".(23)

Em sua memória repassaram as imagens de vinte e dois de novembro de 1910, quando João Cândido chefiou a revolta dos marinheiros. Naquela ocasião, tinha o posto de Guarda Marinha e servia no Minas Geraes. O acaso reservou-lhe a fortuna de baixar terra na condução das dezoito horas, a última, duas horas antes que o encouraçado passasse ao domínio da guarnição sublevada.

Diferente de seus colegas da Flotilha, que recusavam a possibilidade do reviver daqueles fatos, Aché agiu segundo o seu entendimento:

"Voltei imediatamente para a casa de meu pai, a quem relatei o ocorrido, dizendo-lhe que olhasse pelos meus, pois seguiria imediatamente para bordo, com o firme propósito de impedir, por qualquer modo, o movimento, mesmo que tivesse de sacrificar a minha vida." (23:29)

Com tempo chuvoso, céu encoberto, e mar calmo, o Ceará permanecia fundeado e com amarração fixa do arsenal. Toldos abarracados, artilharia coberta, paus de surriola disparados, a lancha do chefe arriada.

Com a Flotilha em regime de semi-prontidão, metade da oficialidade estava de pernoite, entre eles o Imediato Elisiário Barbosa, Pinto Lima e os oficiais de serviço. Dos conspiradores, só Aché e Benjamin da Costa permaneceram a bordo depois da licença.

O primeiro, pela razão linhas atrás exposta, enquanto que o segundo, por estar de serviço no horário das doze às dezoito horas. Azeredo Coutinho, Aldo Sá Brito, Edgard Paula de Oliveira, Candido Lobato, Nelson Simas e Ary Parreiras estavam em terra, provavelmente para dar continuidade ao planejado. Uma vez iniciado o levante, certamente regressariam para assumir a chefia.

A expressiva presença de oficiais governistas na noite de vinte e quatro para vinte e cinco, e a ausência dos conspiradores nesta mesma ocasião, pode ter sido a razão para que, só então fosse denunciada a conspiração. Sem a presença dos Comandantes dos F-1 e F-5, principalmente, a parcela governista da guarnição sentiu-se em melhores condições para levar ao conhecimento de Pinto Lima, o que sabia.

Desse modo, às seis horas da noite, o Condutor Emilio Leite Sampaio, que servia no F-3, foi procurá-lo, perguntando se ele tivera conhecimento da ocorrência de alguma anormalidade. Face a negativa de Pinto Lima, Emilio Leite Sampaio participou-lhe que acabara de tomar ciência de um fato que reputara como de maior gravidade - naquela noite deveria acontecer o levante na Flotilha, do qual participaria, também, o Rio Grande do Norte.

Pinto Lima dirigiu-se, imediatamente, ao Imediato Elisiário Barbosa, transmitindo-lhe o que acabara de saber, propiciando que, com urgência, fossem tomadas providências que a situação requeria.

Decorrida meia hora, nova denúncia lhe foi trazida, desta vez pelo Cabo Francisco Gomes de Assis, confirmando que o levante irromperia naquela noite, e acrescentando o fato novo da participação do São Paulo.(24:5)

***

Ainda que interrompendo o fio da meada, parece-nos oportuno mencionar o fato de que Castro e Silva, desde o início de outubro, tinha conhecimento de informações que relacionavam diretamente a Flotilha à Conspiração Protógenes. Na primeira semana daquele mês alertara a Pinto Lima de que

"os perturbadores da ordem tinham voltado as suas vistas para a Flotilha e que, por isso deveria estar prevenido."(24:3)

Preventivamente, o comandante do F-3 adotou, então, a prática de fazer freqüentes doutrinações a sua guarnição, alertando-os para que não se deixassem envolver pela retórica revolucionária.

Passados cerca de quinze dias, no domingo, dezenove de outubro, Castro e Silva mandou o Capitão-tenente Jorge do Paço Mattoso Maia chamar Pinto Lima, e o colocou a par de ocorrências suspeitas havidas no São Paulo, e de duas importantes medidas que mandara implantar: a primeira, a de armazenar as cabeças de combate nos cabides existentes nos próprios submersíveis, sem, contudo, ligá-las aos torpedos; e a segunda, a de movimentar-se para a doca do Lloyd, quando do aprestamento do F-3 para a ação.(25:4)

As recomendações feitas por Castro e Silva, a Pinto Lima, levam a crer que o Comandante da Flotilha estava inteirado da gravidade da situação, admitindo, inclusive, a possibilidade de que o levante contasse com a participação de unidades suas subordinadas. Armazenar as cabeças de combate não mais no Ceará, e sim nos submersíveis, de modo a reduzir o tempo necessário ao preparo dos torpedos, evidenciava que os FFs deveriam aprestar-se para operar no menor tempo possível. E daí, decorrer a intenção de que seriam empregados contra navios da esquadra, provavelmente os encouraçados.

A prisão de Protógenes, em dependências situadas na rua do Acre, e às duas malogradas tentativas de levante, nos dias vinte e um e vinte e três, nas quais participaram grande número de oficiais e praças, já, por si só, deveriam constituir preocupante motivo de alarme. Porém, o fato é que sequer redundaram em apurações, fossem sindicâncias ou inquéritos, que, se instalados, levantariam razoável quantidade de informações. Castro e Silva, que acumulava o Comando da Flotilha com o do tênder Ceará, procedeu como se delas nada soubesse, ou não apresentassem importância. Semelhante observação é, igualmente, feita pelo Juiz Federal Dr. Olympio de Sá e Albuquerque, ao referir-se à atuação de Castro e Silva, Cockrane e Aristides Garnier, na noite de vinte para a madrugada de vinte e um, quando:

"Vieram para bordo prevenidos por causa de boatos de que naquella noite haveria uma revolta na esquadra, estiveram toda a noite acordados e vigilantes, e é extraordinário que não tivessem visto coisa alguma de anormal. O tenente Garnier foi escalado para o quarto de meia noite ás quatro horas da manhã, o capitão-tenente Cockrane declarou ter percorrido por mais de uma vez o navio, e em nenhuma dellas notou cousa alguma de anormal." (26:153)

***

Mas, voltemos ao desenrolar dos fatos. Cientificado por Pinto Lima, Elisiário Barbosa, Imediato do Ceará, agiu com presteza. Colocou à disposição do oficial de serviço, Christinnianno Aranha, vinte carabinas e um cunhete de munição, que ficavam guardadas próxima à sala de estado. A chave do paiol de munição foi retirada do quadro e entregue ao mesmo oficial. Comunicou, em seguida, a Castro e Silva, que se encontrava em terra, as denúncias que recebera, bem com as providências que já adotara.

Às nove horas da noite de 24 Castro e Silva telefonou para Cockrane, ordenando-lhe que "fosse imediatamente encontra-lo no Arsenal". Neste local comunicou ao Assistente o que se passava a bordo, enfatizando a denúncia recebida por Pinto Lima, aduzindo, também, que as primeiras prisões de praças já haviam sido feitas. Sem confiança na guarnição e inseguro quanto à real dimensão da conspiração, Castro e Silva requisitara um contingente do Batalhão Naval para fazer a segurança do Ceará, o qual chegou a bordo do tênder às nove horas, composto por uma força de quarenta homens, comandada pelo Capitão-tenente Correia da Rocha, com a instrução de ocupar militarmente o navio.

Dando prosseguimento às medida que julgou inadiáveis, Elisiário Barbosa reuniu a guarnição na popa e anunciou os nomes de praças acusadas de tentar revoltar o navio, já como primeiro resultado das denúncias formuladas a Pinto Lima. Ato contínuo, elas foram presas, e enviadas escoltadas para o quartel do Batalhão Naval.

Pouco depois chegou, a bordo, Castro e Silva, o qual ordenou, imediatamente, reunir a guarnição. A ela se dirigiu, então, exortando a todos que se mantivessem no cumprimento dos seus deveres.

Para consolidar o domínio da situação, os fuzileiros navais foram distribuídos em postos de sentinelas por todo o navio. Como medida de segurança complementar, após o toque de silêncio, foi alterado o local de repouso do pessoal subalterno, ficando a guarnição acomodada na proa, ao invés de nos alojamentos situados cobertas a baixo, o que proporcionou maior visibilidade e vigilância, ao oficial de serviço. À meia noite Christinnianno Aranha passou o serviço ao 1º Tenente Guilherme da Motta, finalizando a escrituração do Livro de Quarto com a substituição da usual expressão Sem Mais Novidades pela Sem Mais Occorrencias.(27)

O tempo continuava chuvoso, e a vigilância rigorosa. A lancha do Ministro da Marinha atracou, às zero horas e quarenta e cinco minutos, no tênder Ceará. Castro e Silva foi ao encontro de Alexandrino, que não subiu a bordo, tendo os dois conferenciado por cerca de cinco minutos. Uma vez inteirado do sucedido, das medidas adotadas, e de que a situação no navio estava controlada, o Ministro mandou sua lancha suspender em direção ao São Paulo, rumando a seguir para o Ministério.

Por ordem de Castro e Silva, Cockrane deslocou-se para o Batalhão Naval, a fim de interrogar as praças já detidas, e coletar informações que permitissem identificar e prender os demais participantes. Esta faina ocupou-o por dois dias, ainda que auxiliado por outro oficial de bordo, tal o vulto das inquirições, cujos resultados envolviam expressivo número de oficiais e praças. Ainda no período de zero às quatro horas continuaram as detenções, sendo mais sete marinheiros recolhidos presos ao Batalhão Naval. Guilherme Motta finalizou a escrituração do livro de quarto com a expressão usual - Sem Mais Novidades.(28)

Algumas denúncias foram levadas diretamente a Castro e Silva, que em minucioso ofício relata como lhe chegaram:

"Às sete horas e vinte e cinco minutos fui procurado por um suboficial em estado de grave excitação nervosa, que disse:

- Estamos todos perdidos - acrescentando que entre os suboficiais que supúnhamos fiéis, havia um bom número filiado ao movimento que deveria ter arrebentado, existindo alguns violentíssimos e dispostos a praticar os atos mais bárbaros. E que se quizesse tomar maiores informações, que ouvisse os suboficiais José Espíndola, Raul Lourenço e Ildefonso Coimbra." (29:42)

Continuou Castro e Silva:

"Mandei chamá-los e eles disseram coisas de tal gravidade que, impossibilitado de ouvi-los longamente, devido às várias providências que continuadamente tinha de tomar, designei o Capitão-de-Corveta Mario Hescksher e o Capitão-Tenente Jorge do Paço Mattoso Maia para ouvi-los e tomar os nomes dos que fossem citados como os mais violentos e exaltados." (29)

E, de fato, Hecksher e Mattoso Maia anotaram os nomes dos novos acusados, em número de oito, todos Suboficiais e Condutores: Erico de Souza Lacerda, Josino Augusto de Azevedo, Armando de Souza Gouvêa, Benedicto Amorim dos Santos, Dagoberto de Miranda, Dyonisio dos Santos, Freire Fontes e Vicente Guarino.

Castro e Silva concluiu seu ofício com a decisão que tomara:

"Resolvi, então, esperando a chegada dos suboficiais de terra, que ainda se achavam licenciados, reuni-los e efetuar a prisão dos indicados. Assim o fiz." (29)

A denúncia que enfatizava a periculosidade dos oitos suboficiais, acusados de violência e exaltação, perdia coerência no fato desses militares se encontrarem em terra, como citado por Castro e Silva ao final de seu ofício. Deste modo, não poderiam participar da tentativa de levante da noite de vinte e quatro para a madrugada de vinte e cinco.

Sendo preocupante a indefinição quanto à lealdade da guarnição, foram presos e recolhidos ao Batalhão Naval os licenciados dos submersíveis F-1 e F-5, logo que regressaram para bordo, no quarto das quatro às oito horas. Para o oficial de serviço Benjamin da Costa, no entretanto, seu quarto encerrou-se com a usual expressão - Sem Mais Novidades.(30)

Enquanto isso, Castro e Silva aguardava o regresso dos Suboficiais denunciados, para prendê-los. Ao chegarem a bordo na condução de licenciados os oitos foram imediatamente detidos e encaminhados ao Batalhão Naval, ficando à disposição de Cockrane. No tênder era ampliada para sessenta praças a guarda de navais, e de um, para dois oficiais. Ainda visando reforçar as medidas de segurança, iniciou-se, às quinze horas, regime de prontidão rigorosa para os oficiais, e meia prontidão para o pessoal subalterno.

As prisões das praças prosseguiram, terminando no dia seguinte, vinte e seis, às oito da manhã.

As denúncias, mais as apurações feitas por Hecksher, Cockrane e Mattoso Maia, identificaram diversos oficiais que participariam da conspiração. Alexandrino, sem perda de tempo, comunicou-se diretamente com Bernardes, informando-lhe das prisões que iria ordenar, como resultante

"dos depoimentos das praças presas hontem á noite: Aché, Azeredo Coutinho, Simas de Souza, Edgard de Oliveira, Aldo Sá Brito de Souza e Ary Parreiras."(31)

O Ministro tinha motivos para um relacionamento incomum com Aché, pois quando aspirante, fora aluno do seu avô, que era lente catedrático de Matemática da Escola Naval. Considerando esta lembrança, mandou que trouxessem Aché a sua presença, pois desejava falar-lhe.

O que se passou então, foi relatado pelo próprio Aché, com minúcias, e a jovialidade característica:

"O Hecksher me acompanhou até lá ao gabinete. Então ele [Alexandrino] virou-se para mim e disse assim:

- Sim senhor, seu Aché. O senhor que era um menino tão bonzinho, que se portou tão bem em Sergipe, vai trair os seus amigos, aliciar praças e tudo isso?

Eu digo: - Olha Almirante, eu não traí amigo nenhum, não aliciei um homem, porque nunca procurei nenhum deles para convidar para a revolução, ou dizer que estava na revolução ou não estava. Eu nunca fiz isso. Agora se o senhor dissesse que eu estava metido na revolução, eu diria ao senhor que estava mesmo!

- Ah! Estava?

- Estava sim senhor!

- Corpo de Fuzileiros, sentinela a vista e o diabo!" (32)


 

 

(PARTE FINAL NO PRÓXIMO NÚMERO)

O ATAQUE IMPOSSÍVEL

ANALISANDO A PARTICIPAÇÃO DA FLOTILHA

PALAVRAS FINAIS


NOTAS:

1. Sobre erros e acertos do Senador e Almirante Alexandrino de Alencar, em particular o programa naval de 1910, veja "A Esquadra de 1910 seus Problemas e Benefícios" do Alte Helio Leoncio Martins in Revista do Clube Naval exemplar 297/1995. Lembremos, por outro lado, a criação da ESQUADRA BRASILEIRA, como força de combate organizada, denominação dada a nossa Esquadra pelo Decreto 16623 de out/1924, do Presidente Arthur Bernardes, sendo Ministro da Marinha o Amirante Alexandrino de Alencar.

2.Governo Hermes da Fonseca (1910-1914). O início do governo conheceu os levantes da armada, feito pelos marinheiros, que protestavam contra o regime de castigos corporais. Se o primeiro (em novembro) terminou com a anistia dos revoltosos, o segundo (dezembro) foi violentamente sufocado, custando inúmeras vidas.

3.A apuração dos votos era encaminhada para esta Comissão que tinha poderes para alterar os resultados, o que era feito com freqüência. Exemplo mais expressivo foi no Rio Grande do Sul, único estado em que a reeleição de governador era permitida. Como conseqüência o Dr. Borges de Medeiros governou durante vinte e cinco anos consecutivos. Esta situação só foi alterada como resultado da guerra civil de 1923, em que a reeleição não foi mais permitida.

4.As contradições entre as camadas urbanas e o sistema oligárquico se aprofundaram, aquelas sempre derrotadas por este no mecanismo eleitoral viciado. No Exército, sempre sensível as aspirações dos setores médios, onde era recrutado o grosso da oficialidade, surgiu um sentimento de revolta, por anseio de mudanças - embora de ideologia vaga -, que desprezava a política (como então era feita) e os políticos. Esse descontentamento, mais forte entre os oficiais jovens, gerou o "Tenentismo", responsável, já em 1922, pela Revolta do Forte em Copacabana, da Escola Militar e de parte da Vila Militar.

5.Movimento de inspiração tenentista, os revoltosos protestavam "contra a insensiblidade dos meios políticos, relativamente às aspirações democráticas de livre pronunciamento eleitoral do povo brasileiro, fora dos habituais conchavos dos Partidos Estaduais dominantes."(Hélio Viana, História do Brasil).

6.Eleito em 1922, conforme combinado anteriormente pela "Política do Café com Leite", governou permanentemente em estado de sítio.

7.Durante 23 dias os rebeldes dominaram a capital paulista, quando foi cercada pelas forças federais. Abandonando-a, ainda travaram combates no Paraná e em Mato Grosso.

8.Como movimento, esta revolução foi o desaguadouro de todos os descontentamentos. Sua base política repousava na aliança temporária das facções burguesas não vinculadas ao café - inclusive setores industrializados - com os setores médios urbanos e o grupo militar tenentista. Estes tomaram a ofensiva logo após o triunfo do movimento.

9.Imediato do submersível F-5 e participante ativo do movimento revolucionário na Marinha. Preso na ilha das Cobras, redigiu o seu depoimento que foi publicado no O Jornal.

10.A referência de Sá Britto de Souza a "siderúrgica" diz respeito ao fato de que em 1924 havia uma campanha embrionária para a industrialização do Brasil, e na qual muitos militares do Exército e da Marinha se engajaram. Era decorrência da esquadra que o Brasil recebera da Inglaterra em 1910, e do desenvolvimento tecnológico da 1ª Guerra Mundial, com a introdução dos aviões e tanques como importantes armas. Na Marinha cresceu a necessidade por uma construção naval brasileira própria, mas que sem a produção do aço ficava inviabilizada. O mesmo se passou no Exército que necessitava de tanques e carros de combate, mas que sem uma produção nacional de aço também nada se poderia fazer. Igualmente quanto aos aviões para os dois.

11.Sob o reinado de Alfonso XIII, governou de fato a Espanha de 1923 a 1930.

12.Aprontar-se para a luta.

13.Attila Aché notabilizou-se pelos serviços prestadas ao desenvolvimento do submarino como arma naval. Galgou todos os postos da carreira, encerrada como Chefe do Estado Maior da Armada. Em reconhecimento a Marinha adotou o seu nome para o CIAMA - Centro de Instrução Attila Monteiro Aché.

14.Dados sobre o tender Ceará na Internet, em http://planeta.terra.com.br/relacionamento/submarinosdobr/tender.htm

15.Dados sobre os submersíveis classe F na Internet em http://planeta.terra.com.br/relacionamento/submarinosdobr/classeFF.htm

16.Raul Reis de Souza, do mesmo posto que Aché na época, fez brilhante carreira, galgando todos os postos, culminando com a Chefia do Estado Maior da Armada.