IÇA O DOIS!

Ruídos biológicos de espécies marinhas

Bioacústica submarina  (A Ressurgência - Jan/2003) Iça o dois! abr/2003
Durante estas últimas décadas muitos cientistas vêm escutando os mares e sendo atraídos pelos cliques e canções das baleias, toninhas e golfinhos. Os pesquisadores dos mamíferos marinhos em todo o mundo vêm acumulando e estudando registros dos diversos sons e cantos produzidos por esses animais no mar e em cativeiro, correlacionando-os com as suas características fisiológicas e com as observações situacionais e comportamentais. O grau de inteligência de algumas dessas espécies e a facilidade comum de todas elas de produzirem sons variados, inclusive imitando os sons uns dos outros, têm sido um atrativo para muitos estudos, chegando hoje à existência de uma variedade grande de bibliografia a respeito. Os sons submarinos produzidos por estes cetáceos são muitos variados e freqüentemente intensos, podendo facilmente ser ouvidos por operadores e equipamentos de sonares e identificáveis pelo ouvido humano e nos traços dos equipamentos de detecção. O mesmo ocorre com os sons produzidos pelos peixes de diversas famílias e espécies, cujos sons, embora também variados e intensos, são mais dificilmente identificáveis devido às suas semelhanças com os sons da atividade operativa humana dentro e fora dos navios e submarinos. Alguns sons se assemelham a pancadas, raspões, batidas, "pings" de sonares, etc. Submarinos em baixas velocidades ou pousados no fundo, sistemas de escutas e vigias submarinos de instalações estratégicas, têm que ser operados por ouvidos bem treinados, para não se confundir com os sons dos peixes, que são abundantes e presentes ao longo de todo o dia nas águas territoriais.
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Fig 1. Tanque de aclimatação

Algumas espécies de peixes e crustáceos, ao serem dominantes numa determinada área do fundo do mar, são capazes de produzir coros sonoros em certos horários do dia e da noite, que aumentam em muito os níveis do ruído ambiente submarino, parâmetro este de conhecimento indispensável para qualquer modelagem acústica de propagação do som em águas rasas e modelagens de alcance sonar. Os ruídos biológicos contribuem com uma parcela considerável do ruído amBIENTE em muitas áreas do oceano. Há medidas que indicam um aumento de até 40 dB acima do ruído próprio de uma área, provocada exclusivamente pelo ruído biológico. Devido aos hábitos, distribuição e características sonoras desses geradores de som, certas áreas dos oceanos são mais intensamente insonificadas que outras. O efeito da atividade biológica se faz sentir mais intensamente em águas rasas costeiras do que em mar profundo, e nas zonas tropicais e temperadas do que nas águas geladas. O conhecimento das áreas insonificadas ao longo de uma costa longa e diversificada como a do Brasil e suas variações sazonais, deve ser precedido do conhecimento da grande variedade de espécies marinhas que habitam e dos sons que cada uma produz.

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Fig 2. Sistema de gravação

Em vista da tradicional esperiência da Seção de Recursos Vivos do Departamento de Oceanografia do IEAPM, na captura e identificação das espécies que habitam a costa brasileira, surgiu a proposta deste projeto "Catálogo de Sons de Espécimes Marinhos da Costa Brasileira" visando a criação de laboratórios que hoje permitem a gravação, análise e disponibilização dos sons gerados pelos espécimes marinhos em meios adequados ao uso em sistemas operativos e ao treinamento de operadores de sonares e de sistemas de escuta submarinos. Através deste projeto, está sendo possível criar um banco de dados de sons característicos dos animais marinhos da nossa costa em apoio às operações navais da Marinha do Brasil, tal como é feito nas marinhas dos países mais avançados.

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A aclimatação dos organismos tem sido realizada nas dependências da Unidade de Experimentos Biológiocs - UEB, do Departamento de Oceanogradia do IEAPM, onde os indivíduos são mantidos em tanques circulares de 3000 litros, abastecidos por sistema aberto de água salgada, água doce e aeração, com alimentações apropriadas e controles de limpeza e infecção bacteriológica (Fig 1). Normalmente os sinais gravados são digitalizados para o formato ".wav" não comprimido de modo a não perderem suas características originais (Fig 2)

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E posteriomente são passados por um eventual tratamento de equalização e filtragem, quando necessário, para serem eleiminados os ruídos persistentes, estacionários, sabidamente não pertencentes ao sinal estudado. Somente então são finalmente regravados os sinais trabalhados, digitalizados e analisados Fig acima e abaixo), denunciando suas variadas faixas de freqüências, componentes principais e harmônicos, modelos de envoltórias, amplitudes, durações e taxas de repetição, a partir das quais são feitas as suas representações e estudos no domínio do tempo e no domínio da freqüência.

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As representações têm posto à mostra uma variedade de tipos de envoltórias e uma ampla diversidade de componentes de freqüências nos espectogramas. Algumas espécies são particularmente abundantes em variedades de sons produzidos. Há casos em que uma única espécie gera de 6 a 8 tipos diferenciados de sons, provavelmente por mecanismos diferentes. E em muitos casos têm sido poddível relacionar o tipo de som gerado com o comportamento de ataque, defesa, fuga, intimidação, competição, alimentação, etc., embora este não seja ainda um objetivo do atual trabalho.

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Nota: Embora com limitações de recursos materiais e humanos, o IEAPM vem conseguindo vencer as etapas para a consecução dos objetivos do projeto do catálogo de sons. Foram estudadas e definidas as metodologias de abordagem do problema, montadas e testadas as instrumentações, realizados testes objetivos e iniciados os trabalhos de gravação e análise com resultados satisfatórios na formação de um banco de sons e adquirida uma boa experiência prática no assunto. Tudo isso ainda depende de aperfeiçoamentos que serão indicados e até impostos pelo decorrer dos trabalhos. Já estão definidas algumas necessidades futuras de equipamentos complementares tanto para repor os atuais em caso de pane, como para se preparar sistemas portáteis para campanhas em navios e outras localidades. Do bom andamento deste projeto depende a possibilidade de a Marinha do Brasil poder contar pela primeira vez com um banco de dados próprio de sons produzidos por organismos marinhos da costa brasileira e posto à disposição dos sistemas operativos e dos instrumentos de ensino e formação de pessoal treinado para escuta submarina.

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