O SERVIÇO DE SUBMARINOS

Reminiscências:                                                     CMG(RRm) Carlos Balthazar da Silveira
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Foto: arquivo da revista

No dia 19 de julho, eu assistia à comemoração do 82º aniversário da Força de Submarinos na ilha de Mocanguê, com a presença do Ministro Mauro César, de vários Almirantes e de toda a família submarinista.

Olhando em volta, verifiquei que eu era o mais antigo, o mais velho dos submarinistas presentes. Vieram à minha memória os fatos mais marcantes dos primeiros dias dos submarinistas na ilha de Mocanguê.

Se o primeiro Chefe da família submarinista foi o exemplar Felinto  Perri, não se pode hoje falar em Serviço de submarinos - Flotilha, Força, Escafandria, Mergulho e todas as atividades sob o mar - sem mencionar o nome de Átila Monteiro Aché. Graças ao seu indiscutível prestígio na Classe Naval, conseguiu aglutinar os submarinos em uma base modesta com claro propósito de expansão.

Vale lembrar que a Flotilha de Submarinos era composta dos submarinos F.1,  F.3 , F.5 (que deram baixa no final da década de 30); do HUMAITÁ; dos TUPI, TIMBIRA e TAMOIO; do Tender CEARÁ; e da Base de Submarinos, que nada mais era do que um alojamento para oficiais e praças e de um espaço onde os Comandantes despachavam. A Base ocupava as dependências da Patromoria do Arsenal da Ilha das Cobras e, dadas as   limitadas condições de conforto dos navios, oferecia ao pessoal alojamento e rancho.

Os submarinos classe "F" e "T" foram construídos na Itália para operação no Mediterraneo e, consequentemente, para missões de curta duração de tempo. É verdade que na Segunda Guerra Mundial alguns submarinos italianos, semelhantes aos nossos classe "T", operavam na nossa costa, mas sabe Deus com que sacrifícios e com resultados muito modestos. Esses nossos submarinos, tratados como jóias pela suas guarnições, nos ensinaram a mergulhar.

O velho HUMAITÁ, também italiano, era chamado de ALTO-MAR. A viagem inaugural, sob o comando do grande chefe Alberto Lemos Basto, foi direto de La Spezia ao Rio. Na realidade, ele era um protótipo e cabia-nos experimentá-lo; mas, como todos os sonhos de grandeza do fascismo, foi um fracasso.

Tender CEARÁ foi uma esmola dos aliados em reconhecimento à participação da nossa DNOG (Divisão Naval de Operações em Guerra), sob o comando do Alte Pedro Max Frontin na Primeira Guerra Mundial, no patrulhamento das águas de Cabo Verde a Dakar e do acesso ao Mediterrâneo.

Diante desse aglomerado tão heterogêneo, o velho Aché - como carinhosamente o tratávamos - não teve dúvidas em procurar um sítio, onde a profissionalização fosse realmente possível. E, assim, começa o sonho de um serviço realmente eficiente.

A clássica pobreza de recursos não desanimou o Chefe. Devagar e sempre. Um prédio por semestre. O Chefe foi promovido a Almirante sem ver a concretização do seu projeto. Entretanto, afastado do comando da Flotilha, por força de sua elevação ao Almirantado, não deixou de lutar pela efetiva profissionalização do serviço de submarinos.

Coube ao então CMG Nelson Noronha de Carvalho, como Chefe da Flotilha, logo nos primeiros dias de seu comando, determinar a ocupação das instalações embrionárias. Designou o 1º Ten Augusto Cláudio Vergueiro e o 1º  Ten-Dentista Zetho Caldas como os "colonizadores" e deu-lhes um efetivo de dois sargentos e uns vinte marinheiros. O tanque de diesel para a cozinha ainda não tinha sido construído; a água chegava de barca, após o que sobrava do abastecimento ao Centro de Reparos, depois denominado "Morais Rego"; o consultório dentário ainda não saíra da prancheta dos engenheiros.

Ao 1º Ten (CD) Zetho, porque morava em Niterói, onde conhecia todo o mundo e possuía uma bela calva, cabia a função de Prefeito. Sua paixão pelo verde trouxe do Horto Florestal de Niterói a quase totalidade das árvores que hoje tanto nos encantam; o incansável Prefeito Zetho... Aos mais jovens leitores devo esclarecer que, na época, o prefeito do Rio era o Gen. Mendes de Moraes, cuja calva era a delícia dos cartunistas de então.

O 1º Ten Vergueiro, escafandrista e submarinista, era o colega de trato mais agradável, gentil, prestativo, simpIes, competente, capaz de, como hoje se diz, "dar nó em pingo d'água".

Três meses após a sua instalação (?) em Mocanguê, o Ten Vergueiro veio ao Rio dizer ao Chefe Noronha que estava pronto para receber o primeiro submarino na nova base. O submarino TUPI, sob o comando do então CC Quintanilha, foi o escolhido; o píer de então era perpendicular ao cais; os "T" não eram diesel-elétrico; o problema era não desperdiçar o "ar de partida"; os navios atracavam de popa com duas espias para o píer, um para cada bordo, e, na proa, as espias gurniam em duas bóias. Como chefe de máquinas, eu mantinha as ampolas de ar de partida "em cima"; meu comandante era ótimo marinheiro, não iria dar passinho para a frente, passinho para "atrás", máquinas adiante, pára máquinas, máquinas para atrás etc. etc.; não poderia dar chance ao azar, permitir que a popa atingisse o frágil píer. Na proa, um marujo em cada bordo portava uma retinida, pronto a cair n'água e passá-la na bóia para completar a amarração. Tudo terminou da melhor maneira, como, aliás, ocorreu depois com o meu HUMAITÁ (fleet-type), inaugurando, sob o meu comando, o novo cais da BACS.

Após a bela atracação do CC Quintanilha, dirigimo-nos para as instalações onde deveríamos dormir, o que não aconteceu porque perdemos a guerra com os mosquitos.

Quanto ao rancho não havia surpresas: era churrasco (?) todo o dia, sem variar, acompanhado de farinha, em prato de papelão.

A condução para terra era eventual: ficávamos no extremo do píer diante da Ponta da Areia e acenávamos para as lanchas da Base Moraes Rego ou dos estaleiros Mauá ou M. S. Lino, pedindo uma caridosa carona. Outras vezes, pegávamos qualquer embarcação para o cais na Ponta da Areia, afretando caíques a dois mil réis per capita.

A água era mais rara do que no Oriente Médio; banho só nas nossas residências.

Os limites da Base de Submarinos e a Base Moraes não estavam claramente estabelecidos. Admitíamos como fronteiras uma carreira de árvores. O Comte Nelson Noronha quis examinar o terreno in loco. Subiu o morro acompanhado do seu ordenança e mais um marujo que descuidadamente lhe cortara a proa. Qual não foi a sua surpresa quando, já nos terrenos que atribuíamos à Base Moraes Rego, encontrou uns quatro barracos e foi recebido à bala. Desceu o morro e, agora acompanhado de uns tantos oficiais e praças, enfrentou, também à bala, os ocupantes dos barracos, que ali tinham seus "lares".

Esse início difícil, cheio de problemas de toda a ordem, serviu para cimentar amizades, que os ventos, que tanta turbulência trouxeram à vida nacional, não conseguiram minar. Envaidecia-nos a missão que recebêramos.

Vimos, sem solução de continuidade, o aprimoramento do serviço, principalmente quanto ao emprego do navio, com o propósito de bem servir à Marinha. Não como apêndice; porém como parte integrante.

Na festa do 82º aniversário da Força de Submarinos, lembrei-me da primeira festa realizada na BACS em 1951, quando o então Comte Jorge Leite resolveu convidar todos os submarinistas para um almoço de congraçamento. Como seu assistente, ouvi um oficial perguntar-lhe se um colega atingido pelo célebre art.177 (a cassação da ditadura Vargas) seria convidado. O Chefe Jorge Leite respondeu com toda a simplicidade: - se ele é submarinista, está convidado. Temos de fortificar nossa família.

Sim, no dia 19 de julho, eu vi uma grande família reunida, cantando alegremente o "Glória, glória à Flotilha de Submarinos", e saudosamente eu não pude deixar de lembrar alguns colegas da minha geração que tanto contribuíram para difundir as táticas operacionais e o adequado emprego dos submarinos na guerra naval.

O projeto do Alte Aché prossegue: um eficiente e consciente serviço, respeitado, não pelo seu volume, porém por sua gente e seus meios; firme na senda do progresso; vivendo o hoje com firmeza e clarividência, porque o amanhã não está distante.

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