O Libelo
                                                             CAlte (RRm) Sb Capetti

IÇA O DOIS!                                           NR 6 JAN/2003

Iuri Kapetievski Silva vivia num país grande, com extensa costa, maritimidade saltando aos olhos, riquezas imensuráveis, ainda que não devidamente exploradas, verdade é que com sérios problemas econômicos, principalmente devido à falta de cultura e vontade política de suas elites em cristalizá-lo em uma grande nação.

Filho de pai estrangeiro, Iuri herdara de sua mãe grande amor à pátria e eterna vontade de lutar e fazer sua terra natal cada vez melhor. Para isso, se engajava com denodo, começando pelo campo de suas atividades profissionais, como primeiro combate. Se especializara em submarinos, meio naval apropriado para às "águas azuis" que caracterizavam sua Marinha.

Eram poucos os submarinos que constituíam a frota de seu país, cuja Marinha de Guerra, muito embora com nascente capacidade para construí-los, e até caminhando para proporcionar-lhes propulsão nuclear, não contava com um sistema formal de qualidade.

Isto incomodava muito a Iuri, que buscava, na literatura especializada estrangeira, as fontes de conhecimentos que alimentavam seu espírito pesquisador, mas contribuía, cada vez mais, para aumentar sua angustia, fruto de saber que sua Marinha precisava de tal ferramenta, mas não via tendências para concretizá-la. Mais ainda, pensava o pobre marinheiro, era um descaso para a segurança daqueles que punham suas vidas ao serviço da pátria.

Iuri já lera tanto sobre o assunto, estava tão convencido da necessidade de formalizar o sistema de qualidade, que julgava ter ultrapassado o patamar dos inocentes, para situar-se no dos insipientes, e por isso buscava mais e mais aprimorar seus conhecimentos, disseminando-os de todas as formas que podia, às vezes até sob as penas da monotonia, na esperança de ver as autoridades a quem competia analisar tais aspectos e decidir quanto à implantação de tal sistema, contestar sua necessidade, ou assumi-lo de vez, partindo para seu desenvolvimento.

O que Iuri não suportava mais era a acomodação ou o cinismo oportunista, máscaras da incultura, que dizia sempre ... já temos, já fazemos, para que mais?

É dele a história que vou transcrever a seguir, da obra Atakuyut Podvodniki, numa edição recentíssima que me chegou às mãos, não sei como, mas que tive a desventura de perder, por deixá-la, descuidadamente, num desses pequenos lotações (vans) que sempre me levam à cidade, e que não mais consegui recuperar. Por isso, pensei, melhor transcrever alguma coisa do que já tinha lido, antes que me fugisse da memória. Depois de descrever parte de sua vida, e de seu ingresso na Marinha, em certa parte da obra Iuri desabafa:

"Muito me incomoda chegar o novo ano, o novo século, o novo milênio, e a minha Marinha não ter formalizado um sistema de qualidade, muito embora alguns passos já tenham sido dados nesse sentido - tanto é que o nosso Estado Maior Geral publicou, recentemente, instruções de como conduzir um gerenciamento moderno, dando ênfase ao comportamento humano e a postura administrativa.

Muito interessante, uma vez que a organização da Marinha que sirvo é realmente administrativa. Não temos ameaças com alto grau de risco, não temos "inimigos a vista", e felizmente não temos pretensões de polícia do mundo, que leve nossas forças armadas a viverem em permanente estado de alerta, num ambiente de estrutura de guerra. Tudo isto, aliado à falta de recursos adequados para aparelhar nossos ramos de serviços em decorrência, em grande parte, do despreparo proposital de certas elites, principalmente as governantes, muito pela inveja do comportamento digno e eficiente de nossas instituições militares, além do permanente estado de medo da canalha aproveitadora, sempre na expectativa de um inopinado contragolpe sobre suas posturas corruptas, pautadas pelo egoísmo e o impatriótico, são os principais fatores que, no meu país, apequenam a dimensão do nosso poder marítimo - haja vista que não só da Marinha de Guerra, mas o estado da nossa Marinha Mercante, dos portos e demais componentes desse poder, servem de testemunha atualizada do desempenho dos nossos dirigentes.

Isto explica, em grande parte, a pequena dimensão da nossa Marinha de Guerra. Mas não justifica, de maneira alguma, que por pequena, seja desprezada. Para ela, como as demais forças armadas, buscamos dar vida, dentro da sua destinação maior, com a qualidade que a nação de que sou filho, merece.

Por isso tudo, nos esforçamos, na nossa Marinha de Guerra, para fazer sempre o melhor. Por isso, eu me esforço para que nela seja instituído um sistema formal de qualidade, que englobe, além dos aspectos administrativos (vital para o progresso, porque indica e enfatiza um padrão de comportamento para o ser humano, sem o qual nenhum aperfeiçoamento irá para frente), também os aspectos técnicos do material, através de procedimentos que visem a otimizar seu emprego (as operações).

Um grande passo foi dado - minha Marinha estabeleceu um padrão de comportamento para o ser humano, orientando, formalmente, um padrão de gestão moderna. Mas, e o resto? - Sinto que alguns companheiros, por inocência, ignorância ou acomodação, pensam que estabelecida a postura do ser humano, o resto vem naturalmente. Não vem, não! Não vem porque sem cultura e sem vontade política, as pessoas não vão sequer querer saber qual é o "resto".

Li, a respeito de qualidade, em recente publicação pela mais poderosa nação da atualidade, quais podem ser as conseqüências de falhas em relegar a qualidade, principalmente em atividades potencialmente muito perigosas. Transcrevo três acontecimentos ilustrativos, e acrescento outro, cujo protagonista é do mesmo país:

  • (1) Em 10 de abril de 1963, quando realizava mergulho profundo de suas provas de mar, ao largo das costas do Maine, ocorreu um alagamento acidental na praça de máquinas do submarino USS THRESHER (SSN 593). A causa mais provável para a perda do navio e de todos a bordo (123 pessoas) foi a ruptura de uma canalização de um dos sistemas de água salgada. A detalhada investigação que se seguiu recomendou várias alterações nos processos de projeto e de manutenção de submarinos, dando origem ao Submarine Safety Program (SUBSAFE), como é conhecido até hoje.

  • (2) aos 28 de janeiro de 1986 o ônibus espacial Challenger, lançado do Cape Canaveral explodiu, 73 segundos em vôo, matando sete astronautas.

    Aos 6 de junho de 1986, uma comissão Presiden- cial conclu-iu que a causa do acidente foi a falha do selo de pressão localizado numa junta no terço inferior da parte de ré do foguete propulsor direito.

    A baixa temperatura teria contribuído para a falha.

    Nem a National Aeronautics Space Administration, nem o fabricante do foguete,desenvolveram uma solução para a ocorrência inesperada da erosão e suas conseqüências, muito embora este desgaste ocorresse com freqüência durante toda a história dos vôos do ônibus espacial. A comissão concluiu que um programa de qualidade teria acompanhado e descoberto a causa da crescente erosão e suas conseqüências. Ainda mais, descobriu a comissão que a pressão decorrente dos programados 24 lançamentos por ano criara um clima de tensão que diretamente contribuíra para a insegurança dos lançamentos. Em resumo, se instalou a síndrome do "já tivemos este problema antes, e o risco é pequeno". Os requisitos de segurança e técnicos se tornaram secundários em face das responsabilidades operacionais.

    A explosão da Challenger

    O ACIDENTE DO IWO JIMA

     

    • (3) 30 de outubro, 1990. Um grave vazamento de vapor ocorreu na praça de caldeiras do USS IWO JIMA (LPH 2) resultante na morte de 10 pessoas em serviço. As investigações mostraram que a causa da falha foi o colapso das peças de fixação da capuchana de válvula principal da turbina do grupo turbogerador de serviço. Esta válvula havia sido reparado pelo estaleiro e os fixadores colocados eram de material inadequado e incorreto. Os fixadores corretos deviam ser estojos e porcas de aço com tratamento de calor, enquanto os usados eram uma mistura de parafusos, estojos e porcas de latão oxidadas ao negro.

     

Assim, as altas temperaturas e pressões que atuaram sobre as peças fixadoras quando a planta foi posta em funcionamento ocasionaram o colapso catastrófico das porcas de latão, o que acarretou que a capuchana da válvula fosse arrancada e separada do corpo da válvula. As peças fixadoras foram fornecidas pela Força a qual pertencia o navio, mas ninguém, do navio ou do estaleiro, as verificou, antes da instalação, para certificar-se de que atendiam às especificações dos manuais técnicos e desenhos da válvula.

 

A esta lista acrescento a perda do submarino Scorpion, aos 22 de maio de 1968, com 99 homens a bordo, havendo suposições quanto à falhas da qualidade, além do não ter recebido um período de reparos normais adequado, sendo recordista de Período de Manutenção mais curto na história dos submarinos nucleares. Esses e fato de não ter atendido ao programa SUBSAFE, foram fatores que podem ter contribuído para seu afundamento, com 99 homens a bordo.

Naquele grande país algumas lições foram aprendidas. A perda do THRESHER, por exemplo, deu origem ao sistema SUBSAFE., acrônimo para Submarine Safety, que se aplica a todas as classes de submarinos e tem por finalidade prover alto grau de confiança nas condições do material dentro da envoltória de integridade do casco resistente e na capacidade dos submarinos em recuperar-se de alagamentos e acidentes com seus lemes horizontais, que o ponham fora de controle, de modo que possam operar sem restrições até sua profundidade de teste.

O Sistema de segurança assim instituído cristaliza-se pela execução do programa SUBSAFE, e através a certificação segundo critérios pré-definidos, garante a segurança do submarino, ou quaisquer outros veículos que mergulhem a grandes profundidades (mais que 200 pés)

Mais ainda, visando à segurança, e em decorrência da análise do acidente, foram identificados e classificados materiais como críticos, o mesmo ocorrendo com certas áreas dos submarinos, como por exemplo, sua envoltória de segurança, áreas de antenas, área da propulsão nuclear, etc, que passaram merecer tratamento especial, com cuidados multiplicados.

Além de muitas outras medidas foi, finalmente, instituído um sistema permanente de Auditoria da Qualidade, para assegurar que a Qualidade esta está sendo alcançada e mantida.

Agora, pergunto: - Porque minha Marinha não tem algo semelhante?

Perdeu-se, recentemente o Kursk. Certamente vieram a tona problemas de qualidade.

 

Uma nave espacial americana  explodiu há pou- cos dias.   

Ouso pensar, sem saber ainda quais os motivos da catástrofe, que problemas de qualidade poderão evidenciar-se.

Um outro ponto que causa minha perplexidade, é o fato de que, como nas operações com aeronaves, sejam civis ou militares, que dispõem de mecanismos de análise e prevenção de acidentes aeronáuticos, também a operação de submarinos em nações adiantadas contam com centros de segurança para inspecionar e prevenir acidentes com submarinos. Volto a perguntar: - Porque a minha Marinha não conta com mecanismos desse tipo? Será que nossas vidas têm menor valor?

Das minhas leituras deduzi que nas Marinhas adiantadas, que operam submarinos, todo esse sistema formal de qualidade foi, sistematicamente, se concretizando, em função da evolução dos conhecimentos que foram sendo adquiridos ao longo dos anos, e quando a grande contribuição derivou do fato de construírem submarinos, daí inicializando-se todo o processo de organização e formalização das atividades da qualidade.

Percebo, por outro lado, que na minha Marinha, onde os primeiros passos para a construção de sofisticados meios navais já foram dados, devemos estar dando, simultaneamente, os passos iniciais para o estabelecimento de uma estrutura de qualidade como a existente nas demais Marinhas dos países altamente industrializados, do chamado primeiro mundo, que constróem submarinos. E aí me pergunto:

- será que temos que trilhar os velhos caminhos? Não podemos aproveitar a experiência dos outros, e queimar etapas, chegando à modernidade mais rapidamente? Não é assim que o progresso se materializa e se propaga? Ou vamos ignorar o resto do mundo e fazer nosso próprio caminho?

Pois é isso que parece acontecer na minha Marinha! Os conhecimentos estão disponíveis, a necessidade pode ser determinada, construímos navios de superfície e submarinos, estamos desenvolvendo a propulsão nuclear, operamos helicópteros e aeronaves de asa fixa, entre muitas outras modernidades, e não temos um sistema formal de qualidade! (Insisto no "formal", pois que para constituir um verdadeiro sistema de qualidade, ele tem que ser formal, escrito, documentado!)

Uma coisa é certa. Um navio só pode ser tratado adequadamente quando se o conhece de corpo e alma. Quando o idealizamos, projetamos, construímos e o operamos até o final de sua vida, ele será, certamente, o que tem a maior probabilidade de dar certo. Ë o conceito do "ciclo de vida". Construímos, e saberemos como manter! As duas atividades são inseparáveis! A manutenção é uma suave seqüência de eventos, nascida no berço, na concepção do meio, e que acontece ao longo dos períodos tanto operativos como para a própria manutenção, mas inteiramente dependente da organização durante a construção. E tudo isso tem que nascer com qualidade, e só um sistema formal de qualidade pode garantir sua perenidade no "ciclo de vida"!

Mas para que tudo isso ocorra, a minha Marinha tinha que ter a vontade política de começar a organizar, integrando tudo aquilo de bom que já estabelecemos. Quando digo que a Marinha tem que ter vontade política, me refiro a vontade de todos nós. Se o sistema formal de qualidade não puder ser implantado de cima para baixo, vai sê-lo de baixo para cima . Cada um de nós partirá para acrescentar alguma novidade às atividades normais do dia a dia, e em determinados instante, a alta administração da Marinha passará a assumir o problema, organizando o caos que terá se estabelecido, formalizando o sistema de qualidade e implementando-o. Como aconteceu com a Informática na minha Marinha! Mas, até lá, quanta aflição, quanta angustia. De minha parte, a mais profunda decepção pela falta de consideração para com nossas vidas, pois trabalhamos em uma atividade potencialmente perigosa, e qualquer medida para amenizar tal característica que não seja tomada pelas autoridades competentes, configura-se em negligência, o que, por sua vez, é crime."

Há outras passagens interessantes do livro, como a descrição da vida a bordo dos submarinos de ataque de sua Marinha, que vou tentar reconstituir, tanto quanto a memória me permita. Não sei se vou consegui-lo, pois não têm tanto apelo quanto o desabafo relatado, para mim tão marcante, que creio possa servir para a meditação dos nossos profissionais no assunto. Leiam, meditem, mas não se omitam. Aqueles que não concordarem com o libelo de Iuri, que argumentem contra seus ideais e suas idéias. Mas aqueles que reconhecerem a necessidade indicada pelo zeloso submarinista, desenvolvam as idéias e lutem, para que a nossa Marinha de Guerra se aprimore cada vez mais, instituindo seu sistema formal de qualidade.

Os submarinistas podem ser os catalizadores para a concretização deste sonho de qualidade!