O que é modernização?
Periscópio 56  2003                  CC Enéas Tadeu Fernandes Ervilha

INTRODUÇÃO

O famoso Dr. Lair Ribeiro, conhecido por seus livros e palestras sobre auto-ajuda, afirma que sorte, na acepção aleatória da palavra, não existe. Para ele, sorte é o encontro da oportunidade com o conhecimento. O artigo que se segue começou "quase" assim, quando, há cerca de dois anos, fui interpelado pelo AE Arlindo, nas dependências do Comando de Operações Navais:

"- O que faz um corveta submarinista nos corredores do CON?"

"- Excelência, estou participando do Grupo de Trabalho para a modernização dos submarinos classe "Tupi"!" - acho que não consegui disfarçar certo orgulho.

"- Ah, é? E o que é modernização?" - essa foi inesperada. Aí estava uma oportunidade. Eu só precisava agora demonstrar conhecimento:

"- Modernização é a garantia da continuidade de operação do meio!" - silêncio no circuito.

"- Negativo! Modernização é o conjunto de mudanças nos sistemas e armamento para atender aos Requisitos de Alto Nível. Ainda é muito cedo para mudar os requisitos." - e, retomou seu caminho, deixando-me com um turbilhão na cabeça. Por que minha resposta estava errada? Se era cedo para mudar os requisitos, por que o GT? E o pior, por que me colocaram nesse GT?

OS NAVIOS MODERNOS E OS COMPUTADORES

Lepanto foi a última batalha naval da História em que se utilizaram embarcações a remo, entre os turcos e venezianos, no ano de 1571, dando lugar à vela. Cerca de duzentos e cinquenta anos depois, a Batalha Naval de Trafalgar, por sua vez, marcou o último embate entre navios a vela, opondo a Inglaterra à França, em 1805. Sessenta anos depois, na Batalha Naval do Riachuelo, em 1865, os navios encouraçados a vapor decretaram definitivamente o sepultamento dos navios de madeira como navios de guerra. Vemos que o intervalo entre as substituições na concepção dos navios de guerra tem se reduzido cada vez mais, fruto de um acelerado avanço tecnológico. No caso dos submarinos, a evolução foi ainda mais drástica. Em apenas um século de evolução, o submarino tornou-se o navio mais letal até hoje conhecido, capaz até de, sozinho, contribuir decisivamente para a dissuasão estratégica.

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Figura 1 - Submarino "TIMBIRA" na superfície.

Mas, e hoje, onde está essa evolução? O casco de aço já existe desde o século XIX, bem como o hélice; os pacotes de propulsão a turbina, diesel e com motores elétricos predominam largamente há pelo menos trinta anos; desde a 2ª GM não se inventam sensores além do sonar, radar, MAGE e periscópio, bem como os armamentos continuam a se chamar torpedos, minas, canhões, bombas, foguetes e mísseis. É óbvio que nos abstraímos da tremenda evolução sofrida em cada um desses itens, desde a qualidade do aço utilizado, novas ligas, soldas, formatos de hélices com muito maior rendimento hidrodinâmico, motores híbridos e células de combustível, sensores e armamento cada vez mais eficazes e eficientes. Vemos, portanto, que a tecnologia espalhou-se por todos os cantos dos navios. Equipamentos antes duráveis e robustos cedem lugar a equipamentos modernos, com pequenas mas altamente eficientes inovações, porém sempre de caráter efêmero. A eletrônica invadiu e conquistou uma posição hegemônica a bordo. A revolução da eletrônica tem arrastado não somente a indústria de computadores, mas particularmente as indústrias bélica e naval.

Na busca da atualização do estado da arte, teríamos a opção de comprar os melhores componentes quando e onde os mesmos forem produzidos, ou, por outro lado, poderíamos esperar que o conjunto de inovações justificasse o investimento requerido para a referida atualização. Em última análise, poderíamos até ficar usando o que temos e, quando a obsolescência tornar-se inaceitável, partiríamos então para uma nova aquisição. Neste parágrafo, omiti propositadamente o objeto em questão. Convido o leitor a voltar ao início do mesmo e raciocinar como se estivéssemos falando de um computador pessoal. Acredito que a maioria já enfrentou esse problema decisório. Na época dos saudosos "486", a mudança para o "Pentium" representava a incerteza do investimento. Muitos perderam tempo e dinheiro tentando fazer o "upgrade"; outros preferiram ficar no "486", quer por razões econômicas, ou por falta de confiança nos "Pentium" (lembram do tão falado problema de superaquecimento da placa-mãe?), mas logo perceberam que os novos programas não eram mais compatíveis com as antigas máquinas. O resultado é que a indústria parou de produzi-los e seus usuários, ou partiam para comprar outro computador ou paravam de usá-lo por falta de peças.

Eis a chave de minha resposta. Falar em modernização, para mim, naquele momento, significava falar na sobrevivência logística dos submarinos da classe "Tupi", muito mais do que propor alterações tecnológicas de grande monta, decorrentes de eventuais alterações de seus Requisitos de Alto Nível (RANs). Ao mesmo tempo em que tive que me render à força da resposta doutrinária, senti-me com "sorte", pois as reflexões posteriores sobre o assunto me levaram a delinear um novo enfoque para o conceito de modernização: além de considerar o aspecto já mencionado dos RANs, não podemos deixar de olhar para o aspecto da MODERNIZAÇÃO LOGÍSTICA.

A NECESSIDADE LOGÍSTICA DE MODERNIZAÇÃO

Navios, em geral, e submarinos em particular, requerem um longo período entre o projeto e a operação. Nossos submarinos da classe "Tupi", cuja construção iniciou-se em meados de 1985/86, provavelmente foram projetados entre o final da década de 70 e início dos anos 80. Conseqilentemente, a tecnologia de sua concepção baseou-se no estado da arte correspondente, no máximo, ao início da década de 80. Nesses 20 anos de projeto, vivemos intensivamente o período de globalização: incorporações, fusões, aquisições, vendas, falências, reengenharia, troca de proprietários, "downsizing", redução de custos, terceirizações e outras ações correlatas foram tomadas por organizações, empresas e governos, na busca desenfreada de adaptação às necessidades dos mercados. Após essa constatação, seria coerente imaginarmos que as empresas componentes do consórcio alemão construtor do primeiro da classe e fornecedor dos equipamentos e sistemas dos demais, está pronto, hoje, a continuar fornecendo itens sobressalentes de manutenção, equipamentos de reposição e parque de reparos de 4° escalão? Por mais que se esforce, provavelmente muitos fabricantes nem existem mais, mudaram de ramo, mudaram sua linha de produção. Não importa o quão competente sejamos, a pressão por mudanças vai tornar-se insuportável a curto e médio prazos. Ficaremos então com o" 486" no cais, nem tanto pelos RANs, mas certamente pela obsolescência de um conjunto de equipamentos.

Ao aceitarmos o argumento de que a obsolescência será atingida cada vez mais rapidamente, temos que buscar alternativas para evitar chegarmos a essa situação, aplicando a noção do conceito de modernização logística: identificar equipamentos e sistemas com potencial de descontinuidade de produção e/ou reposição de peças, planejando sua substituição tempestivamente. Para que o planejamento seja eficaz, devemos definir o momento em que as referidas substituições serão executadas. 

Considerando que a similaridade da comparação com o caso dos computadores começará a divergir, pois a opção de usar um submarino até seu esgotamento e posterior baixa não parece ser a solução mais econômica, teríamos as seguintes opções: executar a chamada modernização de meia-vida (uma MODSUB, nos termos da MODFRAG), ou aproveitando os períodos de manutenção já previstos no PROGEM (PMA,PDR ou PMG) para a execução de uma modernização paulatina e contínua.

A modernização de meia-vida pode trazer os seguintes inconvenientes: necessidade de concentrar recursos volumosos devido ao conjunto de alterações; tendência a se estabelecer prioridades em detrimento das necessidades; e planejamento de obras complexo, com possibilidade de imobilização excessiva do meio, pois os submarinos não se prestam a absorver grandes contingentes de mão-de-obra em serviços paralelos, pelo simples fato de falta de espaço físico a bordo.

A modernização paulatina, por sua vez, pode trazer as seguintes vantagens: os recursos podem ser distribuídos durante sua vida útil; os períodos de reparos permitem que as pequenas modificações recebam a prioridade devida nos períodos menores (PMA, PDR), sendo o PMG reservado para as modernizações maiores; a troca de equipamentos pode encurtar períodos de reparo, por dispensar o tempo de revisão do equipamento substituído no cronograma de obras; permite a aplicação imediata dos equipamentos retirados para aumentar o estoque do SAbM, servindo para atender à demanda dos submarinos ainda não modernizados. Embora as alterações de grande monta possam, eventualmente, afetar prazos do PROGEM, provavelmente reduzirão menos a disponibilidade total do meio em comparação com a MODSUB.

Dessa forma, a comparação acima permite inferir que a modernização logística deva ser um processo contínuo e planejado, sendo que as modificações decorrentes do meio devem ser efetuadas durante seus períodos de manutenção previstos no PROGEM.

O PROCESSO DA MODERNIZAÇÃO LOGÍSTICA

Apesar do principal propósito deste artigo ser apenas o de contribuir para fornecer um novo enfoque da questão da modernização dos submarinos, não poderia me furtar em sugerir um dos possíveis caminhos para a implantação do processo, enfocando uma crença pessoal de que "Quem projeta tem que conhecer quem constrói, quem repara e quem usa; quem constrói tem que ajudar quem projeta, saber reparar e conhecer quem usa; quem repara tem que ajudar quem projeta e quem constrói, e conhecer quem usa; finalmente, o usuário tem que ajudar a todos os demais".

Assim, ao Setor Operativo caberia identificar e filtrar as reais necessidades de seus meios, incentivando-se nessa fase os contatos técnicos junto aos setores de reparo, técnico e de abastecimento. Confirmada a necessidade de uma ação de modernização, o respectivo ODS técnico passaria a analisar mais a fundo a questão, emitindo no final um parecer e o levantamento de custos. Em paralelo, o Centro de Projetos Navais, o 8°DN (Gerência de Itens Menores) e o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo estariam participando ativamente do processo, oferecendo alternativas técnicas e/ou de fornecedores, validando equipamentos e sistemas intencionados para o SMB-10, com a dupla vantagem de se beneficiarem com a aquisição de conhecimento de interesse e de contribuírem para o aprimoramento dos submarinos em operação.

Com algumas pequenas ressalvas, podemos constatar que o processo acima é praticamente uma proposta de MODTEC, baseada no aspecto logístico do equipamento ou sistema. A variação, no caso, e podemos estar diante de uma evolução no processo das morosas propostas de MODTEC, é envolver os setores de reparo e os de projeto de nossos futuros submarinos, aliviando parcialmente a pressão sobre os ODS.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Segundo a apurada análise do Almirante Vidigal em "Evolução do Pensamento Estratégico Naval Brasileiro", a Marinha sempre teve dificuldades em esclarecer o povo e seus representantes parlamentares sobre a necessidade de um Poder Marítimo condizente com a própria vocação marítima de nosso comércio. Talvez por sua não menor envergadura continental, os olhos da nação nunca se detiveram por muito tempo voltados para o mar. Ontem foi assim, hoje continua sendo e a prudência indica que não devemos ficar muito esperançosos em relação aos futuros orçamentos.Não obstante, dificuldades existem para serem superadas.

Especificamente em relação a nossos submarinos, o esticamento do orçamento necessariamente passa pela Logística. Nosso desvinculamento da total dependência dos processos de obtenção de sobressalentes é recente, ainda segundo o Almirante Vidigal, ganhando força a partir de 1977, quando partimos para a Europa em busca de meios com maior grau de tecnologia incorporada. O problema é que a filosofia quanto ao estoque de sobressalentes lá também é outra, baseando-se cada vez mais no processo "just in time" (no qual o fornecimento de sobressalentes é efetuado momentos antes de sua utilização, reduzindo ao mínimo o capital imobilizado em estoques. Não é desejável que um meio em reparo tenha que esperar um pedido de sobressalentes correr canal, o recurso ser alocado, a encomenda efetuada, a fabricação, o envio, o desembaraço alfandegário e, finalmente, a entrega. E isso tende a acontecer mais vezes, conforme o meio vai envelhecendo, os equipamentos vão saindo de linha, os fornecedores e fabricantes vão se tornando "voláteis". O esforço logístico despendido aumenta o tempo de fornecimento e o custo de obtenção também acaba aumentando, assim como o período de indisponibilidade do meio.

Existe um dito popular: "No final, tudo acaba bem. Se não está bem, é porque ainda não chegou o final". Baseado nisso, temos muito trabalho pela frente. O tratamento dado até hoje à questão do processo de obtenção de sobressalentes foi, sem dúvida, louvável, até eficiente. No entanto, estamos ainda muito longe da eficácia. O problema de atingir a eficácia com poucos recursos é o grande desafio, pois ao mesmo tempo em que buscamos nacionalizar sistemas, subsistemas, equipamentos estratégicos, ainda pecamos em resolver os problemas mais simples. Ainda aplicamos recursos no exterior para a aquisição de itens sem tecnologia agregada. Que tal mudarmos a maneira de olhar o problema? Por que não escolher uma semana por ano e atracarmos nossos submarinos em Santos, convidando empresários a visitarem os mesmos, vislumbrando a renovação de nossa carteira de prestadores de serviços e fornecedores de peças e equipamentos? Quantas vezes a Associação Brasileira de Hidráulica e Pneumática teve oportunidade de visitar tecnicamente nossos submarinos? Por que não encararmos a modernização como um processo contínuo, envolvendo efetivamente a força máxima de que dispomos para "garantir a operação do meio"? Será que a afirmação de 20, 30, 50 anos atrás, de que nossa indústria é incipiente e não tem condições de atender logisticamente nossos submarinos, ainda é válida? Será que o número aproximado de 28 submarinos classe IKL, hoje em operação na América do Sul, não justificariam a movimentação de nosso empresariado para nos atender?

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Figura 2. Submarino TAMOIO na superfície.

Finalmente, ao tentar responder aos questionamentos colocados no início deste artigo, vejo o seguinte possível futuro para a hipótese de uma ampliação na maneira de encararmos a modernização dos submarinos da classe "Tupi": evitar a obsolescência prematura do meio; facilitar o problema logístico, desafogando o sistema de obtenções cada vez mais difíceis junto a fabricantes voláteis; facilitar o problema do reparo, retirando a obtenção de sobressalentes do caminho crítico do cronograma das obras; evitar imobilizações para o período de modernização; aumentar a disponibilidade de estoque para os demais navios da classe, na medida em que o equipamento retirado servirá como item de "pool"; estreitar laços entre o setor operativo, técnico e o do projeto de construção nacional; ampliar o conceito doutrinário de modernização, adaptando-o aos dias atuais; e permitir englobar também as ações de modernização decorrentes de alteração dos RANs.

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(os grifos não são do autor)