O DESIGN do NAVIO COMO OBRA DE ARTE E O NAVIO COMO CRIAÇÃO INDUSTRIAL – A CONSTRUÇÃO.

 

A gênese de um navio é uma atividade que requer muita  técnica e muita arte.

Genericamente falando o navio é, realmente, uma espetacular obra de arte.  Sua concepção e desenvolvimento são conseqüências diretas da aplicação de muita técnica e de muita criatividade. Somente muitos anos de experiência no exercício dessas atividades podem agregar ao engenheiro especializado atributos que permitem classificá-lo como arquiteto naval.

Arquitetos navais são, em realidade e acima de tudo, praticantes de desenho-de-produto. Ou, usando o sinônimo já incorporada em nossa língua, de design [1], expressão esta adotada preferencialmente neste texto, por ser de uso muito difundido, com a principal intenção de diferencia-la do significado de projeto.

Muito embora a palavra design seja usada com freqüência, inclusive na nossa língua[2], ela pode ter distintos significados. Achamos prudente esclarecer que o que estamos usando neste texto é, por mera conveniência, aquela dada pelo Comitê Governamental do Reino Unido, em 1963:

"O design de engenharia é o uso de princípios científicos, informação técnica e imaginação na definição de uma estrutura, máquina ou sistema que desempenhe determinada função com o máximo de economia e eficiência."

            Este significado expõe várias das principais dificuldades envolvidos na definição de um navio de guerra, o qual, diferentemente dos navios mercantes, desempenha normalmente mais de uma função.

A importância relativa desses diferentes papéis raramente pode ser definida, sendo deste modo, difícil atribuir-lhe medidas apropriadas de economia ou de eficiência. Em consequência os estágios iniciais do design dos navios de guerra inevitavelmente, mas com certa propriedade, se tornam um colóquio envolvendo especialistas navais, arquitetos navais, construtores navais e diferentes indústrias envolvidas, projetistas de armamento, entre muitos outros especialistas.

Os estágios do design preliminar são indicados na Figura acima, mas tal diagrama não deve ser lido como um fluxograma contínuo. Os primeiros estágios do projeto de um navio de guerra são prenhes de falsas partidas e laços fechados como, por exemplo, quando ocorre que a solução técnica proposta para um problema operacional seja demasiadamente cara. Os aspectos arquiteturais navais do design são igualmente difíceis de estruturar e não são apropriadamente representados por fluxogramas como, para quem já teve a oportunidade de lidar, a espiral do design.

O processo indicado na figura envolve também laços fechados e saltos intuitivos, ao mesmo tempo em que os desempenhos das funções não são lineares, sendo freqüentemente funções descontínuas, e as desigualdades são mais comuns que as equações.

A tarefa do arquiteto naval que lidera o grupo de desenvolvimento de um navio de guerra envolve muito mais do que satisfazer aos requisitos declarados do utilizador. O arquiteto (ou designer) estará submetido a numerosas influências conflitantes que deverão ser reconciliadas com os recursos disponíveis e assim o fazendo terá que ter participação importante  na redação dos requisitos. Na maioria das áreas os estudos técnicos necessitam ser breves e somente um indivíduo com visão, experiência e acima de tudo autoridade, poderá controlar o design.

O navio de guerra nasce  pois, segundo um processo aberto onde muita arte e técnica terão que ser conjugadas para torná-lo convergente, partindo de desejos ou requisitos iniciais, tanto aqueles  determinados pelos utilizadores finais, como os que restringem  intenções de ampla liberdade  de concepção (constraints), para chegar, finalmente, a um produto final.

Desse modo, os arquitetos navais incumbidos de conceber e desenvolver navios de guerra devem ser profissionais com muitos anos de experiência no ramo naval e de guerra, uma vez que para conceber um design inicial (um navio nasce na forma de um concepção, que precisa ser validada), têm que amalgamar parcela ponderável de arte com técnicas diversas, de modo a atender às funções imaginadas (flutuar, navegar, detectar, interceptar, combater, entre tantas), segundo muitos requisitos que irão conformar seu desempenho, e outros que limitarão alcançá-lo.

O navio de guerra surge de uma necessidade militar identificada e nasce de uma concepção que representa uma possibilidade de solução para aquela necessidade. O desenvolvimento dessa concepção estará sujeita aos inúmeros requisitos impostos por todos os interessados no seu desenvolvimento, sejam militares, ambientalistas, seguradores e muitos outros. A própria concepção estará sujeita à validação, para ser admitida como solução candidata.

O arquiteto naval, designer de vasos de guerra, não tem assim, total liberdade de concepção para o produto final.

Embora tratando de disciplinas de engenharia concernentes ao design, construção, manutenção e a operação dos navios e estruturas marítimas, não podemos deixar de mencionar a importância da obtenção do apoio logístico ao complexo sistema que é o navio, em especial os de guerra (muitas vezes até referido como um super-sistemas) segundo um processo que tem início logo nas primeiras fases do design., e se desenvolve simultaneamente por todo o processo de criação, do “berço ao túmulo”. Isso é matéria para os profissionais de Logística.que desenvolverão atividades concernentes às disciplinas da engenharia logística.

O parágrafo acima, objeto da Logística de Obtenção, dá ênfase ao fato de que desenvolver projetos de navios de guerra sem “contratar a Logística”, é uma falha gravíssima, da qual resultarão muitos desperdícios e toneladas de problemas futuros.

De todo o afirmado nos parágrafos atrás, uma flagrante conclusão  e de que se não se conhecer com propriedade o processo de gestação de um navio de guerra (isso requer muito estudo e muita prática), a sua obtenção partindo de um estágio avançado (construção, por exemplo) resultará em dificuldades para estabelecer adequadamente os diversos elementos da logística, algumas mesmo impossíveis de serem superadas, as quais irão acarretar uma série de condições adversas para sua manutenção o que, finalmente, se refletirá na sua disponibilidade e no seu desempenho.

Tudo isso justifica, à saciedade, a adoção de metodologias consagradas, para a obtenção dos navios de guerra, sendo as mais conhecidas e praticadas, na atualidade, a Engenharia de Sistemas e a Engenharia Logística., .

Exemplifiquemos um caso real de negligência na adoção desses conceitos:  os IKL são submarinos feitos para serem vendidos a outros países, em outras palavras, para exportação. Pergunta-se: quais os requisitos operacionais e o conceito de manutenção que orientaram seu design e desenvolvimento? No caso particular do Brasil, esses conceitos (genéricos, certamente) poderiam ter sido alterados para melhor satisfazer nossas necessidades? O contrato firmado previa tais possibilidades?

Muito embora não seja de todo descartável a possibilidade de obtenção de um navio de guerra como produto pronto, ou para apenas ser construído, é obrigatório que se conheça todo seu processo de gênese, a fim de poder superar as dificuldades que certamente advirão devido a uma inadequada estratégia de obtenção.  Disso temos experiências, que não podem ser esquecidas como lições: só com submarinos, lembramos de exemplos reais, como o caso do submarino Goubet; dos submarinos da classe Guppy, cedidos ao Brasil por terem sido descartados na Marinha de origem; os Oberon, lembrando os casos da negociação de sobressalentes, da  substituição dos cabos elétricos e do caso do  incêndio no Riachuelo;  e mesmo os IKL, com as dificuldades na obtenção dos  sobressalentes apropriados.

Considerando tudo isso, se o sistema educacional de uma marinha militar não contemplar a disseminação de uma adequada metodologia de obtenção, as dificuldades para operar e manter um sistema sendo obtido serão as vezes, intransponíveis. Na nossa realidade nacional, para tratar desse assunto, que diz respeito ao preparo do Poder Naval, são escassos os instrumentos normativos disponíveis, e do nosso conhecimento, existem poucas publicações do órgão de direção geral, mas que não abordam o processo adequadamente.[3]

Resumindo, o processo de obtenção de navios de guerra tem um ciclo de vida muito especial, que requer cuidados e atenções igualmente muito especiais. Por esta razão foi eleito, na modesta opinião do autor, como um dos processos mais importantes de uma Marinha de Guerra.[4]

            Considerando as dificuldades para conceber e construir navios de guerra, coloca-se ênfase na circunstância de serem relegados ao plano secundário o conhecimento e o ensino de tal processo  completo no nosso ambiente naval (escassos  princípios condensados em poucas publicações de Estado Maior da Armada). Tal fato precisa ser modificado. Daí a importância de estabelecer, conhecer e praticar o que consideramos seja o mais importante processo para o preparo de uma Marinha de Guerra – o processo de obtenção dos seus sistemas de defesa.

 

Segue uma  SUGESTÃO DE ESTRUTURA PARA GERENCIAR A OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA NAVAIS.ESTRUTURA

 

 

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[1] Design é sinônimo geral de desenho industrial – “atividade especializada de caráter técnico e artístico que se ocupa da concepção da forma de objetos tridimensionais (desenho-de-produto) e bidimensionais (programação visual) a partir de critérios de funcionalidade e estéticos , com vistas á produção industrial ou em série.” Portanto, “desenho-de-produto é parte do desenho industrial, ese ocupa da concepção de sistemas e produtos tridimensionais (postos de trabalho, mobiliário, utensílios, máquinas, ferramentas, , exposições, etc.); design (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa).

[2] Atualmente tanto a legislação do MEC para cursos superiores, quanto várias associações profissionais, usam o termo design, por entenderem que sintetize melhor a essência da prática profissional, além de ser uma palavra menor e que já faz parte do saber popular.

[3] EMA 400 e EMA 420.

[4] RMB, 2T2006, pg 102 “A Marinha deve privilegiar o macroprocesso de obtenção, por razões óbvias, e introduzir conhecimentos, por meio do estudo sistemático, em seus cursos, de disciplinas tais como a logística de obtenção, a engenharia de sistemas, a engenharia logística e a gerência de projetos visando a otimização da obtenção de sistemas de defesa complexos”.