A Força de Submarinos e suas Tradições
(Periscópio 55)

                                                                                                                                     VA (RRm) Ruy Capetti

Tradição, do latim traditio = ação de entregar, é a transmissão, pelos grupos humanos, de geração em geração, de seu seu patrimônio cultural, representado pelas crenças, idéias, costumes, conquistas no campo da arte, da técnica e da ciência.

A particularidade notável da transmissão tradicional é o fato dela não se perpetuar exclusivamente pela documentação formal, sejam escritos ou documentos historiográficos, mas, também, pelo contato vivo e direto.

Tentar levantar as origens das tradições da nossa Força de Submarinos, no campo particular da especialidade, não é tarefa fácil, pela falta de registro formal, mas resta o apelo à memória dos mais antigos lobos do mar, aqueles que primeiro trilharam o estreito caminho da profissão de Netuno, e que podem, em muito, contribuir para a sua perpetuação.

Por isso, aventurei-me a escrever estas poucas linhas, que deixam muitas lacunas, principalmente, como já mencionei, pela falta de elementos de pesquisa; lacunas essas, porém, que podem servir de desafio a todos os submarinistas no sentido de aperfeiçoar o trabalho, com suas contribuições valiosas.

Se ao longo do artigo menciono algumas curiosidades, fugindo ao propósito, foi mais para avolumar o escrito; por isso, espero que os leitores o relevem.

O "VAMOS TODOS..."

Ainda não consegui identificar quando e de onde veio. É uma saudação de "toast", ou tin-tin, levantando um brinde (no segundo "e aos belos amigos que temos, um brinde levantemos"), e pode ter origem em costumes italianos, suposição baseada na antiguidade do costume, coincidindo com o advento dos nossos primeiros submarinos.

A CANÇÃO DA FLOTILHA DE SUBMARINOS

Gloria, Gloria à Flotilha, como referida a Canção da Força de Submarinos, é cantada no coquetel de aniversário da ForS, aos 17 de julho de cada ano, por todos os submarinistas e mergulhadores presentes, a título de gozação em cima dos alvos*. Esta canção deriva do hino da guerra civil nos EUA "The Battle Hymn of the Republic", letra de Julia Ward Howe, 1862, autor desconhecido (maiores informações no site da banda militar de Michigan). Sua letra é adaptação feita pelos CC Hugo de Morais Pontes (Comandante do S Tupi) e Raul Reis Gonçalves de Souza(Comandante do S Tamoio), em pernoite na Patromoria(AMRJ), na década dos quarenta.

Enriquecida por Celio Prado Maia(estrofe das fragatas) e João Baptista Torrents Gomes Pereira(estrofe do naval).

A gozação funciona. Lembro-me de quando o Alte Comandante da Força de Fragatas e convidado ao coquetel, na hora que foi cantada a estrofe das fragatas, puxou-me a manga do jaquetão e ordenou-me que providenciasse sua condução, pois desejava retirar-se imediatamente. Eu era então o comandante da BACS.

(* para submarinista só existem submarinos e alvos)

Nota: Na mesma época que o Comandante Jobá contribuiu com a estrofe do naval (atendendo a reclamação do  Alte(FN) Coaraciara, de que na canção nada havia referente aos navais), ele também compôs mais duas estrofes para os Ministros S., da Marinha, e V, do EMFA.

Estas não foram incorporadas à canção, por fazerem referências pessoais, contrariando, assim, seu espírito, mas foram cantadas em particular, para os dois, na festa de aniversário da ForS daquele ano.

São publicadas apenas como curiosidade, e como reconhecimento aos dotes de compositor do nosso eminente submarinista, uma de suas tradicionais características:

Para o Ministro S.:

Era um tenente da turma quarenta e três
Fez do submarino a opção na sua vez
A DP foi contra e disto ela se orgulha
Se "só boia" não mergulha!

Para o Ministro V:

O Almirante V. nos permita o trocadilho
De quem já trocou o pão de trigo pelo milho
Dizem que no EMFA prá fazer economia
Pôs a pique a isonomia!

Dizem, apenas, pois o fato não é verdadeiro. Trata-se apenas de uma liberdade poética!

O HINO DA FORÇA DE SUBMARINOS

"S. TIMBIRA - Folha B - 8/10/1943

Serviço de 12h00m ás 24h00m

xxx Item 22 - Tendo sido atingido por uma bomba de exercicio, lançada por um avião WULTTEE VENGEANCE, da FAB, faleceu ás 14h52m o Sr. Capitão de Corveta ARISTIDES FRANCISCO GARNIER - Comandante do Navio. xxx
HERBERT PINTO MORADO
Capitão Tenente - IMEDIATO

O Hino da Força de Submarinos tem sua origem no poema de autoria do Primeiro Tenente Thoribio Lopes, inspirado no trágico acidente acima registrado no Livro de Quarto do S Timbira, e testemunhado pelo autor.

Foi aquele belo poema, então bem mais tarde, musicado pelo eminente maestro Eleazar de Carvalho.

Sem maior divulgação, seu histórico foi finalmente resgatado e encaminhado à Força de Submarinos pelo CA Emílio Raffo Júnior, quando a comandou.

A LETRA DO HINO

Entre os Homens do Mar que na Guerra,
Se exaltaram por justo valor,
Uns deixaram na História da Terra,
Belo exemplo de raro esplendor !

Dos herois cuja ação sem igual,
Sob as aguas valeram por mil,
Somos nós a lembrança afinal,
A lutar pelo bem do Brasil !

Ao mar, ao mar Submarino,
Cumpre sempre o teu dever !
Estribilho:
Seja qual fôr o teu destino,
Ou o fim que possas ter !

E se a luta é renhida e sangrenta,
E a todos infunde terror,
Segue avante qual seja a tormenta,
Pois o rumo da Glória é a Dôr !

E se ao fim da refrega voltares,
Sem alguns dos Herois que te guiam,
Vê nos Astros do Céu seus Altares,
Imortais como a luz que irradiam !

Ao mar, ao mar Submarino,
Cumpre sempre o teu dever !
Estribilho:
Seja qual fôr o teu destino,
Ou o fim que possas ter !

(A Força possue a partitura completa.)

BATISMO DE IMERSÃO

Para freqüentar as profundezas dos oceanos, os submarinistas prestam sua homenagem à NETUNO, deus do mar, das ilhas e das praias.

NETUNO é uma entidade da mitologia romana, e tem como corresponde POSÍDON, na mitologia grega. Filho de SATURNO e de RÉIA, irmão de JÚPITER e PLUTÃO, casou-se com ANFITRITE. Ao ser partilhado o universo entre ele e seus irmãos, coube-lhe presidir o mar, as ilhas e as praias.

Costuma ser representado como um velho forte, barbado, com um tridente na mão, às vezes num carro puxado por vários cavalos, ou cavalos-marinhos, e com a parte inferior do corpo em forma de cauda de peixe.

Assim, tradicionalmente, e logo na primeira imersão, é realizada a cerimônia de batismo dos futuros submarinistas, para que recebam autorização de Sua Majestade para freqüentar seus domínios. Nessa ocasião cada batisando profere a oração de súplica das graças do grande Rei, nos seguintes termos:

"EU IMUNDO E PROFANO, PILHADO NAS PROFUNDEZAS DO REINO DE VOSSA MAJESTADE REI NEPTUNO REX I, PENITENCIO-ME DIANTE DE VÓS, PROVANDO O SAL DA SAPIÊNCIA QUE FARÁ DE MIM UM SER ESCLARECIDO.

             

             SAL, SAL, SAL!

E PEÇO QUE ME UNTEM COM O ÓLEO SAGRADO DOS PEIXES, QUE FARÁ DE MIM UM FORTE

 

GRAXA, GRAXA, GRAXA!

E DORAVANTE, RESPONDENDO PELO NOME DE _______________*, PROMETO RESPEITAR NINFAS E SEREIAS, CONCHAS E CARAMUJOS, E TODOS OS SERES QUE HABITAM O REINO DE VOSSA MAJESTADE.

AMÉM!

* Normalmente, um peixe, ou um outros ser vivo do mar.

Ao terminar a oração, recebem seus certificados de Batismo de Imersão, na forma de um diploma em formulário caricaturizado, aí pelos anos 50, pelo grande cartunista Luis Sá (aquele do Reco-Reco, Bolão e Azeitona).

O batismo se estende também a qualquer outra pessoa que tenha que freqüentar o reino de NETUNO, mesmo que eventualmente.

(Há alguma informação do comandante Güenter de que esta oração teria sofrido adaptações aí pelos idos de 1957, quando da chegada dos primeiros fleet types ao Brasil. Por seu turno conta-nos o comandante Jobá que em 1943 a oração de batismo já era usada, pois ele assim foi batizado.)

PRÊMIOS, CONCURSOS E RECONHECIMENTO DE FEITOS DE IMERSÃO e de MERGULHO

Tradicionalmente a ForS sempre procurou valorizar e perpetuar o feito dos submarinistas e mergulhadores. Já na época dos FF, em 1916, disputava-se ardentemente o Prêmio Independência (instituido em 1914 pelo CT Alberto de Lemos Basto, para o submarino que, em imersão, alcançasse o maior número de acertos de tiros torpédicos)(cada 2 acertos sem penalidades contava 100 pontos), o que dava ao vencedor o direito de inscrever seu nome (do submarino) num dos escudos de prata que ornavam o belíssimo conjunto que constituía o cobiçado troféu, um brasão em prata de lei. Em caso de vitória, também recebiam gratificações suplementares mandadas abonar por ordem do Ministro, licenciamentos extras, elogio nas cadernetas, fotografias e nomes nos jornais e todas as demais vantagens atribuídas aos vencedores (Vida nos F,pg 94).

As condições em que eram dados os tiros em suas diversas classes, aumentavam gradualmente em dificuldade, de forma que a última classe já formava o verdadeiro tiro de combate, isto é, fora da barra, surgindo o alvo de posição ignorada do atirador, com rumo e velocidade desconhecidos.

Eram lançamentos feitos somente em imersão, com penalidades traduzidas por perda de pontos.

Por suas condições, algumas das quais inexeqüíveis em certas ocasiões, devido à carência do material flutuante, nem sempre o prêmio Independência podia ser disputado, o que resultou na instituição de outro prêmio, o prêmio Initium, mais tolerante, pois a primeira classe de seu regulamento era levada a efeito na superfície, e a última em tudo se assemelhava à primeira do Independência (Vida nos FF, pg 101). Quando Raul Reis foi comandante do F-3, o prêmio foi doado pelo Hernani de Souza.

O prêmio Almirante Felinto Perry, alusivo à eficiência do submarino, começou a ser disputado em 1950, época dos submarinos da classe T. Era oferecido pelo Tender Ceará, sendo o S Tamoio o seu primeiro vencedor.

O Troféu Eficiência, instituído pela Força na época em que era seu Comandante o CA Rubem Costa Velloso, passou a ser disputado no ano de 1978, sendo o S Riachuelo o primeiro a vencê-lo.

O prêmio Torpedex, para lançamento de torpedos (grande!), oferecido pela BACS, e instituído pelo CA Mauro Brasil, como ComForS, começou a ser disputado em 1982, sendo o S Ceará o primeiro a vencê-lo.

Finalmente, para perpetuar as mais expressivas horas de imersão e mergulho, a ForS confere, em cerimônia militar anual, Certificados àqueles que se distinguiram no período, nessas atividades.

DISTINTIVOS DAS ESPECIALIDADES

O uso, na MB, de distintivos especiais é uma tradição do exercício de atividades especiais, e dos conhecimentos especializados. A ForS mantém essa tradição. Os distintivos podem variar ao longo do tempo, pelo aparecimento de novos ou mudanças nos já existentes, mas a tradição de usá-los, continua. Particularmente, na atualidade, são quatro: o de Submarinos, o de Escafandria, o de Mergulhador de Combate e o de Medicina Hiperbárica.

PADRINHOS PARA ENTREGA DOS DISTINTIVOS DOS NOVOS SUBMARINISTAS

Ao término do curso de submarinos realiza-se cerimônia de formatura, quando os novos submarinistas recebem definitivamente a insígnia profissional. Para a colocação do distintivo de submarinista em seus uniformes, os novos profissionais escolhem uma personalidade submarinista para proceder a aposição. Esta é, tradicionalmente, a forma de homenagear um submarinista de maior experiência, que se torna, então, padrinho de arma do novo submarinista.

LEMA DA FORÇA DE SUBMARINOS

Não descobri sua origem. Consta que inicialmente era usado como USQUE SUB AQUAM NAUTA SUM, mas teria sido analisado posteriormente por um expert na língua latina, e corrigido para o atual USQUE AD SUB AQUAM NAUTA SUM. Traduz-se como OS QUE SÃO MARINHEIROS ATÉ DEBAIXO D'ÁGUA

ANIVERSÁRIO DA FORS E COMEMORAÇÕES

Comemora-se aos 17 de julho o aniversário da Força de Submarinos, criada nessa data, no ano de 1914, como Flotilha de Submersíveis (Aviso 3447 de 17/07l/1914 MM, OD 84/1914/507 do EMA), com a finalidade de receber e operar os três primeiros submersíveis brasileiros, os F1, F3 e F5.

Naquela flotilha, onde nunca houve horas marcadas de expediente ou de trabalho, formou-se um ambiente de confiança mútua e de solidariedade absoluta; de disciplina consciente e de verdadeiro civismo. Ali gerou-se o espirito de navio e o espirito de corpo, alicerçados no empenho ímpar de oficiais brilhantes e não menos brilhantes suboficiais e marinheiros.

Acima de tudo, pois, foi aquela flotilha a catalizadora do "Espirito da Marinha" - sólido, inábalavel, glorioso e imortal que Velho Sobrinho e Gastão Penalva tão lindamente cantaram em prosa e verso.

Somente homens realizados e felizes, ainda que agredidos e desgastados pelo ambiente hostil da vida em submarinos, afastados de tudo que não fosse a dedicação e renúncia, e o estudo das coisas profissionais, para a defesa da Pátria, puderam criar e nos deixar de legado, imune ao passar do tempo, e cada mais fortalecido pelos demais submarinistas que se seguiram, tudo aquilo que é de bom, de alegria, de jocosidade, de camaradagem, enfim, todas as amenidades que tornam a vida em submarinos uma paixão.

Por isso, tradicionalmente, na data de aniversário, reune-se na sede da ForS a grande família de submarinistas, para um congraçamento geral, quando é celebrada missa, seguida de um animado coquetel, sendo convidados todos os oficiais e praças submarinistas (incluídos aí os mergulhadores) e seus familiares, além de outras autoridades que tenham vínculos com estas atividades, para reavivar, cada vez mais, os valores que nos legaram os nossos precursores.

O clímax do coquetel ocorre com a reunião da grande família cantando a canção Gloria Gloria á Flotilha.

MUSEU DA FORS

Várias peças históricas, brasões, troféus, placas, obras de arte(pinturas, um relógio de sol da lavra do artista Nei Tecidio, sinos dos FF), modelos navais(do submarino Humaitá de construção inglesa, marotamente "surrupiado" do acervo da Diretoria Geral do Material quando do seu traslado de Brasília para o Rio), do tênder Ceará (tomado "emprestado" do acervo do Museu Histórico Nacional, quando era diretor o Sr. Clóvis Bornay, da mesma forma que os sinos dos FF), do submarino Tupi, entre outros), quadros, fotografias (álbuns dos navios), documentos históricos, livros, instrumentos e equipamentos (o velho treinador de ataque!), distribuídos pelo edifício Felinto Perry, sede do Comando da Força, nos pátios da BACS (canhões, torpedo, tubo de torpedo), no prédio do CIAMA, no museu da Força, etc., são testemunhas vivos das tradições submarinistas.

CONDECORAÇÕES DA FORS

Mérito Naval, aposto no Estandarte Naval. Ingresso na OMN quadro suplementar no grau de Grão Mestre em 12 de novembro de 1984. Diploma assinado aos 13 dez do mesmo ano pelo Ministro da Marinha Almirante Karam, em "reconhecimento aos assinalados serviços prestados à Marinha do Brasil".

BRAZÕES DA FORÇA

Até 1982, aproximadamente, a Força de Submarinos ainda usava um brasão que não era reconhecido pela heráldica, nem oficializada na MB. Foi somente a partir de 1973 que o serviço de documentação da Marinha padronizou os brasões de navios e instituiu novos padrões e normas regulamentando a confecção dessas peças, em termos mais condizentes com a arte da heráldica. Assim, pelo Aviso 0539 de 15/06/1973 MM/CEMA, criou o novo brasão da ForS.

1. Aviso 0539 de 15/06/1973 MM/CEMA , publicado no boletim 50/73/3169 MM.

Criação

AVISO N º 0539 - Em 15 de junho de 1973.

EXMº Sr. Chefe do Estado-Maior da Armada.

Aprovação de Distintivo para a Força de Submarinos.

1. Comunico a V. Exa para os devidos fins, que ora resolvo aprovar o Distintivo para a Força de Submarinos, de acordo com o desenho anexo.

2. A descrição e a explicação do Distintivo são as que se seguem:

Descrição

Num escudo boleado e encimado pela coroa naval, campo faixado-ondado de azul e prata, de quatro peças cortado de preto com um submarino de ouro, disposto em faixa.

Explicação

O faixado-ondado de azul e prata representa os imensos mares, simbolizando o cortado de preto a sua massa submarina, onde os submersíveis específica e precipuamente operam e o submarino de ouro, expressiva insígnia dos audazes submarinistas, em metal evocativo de força e poder, reportando-se às qualidades de denodo, coragem e bravura daqueles destemidos homens do mar, ao lembrar predicados de sua gloriosa arma alude à própria Força de Submarinos.

(Bol. Nº 50, de 14-12-1973-3169)

(a peça antiga, bem como a nova, podem ser vistas no site cuja home page é: http://planeta.terra.com.br/

REVISTA O PERISCÓPIO

Uma publicação da Força de Submarinos, a revista é editada anualmente pelo CIAMA, e tem como finalidade a divulgação de assuntos relativos às atividades de submarinos e mergulho que efetivamente digam respeito às atividades da Força de Submarinos. Segundo nota da Redação:

"tem por finalidade precípua a divulgação de conhecimentos profissionais e fatos que interessam àqueles que estejam ligados funcional ou mesmo afetivamente às atividades que dizem respeito à Força de Submarinos".

O início da sua publicação, número 1, deu-se no ano de 1962, sendo responsável pela edição, conforme já dito, o CIAMA, e pela distribuição, o Comando da Força de Submarinos.