IÇA O DOIS!

COMPREENDENDO A OBTENÇÃO DE UM NAVIO DE GUERRA

Artigo 43_2                                                                      mar 2012                                                                                VAlte (Ref) Ruy Capetti   

1.O design do navio como obra de arte e como criação industrial - qual seja, a construção.

A gênese de um navio é uma atividade que requer muita técnica e muita arte.

Gener icamente falando o navio é, realmente, uma espetacular obra de arte. Sua concepção e desenvolvimento são conseqüências diretas da aplicação de muita técnica e de muita criatividade. Somente muitos anos de experiência no exercício dessas atividades podem agregar ao engenheiro especializado atributos que permitem classificá-lo como arquiteto naval.

Arquitetos navais são, em realidade e acima de tudo, praticantes de desenho-de-produto. Ou, usando o sinônimo já incorporada em nossa língua, de design , expressão esta adotada preferencialmente neste texto, por ser de uso muito difundido, com a principal intenção de diferençá-la do significado de projetar.

Muito embora a palavra design seja usada com freqüência, inclusive na nossa língua (legislação do MEC) , ela pode ter distintos significados. Achamos prudente esclarecer que o que estamos usando neste texto é, por mera conveniência, aquela dada pelo Comitê Governamental do Reino Unido, em 1963:

"O design de engenharia é o uso de princípios científicos, informação técnica e imaginação na definição de uma estrutura, máquina ou sistema que desempenhe determinada função com o máximo de economia e eficiência."

Este significado expõe várias das principais dificuldades envolvidos na definição de um navio de guerra, o qual, diferentemente dos navios mercantes, desempenha normalmente mais de uma função.

A importância relativa desses diferentes papéis raramente pode ser definida, sendo deste modo, difícil atribuir-lhe medidas apropriadas de economia ou de eficiência. Em consequência os estágios iniciais do design dos navios de guerra inevitavelmente, mas com certa propriedade, se tornam um colóquio envolvendo especialistas navais, arquitetos navais, construtores navais e diferentes indústrias envolvidas, projetistas de armamento, entre muitos outros especialistas.

Os estágios do design preliminar são indicados na Figura 1, mas tal diagrama não deve ser lido como um fluxograma contínuo. Os primeiros estágios do projeto de um navio de guerra são prenhes de falsas partidas e laços fechados como, por exemplo, quando ocorre que a solução técnica proposta para um problema operacional seja demasiadamente cara. Os aspectos arquiteturais navais do design são igualmente difíceis de estruturar e não são apropriadamente representados por fluxogramas como, para quem já teve a oportunidade de lidar, a espiral do design .

2.Primeiros estágios do design

O processo indicado na figura envolve também laços fechados e saltos intuitivos, ao mesmo tempo em que os desempenhos das funções não são lineares, sendo freqüentemente funções descontínuas, e as desigualdades são mais comuns que as equações.

A tarefa do arquiteto naval que lidera o grupo de desenvolvimento de um navio de guerra envolve muito mais do que satisfazer aos requisitos declarados do utilizador. O arquiteto (ou designer ) estará submetido a numerosas influências conflitantes que deverão ser reconciliadas com os recursos disponíveis e assim o fazendo terá que ter participação importante na redação dos requisitos . Na maioria das áreas os estudos técnicos necessitam ser breves e somente um indivíduo com visão, experiência e acima de tudo autoridade, poderá controlar o design .

O navio de guerra nasce pois, segundo um processo aberto onde muita arte e técnica terão que ser conjugadas para torná-lo convergente, partindo de desejos ou requisitos iniciais, tanto aqueles determinados pelos utilizadores finais, como os que restringem intenções de ampla liberdade de concepção ( constraints ), para chegar, finalmente, a um produto final.

Desse modo, os arquitetos navais incumbidos de conceber e desenvolver navios de guerra têm que ser profissionais com muitos anos de experiência no ramo naval e de guerra, uma vez que para conceber um design inicial (um navio nasce na forma de um concepção, que precisa ser validada), têm que amalgamar parcela ponderável de arte com técnicas diversas, de modo a atender às funções imaginadas (flutuar, navegar, detectar, interceptar, combater, entre tantas), segundo muitos requisitos que irão conformar seu desempenho, e outros que limitarão alcançá-lo.

 

3.Justificativa para o design.

O navio de guerra surge de uma necessidade militar identificada e nasce de uma concepção que representa uma possibilidade de solução para aquela necessidade. O desenvolvimento dessa concepção estará sujeita aos inúmeros requisitos impostos por todos os interessados no seu desenvolvimento, sejam militares, ambientalistas, seguradores e muitos outros. A própria concepção estará sujeita à validação, para ser admitida como solução candidata.  

 

O arquiteto naval, designer de vasos de guerra, não tem assim, total liberdade de concepção para o produto final.

De todo o afirmado nos parágrafos atrás, uma flagrante conclusão e de que se não se conhecer com profundidade o processo de gestação de um navio de guerra (isso requer muito estudo e muita prática), a sua obtenção, partindo de um estágio avançado (construção, por exemplo), resultará em dificuldades, algumas mesmo impossíveis de serem superadas, que irão acarretar uma série de condições adversas para sua manutenção o que, finalmente, se refletirá na sua disponibilidade e no seu desempenho.

4.Casos reais de desalinhamento necessidade x design

Exemplifiquemos com um caso real. Os IKL são submarinos feitos para vender a outros países, em outras palavras, para exportação. Pergunta-se: quais os requisitos operacionais e o conceito de manutenção que orientaram seu design e desenvolvimento? No caso particular do Brasil, esses conceitos (genéricos, certamente) poderiam ter sido alterados para melhor satisfazer as necessidades? O contrato firmado previa tais possibilidades?

Muito embora não seja de todo descartável a possibilidade de obtenção de um navio de guerra como produto pronto, para apenas ser construído, é mandatório conhecer todo seu processo de gênese, a fim de poder superar as dificuldades que certamente advirão devido a uma inadequada estratégia de obtenção . Disso temos experiências, que não podem ser esquecidas como lições em nossa Marinha de Guerra ( lembramos de exemplos reais, como o caso do submarino Goubet; os submarinos da classe Guppy recebidos por terem sido descartados na Marinha de origem; os Oberon, lembrando os casos da negociação de sobressalentes, da substituição dos cabos elétricos e do caso do incêndio no Riachuelo, e mesmo os IKL, com as dificuldades na obtenção dos sobressalentes apropriados).

No entanto , o próprio sistema educacional da MB (aqui considerando tanto o Sistema de Ensino Naval como as escolas de altos estudos) não contempla disseminar uma adequada metodologia de obtenção. Para tratar desse assunto, que diz respeito ao preparo do Poder Naval, são escassos os instrumentos normativos disponíveis, e do nosso conhecimento, existem poucas publicações (no âmbito militar, em particular o naval) do órgão de direção geral, mas que não abordam o processo adequadamente.(EMA)

5.Conclusão

Oo processo de obtenção de navios de guerra tem um ciclo de vida muito especial, que requer cuidados e atenções igualmente muito especiais. Por esta razão foi eleito, na modesta opinião do autor, como um dos processos mais importantes de qualquer Marinha de Guerra. (ver RMB)

Considerando as dificuldades para conceber e construir navios de guerra, coloca-se ênfase na circunstância de serem relegados a plano secundário o conhecimento e o ensino (resumidos, como já mencionamos, em escassas publicações do Estado Maior da Armada) de tal processo completo na Marinha de guerra nacional, e tal fato precisa ser modificado. Daí a importância de estabelecer, conhecer e praticar o que consideramos seja o mais importante processo de uma Marinha de guerra – o processo de obtenção dos seus sistemas de defesa.

FIM

REF: de um artigo publicado no Naval Engineers Journal (mar 1986) Defining a warship . David K. Brown . RCNC (Royal Corps of Naval Constructors) Subchefe Arquiteto Naval do MoD(UK) e membro do Council of the Royal Institution of Naval Architects

A figura apresentada foi adaptada do mesmo artigo– Fig 1 Estágios preliminares do design, publicada no Naval Engineers Journal, março 1986.

 

 

Notas de rodapé:

Design é sinônimo geral de desenho industrial – “atividade especializada de caráter técnico e artístico que se ocupa da concepção da forma de objetos tridimensionais (desenho-de-produto) e bidimensionais ((programação visual) a partir de critérios de funcionalidade e estéticos , com vistas á produção industrial ou em série.” Portanto , “desenho-de-produto – é parte do desenho industrial que se ocupa da concepção de sistemas e produtos tridimensionais (postos de trabalho, mobiliário, utensílios, máquinas, ferramentas, exposições, etc.); design (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

Atualmente tanto a legislação do MEC para cursos superiores, quanto várias associações profissionais usam o termo design, por entenderem que este sintetize melhor a essência da prática profissional, além se ser uma palavra menor e que já faz parte do saber popular.

EMA 400 e EMA 420.

Ver Wikipedia – ciclo de vida de sistemas ou Iça o dois! artigo ciclo de vida dos sistemas.

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