Submarinos e Submarinistas
Periscópio 55  2001                               Ae(RRm) Arlindo Vianna Filho

 

Julio Verne e o seu Capitão Nemo excitaram, certamente de forma indelével, a imaginação de nossa juventude, navegando a bordo do Nautilus, por vinte mil léguas submarinas, uma aventura fascinante.

Muito recentemente, a tragédia do KURSK agitou a imaginação coletiva e pintou, em negror, agonia asfixiante sem testemunhas. Porém, analistas, com profundidade racional e sem preconceitos, devem ter concluído que sempre se reafirmam os sacrifícios cívico-heróicos dos Homens do mar, que em silêncio dedicam-se, em feitos diuturnos de coragem e patriotismo, a servir à Pátria: um só rumo, a Honra; um só Norte, a Pátria.

Afeito aos avanços tecnológicos do século XX, o Homem continua, ainda, fascinado pelo submarino, estranho navegador das três dimensões dos oceanos, cetáceo de aço que mergulha e se move em silêncio nas profundezas do "espaço interior", marinheiro até debaixo d'água.

Mas os especialistas que somos, os estrategistas navais, conhecemos bem todas as possibilidades e potencialidades efetivas dos submarinos. Não nos surpreendemos com sua evolução tecnológica - na realidade, nós os estrategistas, incentivamos, promovemos e realizamos seus avanços tecnológicos - e planejamos e empregamos os submarinos para a garantia da vontade nacional: manter a independência e a paz com dignidade e vencer os conflitos que não possam e não devem ser evitados.

Nós, os estrategistas, estamos condenados a manipular continuamente as dimensões do poder nacional para evitar ou vencer conflitos. Com "engenho e arte", temos que perceber as realidades nacional e planetária e, com domínio da racionalidade e de conhecimentos profissionais, dimensionar, preparar e aplicar poder para manter a paz, dissuadir atitudes hostis ou vencer conflitos dos cenários presente ou prospectivo.

Em nossa Marinha, certamente com conhecimentos adultos de Ciência Política e sensibilidade estratégica, com domínio de teorias de múltiplas disciplinas, de reflexões e técnicas de profunda especificidade profissional, desenvolve- se, continuamente, um Planejamento Estratégico Naval, encontro da racionalidade com a realidade, contribuição da inteligência lógica para percepção do presente, antevisão de cenários prospectivos e objetividade na constituição, preparo e emprego de forças navais.

Análise e avaliação político-estratégicas dos acontecimentos históricos e dos fenômenos sociais, dos fatores econômicos e tecnológicos e dos comportamentos dos atores da cena internacional fornecem elementos necessários para conhecimento da realidade político-estratégica conjuntural e para inferir, com técnicas e métodos prospectivos, cenários de possível ocorrência futura.

Pois bem, de todos os cenários prospectivos um dos que se apresentam com maior probabilidade de ocorrência é o de crises político-estratégicas, constantes instabilidades vividas pelo mundo contemporâneo nas relações internacionais. O uso deliberado e controlado de intimidações, da ameaça de uso e do emprego da força, em suas diversas naturezas e dimensões, têm promovido interesses hegemônicos, quase sempre mal disfarçados.

É que a evolução da ordem internacional tem ocorrido sem que se anulem as assimetrias sociais, econômicas, comerciais, raciais, ideológicas, industriais e, até mesmo, religiosas como causas de instabilidades político-estratégicas. Intransigências na imposição de discutíveis interesses e para sujeições à "hegemonias com topônimo" têm orientado ações políticas, econômicas e militares para manter ou obter vantagens desproporcionais e egocêntricas por, até mesmo, declarados amigos.

Revisitar as características das crises político-estratégicas e as tendências, subjacentes algumas e evidentes outras, do relacionamento internacional, nos leva a atentar para a freqüência com que tem sido utilizado, e com eficácia, o bloqueio naval.

É prudente, pois, atentar para nossas vulnerabilidades. Nossos portos, o tráfego marítimo mercante - pelos quais fluem mais de noventa por cento de nosso comércio internacional - e a saída para o mar da Amazônia - de nossa soberania inalienável - são sujeitos a bloqueio naval, que pode sufocar a economia nacional e, em decorrência, a própria sobrevivência do Estado independente.

Em nossa realidade econômica, tecnológica e estratégica, para inibir intimidações e reagir a agressão militar-naval, de qualquer potência com reação que prejudique, séria e proporcionalmente sua tentativa, implica o emprego de submarinos contra forças navais aplicadas em eventual bloqueio de nossos portos, comércio marítimo e hidrovias interiores.

Em outras palavras, há que se dispor de capacidade para cobrar um preço de eventual agressor, custo que pode ser inaceitável para o antagonista e sua sociedade nacional.

E os submarinos podem fazer isto. Sem dúvida.

Os submarinos convencionais (propulsão diesel-elétrica) são, certamente, eficazes contra bloqueios a curta distância de nossa costa.

Para um bloqueio naval à mais longa distância do litoral, a maior eficácia fica com os submarinos de propulsão nuclear.

E como estamos e o que temos feito para inibir ou romper um bloqueio naval? Isto é, para cumprir nossa responsabilidade.

A força de submarinos da Marinha do Brasil tem submarinistas do melhor nível profissional. Nossos submarinos convencionais, são do melhor estado da arte e construídos no Brasil. Nosso país é o único no sul do Equador a construir submarinos, a mais complexa atividade da engenharia naval. Nossos submarinos, em exercícios operativos com as principais marinhas do mundo, no Atlântico Sul e no Atlântico Norte, têm provado, claramente, a mais elevada capacidade operacional.

Não existem, no mundo, melhores submarinos convencionais nem melhores submarinistas que os nossos. Se for necessário combater o inimigo a grande distância da costa, certamente lá eles irão. Porém, por características específicas, a eficácia será menor.

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Submarino Riachuelo

Então, o conceito Estratégico Naval Brasileiro, com clarividência, prevê a necessidade de submarinos nucleares. E a

 

Marinha vem trabalhando, na dimensão de seus orçamentos anuais (cada vez menores), no desenvolvimento de propulsão naval nuclear. Este desafio tecnológico tem resultados notáveis:

o Brasil tem, hoje, o domínio do ciclo do combustível nuclear com processo autóctone de enriquecimento de urânio. Neste esforço de desenvolvimento tecnológico bem sucedido, a Marinha tem contado com a participação, por contrato, de cerca de 400 empresas privadas, a maioria de São Paulo. No Centro Tecnológico da Marinha, em São Paulo e em Iperó, desenvolve-se atualmente a construção, em terra, de um protótipo de planta propulsora naval. Ainda na primeira metade deste século XX teremos nosso submarino nuclear.

Abrimos parênteses para citar que os jornais, recentemente, noticiaram que o nosso sistema de enriquecimento de urânio, com técnica de ultracentrifugação, será utilizado pelas Indústrias Nucleares Brasileiras, no lugar do processo alemão de "jet nozzle", desenvolvimento que não logrou êxito.

Dissemos que, ainda na primeira metade deste século XXI, teremos nosso submarino nuclear.

Faz-se oportuno, então, fazer algumas reflexões sobre o acidente do KURSK, submarino nuclear russo.

As águas frias e escuras do mar de Barentz ocultam as causas do acidente e não deixaram testemunhas.

Terá sido uma colisão com outro navio ou um choque com outro submarino? As explosões, que teriam sido detectadas, poderiam ter origem em manuseio de torpedos bordo ou, até mesmo, iniciadas pelo impacto de alguma arma anti-submarino lançada por equívoco? Uma geração descontrolada de hidrogênio em carga das baterias poderia ter chegado no limite da autoexplosão? Deficiências de manutenção, decorrentes de diminuição do aporte de recursos orçamentários teriam ocasionado condições de risco operaciona1?

Qual a origem das "batidas" no casco? Teriam sido tentativas de comunicação dos sobreviventes ou um ferro retorcic batendo na estrutura pelos movimentos do mar?

Preferiria que os tripulantes tivessem sido poupados de uma agonia lenta e fria. Sabemos que alguns não foram poupados, infelizmente. Tiveram o mar por algoz, e, ao mesmo tempo testemunha de seus sacrifícios extremos e de ambiente para seu "perpétuo navegar" .

Hoje, mais serenamente, podemos chegar a duas conclusões lógicas de maior importância.

A primeira, diz respeito à História das Nações. Em todos os tempos, na Grécia Antiga, em Portugal dos grandes descobrimentos, na Albion, rainha dos mares, o progresso das Nações está intimamente relacionado com o investimento do Estado em suas Armadas. Nações em declínio deixaram de investir em suas Marinhas, num processo recorrente de declínio. Não há como ser grande Nação sem um grande Poder Marítimo.

Outra conclusão, de natureza técnica, é que, como engenho atômico, os submarinos têm segurança nuclear. No acidente com as proporções conhecidas, casco resistente rompido em grande extensão e alagamento total do navio, a instalação nuclear está silenciada, até a exaustão, com o tempo, de efeitos radioativos, o que demonstra que os submarinos são até mais seguros que usinas nucleares em terra, como se tem verificado em fatos.

Finalmente, algumas palavras conclusivas.

Os estrategistas têm sido acusados de preparar as nações para a guerra do passado. Também de planejar ações sem avaliar as consequências.

Estes críticos talvez só tenham lido a História dos perdedores. O libelo é inconsistente e, por vezes, preconceituoso quando atinge nossa realidade.

Que atentem para a História naval brasileira, uma História de vencedores de conflitos e defensores, com êxito, da Paz.

Certamente, nosso País já perdeu alguns conflitos econômicos, comerciais, financeiros, diplomáticos e, até mesmo, futebolísticos. Também são poucas nossas medalhas de ouro olímpicas...

Mas a História é testemunha que jamais perdemos uma Guerra em que a Marinha foi chamada a defender a Pátria, a dignidade nacional, os nossos interesses maiores.

As vitórias sempre têm inspirado nossa Marinha. Nossos êxitos não são casuais. Decorrem de soluções e atitudes desenvolvidas com pensamento estratégico naval ancorado na interpretação das vivências da própria História Naval do Brasil, fundamentam-se na percepção imparcial da realidade e na antevisão de cenários prospectivos. Ancoram-se em competência profissional e patriotismo incontestável. E subordinam-se à vontade nacional e acatamento da Política maior, soberana e independente, que pode não estar enunciada, mas vibra na alma dos brasileiros, em nosso patriotismo.

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Submarino Timbira

A lição de nossa História, a grande lição de nossa História de Nação invicta, certamente é que a sociedade brasileira tem motivos indiscutíveis para confiar em seus Marinheiros.

Em especial confiem em seus submarinos e submarinistas, Marinheiros até debaixo d'água.

(*) Texto básico da exposição realizada em 23 Nov 2000 no Rotary Clube de São Paulo- Itaim, quando o autor, à guisa de informação e reconhecimento social, disse:

"Agradeço a oportunidade de expressar meu respeito e minha admiração pelos rotarianos, seus sentimentos de filantropia e, em especial, pela contribuição, da maior dimensão social, em defesa dos princípios éticos maiores da autêntica sociedade brasileira, destaque para o respeito mútuo e patriotismo, honestidade, dignidade e honra, virtudes que, infelizmente, não têm sido muito valorizados no cenário nacional dos dias atuais."

"Criar consciência; Ser atuante".

Mantendo nível de abstração elevado, em atenção à inteligência dos que nos distinguem com sua audiência, falarei sobre o Pensamento estratégico-naval brasileiro (nós também temos pensadores ...), foco em submarinos, tema profundo por si mesmo ...