SUMÁRIO

Logística - a filha bastarda da Marinha
Perplexidade
Falta algo!
A colcha de retalhos
Os grandes ausentes
O ILS e o ALI.
Só há uma  solução
O PAC da Defesa e o bolsa Scorpène.
 

   

Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2003.

 

Prezado Amigo

 

Saudações 

Em primeiro lugar, quero externar minha satisfação e agradecer a oportunidade de rever os bons companheiros e acima de tudo contar com a paciência em ouvir minhas idéias. Depois de nosso último contacto, quando lhe enviei aquela correspondência "O Libelo", que você fez publicar na Revista do Clube Naval, isso é realmente gratificante. Eis algumas delas: 

Penso na LOGÍSTICA como a filha bastarda da Marinha.

Por quê? Porque embora a Marinha gerencie o pessoal e material de modo razoável, mister principalmente da inegável capacidade de seu oficiais, e também de seu pessoal subalterno, tais gerenciamentos longe de serem perfeitos e acabados sofrem  as injunções do dia-a-dia, e assim, merecem um aperfeiçoamento contínuo, para ajustá-los à modernidade.

Na minha Marinha, esses ajustamentos não ocorrem a contento, acima de tudo porque falta um elemento de comando ou direção integrador das idéias de aprimoramento e que supervisione suas implantações e implementações.

Falta, acima de tudo, eliminar a “desconexão” entre os aspectos administrativos e os gerenciais e técnicos. em outras palavras, juntando as duas idéias, falta um Sistema Logístico!

Isso poderia ser o papel de um Sistema de Qualidade, inexistente na minha Marinha, onde a Gestão Contemporânea , ah..., a Gestão Contemporânea, cujo nome antigo era Gestão pela Qualidade Total, que resultados tem trazido para aperfeiçoamento da estrutura organizacional da força? Vou falar um pouco sobre a gestão do material, por ser assunto ao qual muito me dediquei quando na ativa, e que ainda procuro aprender. Registro um resumo das minhas aflições:

1. Os problemas do assim chamado Setor do Material desde quando iniciei minha carreira na força (tais como falta de recursos financeiros para compra de sobressalentes, falta de pessoal técnico suficiente para lidar com as dificuldades inerentes ao gerenciamento do material, faltas nas dotações de bordo, complexidades de catalogação, falta de informações que permitam estabelecer pacotes adequados de sobressalentes para novas unidades, desajustes na sistemática de obtenção no exterior, períodos de manutenção cujos prazos não são respeitados, isso só para citar alguns menos graves) e os problemas de agora, respeitadas as proporções técnicas, são os mesmos, o que nos leva a crer que sejam encarados não como problemas na acepção da palavra, mas apenas como questões de rotina.

As soluções preconizadas para resolvê-los são simples, na maior parte das vezes, requerendo apenas uma abordagem de escala para se tornarem permanentes. Por exemplo:

  • Alocar recursos financeiros suficientes; obter pessoal qualificado para o gerenciamento do material;

  • Obter conhecimentos (informações) bastantes para definir as soluções; etc.

O difícil, contudo, na minha Marinha  tem sido conseguir implantar e implementar com oportunidade tais soluções, principalmente, conforme mencionei, devido à escala em que se apresentam.

2. É aí, então, que jaz  minha perplexidade:

Porque os órgãos competentes e os subordinados apresentam soluções, na forma de ações corriqueiras, mas os Chefes não conseguem implantá-las e implementá-las na forma de soluções permanentes?

Mesmo sabendo-se que a solução para um determinado problema é A, B ou C, mesmo com elevada autoridade, aliada à perseverança e  vontade de resolver a questão, os Chefes não conseguem implantá-las e implementá-las dentro do seu tempo normal de Comando, e os que se seguem lidam com os mesmos problemas (recursivos por natureza). Em outras palavras, há gerência, mas não há aperfeiçoamento dos processos. 

Com certeza, não é só isso. Falta algo mais!  

3. E eu vislumbro este algo mais como sendo a INTEGRAÇÃO de ações por meio do CONHECIMENTO ATUALIZADO, a revisão constante da sistemática de gerenciamento do material e a supervisão constante desse processo. Nada diferente do ciclo PDCA que muitos conhecem. Nada que justifique inventar coisas novas para obter melhores resultados. A estrutura organizacional da minha Marinha já é razoável, no meu entender, para administrar seus recursos e meios.

A falha, segundo meu juízo, é o conhecimento insuficiente do problema, principalmente sobre aspectos técnicos, o que leva a serem aceitas assessorias muitas vezes incompletas ou até mesmo erradas. No fim, cada unidade militar da organização atua como acha que é o melhor, mas as coisas não vão se integrando, e umas acabam não falando a mesma língua que as demais e, quando falam, a língua é imprópria.

Poderia apresentar vários exemplos reais, mas não quero tomar muito do seu tempo. Em outra oportunidade, porém, comentarei o caso recente da intenção do chefe do material da minha Marinha de implementar as atividades de apoio logístico integrado e daí ter resultado um estranho "sistema de apoio logístico integrado" para tratar, sabe de quê? ... do gerenciamento das atividades de manutenção! Por sinal, esse é o trauma da minha Marinha!  

4. Aí é que entra, por exemplo, o enfoque do Gerenciamento do Material, principalmente dos ativos de defesa e dos equipamentos diversos, como um todo sistêmico- e não como a "colcha de retalhos" que julgo, salvo melhor juízo, seja a cena corriqueira do cotidiano da Gestão do Material nessa Marinha.

Alguns exemplos:

4.0 Nela não existe Sistema Logístico;

4.1 Nela não existe um sistema formal de qualidade. Em decorrência, muitos processos, que já se mostraram eficientes, não são registrados, ou repetidos com fidelidade.

4.2 Nela não existe um Programa de Confiabilidade, Disponibilidade e Manutenibilidade

4.3 Nela não existe um Programa de Apoio Logístico Integrado;

4.4 Nela a Engenharia de Sistemas e todos seus recursos não são explorados convenientemente. A Engenharia Logística é tratada com cerimônia. A Gerência em Projetos é disciplina que nunca foi sistematizada;

4.5 Nela, o Órgão de Direção Geral perde tempo com minudências, e numa publicação sua, que deveria ser de alto nível, isto é, de orientação e supervisão,  trata das normas para elaborar um Pedido de Serviço! Ao Diretor do Material sobrou a concessão de definir o modelo!;

4.6 O Abastecimento trata do problema segundo seu enfoque (o banco de dados sobre material serve ao Abastecimento e não ao material de um modo geral,  ou às demais Diretorias especializadas!);

4.7 Nossos "моряки" gerenciam seu material de modo particularizado (não deveriam gerenciá-lo segundo normas gerais do Diretor do Material, como se fosse nosso Comandante-em-Chefe, por exemplo?);

4.8 Engenheiros navais tratam da sua área, em particular a construção e a manutenção (mas não gostam da Logística, não fazem Análise de Apoio Logístico, não fazem análise funcional, não usam os mesmos Grupos Funcionais na Construção e na Manutenção, etc;

4.9 Não há preocupação com desempenho e principalmente com custos, de modo que não se tem avaliação de custo-benefício; muito menos de riscos; e assim por diante.

5. Os grandes ausentes no processo gerencial da minha Marinha são o seu Estado Maior Geral EMG (qualificado de órgão de direção geral, mas de quê? e o Ensino. O primeiro por sua distância com os problemas corriqueiros, principalmente na área do material. Acho que não supervisiona para não causar problemas de suscetibilidades.

5.1 O segundo grande ausente é o Ensino (não estamos nos referindo ao Sistema de Ensino Naval, particular atribuição da Diretoria de Ensino, para não confundir com a sua Marinha), mas sim ao Sistema de Ensino da Marinha, englobando as atividades de ensino de alto nível, em especial Escola Superior de Guerra, Escola de Guerra Naval, universidades, etc.

6 Um complicador desse quadro é o advento do Ministério da Defesa, a quem compete o exercício de varias das atividades citadas, no papel de orientador e supervisor, principalmente se levarmos em conta a necessidade de integração das diferentes atividades vis a vis as demais forças armadas.

7. Faltam instruções de alto nível orientadoras das atividades fluxo abaixo. Nesse contexto naval prolifera a duplicidade de instruções sobre um mesmo assunto, o que é mais outro exemplo do caos: - a mesma publicação do EMG acima citada define MANUTENÇÃO, a instrução do Material 14-01 repete algumas definições, embora com diferentes palavras. Isso acaba resultando em problema de interpretação. Com certeza as Esquadras terão suas próprias instruções; e o que dizer dos "моряки"?

7.1 QUE FALTA FAZ UM GLOSSÁRIO ATUALIZADO COM AS EXPRESSÕES MAIS CORRIQUEIRAS DO SETOR OPERATIVO E DO SETOR DO MATERIAL! CADA UM ESCREVE O QUE QUER, FALA O   QUE QUER, COMO QUER, E ACABA NINGUÉM SE ENTENDENDO! 

7.2 Ainda sobre o EMG citado, principalmente sobre o capítulo 3 de uma sua instrução, creio que a maior parte do que lá está escrito é da competência do capochefe do Material. De fato, se ao EMG cabem as Instruções Gerais - o detalhamento cabe aos atores fluxo abaixo. Pensando bem, as instruções mais gerais ainda serão da competência do Ministério da Defesa, e a minha Marinha delas não poderá se desviar sem uma justificativa muito forte.

8 Agora vou me referir ao ILS - INTEGRATED LOGISTICS SUPPORT, que devíamos copiar das marinhas inimigas. Na minha Marinha se copia, dá-se o nome de Apoio Logístico Integrado, mas como o original não é bem estudado e compreendido, são usadas interpretações que não condizem com os conceitos de origem. Uma vez comentei com você, que é isso que chamamos de "permissividades".

8.1 Em certa ocasião no passado tinha sido fixado o conceito de que APOIO LOGÍSTICO INTEGRADO era a integração do APOIO LOGÍSTICO PARA UM MEIO EM CONSTRUÇÃO ou OBTENÇÀO, ao SISTEMA DE APOIO LOGISTICO da Marinha.

8.2 Depois, veio uma Instrução do Material 14-01  e “conceituou” APOIO LOGÍSTICO INTEGRADO COMO "A EXPRESSÃO USADA PARA DESCREVER UM PROCESSO DISCIPLINADO DE PLANEJAR E IMPLEMENTAR O APOIO LOGÍSTICO DE UM NOVO MEIO OU SISTEMA A SER ADQUIRIDO...... ".

Isso quer dizer que o conceito de ALI expressado pelo nosso setor do material é de que ele seja uma "Expressão...", usada para descrever alguma coisa, referente a um novo meio ou sistema "a ser adquirido." Os sistemas de legado estão fora, portanto. Puxa!

8.3 Houve posteriormente uma primeira revisão de outra publicação do nosso EMG, mas será que ela tratou de definir o que é o ALI e será que o setor do material respeitou?

9. Mas falemos sobre o ALI (observamos que realmente a nossa Marinha pretende considerar seu conceito como sendo semelhante ao ILS!)

9.1 PRIMEIRO, SOBRE O ILS:

Os clientes ou utilizadores de GRANDES, ou COMPLEXOS, ou PRINCIPAIS SISTEMAS (MAJOR SYSTEMS) reclamam constantemente da necessidade  de que um  Processo formal de ILS seja usado de modo a assegurar as seguintes metas:

- de que as considerações de apoio logístico influenciem o projeto do sistema e, em conseqüência:

Isto só pode ser obtido pela prática diuturna da ANÁLISE DE APOIO LOGÍSTICO, do registro dos dados numa base comum de dados (LSAR)e análise desses dados, de modo a fornecer elementos para aprimoramento dos sistemas, além dos de defesa (hardware), os gerenciais, como o próprio Sistema de Apoio Logístico. 

9.2 O ILS dá ênfase aos aspectos que afetam o apoio de um sistema, aí incluindo, como principais ELEMENTOS:

O PLANEJAMENTO DA MANUTENÇÀO;

AS FACILIDADES DE APOIO À MANUTENÇÃO;

EQUIPES NO TRABALHO DIRETO DE MANUTENÇÀO;

APOIO DE SUPRIMENTOS;

APOIO DE EQUIPAMENTOS (de apoio e de testes);

TREINAMENTO E APOIO AO TREINAMENTO;

GERENCIAMENTO DE DADOS TÉCNICOS;

ACONDICIONAMNTO, MANUSEIO, ARMAZENAMENTO E TRANSPORTE e

RECURSOS COMPUTACIONAIS.

Repare que os elementos do ILS  são os elementos da Logística, e  cada um deles de nosso interesse, deve ser ou já foi transformado numa função logística. Na minha Marinha nem todos os elementos da Logística tem a correspondente função logística, por exemplo, o Gerenciamento de Dados Técnicos

9.3 Como bases de referência, citamos algumas das instruções que  Marinhas de guerra modernas publicaram, entre diversos padrões:

DEF-STAN 00-600 (Defence Standard 00-600 – Requirements for MOD Projects (2010) oriunda da Def stan 00-60 MoD Guide to Integrated Logistic Support, ); JSP 886 volumes 3 e 7 do Mod UK;

MIL-STD-1388 (Logistic Support Analysis - LSA);

MIL-STD-1390 (Level Of Repair Analysis - LORA), além de outras diversas instruções, para auxiliar na implantação/implementação do ILS.

Acquisition Logistics Guide (3rd edition) USA

Integrated Logistics Support Guide (1st edition) DAU (tem que ser comprado)  

EM RESUMO, E COMO PODEMOS CONSTATAR, O ILS É UMA IMPORTANTÍSSIMA ABORDAGEM DA ENGENHARIA DE SISTEMAS, SEGUNDO UM PROCESSO QUE VISA A ASSEGURAR DE IMEDIATO A OTIMIZAÇÃO DE UM PROJETO, PROCESSO ESTE QUE  DEVE ACOMPANHAR POR TODA A VIDA UM GRANDE SISTEMA, DA CONCEPÇÃO ATÉ A SUA ELIMINAÇÃO, PROVENDO REALIMENTAÇÃO PARA APERFEIÇOAR O PRÓPRIO SISTEMA E,  CADA VEZ MAIS, OS DEMAIS SISTEMAS SUBSEQUENTEMENTE CONSTRUÍDOS.

Isto é um procedimente mundialmente aceito e praticado. Menos na minha Marinha! 

9.4 AGORA SOBRE O ALI: SE O ALI NA MINHA MARINHA NÃO SEGUIR ESSA FILOSOFIA E FOR ASSIM DISSEMINADO, FICARÁ DIFÍCIL, SE NÃO IMPOSSÍVEL, PARA AS PESSOAS, COMPREENDEREM DO QUE SE TRATA E APRIMORAREM OS CONHECIMENTOS.

Além do mais, isso é procedimento que deveria já ter sido implantado pelo nosso pelo Ministério da Defesa, para que haja coerência de sistemáticas entre as demais forças e o próprio Ministério da Defesa. Mas, como você sabe, nosso Ministério está muito politizado, e assim, as parte técnica e gerencial  ficam muito prejudicadas.

 Como já estou me alongando demasiado, gostaria de tecer um comentário final, enfatizando que

"O CONHECIMENTO DA ENGENHARIA DE SISTEMAS É TÃO IMPORTANTE QUE MERECE SEJA MONTADO E MINISTRADO CURSOS PARA ESCLARECER AS PESSOAS DO QUE SE TRATA E COMO SE TRATA, SEM O QUE, CERTAMENTE, A  APLICAÇÃO DO ALI ESTARÁ FADADA AO FRACASSO.

         CERTAMENTO DO CONHECIMENTO DO ALI E DA SUA FERRAMENTA FUNDAMENTAL - A ANÁLISE DE APOIO LOGÍSTICO (LSA) - É QUE NASCERÁ O BANCO DE DADOS LSAR, de que tanto se ressente o nosso setor do material."

 

    Só vejo como solução para minha Marinha aperfeiçoar sua Logística, e em especial seu sistema de apoio Logístico, se todas essas considerações forem integradas e delas resultar que seja

"IMPLANTADO E IMPLEMENTADO NA MINHA MARINHA O PROGRAMA DO ALI, além de serem ministrados cursos para o perfeito conhecimento do assunto" 

Esses, prezado amigo, são desabafos na forma de comentários muito superficiais, limitados aos meus conhecimentos atuais, que transmito a sua especial consideração, com o propósito de garimpar caminhos alternativos para o aprimoramento da minha Marinha.

Desejo enfatizar é a necessidade de se conhecer o assunto, na extensão e aprofundamento adequados, principalmente nessa ocasião de modernização dos meios de defesa do meu país, segundo a primeira e novíssima Estratégia Nacional de Defesa, e da sempre constante escassez de recursos.

Esse é um  momento que devemos aproveitar para otimizar o processo de preparo do nosso Poder Naval, e  aprimorar o gerenciamento dos ativos de defesa,  com ênfase em aspetos técnicos, o que decorre da forte polarização para tal aspecto contida no texto da própria Estratégia Nacional de Defesa.

Cultivemos a Logística pois sem ela não progredirão políticas nem estratégias. Devemos considerá-la a filha preferida e não a filha bastarda.  

Sei que vocês passam por problemas semelhantes, mas não deixem coisas como o PAC da Defesa e o bolsa Scorpène tolherem sua capacidade de aperfeiçoamento dos processos e estruturas de obtenção de sistemas de defesa. 

Deve ser evitado, a todo custo, os desperdícios, e sem sobra de dúvidas, o conhecimento é a mola mestra para se atingir tal objetivo. Acima de tudo deve existir a determinação de sair do campo da inocência e ingressar no da  ignorância, o primeiro grande passo para a longa caminhada em direção da luz.

Sua simples atenção, como já demonstrada em várias ocasiões,  recordou-me a seriedade do nosso Alto Comando e a dedicação dos oficiais subordinados, no trato dos complexos problemas que são impostos no dia-a-dia do serviço naval. Daí, se meus desabafos puderem contribuir para qualquer aperfeiçoamento do serviço, sentir-me-ei recompensado. 

Um abraço do amigo

Iuri Kapetievski Silva