IÇA O DOIS!

COMO É DIFÍCIL EVOLUIR (Final)

Artigo 36_1                                                                      ano 2010                                                                               VAlte (Ref) Ruy Capetti   

(CONTINUAÇÃO do ARTIGO 35)

C2. ENTRAVES À EVOLUÇÃO CULTURAL.

Aprofundemos um pouco mais a questão da evolução cultural, buscando identificar onde estão o que consideramos falhas. Em outras palavras, qual o papel que deveria caber a um sistema educacional da Marinha (ainda não formal), o qual seria constituído do SEN e do ensino de altos estudos militares.

C2.1 O PORTÃO DE ENTRADA DE NOVAS IDÉIAS, OU ATUALIZAÇÕES, É  O SISTEMA EDUCACIONAL DA MARINHA

Embora muitos conhecimentos já sejam disseminados no âmbito do que seria o sistema educacional da Marinhal, há outros,  mais atuais,  decorrentes de novos conceitos ou inovações tecnológicas (e às vezes não tão novos assim) que, advindos do exterior, devem chegar ao ambiente naval e serem disseminados adequadamente.

Da mesma forma que o material, cujo portão de entrada são as Diretorias Especializadas, também os novos conhecimentos deveriam seguir o mesmo caminho. Reconhecendo isso foram criadas na Marinha as Organizações Militares de Orientação Técnica (OMOT), instrumentos associados às Diretorias técnicas e outras organizações, que orientam a introdução de  conhecimentos no sistema de ensino como um todo. Contudo, esses conhecimentos precisam ser disseminados, e o único meio viável seria um Sistema  Educacional mais abrangente, englobando tanto os cursos do  Sistema de Ensino Naval, como também aqueles ministrados, no mínimo (considerando também universidades, cursos no exterior etc), pela Escola de Guerra Naval.

É fato que no âmbito naval existente (principalmente, se não exclusivamente, no SEN) são disseminados muitos aspectos técnicos por meio de diferentes cursos, porém, de uma maneira geral, somente para os mais baixos postos da carreira e quase sempre com vistas à operação dos meios navais. Tais cursos profissionalizantes têm a natureza de especializações.

No nível dos mais elevados postos da carreira, até Capitão-de-Mar-e-Guerra (CMG), a preferência dos cursos converge mais para aspectos da Política e Estratégia navais, sendo praticamente abandonados os aspectos técnicos e, consequentemente, afastando-se da Logística.

O aprendizado e a prática dessa ciência vem sendo relegados a um plano secundário na própria estrutura organizacional da Marinha, principalmente no que diz respeito ao preparo do Poder Naval. Um indício dessa observação é que na Instituição nem sequer existe um mero Departamento de Logística, para coordenar o trato de atividades principais da Logística (contribuindo para a caracterização de um Sistema Logístico,  o qual englobaria o Sistema de Apoio Logístico).

Sobre a educação dos escolhidos para os mais altos escalões de mando (principalmente do Corpo da Armada) há falta de um mecanismo de disseminação  de conhecimentos segundo (metodologia) abordagem científica dos aspectos técnicos que envolvem a obtenção dos sistemas e equipamentos. Assim, no Almirantado não existem veículos de propagação de conhecimentos ou atualizações de natureza técnica, relativos ao preparo do Poder Naval, e nesses últimos postos não se identifica a participação de altas patentes em quaisquer cursos de atualização. Embora isso possa ser uma tendência comum (mas não normal, se atentarmos para um outro artigo do professor Marins), ela tem que ser combatida.

Desse modo, ao chegar ao Almirantado, a visão que predomina, segundo os aspectos técnicos dos mais diversos problemas navais é a visão administrativa absorvida pelos oficiais até o posto de Capitão-de-Mar-e-Guerra, praticamente fruto somente da operação de equipamentos e sistemas de defesa,  em essência, sem ter desenvolvido a aptidão de gerenciar a tecnologia eficazmente [1].

C2.2. RAZÕES  DAS DIFICULDADES PARA A ENTRADA DE NOVOS CONHECIMENTOS NA MARINHA

Observa-se, no inventário intelectual da Marinha, principalmente nos mais altos postos do Corpo da Armada, “desconexão” entre o administrativo e o técnico [2].

Um observador externo poderia vincular esse fato a uma certa resistência interna em receber (não de absorver) conhecimentos advindos do meio ambiente.

Procuramos  buscar interpretação, de caráter estritamente pessoal, que ratifique essa observação, qual seja a de que há dificuldade do ambiente corporativo naval de absorver colaborações visando à melhoria contínua dos processos nele praticados. Isso acontecia normalmente, no nosso entender, principalmente pela falta de atualização dos oficiais, com base em metodologia do conhecimento científico.

Em primeiro lugar, cabe a constatação de que existem de fato circunstâncias institucionais que contribuem para criar tais dificuldades (como por exemplo a alta rotatividade nas diferentes funções). São elas a seguir citadas, escolhidas segundo visão muito pessoal, sujeita pois, às mais variadas críticas:  

               C2.3  CMG DE HOJE ... OS ALMIRANTES DE AMANHÃ .... OS MESMOS CMG DE ONTEM! 

Essa visão reflete o fato de se tratar de um ambiente profissional onde a crítica, por mais construtiva que seja, raramente é bem recebida em seus primeiros momentos, levando um período razoavelmente longo para ser compreendida e absorvida. 

E isso ocorre porquê? Talvez porque tal ambiente seja populado por profissionais que vivem as mesmas circunstâncias administrativas e cujo conhecimento comum é adquirido dia a dia, pela prática contínua de atividades gerenciais daquela natureza (por sinal, comuns também em várias outras atividades profissionais), do início ao fim da carreira e, eventualmente, de atividades de natureza profissional específicas, em alguns poucos momentos da carreira.

Com conhecimentos e aptidões niveladas por um sistema educacional comum, dificilmente um daqueles profissionais aceita a superioridade de conhecimentos do outro, e tende a rejeitar idéias novas, em princípio.

Ainda mais, não existem mecanismos eficientes que aportem conhecimentos com base científica oriundos de visão exógena a esse sistema educacional,  muito embora esses conhecimentos estejam disponíveis em várias fontes, em face da velocidade com que circula a informação. Em outras palavras, não existem  mecanismos eficientes de aporte externo, pela metodologia do  conhecimento científico, que possam melhorar o desempenho individual, na medida em que se galga os postos mais elevados da carreira (os indivíduos freqüentam sempre os mesmos cursos internos, onde predomina o conhecimento vulgar).

Fecha-se finalmente um ciclo vicioso, em que estagiários ou alunos desses cursos, ao se graduarem, irão  exercer funções no  órgão de assessoramento geral, onde emitirão pareceres que os chefes superiores endossarão, e que servirão de orientação aos indivíduos que estão na execução das demais atividades da organização, os quais irão freqüentar os mesmos cursos de altos estudos, e eventualmente chegarão aos postos do órgão de assessoramento geral, tudo dentro de um mesmo nível e padrão cultural.

Conforme já mencionamos anteriormente o aporte de novos conhecimentos só pode acontecer via Educação – Ensino. Isto é, o Ensino na Marinha é o portal de entrada dos conhecimentos, como de fato o Ensino o é em qualquer outra área de trabalho. E se não for praticada uma metodologia científica para trato dos conhecimentos, novos conceitos e inovações tecnológicas não serão incorporados na cultura institucional vigente.

Em resumo, é um ambiente onde prepondera o conhecimento comum, que tem algumas características indesejáveis, como bem frisou Lakatos [3], são valorativos, reflexivos, assistemáticos, falíveis e inexatos. Faz falta a prática da abordagem dos diversos assuntos pela metodologia do conhecimento científico.

C2.3 Um agravante nesse quadro é que quando esses profissionais chegam aos postos de direção ou mando do Almirantado, acredita-se que saibam o necessário, embora não mais recebem novas informações nem internas, nem externas, por meio de cursos regulares, palestras ou atualizações (o que a rotina do dia-a-dia até impede de receber, o que é, pelo menos, comum de acontecer – conforme, ainda, o mesmo artigo do professor Marins).

De certa forma, no ambiente militar,  o alto mando permanece com a cultura institucional adquirida até o último escalão de promoções que não sejam as por escolha (exceto pelo esforço próprio de ler, de  ouvir e acima de tudo, fazer) Daí em diante não mais têm tempo de se submeter aos estágios de atualização e aperfeiçoamento, bem verdade que, as vezes até patrocinam, mas não freqüentam.

Se esse alto mando, presidência ou direção, fosse na instituição privada, esses executivos correriam o risco de serem alijados da equipe por incapacidade, pois não iriam gerar os resultados desejados (normalmente, lucro). É claro que se não houvesse essa penalização, eles não teriam a mínima preocupação em se atualizar.

 

  

 

Verificado a possibilidade desse particular ambiente cultural, em alto grau estanque aos impulsos cognitivos endógenos, vejamos o que acontece quando surge uma consideração de aprimoramento de origem externa, na Marinha, encaminhada a um elemento com eventual capacidade de mando.

De um modo geral, nesse ambiente cultural, a sugestão ou observação chega ao conhecimento do executivo-chefe, dirigente (seja que título for), que sem conhecimento sobre aquele assunto não a analisa e a encaminha, imediatamente, para seus subordinados opinarem. As soluções nã o são, normalmente, absurdas, tendo em vista o conhecimento profissional e o bom-senso, porém, podem não ser otimizadas (acima de tudo, com visão holística). Mas, seja o que resultar, quem encomenda irá endossar, feitos os devidos ajustes pessoais, como se conclusão funcional  fosse!

Visto isso, inferimos que só poderá ocorrer mudanç a de paradigma nesse ciclo vicioso se ocorrer um  rompimento no âmbito das organizações educacionais, normalmente e em particular naquelas de altos estudos. E esse rompimento seria, normalmente, fruto de uma argumentação individual (ou de um grupo de estudos) que convença um executivo, com eventual capacidade de chefia, a decidir pelas mudanç as naquelas organizações de ensino.

Um aspecto que pode atrapalhar o fluxo da chegada de novos conhecimentos ao ambiente naval é, sem dúvidas, a possibilidade de que os cursos de altos estudos, sendo normalmente  requisitos para avançar aos escalões de comando ou direção, possam impor aos estagiários ou alunos o risco de condicionamento pela preocupação acadêmica, onde a forma dos trabalhos prepondera sobre os conteúdos. Talvez surjam idéias novas de alguns mais ousados mas, as que surgirem, estarão sujeitas ao lápis “bi-color” dos avaliadores, que normalmente são os mesmos indivíduos oriundos do ambiente viciado a que nos referimos linhas atrás. De um modo geral os trabalhos finais de cursos dessa natureza seriam “aceitáveis”, mas iriam habitar as prateleiras das bibliotecas especializadas, onde estariam fadados ao empoeiramento até a próxima limpeza geral, em busca de mais espaço. 

Mais tarde, indivíduos assim formados poderiam ser então promovidos aos postos de presidência, gerência, direção, que título tomassem, e seriam vistos como omni-sapientes, como linhas atrás mencionamos.

Esse é um processo perverso que se observa em muitas instituições e a única possibilidade de rompimento se dá através das organizações de ensino, pela introdução e disseminação de  novos conceitos e conhecimentos, normalmente de origem externa e preferencialmente segundo metodologia de conhecimento científico.

No âmbito do Ministério da Defesa essas organizações são as escolas de altos estudos. Na Marinha, citaríamos a Escola de Guerra Naval, onde se estuda com profundidade o que é o Poder Naval (com as deficiências apontadas, no que diz respeito ao seu preparo, quando a temática é abordada apenas superficialmente), sua aplicação e seus elementos.

Toda essa dialética tem a ver com a obtenção dos sistemas de defesa navais, em especial dos navios de guerra. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Marinha, por meios das ações de governo a partir do ano de 2008, recebeu gigantescas tarefas, das quais decorrem múltiplas e complexas responsabilidades, que se não forem atendidas adequadamente resultarão em resultados altamente negativos.

Considerando as tarefas relevantes do Poder Naval, que é de preparar e aplicar os sistemas navais de defesa, observando a atual postura eminentemente operativa da Marinha, e tendo em vista o incremento do Poder Naval que se vislumbra, torna-se flagrante a necessidade de conhecer os aspectos técnicos de como se prepara tal Poder.

Tal fato parece ser corroborado pela natureza da própria Estratégia Nacional de Defesa, que tem forte conteúdo voltado para a tecnologia.

Olhando sob outro prisma, ainda que na mesma direção, observamos que acima de tudo são elementos e componente essenciais do Poder Naval suas expressões visuais, que são os navios e submarinos, bem como o componente essencial que o elemento humano.

Cuidado especial deve, pois, ser dispensado a esses elementos, os primeiros conhecendo-se e praticando, se possível for, o processo de obtenção dos sistemas de defesa navais e, relativo ao ser humano, principalmente daqueles que irão conduzir os destinos da instituição naval, um preparo apropriado para gerenciar e conduzir os aspectos técnicos adequadamente. Essas tarefas caberia ao Sistema de Ensino da Marinha (englobando SEN e demais instituições de ensino, principalmente as de altos estudos) por sinal parte do Sistema Logístico que ela deveria ter.

Entendemos que isso não vem ocorrendo em função da falta de abordagem adequada ao processo de preparo do Poder Naval. A tradição é a construção de sistemas de defesa, deixando muito a desejar em termos de concepção e desenvolvimento de projetos (design). Já a aplicação do Poder Naval é tratada com a profundidade apropriada, e daí resulta capacitação apropriada, porém de operadores.

O preparo do Poder Naval muito tem a ver com a concepção e o desenvolvimento dos sistemas de defesa de que precisa. Um dos elementos principais são os navios, os quais nascem do planejamento militar-econômico de longo prazo e chegam aos Programas de Modernização depois de muitas contribuições de vários atores.

A escolha do tipo apropriado, bem como da quantidade a produzir, são processos complexos, que requerem metodologia da qual decorram estratégias de obtenção a serem definidas. O erro na escolha dessa estratégia pode levar à complicações semelhantes as que ocorreram com os atuais submarinos australianos da classe Collins [4].

Muito embora essas estratégias contemplem a possibilidade de construção partindo de especificações e planos obtidos de terceiros, ou a modernização de navios já existentes, isso não exclui a necessidade de conhecer todo o processo de obtenção desses elementos dinâmicos do Poder Naval, a fim de evitar falhas nos contratos de obtenção.  Isso passa pelo domínio de várias disciplinas, como a Logística de Obtenção, a Engenharia de Sistemas, a Engenharia Logística, apenas para citar algumas, e depende sobretudo de considerar a LOGISTICA, tanto sua aplicação na estrutura organizacional, como na estrutura educacional.

Relativas ao ensino, citamos linhas acima que a Marinha trata as diversas atividades navais segundo abordagem eminentemente operativa. O preparo para o preparo do Poder Naval tem sido relegado a um segundo plano. Em outras palavras, importantes aspectos da Logística são negligenciados.

A cultura dos oficiais de marinha deve sofrer aprimoramentos, evoluindo dos aspectos puramente de operadores, para receberem conhecimentos técnicos que enriqueçam as atividades administrativas que todos praticam ao longo de toda a carreira. Principalmente para aqueles oficiais que chegarão aos altos postos de mando e que irão decidir os destinos da instituição, como sói acontecer com os indivíduos do Corpo da Armada.

Essa cultura institucional que sofre restrições de atualização em face de mecanismos institucionais inadequados, principalmente no que diz respeito à introdução de novos conhecimentos, deve ser revista e aprimorada, no sentido de evitar um processo vicioso que pereniza a mesmice. Os pontos perversos desse processo circular, podem ser condensados:

1. Não costuma haver, e se houver, tem lenta receptividade, sugestões ou considerações de origem exógena que contribuam para aprimorar os processos da instituição naval.

2. Mesmo quando alguma dessas contribuições chega ao ambiente interno da instituição, visando ao aprimoramento de algum processo, quando são consultadas as pessoas que tem ligação com o processo, elas tendem a assessorar os chefes que irão determinar sua implementação (se pertinente), dizendo que normalmente tudo já está sendo feito, por razões óbvias;

3. Em virtude do mecanismo de preparo dos profissionais, como mencionado linhas acima, a instituição naval trilharia sempre os mesmos caminhos, seguindo um mesmo padrão cultural, pois dificilmente haveria rompimento que alterasse o paradigma seguido.

Só poderá ocorrer o aporte de novos conhecimentos e inovações tecnológicas se as informações pertinentes entrarem na Marinha, vinda do meio ambiente, por meio do Sistema Educacional, aí considerados o SEN e as Escolas de altos estudos, como a EGN, sendo que as Diretorias Técnicas devem configurar o portão de entrada desses novos conhecimentos.

Tudo isso só poderá ocorrer por meio da valorização dos conhecimentos da LOGÍSTICA, até porque as atividades educacionais fazem parte do seu contexto, como deve ser do conhecimento de todos.

É necessário enfatizar que deve ser desenvolvida mentalidade de que o preparo do Poder Naval muito tem a ver com a concepção e o desenvolvimento dos sistemas de defesa que precisa ter. Deve ser conscientizado, também, que a escolha do tipo apropriado, bem como a quantidade de produção, são processos complexos, que requerem metodologia da qual decorram as estratégias de obtenção a serem definidas.

Muito embora essas estratégias contemplem a possibilidade de construção partindo de especificações e planos obtidos de terceiros, ou a modernização de navios já existentes, isso não exclui a necessidade de conhecer todo o processo de obtenção desses elementos dinâmicos do Poder Naval, a fim de evitar falhas nos contratos de obtenção.  Isso passa pelo domínio de várias disciplinas, que devem ser incorporadas aos currículos dos diversos cursos navais.

Daí decorre que o Ensino na Marinha precisa de vários aperfeiçoamentos com vistas, principalmente, à abordagem de todos esses aspectos acima mencionados.

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