IÇA O DOIS!

COMO É DIFÍCIL EVOLUIR!(parte II)

Artigo 35_1                                                           ano 2010                                          VAlte (Ref) Ruy Capetti   

CONTINUAÇÃO DO EXEMPLAR 34

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Design  x  Projeto

Muito embora a palavra design seja usada com freqüência, inclusive na nossa língua[1] ela pode ter distintos significados. Achamos prudente esclarecer que o que estamos usando neste texto é, por mera conveniência, aquela dada pelo Comitê Governamental do Reino Unido, em 1963:  

"O design de engenharia é o uso de princípios científicos, informação técnica e imaginação na definição de uma estrutura, máquina ou sistema que desempenhe determinada função com o máximo de economia e eficiência."

Este significado expõe várias das principais dificuldades envolvidos na definição de um navio de guerra, o qual, diferentemente dos navios mercantes, desempenha normalmente mais de uma função.

A importância relativa desses diferentes papéis raramente pode ser definida, sendo deste modo, difícil atribuir-lhe medidas apropriadas de economia ou de eficiência. Em consequência os estágios iniciais do design dos navios de guerra inevitavelmente, mas com certa propriedade, se tornam um colóquio envolvendo especialistas navais, arquitetos navais, construtores navais e diferentes indústrias envolvidas, projetistas de armamento, entre muitos outros especialistas.

             Os estágios do design preliminar são indicados em um diagrama, mas tal diagrama não deve ser lido como um fluxograma contínuo. Os primeiros estágios do projeto de um navio de guerra são prenhes de falsas partidas e laços fechados como, por exemplo, quando ocorre que a solução técnica proposta para um problema operacional seja demasiadamente cara. Os aspectos arquiteturais navais do design são igualmente difíceis de estruturar e não são apropriadamente representados por fluxogramas como, para quem já teve a oportunidade de lidar, a espiral do design.

Tal processo envolve também laços fechados e saltos intuitivos, ao mesmo tempo em que os desempenhos das funções não são lineares, sendo freqüentemente funções descontínuas, e as desigualdades são mais comuns que as equações.

A tarefa do arquiteto naval que lidera o grupo de desenvolvimento de um navio de guerra envolve muito mais do que satisfazer aos requisitos declarados do utilizador. O arquiteto (ou designer) estará submetido a numerosas influências conflitantes que deverão ser reconciliadas com os recursos disponíveis e assim o fazendo terá que ter participação importante  na redação dos requisitos. Na maioria das áreas os estudos técnicos necessitam ser breves e somente um indivíduo com visão, experiência e acima de tudo autoridade, poderá controlar o design.

O navio de guerra nasce  pois, segundo um processo aberto onde muita arte e técnica terão que ser conjugadas para torná-lo convergente, partindo de desejos ou requisitos iniciais, tanto aqueles  determinados pelos utilizadores finais, como os que restringem  intenções de ampla liberdade  de concepção (constraints), para chegar, finalmente, a um produto final.

Desse modo, os arquitetos navais incumbidos de conceber e desenvolver navios de guerra têm que ser profissionais com muitos anos de experiência no ramo naval e de guerra, uma vez que para conceber um design inicial (um navio nasce na forma de um concepção, que precisa ser validada), têm que amalgamar parcela ponderável de arte com técnicas diversas, de modo a atender às funções imaginadas (flutuar, navegar, detectar, interceptar, combater, entre tantas), segundo muitos requisitos que irão conformar seu desempenho, e outros que limitarão alcançá-lo.

O navio de guerra surge de uma necessidade militar identificada e nasce de uma concepção que representa uma possibilidade de solução para aquela necessidade. O desenvolvimento dessa concepção estará sujeita aos inúmeros requisitos impostos por todos os interessados no seu desenvolvimento, sejam militares, ambientalistas, seguradores e muitos outros[2] . A própria concepção estará sujeita à validação, para ser admitida como solução candidata.

O arquiteto naval, designer de vasos de guerra, não tem assim, total liberdade de concepção para o produto final.

Uma flagrante conclusão dessa complexidade de criação é de que se não se conhecer com profundidade o processo de gestação de um navio de guerra (o que requer muito estudo e muita prática, como vimos), resultará em muitas dificuldades, por vezes muito caras para serem corrigidas a partir daí. Algumas serão, mesmo, impossíveis de serem superadas, e irão acarretar uma série de condições adversas para operação e manutenção do navio. Isso se refletirá, finalmente, na sua disponibilidade e no seu desempenho.

Tal situação ocorre com freqüência quando se inicia o processo de obtenção a partir de um estágio avançado (construção, por exemplo). Exemplifiquemos com um caso real: Os IKL são submarinos feitos para vender a outros países, em outras palavras, para exportação. Pergunta-se: quais os conceitos operacionais e de manutenção que orientaram seu design e desenvolvimento? No caso particular do Brasil, esses conceitos (genéricos, certamente) poderiam ter sido alterados para melhor satisfazer as nossas necessidades? O contrato firmado previa tais possibilidades?

Muito embora não seja de todo descartável a possibilidade de obtenção de um navio de guerra como produto pronto, ou restando apenas ser construído, é mandatório conhecer sua gênese, a fim de poder superar as dificuldades que certamente advirão devido, por exemplo, a uma inadequada estratégia de obtenção.  Disso temos experiências, que não podem ser esquecidas como lições em nossa Marinha de Guerra, além dos próprios IKL acima citados [3].

Apesar dessas constatações, o sistema educacional da Marinha do Brasil (aqui considerando tanto o Sistema de Ensino Naval como as escolas de altos estudos)  não contempla disseminar uma adequada metodologia de obtenção. Para tratar desse assunto, que diz respeito ao preparo do Poder Naval, são escassos os instrumentos normativos disponíveis, e do nosso conhecimento, existem poucas publicações do órgão de direção geral (Estado Maior da Armada), mas que não abordam o processo adequadamente [4].

O processo de obtenção de navios de guerra tem um ciclo de vida muito especial, que requer cuidados e atenções igualmente muito especiais. Por esta razão foi eleito, na modesta opinião do autor, como um dos processos mais importantes da Marinha de Guerra [5].

            Considerando as dificuldades para conceber e construir navios de guerra, coloca-se ênfase na circunstância de serem relegados a plano secundário o conhecimento e o ensino (resumidos, como já mencionamos, em escassas publicações do Estado Maior da Armada) de tal processo  completo na Marinha do Brasil, e tal fato precisa ser modificado. Daí a importância de estabelecer, conhecer e praticar o que consideramos seja o mais importante processo de uma Marinha de Guerra – o processo de obtenção dos seus sistemas de defesa.

O PROCESSO DE OBTENÇÃO COMO O MAIS IMPORTANTE processo a ser conduzido por uma forÇa armada

             Tendo sido definida a dimensão apropriada da expressão militar de uma país, são claras as principais atividades a serem desenvolvidas para a constituição da força naval adequada para atender à missão da Marinha. Uma, é o preparo do Poder Naval, a outra é sua aplicação.

Na Marinha do Brasil, de um modo geral observamos, pelo menos ao longo de nossa carreira, a ênfase que é colocada na segunda, a ponto de classificar a Marinha como de operadores.

O importante é planejar (conceber) e fazer. De um modo geral, quando se trata de operar meios navais, isso é bem executado. Mas quando se trata de preparar o Poder Naval, observações levam a concluir que  a coisa não vai tão bem.

 

Na Marinha do Brasil dedica-se muita atenção à política e a estratégia (e não poderia ser diferente), em contrapartida ao praticamente abandono da Logística, em sua abordagem de  Produção (o que não poderia ter acontecido), parecendo-nos que tal postura se enquadra no questionamento do sociólogo Luiz Marins Filho, em artigo intitulado “Muita iniciativa e pouca acabativa”, conforme comentado pelo Doutor em Educação Paulo Nathanael [6].

“Por que somos tão criativos, inovadores, cheios de idéias e tão ruins em execução? Por que a rotina de cuidar dos detalhes, fazer a manutenção do que já existe, dar continuidade às coisas começadas, nos deixa tão entediados?”

Sobre o tema o sociólogo Luiz Marins publicou em seu site o artigo intitulado “Iniciativa e Acabativa” de Stephen Kanitz[7], quando o autor chama a atenção para semelhante abordagem

“Um dos problemas do Brasil é justamente a eterna predominância, em cargos de ministérios, de professores brilhantes e com iniciativa, mas com pouca ou nenhuma acabativa. Para o Brasil começar a dar certo, precisamos procurar valorizar mais os brasileiros com a capacidade de implantar nossas idéias. Tendemos a encarar o acabativo, o administrador, o executivo, o empresário como sendo parte do problema, quando na realidade eles são parte da solução.

Iniciativo almeja ser famoso, acabativo quer ser útil.”

         Admitindo que o processo mais importante de cada uma das Forças Armadas, na constituição de seu poder específico, seja o de obtenção dos sistemas de defesa peculiares, e que portanto deve ser abordado com profundidade adequada; admitindo que esse poder se constitua basicamente de dois estágios fundamentais, o do preparo e o de sua aplicação, observa-se que, embora com muita iniciativa, a execução do primeiro não tem tido a adequada acabativa, no caso da Marinha do Brasil.

E PORQUE TAL POSTURA?

 È insano pensar que sempre fazendo a mesma coisa, possa-se obter resultados diferentes . A. Einstein.

Atribuímos a razão principal para essa postura a falha na formação intelectual dos elementos que decidem os destinos da força naval, pela cultura inapropriada, proveniente quase sempre (em metodologia) do conhecimento popular, e muito pouco com base em  conhecimento científico.

Por seu turno, e talvez conseqüência da formação,  exacerbada por questões conjunturais, os executivos ou executivos-chefe ( elemento humano) da Marinha do Brasil têm característica essencialmente operativa, mais do que de concebedor e provedor de sistemas navais.

Essa linha de raciocínio pode ser explicada pelo o fato de sistematicamente serem obtidos sistemas navais por construção, ou compra direta de oportunidade, na maioria das vezes em que se manifestou a necessidade de preparar o Poder Naval, em contrapartida à atitude de manter um inventário de concepções e desenvolvê-las como necessário.

Nesse contexto, a Marinha do Brasil precisa evoluir.

PRINCIPAL RAZÃO PARA EVOLUIR

“ ... quem não evolui constantemente, em um mundo em progressão, logo ficará relativamente atrasado.”

Vivemos, na atualidade, em um mundo extremamente competitivo, em que mudanças ocorrem de maneira tão rápida que mal se consegue acompanhá-las. Faz-se mister, porém, identificar as transformações impostas as nossas vidas em sociedade e, para tanto, não se pode prescindir da atualização de conhecimentos, seja pela leitura constante de obras de referência, seja pelos noticiários nacionais e internacionais, ou que outra fonte for, entre tantas facilmente disponibilizadas pela tecnologia corrente.

Fruto dessa tecnologia uma coisa é inegável – a informação, qualquer que seja o campo de conhecimentos, aí está disponível, em maior ou menor quantidade, profundidade e credibilidade, dependendo apenas de visão, vontade e persistência para coletá-la, filtrá-la, analisá-la e transformá-la em conhecimento útil. Essa é tarefa que incumbe, principalmente, às organizações educacionais da instituição naval.

No entanto, para que isso ocorra, depende, aprioristicamente, da possibilidade de aperfeiçoamento cultural de cada um interessado em progredir, cada vez mais, em capacidade e desempenho.

Se tivéssemos que escolher um ponto de partida para aumentar a  eficiência das instituições de ensino, certamente optaríamos pelo esforço individual acima citado, o qual teria condições de dar início a todo um ciclo de progresso. Isso é mais e mais verdadeiro na medida em que  aqueles que se aprimoram culturalmente tenham, embora circunstancialmente,  poder de mando na instituição educacional da organização a que pertencem.

Pois é certo, como dois e dois são quatro, que para haver mudanças de paradigmas, deve haver, em primeiro lugar, quem as advogue, e em seqüência, quem promova o rompimento. Em outras palavras, decidir e fazer, como o são as duas funções conspícuas no gerenciamento, sendo referidas como planejamento e implementação [8].   Esse é o fundamento da melhoria contínua, como preconizado na Gestão pela Qualidade Total.

Daí para o estágio de manter atualizados os conhecimentos disseminados é apenas um passo, embora dependa de muita vontade, organização e persistência. Uma certeza é flagrante: tratando-se da coletividade, o início de quaisquer que sejam as mudanças que impliquem em alterações de paradigmas passa, seguramente, pela educação e pelo ensino, e é função da qualidade dos seus componentes em atualizar os conhecimentos que disseminam.

Se aceita como uma verdade universal, esta incluirá, igualmente, as forças armadas de qualquer país. Portanto, não pode ser diferente com a Marinha do Brasil, onde muitos são os óbices que se antepõe à evolução cultural.

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[2] Stakeholders

[3] Recordemos exemplos reais, como o caso do submarino Goubet; os submarinos da classe Guppy recebidos por terem sido descartados na Marinha de origem; os Oberon, lembrando os casos da negociação de sobressalentes, da  substituição dos cabos elétricos e do caso do  incêndio no Riachuelo, e mesmo os IKL, com as dificuldades na obtenção dos  sobressalentes apropriados.

[4] EMA 400 e EMA 420.

[5] Artigo na RMarinha do Brasil xtri/xxxx.

[6] ComentárioDa Problemática à Solucionática”, Paulo Nathanael Pereira de Souza (Doutor em Educação), em Jornal do Brasil, sab 8 de jul 2008.

[7]“Iniciativa e Acabativa”, obtido em http://www.consultores.com.br/artigos.asp?cod_artigo=208

[8] Cleveland, David I.e King, Wiliam R. System Analysis and Project Management. 2nd Ed.McGraw Hill, 1975 p.9-12

(CONTINUA EXEMPLAR 36)