IÇA O DOIS!

COMO É DIFÍCIL EVOLUIR!

Artigo34_1                                                ano 2010                              VAlte(Ref) Ruy Capetti                                                                              

PARTE  I

A SITUAÇÃO

Ter vocação para grandeza não basta. É preciso fazer acontecer!

 

No mês de dezembro do ano de 2008 a Marinha Brasileira firmou  vários acordos de cooperação com a França, para a construção de submarinos convencionais  e obtenção de um casco para submarino nuclear.

Muitas críticas e comentários diversos já surgiram, outros irão surgir. Das críticas, umas serão a favor, outras irão expor dúvidas, mormente no que diz respeito a se estar criando  uma aventura muito cara. [1] Os comentários, nas mentes criativas, proliferarão. Isso, de certo modo, é bom, pois trás a certeza do engajamento cada vez maior, de toda a sociedade, no problema de modernização de suas forças armadas.

Um fato marcante é que, mais uma vez, por uma série de circunstancias que não cabe aqui enumerar, iremos ingressar num ciclo de dependência tecnológica de outro país, por conveniência e decisão de governo (e não da estratégia naval), com inteira aderência por parte da Marinha às políticas domésticas, na ilusão de que tal brindará o Poder Naval do Brasil com a solução que todos os marinheiros sempre almejaram.

Quando soluções navais (aspectos operacionais) são tomadas dessa forma, embora mascaradas por um pretenso  respaldo da estratégia naval, as conseqüências podem não ser as melhores para o Brasil. Porém, sob aspectos logísticos, inegavelmente, poderemos colher resultados compensadores, desde que, tecnicamente estejamos preparados, ou se nos prepararmos adequadamente.

Os orçamentos militares nesses últimos anos foram cortados tão substancialmente, que nossa expressão militar regrediu, e no seu contexto, a Marinha de Guerra. Nesse quadro, uma Estratégia Nacional de Defesa que contemplasse a modernização da Força teria que ser, como o foi, auspiciosamente recebida.

A circunstância especial de ter tido origem em  elemento organizacional civil, pela primeira vez, refletindo intenção de governo, muito embora com forte influência dos militares no poder, na sua formulação, aumentou ainda mais a esperança de ver as aspirações resolvidas. Em contrapartida, a responsabilidade pelas decisões irão recair sobre esses elementos militares.

Parece estar sendo criada uma Marinha sem um núcleo de elementos navais,  a qual não estará consoante com as aspirações político-estratégicas do Brasil. embora satisfazendo necessidades específicas, por meio da obtenção de submarinos. Porém, quem pensar que a arma submarina possa ser a solução para todos os problemas no mar, pode estar redondamente enganado.

O Poder Naval brasileiro deve ter navios capitais, ou navios escoltas com capacidade de operar em águas mais distantes do Atlântico Sul,  que apareçam, que tenham capacidade de presença e de dissuasão, que mostrem a bandeira. Poucos, mas efetivos. Juntamente com eles, navios de apoio para as diversas finalidades necessárias, como escoltas, como transporte de tropas, como reabastecimento no mar. Todos, com elevada prontidão operacional.  

Desse modo, quem opta pela dúvida da solução ora adotada, de fundamentar o Poder Naval unicamente na arma submarina, tem suas razões. Muitas vezes essas razões não são nem bem percebidas, mas sentidas, embora tenham fundamentos reais. Outras vezes são nitidamente percebidas, mas a conveniência as mascara.

Uma das conseqüências do descaso governamental com a modernização de suas Forças Armadas,  não só pela questão do aparelhamento, mas também, e acima de tudo, pelo descompasso salarial da classe, vis a vis as demais profissões, tem sido a perda de pessoal e de capacitação intelectual, o que vai pesar fortemente na proposta de recomposição de material e dos quadros profissionais.

Porém, não foi só a postura de governo, degradando material e quadros de pessoal, a responsável pelo gargalo criado. Falando apenas sobre a Marinha, essa não cuidou de fazer evoluir intelectualmente seus quadros de pessoal, nos momentos de penúria, adequando-os para o futuro inevitável, e que ora chega.

Essa é nossa opinião, baseada nas observações disponíveis. Iremos ingressar no árduo campo de recomposição do Poder Naval, em circunstâncias em que, no período mais intenso da degradação dos ativos navais, não se cogitou com muita freqüência, da capacidade intelectual visando ao preparo (não estamos falando de configuração do Poder Naval) do Poder Naval, em outras palavras, das melhores práticas para fazê-lo, e assim nos leva à observação acima, de que a “força” não se preparou para tal.

Cabe aqui uma explanação sobre tal constatação. Preparar Poder Naval é uma ação complexa. Passa pela identificação de necessidades, transformadas em objetivos navais de defesa (hoje temos como referência a política militar de defesa); passa, em seguida, pela criação e definição de opções de soluções; o passo seguinte é a seleção das opções e alocação de recursos, para finalmente implementar-se as decisões e prover as forças (obtenção dos sistemas de defesa navais). De um modo geral, são raros  os pensadores estratégicos que realizam análise profunda para chegarem à  definição de configuração da força, enquanto que a maioria, que opina sobre o Poder Naval, sejam militares ou civis, normalmente se limitam a apresentar uma configuração de força (sem justificativas mais profundas).    

Nesse ponto é que julgamos, e ainda há muito tempo para tomar medidas corretivas, que há várias oportunidades de aprimoramento da Marinha. Esse é o fulcro dessa abordagem.

A. PODER NAVAL – RAZÃO DA EXISTÊNCIA DA MARINHA DE GUERRA.

A1. MARINHA DE GUERRA – CORPO E ALMA DO PODER NAVAL

Poder Naval, parcela militar do Poder Marítimo e parcela marítima do Poder Militar, é o poder preparado e empregado em função dos interesses marítimos relacionados com a economia do país – tanto a normal, como a decorrente do esforço de guerra – bem como em função da estratégia militar global, que pode exigir atividades navais não diretamente vinculadas àqueles interesses.

 

Em conseqüência, o Poder Naval deve ser dimensionado adequadamente de acordo com a postura político-estratégica da nação. Por isso, no Brasil, de inconteste maritimidade (ainda que de dúbia percepção de tal condição), cabe se estabelecer, além de estratégia marítima que atenda aos objetivos nacionais permanentes, um Poder Naval apropriadamente dimensionado. Este Poder deve atender, segundo adequada estratégia naval, aos objetivos nacionais de defesa que forem estabelecidos.

Por seu turno (e de interesse particular para a argumentação neste texto), identificamos como elementos dinâmicos do Poder Naval os navios de superfície, submarinos, aeronaves e meios anfíbios, inclusive tropa terrestre, e seus elementos estáticos – as instalações de apoio, comando e controle.

Corpo do Poder Naval, esses elementos dinâmicos não prescindem do componente humano, o qual, pela profissionalização, patriotismo, competência,  responsabilidade e orgulho no exercício de  suas atividades profissionais (forjando inabalável vontade de servir à pátria), moldam a alma sua alma.

Corpo e alma do Poder Naval, esses elementos e componentes são reunidos num conjunto referido como Marinha de Guerra.

A2. COMO TER UM PODER NAVAL A ALTURA - O SUSTENTÁCULO É O ELEMENTO HUMANO COMPETENTE, QUE CONSTITUI A BASE INTELECTUAL NECESSÁRIA

São muitos e variados os elementos necessários à constituição de um Poder Naval adequado. Deles destacamos, acima de tudo, a necessidade de conhecimentos que formem a base para criação da vontade política de o constituir, suficiente bastante para garantir nossos interesses no mar.

Para tanto são condicionantes essenciais a inovação (acesso às inovações tecnológicas e recursos de toda ordem e natureza para sua estruturação), a qual pode ser viabilizada por meio da obtenção de hardware, de software e de serviços diversos, conhecidos como Sistemas de Defesa navais e seus componentes operacionais e de apoio, que irão mobiliar a Marinha de Guerra.

Desse modo de pensar deriva nossa conclusão de que o principal elemento impulsionador da modernização da Marinha (ou qualquer poder militar), na atualidade, é a inovação. 

Relembramos, por sua relevância, como já mencionado linhas atrás, que tudo isso está centrado no elemento humano, cujo aporte de capital intelectual é vital para a consecução das diferentes missões e tarefas navais, usando como instrumentos os  diferentes Sistemas de Defesa navais.

É necessário, pois, existir um ambiente cultural apropriado, onde se crie vontade política e persiga-se a obtenção de recursos de toda ordem para mobiliar a Marinha de Guerra. O principal, enfatizamos, é o ser humano, e esse com capacidade e vontade de construir o Poder Naval necessário. 

A3. OS ELEMENTOS FÍSICOS DO PODER NAVAL SÃO OS SISTEMAS DE DEFESA NAVAIS E SEU SISTEMA LOGISTICO, NELE COMPREENDIDO O SISTEMA DE APOIO LOGÍSTICO

Tratando-se de Marinha de Guerra, os principais elementos visuais do Poder Naval são os navios de guerra, aí incluídos os navios de superfície e submarinos, e por essa razão o nosso propósito, neste texto, é abordar o processo de obtenção desses sistemas, ou super-sistemas, como são, muitas vezes, referidos. Desse processo decorrem elementos (embora nem todos) para o estabelecimento de uma configuração apropriada.

O ambiente em que se desenvolve tal processo é o ambiente da Logística, e tem que se pautar totalmente pela  qualidade, acima de tudo.

Por tais razões, principalmente, o processo de obtenção de sistemas navais de defesa pode ser considerado, universalmente, como um dos principais (senão o principal) processos em curso nas Marinhas de Guerra. Ele é fruto de cuidadosos estudos de natureza estratégica, que definem, em função de avaliação conjuntural, a natureza e a quantidade dos elementos dinâmicos necessários para atender aos objetivos de defesa identificados no nível nacional. Daí nasce a configuração de meios navais considerada ideal.

Geradores de elevado consumo de recursos de toda ordem, esses símbolos visuais do Poder Naval - os navios de guerra - têm que competir, organicamente, com a necessidade de mais investimentos em bens intangíveis como comunicações, reconhecimento, vigilância e a coleta de informações estratégicas, e em extras-marinha,  como as imensas necessidades sociais, que pressionam os governos a despenderem cada vez menos recursos com defesa, segundo orçamentos cada vez mais apertados, num ambiente em que a tecnologia de ciclos cada vez mais curtos impõe complexidade crescente aos diferentes sistemas de defesa.

Esse quadro cíclico reflete a necessidade de aprimoramento contínuo nos processos de obtenção dos sistemas de defesa, de modo a alcançar o equilíbrio necessário.

Desse modo, torna-se necessário conhecer, cada vez mais profundamente, sistemáticas de obtenção usadas por diferentes Marinhas de Guerra, para servirem de referência de comparação e aperfeiçoamento de nossas práticas, com vistas à otimização do processo de obtenção em si. Para isso, esse conhecimento é muito importante.

A4 O design do NAVIO COMO OBRA DE ARTE E COMO CRIAÇÃO INDUSTRIAL - A CONSTRUÇÃO.

A4.1 GÊNESE DE UM NAVIO - ATIVIDADE QUE REQUER MUITA TÉCNICA E MUITA ARTE.

        Genericamente falando o navio é realmente uma espetacular obra de arte. Sua concepção e seu desenvolvimento são consequências diretas da aplicação de muita técnica e de muita criatividade. Somente muitos anos de experiência e prática no exercício dessas atividades podem agregar ao engenheiro especializado qualidades e atributos que permitam classificá-los como arquitetos navais.

          Arquitetos navais são, em realidade e acima de tudo, praticantes de desenho-de-produto. Ou, usando o sinônimo já incorporado em nossa língua, design (sugerimos consultar o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa e a legislação atual do MEC  para cursos superiores), expressão esta adotada preferencialmente neste texto, por ser de uso muito difundido, com a principal intenção de enfatizar sua diferença com relação à palavra projetar.

(A CONTINUAR NO EXEMPLAR 35)


[1] Acima de tudo com referência ao submarino nuclear, considerado uma meta utópica, que traz prejuízo aos demais projetos convencionais.