O MERGULHO LIVRE E SUAS        DIFERENTES MODALIDADES

DEFINIÇÕES DO MERGULHO LIVRE 

SEM LIMITES: O mergulhador se coloca numa pequena plataforma lastrada que desce deslizando por um cabo guia. Levado por este trenó aquatico à profundidade desejada, ele se livra do veículo e puxa um pino que libera ar comprimido de um cilindro, inflando um balão ao qual ele se agarra e é levado para superfície em meio a um turbilhão de bolhas. 

Devido aos perigos, as organizações de mergulho se recusam a patrocinarr este tipo de mergulho, alegando que não se trata de um esporte, mas sim uma forma de experimentação aplicada. 

LASTRO VARIÁVEL: Os mergulhadores realizam a descida com um lastro de não mais que um terço do peso de seu corpo, e do qual se livram antes de subir livremente, sem qualquer ajuda. 

LASTRO CONSTANTE: forma de mergulho livre sem qualquer ajuda e que é patrocinada pela instituição governamental desportiva, a Confederação Mundial de Atividades Subaquaticas (CMAS).

Quem é quem 

Para o esporte do mergulho livre, Mehgan Heaney-Grier foi a melhor coisa que aconteceu desde The Big Blue. Esta modelo de Miami, com 20 anos de idade, que detém, no momento, o record de profundidade para mulheres americanas do Norte, de 165 ft (50.3m), obtido em agosto do ano passado, tem potencial para, algum dia, unificar os records de mergulho livre masculino e feminino

Jim Edds/Stewart Newman Assoc/Florida Keys 
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"Tão logo passei os 40 pés, não mais movi um músculo. Apenas coloquei minha vida nas mãos de Deus. Este é o mais desconcertante sentimento. Você pura e simplemente desliza na água, caindo livremente, cada vez mais para  baixo, mais para baixo, mais para baixo".

Umberto Pelizzari

Ao mesmo tempo que Heaney-Grier no esporte, ela terá um grande desafio para alcançar a marca de  246 ft (74.98m) de mergulho livre do tipo lastro constante estabelecido por Pelizari, do Sector SEM LIMITES - uma viagem que lhe tomou 2 minutos e 11 segundos. Nada mal para o homem que costumava ter medo de se afogar no banho e do qual se dizia sentir-se afogado quando sua mãe ensaboava-lhe a cabeça com shampoo quando criança. 

"Um mergulhador scuba mergulha para ver coisas. Um mergulhador que pratica mergulho livre, para olhar para dentro de si próprio.

Francisco 'Pipin' Ferreras

O recordista de profundidade no mergulho do tipo SEM LIMITES  (133.2m) pretende alcançar a marca dos 150m na virada do século, o que permitirá significativo avanço dos estudos científicos do potencial aquático humano, bem como um passo a frente no projeto de desenvolvimento dos equipamentos Mares de mergulho.

Courtesy Mares
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Ö pânico tomou conta de mim a primeira vez que experimentei a sensação do inundamento dos meus pulmões. Isto agora já se tornou uma sensação bemvinda e agradável que me acompanha em cada mergulho".
 

Deborah Andollo

Esta cubana de 29 anos possue todos os três recordes de mergulho livre. Ao seu recorde de 85 metros na modalidade LASTRO VARIÁ'VEL e 110 metros na modalidade SEM LIMITES, adicionou o tecnicamente mais dificil recorde de 62 metros na modalidade de LASTRO CONSTANTE. Como sabemos esta modalidade envolve a descida e a subida do mergulhador usando unicamente seus próprios recursos

Courtesy Mares
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Para as profundezas! 

Francisco 'Pipin' Ferreras  fala de seu mergulho livre, o mais profundo do mundo. 


"Pulo do barco para as águas azuis profundas em Kingdom of Olokun. Azul ao qual devoto meu maior respeito, no interior do qual sinto minha mãe espiritual, a qual me tem protegido por todos esses anos. Flutuo em sua superfície, sentindo-me em sua boca, preparando-me para descer por sua garganta na esperança de descobrir mais de seus fascinantes segredos

Corpo e espírito prontos, minha concentração é tal que só vislumbro meu objetivo: conquistar aquele azul profundo. Subconscientemente capto a cena no ambiente, onde ressalta a grande a confusão nos navios, helicopteros, dos policiais, dos paramédicos e de vários outros personagens. 

Não vou desapontá-los!

Todo o apoio está pronto, e eu, igualmente. A contagem final chega ao seu término. Os mergulhadores de apoio já estão posicionados ao longo da minha trajetória. Tomo a última inspiração, como se quizesse sorver, de uma só vez, todo o ar do mundo, e retê-lo em minha cavidade abdominal, toráccica, e a parte superior de meus pulmões e laringe.

E aí vou eu! Meus olhos fecham no instante que minha face toca a água. A última coisa que vislumbro é o imenso e luminoso disco do quente sol. Devo ir aonde seus raios não podem alcançar. Muito, muito fundo, no abismo profundo.

Os primeiros 30 metros passam rapidamente. Meus ouvidos atuam como se fossem um manômetro de profundidade e me informam que minha razão de descida é de três metros por segundo, a qual posso controlar facilmente. Tudo vai bem. O ritmo de minhas batidas cardíacas cai para 45 batimentos por minuto. Não tenho desejo de respirar. Sei que posso segurar a respiração por sete minutos, mais que o dobro do que vou precisar.

Tudo prossegue rigorosamente normal. Estou chegando à marca dos 60 metros. Meu subconsciente está alerta e percebe, sente, captura e transmite ao meu cérebro a sensação da realidade que me cerca. Ele me alerta para reduzir a velocidade de descida. Toco levemente o freio e minha razão de descida cai para dois metros por segundo.

Na marca dos 85 metros abro os olhos e vejo em volta aquela massa azul. Vagamente percebo o amarelo fluorescente do tanque de ar do scuba do meu assitente, ao passar por ele.

-100m. O momento da verdade começa. 

Aos -115m tento equalizar assoprando com toda minha força, mas não funciona. Não tenho uma gota de ar para expelir e equalizar a pressão. Decido tirar vantagem de uma de minhas melhores descobertas; retiro o clip do nariz e deixo a água invadir minha cavidade nasal. Ela desloca o ar remanescente forçando-o em direção ao ouvido interno e obrigando-o a igualar as pressões automaticamente. Daqui em diante não mais terei necessidade de equalizar as pressões.

-120m. Agora, tudo se transforma num jogo psicológico. Controlo meu coração, fazendo-o bater mais devagar, a 14 batimentos por minuto.Por um breve lapso de tempo pensei ouvir "é bastante, há risco, pare" mas rapidamente afastei meu pensamento para outra coisa.

Senti frio e solidão lá no fundo. Ansiei por ver o sol. Subitamente me dei conta que alcançara -124m. Reduzi a velocidade de descida. -130m. Nunca havia chegado a este nível; tudo é novo. 

-132.2m! Cheio de felicidade cheguei ao fundo. Uma sensação avassaladora encheu meu ser. Saí do estado de tranformação psicológica e sorri. Decorreram exatos 1 minuto e 45 segundos.

Decidi finalmente a retornar ao mundo terrestre. Minha mão direita controla a garrafa de ar que infla o balão que me retornará à superfície. Movo a mesma mão em direção à estrutura metálica a qual o balão está fixado e asseguro-me de agarrá-la bem. Com aquela mão apego-me a vida. A mão esquerda controla o gatilho que vai liberar o balão inflável do seu suporte. Dou uma olhada final para baixo com tristeza e digo adeus ao dispositivo que generosamente me transportou até a minha preciosa meta.

Olho para cima e me dou conta da altura equivalente a um edificio de 40 andares que tenho que ascender. Começo a subida numa razão de 4 metros por segundo.

Aos -50m olho para cima e já vislumbro a superfície. Lá, no fim do cabo, vejo luz, e desejo-a. Há calor, e também o desejo. Lá existe ar. O mesmo ar que inspirei profundamente há cerca de eternos dois minutos e meio atrás. Dois minutos e meio que me transformaram no homem que mergulhou livre o mais profundo mergulho no mundo.

Aos -10m da superfície, o estágio mais crítico, onde ronda o verdadeiro perigo, como um enorme tubarão espreitando sua presa, na forma de uma coisa chamada apagamento em águas razas. Livro-me do balão inflável que me serviu de elevador. Firmo-me no cabo guia e faço um último esforço físico e psicológico. Sei que tudo correu perfeitamente.

Com alegria e tristeza alo-me pelo cabo guia e rompo a superfície."




O recorde de mergulho livre masculino do tipo lastro CONSTANTE é de 74 metros.