IÇA O DOIS!

COMO É DIFÍCIL EVOLUIR!

abr/mai/jun                                                        ano 2009                                          autor:VAlte(Ref) RCapetti

ACORDOS ... E CONSIDERAÇÕES!

Ter vocação para grandeza não basta. É preciso fazer acontecer!

            No dia 23 de dezembro do ano de 2008, na cidade do Rio de Janeiro,  o governo brasileiro firmou vários acordos de cooperação com a França. Na mesma ocasião os Presidentes dos dois países adotaram o Plano de Ação da Parceria Estratégica Brasil-França, lançado em 2005, documento esse que constitui a base para o dialogo e a cooperação bilateral nos próximos anos.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o encontro entre os dois Presidentes refletiu a intenção de ambos os governos de aprofundar o relacionamento bilateral e de acentuar a sua natureza  estratégica, especialmente por meio da cooperação tecnológica  em suas variadas vertentes, de modo a garantir benefícios mútuos e equânimes para os dois países.

O item III do Plano de Ação – Cooperação na área de defesa,  prevê cooperação privilegiada que abrangerá, entre outros aspectos

“Os submarinos, com o desenvolvimento e a produção compartilhada de quatro submarinos do tipo “Scorpène” e a assistência da França ao desenvolvimento da parte não-nuclear do projeto de submarino a propulsão nuclear brasileiro, de uma base de submarinos e à construção, modernização e manutenção de estaleiros.”

Desse propósito, decorreu o Acordo entre os governos da República Federativa do Brasil e da República Francesa, na área de submarinos, divulgado na íntegra no site OS SUBMARINOS DO BRASIL! (Nota 1).

Sobre este acordo muitas críticas e comentários diversos já surgiram, novos virão.

Das críticas, umas serão positivas, outras irão expor dúvidas sobre sua viabilidade, em face da crise econômica em que mergulha o mundo. Alguns pensam se estar criando  uma aventura muito cara. A inserção da França no contexto de uma Indústria de Defesa Européia (Nota 2)  deve ter sido cuidadosamente pesada, pois a “lealdade” às considerações continentais sobre todo um processo de fortalecimento daquela Indústria poderá se constituir em forte óbice para a “chegada” de um país sul-americano, sem relevante retrospecto nesse tipo de comércio.

Os comentários, na mente criativa de todos, irão proliferar abundantemente. Isso, em resumo, pode ser bom, pois traz a certeza do engajamento, cada vez maior, de toda a sociedade, no problema de modernização de suas Forças Armadas.

Fato marcante, porém, é que mais uma vez, por uma série de circunstancias que não cabe aqui enumerar, iremos ingressar num ciclo de dependência tecnológica, por conveniência e decisão de governo (e não da estratégia naval), com inteira aderência por parte da Marinha de Guerra às políticas domésticas, na ilusão de que tal brindará o Poder Naval do Brasil com a solução que todos os marinheiros sempre almejaram.

Quando soluções navais (aspectos operacionais) são tomadas dessa forma, embora mascaradas por um pretenso  respaldo da estratégia naval, as conseqüências podem não ser as melhores para o Brasil. Porém, sob aspectos logísticos, inegavelmente, A MB poderá colher resultados os mais compensadores, desde que, tecnicamente, se prepare adequadamente para tal.

 

 

 

 

Os orçamentos militares nesses últimos anos foram cortados tão substancialmente, que nossa expressão militar regrediu, e no seu contexto, a Marinha de Guerra. Nesse quadro, qualquer Estratégia Nacional de Defesa que contemplasse a modernização da Força (e talvez só por isso)  teria que ser, como o foi, auspiciosamente recebida, pelo menos no âmbito da caserna.

A circunstância especial de ter sido elaborada por elemento civil, pela primeira vez, refletindo intenção de governo, muito embora com forte influência dos militares no poder, na sua formulação, aumentou ainda mais a esperança de ver aspirações resolvidas. Em contrapartida, a responsabilidade pelas decisões cairão pesadamente sobre esses elementos militares.

Parece estar sendo criada uma Marinha sem um núcleo de elementos navais (navios capitais),  que não estará consoante com a estatura político-estratégica do Brasil, embora satisfazendo necessidades específicas, por meio da obtenção de submarinos. Porém, quem pensar que a arma submarina possa ser a solução para todos os problemas no mar, pode estar redondamente enganado.

O Poder Naval brasileiro deve ter navios capitais, que apareçam, que tenham capacidade de presença e de dissuasão, que “mostrem a bandeira”. Poucos, mas efetivos. Juntamente com eles, navios de apoio para as diversas finalidades que se fizerem necessárias, como escoltas, como transportes de tropas, como reabastecedores.

Todos, incluindo submarinos, precisam ter elevada prontidão operacional.  

Desse modo, quem opta pela dúvida da solução ora adotada, de fundamentar o Poder Naval unicamente na arma submarina, tem suas razões. Muitas vezes essas razões não são nem bem percebidas, mas sentidas, embora tenham fundamentos reais. Outras vezes são nitidamente percebidas, mas a conveniência as mascara.

Uma das conseqüências do descaso governamental com a modernização das Forças Armadas brasileiras, não só pela questão do aparelhamento, mas também, e acima de tudo, pelo descompasso salarial da classe, vis a vis as demais profissões, foi a perda de pessoal e de capacitação intelectual, o que, agora, vai pesar fortemente na proposta de recomposição de material e dos quadros profissionais.

Porém, não foi só a postura de governo, degradando material e quadros de pessoal, a responsável pelo gargalo criado. Falando apenas sobre a Marinha (MB), essa não cuidou de fazer evoluir intelectualmente seus quadros de pessoal, nos momentos de penúria, adequando-os para o futuro inevitável, e que ora chega. A MB concentrou-se nas operações, e relegou o preparo do Poder Naval a um segundo plano.

Essa é nossa opinião, baseada nas observações disponíveis. A MB irá ingressar no árduo campo de recomposição do Poder Naval, em circunstâncias em que, no período mais intenso da degradação dos ativos navais, não cogitou com muita freqüência da capacitação intelectual visando ao preparo daquele Poder. Em outras palavras, não cogitou de estudar as melhores práticas para fazê-lo, e é isso que nos leva à observação acima, de que a “força” não se preparou adequadamente para tal.

A identificação dessas "melhores práticas" decorrem das deficiências da evolução da Logística na Marinha, razão pela qual os artigos que tratam da Logística, e  os deste enfoque, têm íntima vinculação.

Nesse contexto julgamos, e ainda há muito tempo para tomar as medidas apropriadas, que há várias oportunidades de aprimoramento da Marinha. Esse é o fulcro dessa  abordagem.

Nota 1: www.submarinosdobr.com.br/

Nota 2: Consulte: The future of the European naval defence industry em http://www.assembly-weu.org/en/documents/sessions_ordinaires/rpt/2005/1916.php#P80_1027