IÇA O DOIS!

Evolução do pensamento logístico da MB

PARTE III

abr/mai/jun                                                        ano 2009                                              VAlte(Ref)RCapetti

     Embora a visão de alguns chefes navais do passado fosse correta, buscando atribuir as diferentes abordagens da Logística tanto ao Estado Maior da Armada, quanto à Secretaria Geral de Marinha (Guillobel in Memorias), a evolução da Logística não tomou o melhor rumo, vis a vis suas diferentes atividades.

     Antes da II Grande Guerra - O Programa Naval do Ministro Julio de Noronha foi muito bem estudado e abrangente; não cuidou só do do material flutuante, mas também das instalações de apoio logístico, da transferência da principal base da Marinha do Rio de Janeiro para outro local, e da instalação de uma usina siderúrgica junto ao novo Arsenal a ser construído na área fronteira  à Ilha Grande. Embora seu plano tenha plano sido aprovado pelo presidente Rodrigues Alves foi,logo a seguir, substituído por Alexandrino de Alencar, que, em cerca de uma semana depois que assumiu a pasta, conseguiu o seu cancelamento, e a aprovação de plano diferente. O Plano de Alexandrino apressou a compra de navios e postergou a instalação do apoio logístico. Embora tenha agilizado a construção do novo Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras, este só passou a funcionar muitos anos depois, e sem a usina siderúrgica prevista por Julio de Noronha para o Arsenal fora do Rio (Caminha, RMB 3Tri/1984 pg 34).

     No período de 1935-1937, primeiro em que Guilhem (VA Henrique Aristides Guilhem) foi Ministro, sua grande preocupação foi reiniciar a construção de navios de guerra no Brasil. Mas não foi só isso, pois que o Ministro criou escolas, bases navais e outros elementos essenciais à prestação do apoio logístico visando a proporcionar aos navios o rendimento esperado.

     Depois da II Grande Guerra - o Almirante de Esquadra Silvio de Noronha (1946-1951), manifestou seu interesse pela organização do apoio logístico aos navios.

     Na ocasião em que Guillobel foi Ministro (1951-1954), criou a Diretoria de Intendência (Memórias de Guillobel- A importância da logística - pg 260-1, 1955/1957), "destinada ao trato da logística de consumo", e cujo  Regulamento teve forte assessoramento de Gastão Motta. A preponderância das atividades de abastecimento foi de tal monta que deu origem, mais tarde, às "Normas Gerais de Abastecimento", criadas por Portaria ministerial!

     Ambos os Ministros Sylvio de NoronhaGuillobel puseram grande ênfase  no estabelecimento da infra-estrutura de apoio aos meios navais, a qual deveria cobrir todo o espectro das funções logísticas, e não somente a manutenção e o reparo.

     Como Ministro, Sylvio de Noronha "sempre lamentou terem faltado recursos para adquirir uma força moderna de navios para a Marinha brasileira. Por seu esforço, foi apresentado ao Congresso o projeto de lei que criou um 'fundo de receita permanente' destinado à renovação do material flutuante. Observava o Ministro que a 'aquisição ou construção de uma esquadra demanda período de tempo relativamente curto, mas exige vultosos créditos, enquanto a construção de bases para apoio às Forças Navais demanda longo período de tempo, exigindo, porém, recursos financeiros relativamente limitados, que podem ser distribuídos por vários anos de trabalho.'"(RMB 3tri/1984 pg 115)

     Tivesse a MB seguido essa orientação, talvez tivessem sido elaboradas normas gerais sobre Manutenção, por Portaria Ministerial. No entanto, foram geradas as "Instruções Gerais para a Execução de Reparos, Manutenção e Alterações dos Navios e Aeronaves da Marinha", a então bastante conhecida IGERA (EMA-114)(1975)(Conf) que tantos serviços nos prestou. Sua origem, no entanto, foi o Estado Maior da Armada.

     Mas é somente a partir de 1977 (Vidigal), que a MB formalizou sua concepção estratégica em consonância com a Política governamental, e que procurou orientar o planejamento e o preparo das força naval, e do apoio que ela necessita.

     Muito poucas instruções foram elaboradas sobre o preparo do Poder naval, apenas umas poucas sobre a construção naval e sobre a evolução do processo de obtenção de sistemas navais na Marinha(cf. Capetti, Ruy. Importância do Processo de Obtenção de Sistemas Navais de Defesa na Marinha do Brasil in RMB. Rio de Janeiro, v.127, n 04/06).

     Depois que o planejamento e a direção geral passaram ao EMA, o assunto Logistica saiu das considerações dos Ministros subsequentes, e passou-se a observar uma estagnação no evolução dos conceitos da Logística. A transformação da Logística não se deu num ritmo compatível com a evolução operativa da Marinha.(cf. Caminha, Herick Marques. História Administrativa do Brasil; organização e administração do Ministério da Marinha na República. Coordenação de Vicente Tapajós. Brasília - Rio de Janeiro, Fundação Centro de Formação do Servidor Público. Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1989 Vol 36. pgs410)[vai até 1985].

     Uma das razões talvez seja a que Caminha (Op. cit.) aventou - "a elaboração inadequada dos relatórios anuais ministeriais ao Presidente da República, e mesmo a ausência de vários exemplares." Por exemplo, não se encontra a coleção dos relatórios de 1961 a 1968 na biblioteca do Serviço de Documentação da Marinha, ao que parece porque não foram elaborados. O fato é que os relatórios Ministeriais passaram a seguir modelos padronizados pelo EMA, perdendo bastante em capacidade de comunicação, pela falta de detalhamento.

     Acentua-se o trato da Logística na MB com ênfase no consumo, em razão da sua própria evolução, como mencionado linhas atrás. A própria postura naval põe pesada ênfase nas operações (aplicação do Poder Naval) o que justifica, igualmente, polarização para o consumo.

     Somente em 1977 pelo Decreto 79.552 de 19/04 (que aprovou novo regulamento para o EMA, ainda "órgão claramente de caráter híbrido, burocrático-administrativo e militar-operativo" é que foi criada a Subchefia de Logística e Mobilização (id. Caminha pg 67).

     No ensino, observa-se a mesma polarização. A Escola de Guerra por anos a fio veio enfatizando a Logística do Teatro, portanto voltada para a aplicação do Poder Naval, e quase nada tratando do Preparo desse Poder (Cf. Capetti, Ruy. Artigo mencionado linhas acima).

     Muito embora o  trato da Logística na MB venha, no presente,  ganhando considerações segundo aspectos mais abrangentes (uma mudança de postura muito lenta) , o fato é que, observando a realidade, verifica-se que até então inexiste um Sistema Logístico (SisLog) naval, que tenha como propósitos básicos, desenvolver, difundir e fazer praticar,  em todos os níveis, a doutrina de logística, mantendo a sintonia com as exigências e preparo da força.

     A existência de um Sistema de Apoio Logístico (subsistema do macro-Sistema Logístico) não é bastante, pois este, por suas próprias atribuições, não é suficiente para o trato de todos os aspectos Logísticos navais, em particular aqueles que dizem respeito à mobilização industrial, e à obtenção dos complexos sistemas navais de defesa.

     Se existisse o macro-sistema Logístico naval, ele, além de ser compatível com a Doutrina Logística do Ministério da Defesa, deveria visar, entre várias outras atividades:

(1) a obtenção de sistemas de defesa navais  modernos que permitam à Força Naval cumprir com eficácia e eficientemente sua missão constitucional;

(2) a garantia de recursos indispensáveis ao desenvolvimento e a implantação de suas atividades, compatível com  a realidade orçamentária;

(3) a integração das atividades logísticas que se referem ao material e ao pessoal, implantando e implementando um adequado Sistema de Material (que contemple a integração de suas atividades componentes – qualidade, catalogação, inventário, controle físico, contratos, técnica..), e um eficiente Sistema de Pessoal (já criado, mas que carece de ter eliminando o inconveniente "setor de pessoal"), que busque incessantemente a capacitação do pessoal, abrangendo funções de saúde e de ensino, inclusive preparando-os para exercerem as funções logísticas e o gerenciamento da logística (além, é claro das demais funções de natureza político-estratégica-tática), e  

(4) o trato da mobilização de pessoal, do pessoal civil, e de outros elementos, e

(5) o trato da mobilização industrial

 

 

   O estabelecimento desses sub-sistemas citados, de Material e Pessoal busca, acima de tudo:

(a) torná-los eficientes instrumentos orgânicos de apoio à decisão;

   (b) contribuir para o macro-sistema na interação com os sistemas logísticos das demais forças, desse modo colaborando para o bom desempenho das operações combinadas;

(c)contribuir para a interoperabilidade, nos casos identificados como necessários; e

(d) serem capazes de prover apoio ás operações subsidiárias.  

    

    Por seu turno caberia ao macro-sistema Logístico, caso existisse, estabelecer os contatos com a indústria nacional, em termos da logística de produção (obtenção de sistemas complexos de defesa, desenvolvimento e produção de materiais estratégicos para a força Naval, desenvolvimento, produção e fomento de materiais para a Industria de defesa, tais como, sistemas, armamentos, munições, explosivos, estabelecimento de um ambiente de compartilhamento de dados, etc)

     Observa-se, na atualidade, que a única publicação da MB que faz referência à Logística, em caráter normativo é o EMA 400 MANUAL DE LOGÍSTICA DA MARINHA (agora em sua revisão 2, aprovada em 14 de fevereiro de 2003), e que tem como propósito, por sinal bastante inadequado, como se depreende da sua Introdução:

apresentar os conceitos básicos da Logística Militar, decorrentes da Doutrina de Logística Militar DLM publicação MD 42-M-02, editada em 2002 pelo Ministério da Defesa, aplicáveis à Marinha.

     Embora pareça mais um texto didático, do que propriamente normativo, esse texto mostra uma lenta evolução da Marinha, em termos de compreensão conceitual da Logística, e contém várias apreciações que merecem revisões profundas.

     Tal publicação mostra claramente uma quase estagnação da evolução dos conceitos logísticos e , acima de tudo, a tendência da MB em confundir Intendência com Logística – um vicio arraigado que somente o estudo e compreensão da logística poderá eliminar. 

    Um exemplo flagrante do apego ao passado é a postura do Estado Maior da Armada para tratar o abastecimento (Nota 1) como super função logística, contrariando a doutrina de Logística do Ministério da Defesa. A tendência que se observa, uma vez mais, é para a abordagem visando, primordialmente, a aplicação do Poder Naval (em detrimento do preparo do poder naval).

     Embora não seja objeto desse texto comentar sobre publicações da MB, o conteúdo da publicação citada (EMA 400) demonstra, à saciedade, o equívoco da MB no trato da Logística.

     Além de parecer pretensioso (por exemplo, cria superfunção abastecimento; adota definição de Logística diferente do que conceitua o Ministério da Defesa) não considera alguns elementos da logística que dão origem à funções logísticas – como por exemplo, os recursos computacionais, o material de apoio, etc; confunde quando insiste que o Sistema Logístico da Marinha é o mesmo que seu o Sistema de Apoio Logístico; polariza-se para aspectos da Intendência a partir do capítulo 3, comportando-se mais como um manual de abastecimento do que de logística.

     Em sequência, ao tratar do APOIO LOGÍSTICO INTEGRADO (talvez a principal, ou única, fonte para a composição do Sistema de Apoio Logístico), não aborda a possibilidade de ser criado o Programa de ALI na MB, como a outra face da mesma moeda que comporta o Programa de Engenharia, os quais, juntamente com os Programas de Aplicação de Recursos, Nuclear, de Confiabilidade, Manutebilidade e Disponibilidade, entre outros,fazem parte do macro Programa de Modernização e ou de Reaparelhamento da MB. 

     Em ocasião alguma trata do levantamento e registro de custos de todas as atividades da MB, aspectos muito importantes para um Sistema Logístico (e não só para um Sistema de Apoio Logístico).

    Os aspectos acima citados parecem ratificar o ponto de vista da polarização da Logística na MB para os aspectos de aplicação do Poder naval, enfatizando a abordagem de consumo quando trata dos suprimentos, das finanças, da manutenção e da obtenção de sistemas de defesa.(Nota 2)

OUTRAS OBSERVAÇÕES, ALGUMAS CONCLUSIVAS

    De tudo isso fica patente a necessidade da existência de um Sistema Logístico (talvez SisLog), destinado a preparar e aplicar o Poder Naval, e que abranja diversos sub-sistemas, aqui referidos como sistemas, como o Sistema de Apoio Logístico, o Sistema de Material, o Sistema de Pessoal, o Sistema de Mobilização, o Sistema de Gerenciamento da Logística Naval, entre tantos outros.

     De um modo geral observamos a polarização da MB, ao longo dos anos, para as atividades típicas da aplicação do Poder naval, o que lhe proporciona uma característica tão nossa conhecida – a Marinha é essencialmente operativa, tanto que se criou o conceito de “setor operativo”. Na realidade, os profissionais do mar são preparados essencialmente para operar os sistemas de defesa, e o fazem com maestria. 

     O Sistema de Apoio Logístico (SisApLog)  tem grande repercussão nessas atividades, e todas suas atividades nascem da aplicação do conceito de Apoio Logístico Integrado, uma metodologia de obter apoio para um sistema de defesa, considerada desde o instante da sua concepção, de modo a que nada seja esquecido.

Nessas atividades preponderam as necessidades de suprimento e de distribuição, e portanto de transporte e correlatas (acondicionamento, armazenagem, transporte) a que era referida, na MB, ainda que inadequadamente, principalmente as duas primeiras atividades, como superfunção logística abastecimento.

 Isso explica, em parte, as dificuldades com o trato dos demais elementos da logística, tais como a manutenção, os dados (compartilhamento, data warehousing, data mining, LSAR), os testes (validação e comprovação), a qualidade, entre tantos outros.

Esse SisApLog, em tempo de paz (referido como Estrutura Normal) não tem a supervisão  declarada (ver artigo 0205 letra a da publicação EMA 400), enquanto que no âmbito da Estrutura Naval de Guerra, no Escalão administrativo  “a supervisão do SisApLog da Marinha cabe ao EMA” (Cf. lt b, mesmo artigo item Escalão Administrativo, pg 2-7). Isso remete a possibilidade de vir  a Secretaria Geral de Marinha se constituir num Estado Maior  Logístico, liberando o Estado Maior da Armada do trato de muitas questões de natureza logística.

     Um outro aspecto da Logística que chama a atenção é o Ensino na MB (Nota 3). Não se observa a existência de cursos voltados para o preparo de oficiais com capacitação de "logístico" (além de suas habilitações atuais), de modo a poderem contribuir, mais intensamente, para as decisões relativas ao Preparo do Poder Naval. 

De fato, observa-se no nível dos mais elevados postos da carreira, até Capitão-de-Mar-e-Guerra (CMG), a preferência dos cursos da atualidade voltados mais para aspectos da política e estratégia navais, sendo praticamente abandonados os aspectos técnicos e, consequentemente, a Logística.

Esta última, acima de tudo, é relegada a um plano secundário na própria estrutura organizacional da MB, pois nem sequer um mero Departamento de Logística existe, na estrutura orgânica naval, para coordenar o trato de atividades principais dos diversos sistemas, entre eles o Sistema de Apoio Logístico. O que se observa, de fato, é que o Sistema de Apoio Logístico, como  conjunto de organizações e meios de apoio logístico que, funcionando desde o tempo de paz, deverá estar em condições de atender as necessidades da MB em caso de guerra ou situação de emergência, carece de organização física.

Todos esses aspectos mencionados transparecem um descompasso na compreen-são naval de que a Logística tem que sofrer transformações, a fim de atender a Estratégia Nacional de Defesa, em última instância.

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Nota 1. "Para que a MB atendesse à Doutrina de Logística Militar (DLM),  "ABASTECIMENTO deixou de ser definido como função logística, passando a ser entendido em sentido amplo, como um conjunto de atividades voltadas para o apoio de material às Forças e demais OM, englobando a função logística SUPRIMENTO e parte da função logística TRANSPORTE, além de relacionar-se estreitamente com a função logística MANUTENÇÃO."

Nota 2. Funções que certamente irão dar origem a um Sistema de Gerenciamento Logístico de Defesa, por parte do Ministério da Defesa.

Nota 3. Sobre esse aspecto consulte http://www.vestibular.brasilescola.com/especial/os-desafios-carreira-militar.htm