HISTÓRIA DO MERGULHO
Tradução: CT (Md) Mario Jorge Soares Leite

Os equipamentos e procedimentos pertinentes à atividade de mergulho foram desenvolvidos e aperfeiçoados ao longo de vários séculos">

HISTÓRIA DO MERGULHO
Tradução: CT (Md) Mario Jorge Soares Leite

Os equipamentos e procedimentos pertinentes à atividade de mergulho foram desenvolvidos e aperfeiçoados ao longo de vários séculos, exigindo para isto dedicação e engenhosidade. Recapitular a história do mergulho fornece uma visão das descobertas que conduziram ao presente estágio de desenvolvimento. Avanços na área de mergulho dependeram em grande parte do progresso da medicina e fisiologia do mergulho. A história do mergulho revela as descobertas que conduziram ao atual nível de ceconhecimento do comportamento do corpo humano diante da pressão, gás inerte, temperatura e outros estresses ambientais.

O interesse de antigas culturas pela extração de produtos do mar, assim como as atividades militares e de exploração, deram o impulso inicial à atividade de mergulho. Os primeiros mergulhos de que se tem notícia remontam a um período anterior à Grécia antiga. O mergulho era inicialmente empregado na colheita de esponjas, alimentos e corais. Herodotus descreveu um mergulhador no século V A.C., que recuperou um tesouro afundado para o Rei Persa XERXES. ALEXANDRE o grande, Rei da Macedônia, no século III A.C., empregou mergulhadores em operações navais no Mediterrâneo e consta que o próprio mergulhou em um sino para inspecionar pessoalmente os trabalhos.

Suprimento de ar foi uma preocupação mesmo nos primórdios da atívidade de mergulho. Os primeiros mergulhadores utílizavam um tubo que era mantido na superfície por meio de uma bóia, através do qual o ar era aspirado. As limitações deste método mostraram-se logo evidentes; a pressão subaquátíca torna impossível a aspiração do ar da superfície em profundidades superiores a 33 pés (10 metros). Em 1680, Sir WILLIAM PHIPPS e um grupo de mergulhadores recuperaram um grande carregamento de prata de um galeão Espanhol afundado no Caribe. Em 1883, um salvamento utilizando mergulho livre foi descrito por ROBERT LOUIS STEVENSON em seu romance "A Ilha do Tesouro".

Logo chegou-se à conclusão de que era necessário o fornecimento de ar comprimido ao mergulhador com a mesma pressão a que ele estava submetido durante o mergulho, a fim de que recebesse suprimento de ar adequado para a realização de longas operações de salvamento. Isto foi obtido pela primeira vez de maneira eficaz, através da utilização de um sino de mergulho rudimentar constituído por um grande tanque com formato de sino, emborcado de maneira a conter ar que era comprimido contra o seu fundo, na medida que era descido na água. Um mergulhador podia descer no sino respirando o ar contido no seu interior. Para executar trabalhos submersos, ele deixava o sino por curtos períodos, em apnéia.

Os primeiros sinos de mergulho práticos foram usados no século XVI. Por vários séculos este foi o método empregado no salvamento de navios afundados. Em 1640 VON TRILEBEN  utilizou um sino primitivo para recuperar canhões de um navio sueco, afundado no porto de Estocolmo a 132 pés (40 metros) de profundidade. O astrônomo EDMUND HALLEY desenvolveu um sino de mergulho que ele testou no rio Thames, na Inglaterra, por volta de 1690. Neste experimento,. tambores contendo ar eram descidos na água para renovar o supri- mento de ar do sino. No século XVIII sinos menores e fecha- dos foram construídos. Um homem podia executar trabalhos submersos quando no interior de um destes sinos, através da exteriorização de seus braços por meio de dois orifícios no si- no, enquanto a locomoção no fundo do mar era feita da mesma maneira, uma vez que suas pernas localizavam-se fora do sino.

A principal restrição do sino de mergulho naquele tempo era óbvia; tal equipamento possuía limitado suprimento de ar. No início do século XIX, um compressor foi desenvolvido para pressurizar o ar do sino. Um grande passo na tecnologia do mergulho foi dado, abrindo caminho para o mergulho profundo. Roupas e capacetes de mergulho começaram a surgir no final do século XVIII. Nesta época, a maior parte dos mergulhos era realizada utilizando capacetes abertos que permitiam a livre exalação do ar através do fundo aberto do capacete. Os equipamentos de mergulho dependentes emprega- dos atualmente pela maioria dos mergulhos comerciais, são diretamente derivados da roupa de mergulho desenvolvida por AUGUST SEIBE, em torno de 1820. SEIBE conectou o capacete de mergulho, aberto até então utilizado, a uma roupa de mergulho, adicionando uma válvula de descarga para permitir a saída do ar do capacete. SEIBE também desenvolveu um compressor que podia suprir o capacete com ar comprimido durante o mergulho. Pela primeira vez mergulhadores podiam permanecer no fundo por períodos prolongados e relatos de "Reumatismo do mergulhador" começaram a surgir. Esta desordem era, na verdade, doença descompressiva, mas 50 anos se passariam até se descobrir este fato. Em 1670 SIR ROBERT BOYLE induziu doença descompressiva em uma cobra, colocando-a em uma câmara de vácuo. A descrição de uma bolha no olho desta cobaia, feita por este pesquisador, foi a primeira menção à doença descompressiva.

O problema da doença descompressiva em seres humanos tornou-se evidente em trabalhadores de caixões hiperbáricos no final do século XIX. Nesta época vários projetos de construção de pontes e túneis utilizavam ar comprimido em câmaras subaquáticas fechadas. Muitos trabalhadores eram comprimidos durante seus turnos de trabalho diariamente, sendo trazidos à pressão atmosférica no fim do dia sem cumprirem descompressão. A doença, então conhecida como reumatismo dos trabalhadores de caixão, era um sério problema.

Em 1841 um médico Francês, TRIGER, descreveu os sinto- mas da doença descompressiva em mineiros que trabalhavam em minas de carvão pressurizados. A mais importante contribuição para a compreensão da doença partiu de PAUL BERT, um Fisiologista francês que estudou as condições ambientais da altitude e do mergulho. Suas pesquisas permitiram-no emitir os conceitos sobre saturação de nitrogênio que eram necessários para o entendimento da doença descompressiva. Os estudos de Bert forneceram as bases para a prevenção desta doença, através da descompressão lenta após exposição à elevada pressão. No início do século XX foram elaborados os conceitos de supersaturação de gás nos tecidos e de formação de bolhas durante descompressões súbitas, com efeitos danosos que poderiam resultar em paralisias motoras e morte.

No inicio deste século a profundidade limite no mergulho foi estabelecida em cerca de 120 pés (37 metros) , devido a

preocupação com a prevenção de doença descompressiva. Nesta época os mergulhadores dispunham de tabelas seguras de descompressão. O fisiologista inglês J.B.S. HALDANE, através de cuidadosos estudos experimentais, elaborou um método de descompressão gradual que permitia mergulhos a profundidades em torno de 200 pés (60 metros). As tabelas de descompressão de Haldane, publicadas primeiramente em 1908, foram as precursoras das tabelas utilizadas hoje em dia.

A resolução do problema da doença descompressiva evidenciou outra dificuldade, pois quando os mergulhadores alcançavam 200 pés (60 metros) , passavam a experimentar uma sensação de euforia e incapacidade por eles denominada "êxtase da profundidade". Pesquisas conduzidas nos anos 30 identificaram o nitrogênio como o agente causal, e esta desordem foi rebatizada de narcose pelo nitrogênio. Em mergulhos mais profundos passou-se a utilizar o hélio para prevenir a narcose. Este procedimento é adotado até hoje para mergulhos a profundidades superiores a 60 metros. Uma das primeiras utilizações práticas do hélio no mergulho foi por ocasião do salvamento do submarino americano SQUALUS em 1939, que se encontrava sinistrado a uma profundidade de 240 pés (73 metros). Empregando mistura heliox, mergulhadores resgataram 36 homens e salvaram o submarino. Os comentários dos mergulhadores e oficiais médicos, elogiando o novo gás na manutenção de clareza mental e coordenação muscular durante o mergulho, confirmaram o êxito decorrente dos muitos anos de pesquisas em narcose que culminaram com o uso prático do hélio.

O desenvolvimento do equipamento autônomo (SCUBA), aprimorado ao longo de cem anos, iniciou-se em torno de 1860. A válvula de demanda foi inventada por ROUQUAYROL na França neste mesmo período. Esta válvula era originalmente utilizada com suprimento de ar da superfície, mas foi parte essencial do desenvolvimento do suprimento de ar autônomo. Naquele tempo não existiam tanques que suportassem altas pressões de ar, de maneira que só 60 anos mais tarde a válvula de demanda pôde ser conectada a um tanque de metal que pudesse conter as pressões de 2000 pés. Os primeiros scubas não tiveram utilização prática, pois a tecnologia necessária não estava ainda totalmente desenvolvida. A válvula de demanda foi aperfeiçoada por COUSTEAU e GADNAN nos anos 40 para ser empregada no aqualung, equipamento que abriu as portas do mundo submarino aos mergulhadores amadores. Aí começou a atividade do mergulho como esporte. Embora os equipamentos de mergulho tenham sido aperfeiçoados desde então, o princípio básico da válvula de demanda permanece o mesmo.

Tabelas de tratamento de doença descompressiva foram publicadas pela Marinha Americana em 1945, tendo sido posteriormente adotadas mundialmente. Em 1947 EDGAR END introduziu como novidade no tratamento da doença descompressiva, o emprego do oxigênio, tendo a Marinha Americana feito o mesmo em 1967, quando revisou suas tabelas. A adição do oxigênio reduziu drasticamente o tempo, assim como a profundidade de tratamento. A tabela 6 da Marinha Americana, que utiliza oxigênio a 60 pés (18 metros) de profundidade, é, atualmente, a tabela mais comummente utilizada no tratamento de doença descompressiva.

O mais recente avanço na área de mergulho surgiu na década de 60, quando vários cientistas desenvolveram o conceito de mergulho de saturação. Devido ao fato do gás inerte finalmente equilibrar-se com a pressão ambiente em todos os tecidos, um mergulhador permanecendo a uma determinada profundidade pelo tempo suficiente saturará todos os tecidos corporais. Após a saturação ter sido alcançada, o tempo para descompressão é o mesmo, independente do tempo utilizado em uma determinada profundidade. Este conceito permite a permanência de mergulhadores sob pressão por mais de um mês, durante o qual executam submersos, retornando para a câmara hiperbárica entre os mergulhos. O tempo total de descompressão, ao final do mergulho de saturação, dependerá somente da profundidade de mergulho, e não do tempo de exposição à pressão. Uma regra grosseira para o cálculo do tempo de descompressão, é um dia para cada 100 pés (30 metros) de profundidade, acrescido de um dia adicional. Deste modo, um mergulho de saturação a 500 pés de profundidade exigiria uma descompressão de seis dias de duração, independente do tempo despendido naquela profundidade. JACQUES COUSTEAU, EDWIN LlNK (pesquisador americano na área de mergulho) e o Capitão-de-Mar-e-Guerra GEORGE BAND da Marinha Americana, contribuíram para as primeiras pesquisas que fizeram do mergulho de saturação um procedimento de rotina no mergulho profundo, com fins tanto comerciais quanto militares.

Nos últimos 15 anos os limites de pressão aos quais o homem pode ser submetido têm sido testados, tanto na França quanto nos EUA. Neste último, sob a liderança do Dr. PETTER BENNETT, da DUKE UNIVERSITY, mergulhadores têm sido submetidos a mergulhos simulados que excedem 2000 pés (600 metros), em câmaras hiperbáricas. Os problemas decorrentes da utilização da mistura heliox nessas profundidades foram resolvidos pela adoção da mistura TRIMIX, formada pelos gases hélio, nitrogênio e oxigênio.

Testemunhamos recentemente o desenvolvimento de novos capacetes de mergulho, mais leves, roupas de mergulho aquecidas com água quente, novas tabelas de descompressão para ambos os gases inertes (hélio e nitrogênio), experiências com a mistura hidrogênio - oxigênio, e a aplicação de oxigênio hiperbárico em desordens médicas não relacionadas com o mergulho.

Esta rápida abordagem da história do mergulho nos leva a rever detalhes interessantes a respeito dos homens que freqüentemente arriscaram suas vidas e fortunas para conquistar os conhecimentos tecnológicos e fisiológicos que nos permitem entrar e sair do mar com segurança, utilizando equipamentos confiáveis, de custo razoável e de emprego confortável. Devido a estes avanços em equipamentos e fisiologia, a atividade de mergulho tornou-se acessível a milhões de pessoas. Como mergulhadores, estamos seguindo uma tradição que começou há mais de 2000 anos. Será interessante testemunhar as novidades que estão por vir.

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