A BUCHADA DE BODE
                     ou ... lá em casa quem manda sou eu!                         

Pode parecer estranho um título como este, mais para uma crônica, aqui publicado. Mas é que a tentativa de descrever o Processo de elaborar tão complicado prato (complicado, menos para mim que não o conheço), sem contudo conseguir fazê-lo, muito embora com a enganosa percepção de que o conseguiremos, pode contribuir para que os leitores percebam porque nem sempre dá certo aquilo que se pretende fazer certo.

            Em primeiro lugar porque quem manda lá em casa sou eu

            Disponho, é verdade, de uma razoável estrutura de apoio – ajudantes de ordem, cozinheiro excelente profissional, motorista muito bem preparado para o exercício de suas atribuições, mordomo de primeira, eletricista, carpinteiro, jardineiro, invejáveis e excepcionais copeiras. Um verdadeiro Centro de Projetos de Delícias do Lar. Tudo de primeira linha, comandados pela melhor profissional em logística que conheço – minha mulher!

            Mas quem manda lá em casa sou eu!\

            Aconteceu que em certa ocasião resolvi receber uns amigos na minha residência. Por serem do nordeste, e pensando agradá-los completamente, escalei o prato principal  - buchada de bode!

            Vários dos assessores domésticos tentaram convencer-me de desistir da idéia – afinal, a experiência do grupo de apoio em confeccionar e servir uma buchada de bode não era muita, até porque a equipe era relativamente nova. Apesar da reconhecida competência individual ela não tinha vivido, recentemente, tal experiência.

            Por outro lado, não era freqüente a recepção de amigos nordestinos. Esta talvez ocorresse uma vez em cada dez anos.

A situação se complicava ainda mais, pois meus recursos financeiros e, conseqüentemente, de apoio, iam se tornando bastante reduzidos, em face de desastrada política de não atualização de salários praticada por meu comandante chefe, que embora ignorante de pai e mãe (declaração com suas próprias palavras), dirigia uma poderosa cadeia de distribuição de recursos financeiros. Sentia que ele vinha procurando me desestabilizar, ou por não achar mais necessários meus serviços de segurança, ou por outras razões mais complicadas que não cabe aqui abordar.

            A ênfase maior, no seio da organização que dirijo (minha casa), era desistir de tal prato principal, pois tão cedo não se iria repetir a oportunidade de tal evento. A tese predominante, dos menos engajados, era de que sem produção, não compensava investir em conhecimentos. Não esmoreci, contudo!

            Com toda a boa intenção a que as responsabilidades do "cargo" me obriga, resolvi encarar o problema com a prata da casa e, para tanto, escrever um "manual de instruções" de como confeccionar a buchada de bode. Afinal, a gerência na minha casa não fazia rodízio de três em três anos (como várias que conheço, de amigos mais "empreendedores") e, assim, minha estabilidade  era fator positivo para o sucesso.

            E tem mais. Afinal quem manda na minha casa sou eu!

            Falei com o pessoal do abastecimento e com meus assessores domésticos. Somando e combinando informações de experiências passadas, produzi uma instrução a qual intitulei  "Processo De Confeccionar Buchada De Bode". Nela estabeleci o que desejava alcançar (o propósito) e procurei, em seguida descrever como confeccionar o tal prato – acrescentando, para maior clareza, organogramas, fluxogramas, cronogramas, enfim, todas os "gramas" que achei necessários para bem clarear o que denominei de Processo. É bom esclarecer, neste exato momento, que nunca fiz curso de culinária, de etiqueta , e similares, deixando todas essas atividades a cargo e orientação da minha logística-chefe, minha mulher. Porém Processo, quem não sabe o que é Processo?

            É bom frisar, uma vez mais, quem manda na minha casa sou eu!

           Depois de todos esses cuidados esperava, digo, tinha a certeza, que minhas instruções seriam cumpridas ao pé da letra pelos subordinados, até naqueles pontos que, embora fossem estranhos à minha bagagem cultural, ousei determinar – coisas mais ou menos assim:

- o cozinheiro deve tratar a carne de bode assim, assim, assim, etc ...

- o motorista, ao ir as compras do material, não deve ultrapassar a velocidade de x quilômetros/hora, etc ...

- a copeira deve colocar o vinho tinto a ser servido na geladeira, três horas antes de servir o prato principal, etc., etc. ...

 

     

 

             Traçada a estratégia, tive o cuidado de consultar a lista de materiais e mandar adquiri-los, pois só saber como fazer, sem ter os recursos para fazer, e sem fazer realmente, não funciona.

Para encurtar essa pequena história, recepcionei os amigos oferecendo-lhes a tal buchada de bode.

            No evento, ouvi de todos e, posteriomente, de alguns deles, somente elogios. Elogios esses que ultrapassaram minha casa, alcançaram a vizinhança, tanto que passei a ser considerado "o rei da buchada de bode!"

            De outros, por conversa “carinhosa” entre esposas, tive conhecimento de críticas (construtivas, é claro!) de que algumas coisas tinham falhado -  buchada de bode não era bem aquilo, não se servia com vinho tinto gelado, o bucho tinha que ser de bode, o recheio não podia ser feito de carne de cabra ou de carneiro (crítica é assim mesmo, muitas vezes as pessoas nem sabem o que estão criticando!), pois não se adaptavam bem ao prato, etc., etc ...

            Nas ocasiões em que recebi tais críticas,  duas poderiam ter sido minhas atitudes – ou deixar para o próximo evento e apagar os incêndios, ou procurar levantar as falhas e corrigir as instruções e procedimentos escritos. Resolvi deixar para depois. Afinal, apagando incêndios (atacando e resolvendo os efeitos, mas com maestria, embora sem atentar para as causas) eu iria parecer mais eficiente, tanto junto ao meu chefe, quanto com meus pares e com a "faxina" de execução. Com minha logística-chefe, nem dizer!

            Não deixei, porém, de analisar os fatos. Uma das falhas que observei como das mais flagrantes nas minhas instruções foi a de que batizei de "Processo de confecção de buchadas de bode" o que nada mais era do que simples atribuição de responsabilidades. Criei e intitulei, é verdade, fases do Processo de obtenção, mas não as associei devidamente com o estado do conhecimento, ou seja, o que e como faziam os profissionais do norte/nordeste, "experts" no assunto.

            No texto a que me refiro escrevi que: "compete ao cozinheiro fazer a lista de compras, encaminhando-a ao motorista, ao qual compete comprar o material; às copeiras compete tal e tal coisa, ao cozinheiro compete X e Y, etc., etc....". Nem a logística-chefe escapou, e fulminei: "A minha mulher compete verificar tudo, blá., blá. blá  .... ".

            As instruções escritas abrangiam até o instante de provar a buchada de bode. Boa ou má, teria que ser aprovada naquele ocasião. Como estivesse. Era sua avaliação operacional culinária!

 Não tratei de discorrer sobre a o período em que seria degustado o prato. Para quê? Todos saberiam o que fazer! Do mesmo modo, nem pensei em elaborar alguma instrução referente à eliminação das sobras e lixo remanescentes. Afinal, a minha mulher compete verificar tudo!

            E afinal, quem manda em casa sou eu!

            Ah!, esqueci de lembrar, linhas atrás, que meu atual cozinheiro era sulista, a bem da verdade cursado na "escola de culinária da Estácio", no Rio de Janeiro. Excelente profissional, portanto! Porém, como ele me esclareceu posteriormente, ao ser criticado como responsável pelo insucesso,  nunca tinha confeccionado tal prato – buchada de bode! É claro, no entanto, que seguira a risca todas as instruções escritas e se alguma não deu certo, certamente  não teria sido sua a culpa!

            Afinal, tudo, até aqui, sem novidade, pois quem manda na minha casa sou eu!

            Cabe uma nota final. Se eu tivesse intitulado este artigo como "Oportunidades De Aperfeiçoamento Do Processo De Obtenção De Sistemas Complexos", ou, mudando o tipo de material adequadamente, o intitula-se "Processo De Obtenção De Meios Flutuantes", ou o "Papel De Altos Dirigentes No Processo De Obtenção De Sistemas De Armas", certamente a probabilidade de sua leitura seria praticamente nula, não só porque os títulos são por demais extensos mas, também, porque o assunto não atrai o interesse da maioria dos leitores.

            No meu caso, com alto dirigente da instituição "lar", não me caberia conhecer com minúcias disciplinas tão especializadas como culinária, logística, gestão da qualidade, entre várias outras, e atividades de copa e cozinha, de motoristas e segurança, mas sim que são ferramentas para a solução de problemas do tipo descrito, de modo a saber o momento certo de empregá-las, cabendo-me, então, providenciar todos esses recursos para garantir o sucesso das tarefas de responsabilidade da instituição. Após o desastrado episódio cheguei à conclusão que de especialista, devo,  como alto dirigente, evoluir e assumir a postura de generalista. E para tanto, preciso evoluir culturalmente.

            A chave do sucesso, creio ..., não, tenho a certeza, é a evolução de inocente para insipiente. Este será a minha postura daqui em diante! Prometo que não "pago" outro vexame como aquela buchada de bode!.

            Afinal, quem manda na minha casa continua sendo eu!

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(Ligeiras modificações no Artigo de autoria do VAlte (Ref) Ruy Capetti, publicado em ANAIS 2005 GRUPO DE INTERESSE EM ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA DE OBTENÇÃO,  arquivado na biblioteca da Marinha e outras, com a finalidade de chamar a atenção para o Corpo da Armada da MB da necessidade de aprimorar o ensino de Logística na Marinha, pela introdução da abordagem da logística que trata da obtenção de sistemas de defesa.)