Logística Focalizada
capítulo 15 Getting there Focused Logistics (da obra Transforming America's Military )

 

(Traduzido parcialmente do Capítulo 15 da obra acima indicada, é interessante para dar uma idéia do que vem a ser a Logística Focalizada e seus conceitos subjacentes.)

LOGÍSTICA FOCALIZADA (FOCUSED LOGISTICS)

Autor Paul M Needham, na obra Transforming America’s Military

A busca por novas estratégias militares necessita a transformação dos processos logísticos e das organizações que apoiam a estrutura militar corrente. Começamos este capítulo examinando o processo de transformação da logística, revendo várias definições da logística (especialmente aquelas usadas pelo DoD e pelo Joint of Staff). Cada definição busca justificar, por meio de uma razão específica, a existência da organização e dos processos logísticos.

Examinaremos em seguida a “Joint Vision 2010 Focused Logistics” e a “Joint Vision 2020 Focused Logistics”, a fim de identificar qual caminho a Joint Chiefs of Staff vem buscando, a fim de ligar o conceito logístico com o operacional. Examinaremos o processo de gerar poder militar pela consideração das seguintes instituições/organizações: organização logística no DOD, Forças Armadas, Agência de Defesa para Logística (DLA), e Gabinete do Secretário de Defesa (OSD), com a finalidade de identificar as iniciativas logísticas que essas organizações vêm perseguindo, e o impacto potencial sobre a capacitação operacional. Analisaremos, então, os dois processos fundamentais  de projetar e apoiar o poder militar. Discutiremos, finalmente, embora superficialmente, algumas vulnerabilidades decorrentes da logística focalizada.

DEFINIÇÕES

A fim de definir logística, consultemos o dicionário do DOD:

“A ciência de planejar e levar a cabo a movimentação e a manutenção de forças. No seu sentido mais abrangente, aqueles aspectos das operações militares que tratam:

- do design e do desenvolvimento, da obtenção, do armazenamento, da movimentação, da distribuição, da manutenção, da evacuação e da eliminação do material.

-  da movimentação, evacuação e hospitalização do pessoal

- da obtenção ou construção, manutenção, operação e eliminação das instalações de apoio

- da obtenção ou o fornecimento de serviços.”

Esta definição enfatiza tanto a movimentação como a manutenção das forças, e identifica uma abrangente abordagem sistêmica da logística.

A Joint Chiefs of Staff define logística como

 “o processo de planejar e executar a movimentação e o apoio às forças operacionais na execução da estratégia e das operações militares.”  Esta definição dirige nossa atenção para abordagem da logística como processo.

Uma terceira definição vem do meio civil. O Council of Logistics Management (CLM) estabelece que

 “logistica é aquela parte do processo da Cadeia de Suprimento que planeja, implementa e controla o eficiente e eficaz fluxo e a armazenagem de mercadorias, serviços e informações relacionadas, desde o ponto de origem ao ponto de consumo, a fim de atender aos requisitos dos clientes.”

A abrangência das responsabilidades logísticas do DoD inclue aquelas identificadas na definição da CLM - planejar e controlar o “eficaz e eficiente” fluxo de mercadorias, serviços e informações relacionadas, para atender aos requisitos dos clientes.

Adicionalmente, as operações logísticas no âmbito do DoD dizem respeito ao reparo de bens capitais, tais como aeronaves, tanques, veículos, motores e caixas de aviônica. A logística do DoD compreende, também, o design, o desenvolvimento, a obtenção, as responsabilidades inventariais na armazenagem e distribuição, a logística reversa (fluxo reverso de itens ) e a eliminação ou descarte dos sistemas de defesa. As responsabilidade na logística militar incluem a construção e a obtenção de infra-estruturas; a obtenção de serviços e a movimentação, evacuação e hospitalização de pessoal.

 

Deste modo, a amplitude das responsabilidades da logística do DoD excede, em muito, as responsabilidades logísticas tradicionais nas empresas comerciais. Contudo, se considerarmos a definição da CLM – planejamento, implementação e controle do “eficiente, eficaz” fluxo e armazenagem de mercadorias, serviços, e informações relativas do ponto de origem ao ponto de consumo, em atendimento aos requisitos dos clientes – o militar identificará muito em comum com a definição civil. O reconhecimento das similaridades nos processos, e a necessidade de apoiar eficiente e eficazmente os clientes, tem acarretado a atuação do DoD e das forças armadas no sentido de examinar totalmente os processos logísticos e as organizações militares. O DoD tem sido fortemente incentivado em adotar e adaptar as melhores práticas comerciais.

A transformação logística é essencial para os esforços de transformação da defesa, essa cunhada de Revolução dos Assuntos Militares (RMA). Todos os novos conceitos operacionais da RMA impõe uma logística aperfeiçoada. Esses conceitos abrangem as forças combinadas para segundo golpe (joint response strike forces), utilização de técnicas aprimoradas de informações em ambientes de rede,  posicionamento acelerado de defesas de mísseis,  presença nos mares e rápidos realinhamentos de projeções de poder, forças aliadas inter-operáveis, operações marítimas litorâneas, estabelecimento de alvos de impasse (standoff targeting) [NT nem um, nem outro lado pode levar vantagem], incursões (forcibly entries), golpes táticos profundos melhorados, e operações de combate tático decisivas. Os processos de apoio logístico e a estrutura organizacional logística atual devem ser transformados para atender a essas novas e flexíveis operações militares.

JOINT VISION 2020: Logística Focalizada

A transformação da doutrina militar, dos conceitos estratégicos e operacionais e dos processos logísticos começou com a revisão que teve lugar após as Operações Desert Shield e Desert Storm. Em 1996 a Joint Chiefs of Staff publicou sua visão de que direção o militar deveria focalizar para alcançar o futuro em Joint Vision 2010 (JV 2010). Os fundamentos da JV 2010 foram direcionados, primariamente, para a capacitação operacional das forças, requerendo capacidade de manobra dominante, de engajamento preciso, de superioridade das informações e da proteção de forças, bem como de logística focalizada.

À Joint Vision 2010 seguiu-se a Joint Vision 2020, que adotou a mesma meta da Logística Focalizada da JV 2010, dando continuidades as ações de implementação até então encetadas. A Logística Focalizada tem como propósito orientar o foco das Forças Armadas e dos Comandantes-em-Chefe (CINC) no sentido de reduzir  os inventários avançados para quantidades mínimas (“impressão digital reduzida”), confiando, ao invés, em consistente  ressuprimento.  A idéia de redução da impressão digital logística não tem a intenção de ser aplicada somente aos suprimentos, mas também aos demais sistemas de apoio, tais como   hospitais. Essa confiança no transporte e nos resultados decorrentes, requer análise cuidadosa, confiança por parte dos CINC, e um contínuo acesso aos portos.

A Logística Focalizada é mais, todavia, do que simplesmente reduzir a “impressão digital logística”. A JV 2020 identifica seis elementos do programa da Logística Focalizada:

·     Joint Deployment/Rapid Distribution

·        Multinational Logistics

·        Agile Infrastructure

·     Force health Protection

·        Information Fusion

·        Joint Theater Logistics Command and Control  (C2)

Essas seis iniciativas programáticas estão conduzindo à transformações significativas dos processos logísticos

Melhorias nas atividades de posicionamento e distribuição das tropas estão sendo perseguidas pelo comando de transporte do EUA (USTRANSCOM), pela Agência Logística de Defesa, e pelas Forças Armadas.

Sob o Programa de Logística Multinacional, planejadores devem considerar o que está disponível no local em que as forças americanas forem posicionadas.

A Infra-estrutura ágil (responsiva) tem o propósito de mudar a presunção de que o DoD deve construir e possuir a infra-estrutura, baseado na esperança de que ele possa arrendar infra-estruturas ou usá-las temporariamente. 

A Proteção de Saúde às Forças tem o objetivo de melhorar os cuidados com a saúde, e ao mesmo tempo reduzir as forças de apoio necessárias, nas localidades avançadas. A Fusão das Informações e a Logística combinada (Joint) do Teatro C2 , são programas de informações que têm por finalidade prover a visibilidade do gerenciamento dos estoques, dos elementos de transporte e do material. Dois programas viabilizadores, o programa Joint Total Asset Visibility e o programa In-transit Visibility têm como propósito prover dados confiáveis aos tomadores de decisão e reduzir o Custo Total, ao mesmo tempo em que continua a ser provido eficaz apoio logístico. A Logística Focalizada está transformando o modo com que os logísticos planejam apoiar os combatentes e provê-los com opções flexíveis para as operações militares.

Reconhecendo que era necessário tornar mais simples e efetivo o funcionamento (streamline) dos processos logísticos e dos sistemas logísticos, o DoD USA foi à iniciativa privada em busca de modelos. As empresas da iniciativa privada já vinham analisando, com profundidade, os processos logísticos, a fim de diminuir custos, aumentar os lucros e melhorar o atendimento aos utilizadores. Assim fazendo, constataram que esses objetivos não eram mutuamente exclusivos. Aperfeiçoando o sistema logístico – isto é, os estoques, o processamentos dos pedidos, o transporte, a armazenagem e as redes de distribuição – melhorariam seu referencial básico: o lucro.

As mudanças nos processos logísticos das empresas da iniciativa privada tiveram como fundamento a aplicação de vários constructos teóricos. Nestes se incluem o paradigma do inventário-transporte, que resulta em negociações/compromissos (trade-offs) entre estoques e capacidade de transporte expedito; o principio do retardamento (postponement)[1] que retarda a forma final ou a montagem; o príncipio da especulação, que tenta antecipar a demanda[2]; a substituição, que permite o uso de outros componentes; a adoção da fabricação enxuta[3], a qual reduz o trabalho em progresso; o fornecimento “just-in-time” ou o fornecimento programado; e a aplicação da Tecnologia da Informação no processo logístico. Muito embora esses constructos caiam na categoria de experts em logística, cada um deles afeta a totalidade da estratégia da empresa. Esses princípios estão sendo, agora, aplicados à transformação militar.

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[1] A estratégia de postponement, com base nos trabalhos de Battezzati e Magnani (2000), Ballou (2001) e Van Hoek (2001), é um conceito logístico no qual as operações de distribuição e manufatura, não são realizadas ou customizadas até a identificação da quantidade e/ou localização da demanda (Dias, 2005, p. 168).

[2] Especulação - é o conceito oposto ao Postponement – o conceito da especulação se baseia em que mudanças na forma, e no movimentação de mercadorias, para os estoques avançados, devem ser feitas o mais cedo possível a fim de reduzir os custos da cadeia de suprimento. O princípio da especulação como  oposto ao princípio do postponement  estabelece que mercadorias são transportadas na cadeia de suprimento antes que uma ordem dos consumidores tenha sido colocada. (Zinn and Levy, 1988).

[3] Principio do pensamento enxuto – baseia-se na minimização do desperdício e aprimoramento do valor. Muito embora o pensamento enxuto seja tipicamente aplicado às técnicas e ao foco da fabricação enxuta, ele é aplicável em qualquer circunstância em que há processos a serem aperfeiçoados, inclusive por toda a cadeia de suprimento. Uma cadeia de suprimento enxuta é aquela que produz exatamente o quê e o quanto é necessário, quando é necessário e onde o produto for necessário. 

O tema subjacente ao pensamento enxuto é produzir mais ou fazer mais com menos recursos enquanto provendo ao consumidor final exatamente o que ele ou ela quer. Isto significa focalizar em cada produto e no seu fluxo de valor. Para fazê-lo, as organizações devem estar prontas para identificar e entender que atividades verdadeiramente criam valor e quais as atividades que resultam em desperdícios. A coisa mais importante a lembrar é que enxuto não se refere simplesmente à eliminar desperdícios, mas também a melhorar valor.

(Os conceitos de Valor e Desperdício:

Valor, no contexto de enxuto, é definido como algo que o cliente está desejando pagar. . Atividades que agregam valor transformam materiais e informações em algo que o cliente deseja. Atividades que nâo agregam valorconsomem recursos e não contribuem diretamente para o resultado final desejado pelo cliente. Desperdício, dessa forma, é definido como algo que não agrega valor, do ponto de vista do cliente. Exemplo de processos de desperdício são produtos com defeito, excesso de produção, inventários, movimentos excessivos, ações excessivas, estágios desnecessários em processos, transporte e esperas.)