FORMAÇÃO DO PENSAMENTO LOGÍSTICO NAVAL BRASILEIRO

PARTE I

VAlte(Ref) Ruy Capetti

"Logistics: The science of planning and carrying out the movement and maintenance of forces. In its most comprehensive sense, the aspects of military operations which deal with: a. design and development, acquisition, storage, transport, distribution, maintenance, evacuation, and disposition of materiel; b. transport of personnel; c. acquisition, construction, maintenance, operation, and disposition of facilities; d. acquisition or furnishing of services; and e. medical and health service support."(NATO)

EVOLUÇÃO DA LOGÍSTICA

Por ocasião da Primeira Grande Guerra, segundo Thorpe: (Pure Logistics:xvii) "enquanto a Estratégia e a Tática eram muito comentadas.... , não tinha sido reconhecida, ainda, a ciência da Logística".

Foi somente no final do século XVIII, e início do XIX, que o termo logística entrou no vocabulário militar, embora com significado inteiramente diferente daquele atual. Foi Jomini, 1838, quem fez o primeiro uso significativo do termo logística. Embora sua obra tenha sido muito lida, o foi, porém, por suas lições de estratégia e de tática.

Na guerra civil dos EUA mais se valeu da obra de Jomini do que da de Clausewitz. Desta, a primeira versão para língua inglesa só apareceu aí pelos idos de 1873. De fato a primeira vez que o termo logística apareceu na literatura militar dos norte-americanos, não aconteceu antes de 1870. Das forças militares sem dúvida foi a Marinha de Guerra dos EUA o ramo mais interessado em logística, pois em 1888, numa palestra no Naval War College, o CMG Alfred Mahan introduziu ambos, o termo e seu conceito, na estratégia naval.Cedo, ao pensamento de Mahan se juntou o do historiador naval inglês Sir Julian Corbett.

No evento da Primeira Guerra Mundial o grande interesse naval próprio da Marinha norte-americana pelos aspectos fundamentais econômicos e industriais de seu desenvolvimento deu um amplo significado ao conceito de logística. O termo, todavia, continuava a não ser largamente empregado.

Foi nessa atmosfera que o Coronel Thorpe chegou a Newport, em dezembro de 1914, para um ano de curso no Naval War College (NWC), quando então escreveu um pequeno ensaio sobre logistica - intitulado Pure Logistics.

Seu interesse pelo assunto, e os estudos que levou a cabo, no período de ano e meio como estudante no NWC e servindo como oficial de estado-maior, levaram-no à percepção de que os comentaristas militares silenciavam sobre o assunto, e que os militares pouco ou quase nada dele sabiam. Assim é que resolveu escrever suas próprias análises e definições, e a desenvolver teoria e estabelecer um conjunto de princípios para a organização e direção desse longamente negligenciado ramo da guerra.

Da análise de exemplos clássicos, para validar seus conceitos, Thorpe chegou finalmente ao ponto de propor uma organização e direção para as forças combatentes do seu país. Concluiu ainda que a organização militar, sob a ótica da logística, tem que se fundamentar em efetivos sistemas educacionais militares, pois educação, segundo ele, "é parte da logística, no sentido de que, como todas as outras funções e serviços de apoio, ela prepara o sistema militar da nação para 'operação eficiente' ".(Pure Logistics) De fato, à medida que o tempo foi passando, e como Thorpe havia antecipado, a guerra enfatizou a importância da mobilização econômica e industrial.

Ainda que por diversos anos, até 1920 inclusive, o Naval War College tivesse ministrado cursos de logística, somente poucos elementos compartilhavam as mesmas idéias de Thorpe. A logística continuava sendo vista estreitamente, e somente nos últimos estágios da guerra é que ela começou a tomar forma no amplo significado prescrito por Thorpe. E somente muito mais tarde, no período pós-guerra, foi que a conceituação racionalizada e a sua implementação vieram influenciar notavelmente na estruturação dos estabelecimentos militares americanos.

GEORGE C. THORPE'S

PURE LOGISTICS

The Science of War Preparation

 

Mesmo no período pós-Segunda Guerra Mundial, em que muito foi escrito e publicado tratando de assuntos militares, a importância das abordagens privilegiava o enfoque primordialmente histórico e analítico, em contrapartida ao teórico em natureza. Contudo, começaram a aparecer, aí pelos anos 60 em diante, embora poucos, autores que percebiam e abordavam, ainda que superficialmente, os aspectos logísticos.

Do que foi escrito, a maior parte se referia ao Exército, sem contrapartida na Marinha e Força Aérea norte-americanas. Nesse contexto, é digna de nota a obra do Vice Almirante Henry E. Eccles, em 1959, que discutiu a história, a organização e o planejamento da logística, em obra amplamente documentada, intitulada Logistics in the National Defense, e logo em seguida, Operational Naval Logistics, USN, que, pelo tipo de publicação - NavPers - tinha a finalidade de ensino.

Eccles ainda publicou Fundamentals of Logistics, e da segunda, Operational Naval Logistics, o CMG Abilio Simões Machado, submarinista da nossa MB, se valeu para produzir a publicação Introdução à Logística, 1968.

Podemos observar que os escritores e historiadores que escreveram sobre os eventos militares que ocorreram na primeira metade do século XX, procuraram, sempre, evitar a abordagem da logística por ocasião da Primeira Guerra Mundial, e do muito que se escreveu e se tem escrito sobre o assunto, a maior parte se refere mais ao período pós-Segunda Grande Guerra e, consideravelmente muito mais ainda, sobre a logística no Vietnam.

O que podemos perceber, em resumo, é que o assunto LOGÍSTICA só veio a ser sistematizado pela obra do Coronel Thorpe, e mesmo assim, pelo desinteresse por ela demonstrado, as coisas só tomaram seus devidos lugares da Segunda Guerra Mundial em diante. Somente no período posterior a esse evento mundial é que vieram se sistematizando, em obras escritas, os princípios fundamentais que regem a logística dos dias atuais.

O reconhecimento dessa importância se verifica no terceiro parágrafo do Prefácio da terceira edição da obra (1996), nas palavras do Comandante do Colégio Industrial das Forças Armadas dos EUA, o Major General do Exército Albin G. Wheeler :

"A despeito dos seus méritos, Logística Pura  não foi editada por anos, e não foi convenientemente disponibilzada para os membros da comunidade de defesa. A republicação deste clássico foi sugerida por dois de nossos membros do Colégio Industrial das Forças Armadas, a quem reconhecemos agradecidamente: Coronel Barry M. Landson, da Força Aérea dos Estados Unidos, encarregado dos Programas da Faculdade e Acadêmicos, e o Dr. Ralph Sanders, J. Carlton Ward Jr.Distinto Professor. Nossa esperança é que ambos,  planejadores e alunos, descubram,  - ou redescubram talvez - o trabalho fundamental e útil de Thorpe."(tradução nossa)

No Brasil, o ensaio de Thorpe não teve, igualmente, muita repercussão, mesmo nas Escolas de Altos Estudos Militares. Assim é que um exemplar foi encontrado, no descarte de uma dessas instituições, fruto de re-arrumação para obter espaço nas prateleiras de sua biblioteca. Recuperado, a obra foi traduzida pelo autor desse texto e encaminhada ao Serviço de Documentação da Marinha  (agora na Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha), no ano de 2008, com a sugestão de reaproveitá-lo nos estudos navais sobre logística. Até então não conhecemos providências nesse sentido, o que nos remete a questão seguinte.

Como se inseriu a Marinha Brasileira nesse contexto de desenvolvimento cultural, e quais foram suas ações decorrentes, principalmente no que diz respeito ao gerenciamento do pessoal, do material, seus acertos e erros, e suas conseqüências?

[CONTINUA no Exemplar 30]