A QUESTÃO SALARIAL DOS MILITARES

 

             Sempre que se aborda a questão salarial dos militares das Forças Armadas, principalmente num ambiente em que o bom senso não prevalece, tem-se a impressão de que ela está sendo vista como um interesse individual de alcançar bons salários, em competição com diversas outras profissões. Ou seja, uma verdadeira corrida salarial.

            Mas não é bem assim. Embora exista em cada indivíduo o desejo de cada vez mais aumentar seus salários, este desejo sempre encontrará os limites do bom senso para moderá-lo. Porém, no caso dos militares, há uma outra face do problema, que não diz respeito ao interesse pessoal. Ela é freqüentemente esquecida, ou de propósito (por má fé), ou por pura ignorância de determinados indivíduos. Se não, vejamos: 

QUALIDADE X  SALÁRIO 

           Freqüentes ações de governo, relativas à aumentos salariais, nos indicam que ele reconhece a necessidade de fomentar a qualidade como elemento fundamental para aumento da produtividade e o conseqüente aumento da competitividade.

           No entanto, pela observação corrente, vemos que a instituição governamental têm incorrido na abordagem da teoria de Frederick Herzberg (teoria dos dois fatores, que aborda a situação de motivação e satisfação das pessoas), contrapondo fatores higiênicos a fatores motivacionais, através de estranhas políticas de recursos humanos, pelo menos para uma grande maioria das suas atividades, aí incluídas as dos militares.

          Assim agindo, tais políticas deterioram a abordagem holística de Maslow (hierarquia das necessidades), com remunerações que, embora atendendo às necessidades básicas, destrói as de estima e auto-realização dos servidores militares.

Tal abordagem passa pela política de crescimento do ser humano na instituição e, se tratando de militares, tem algumas características particulares, porém não é completamente diferente do que ocorre no meio civil, na empresa. Por exemplo, partindo de um dos princípios estabelecidos por Abraham Maslow, de que é difícil ensinar as pessoas, e como a educação e treinamento são limitados no tempo, deve-se fazê-lo por toda a vida do empregado ou servidor, de forma contínua e planejada. Isso é inteiramente verdadeiro para os militares.

            Ainda sob o mesmo prisma, como é difícil educar e treinar, decorre que as pessoas que já adquiriram determinado grau de habilidade ou aptidões em suas atividades, necessárias à sobrevivência da empresa ou instituição, devem ser retidas nelas. Isso é, também, inteiramente verdadeiro para os militares.

            Olhando pelo lado do ser humano, este, segundo os princípios levantados por Maslow, têm necessidades que ditarão sua satisfação (um estado natural do ser humano), e se elas (fisiológicas, segurança, sociais, ego ou estima, auto-realização) forem atendidas, ele desfrutará de um estado de satisfação mais freqüentemente de "boa saúde mental", ou "elevado moral".

            Para a satisfação da necessidade de segurança é necessária uma política de estabilidade no emprego, e para satisfação das demais necessidades é necessária uma política salarial justa. Sem o quê, haverá a inevitável evasão.

            Embora isso possa dar a entender que a questão salarial só deva ser vista pelo prisma do empregado ou servidor, isto, contudo, não é a verdade completa. O que deseja o empregado ou funcionário?

           - primeiro, continuidade no emprego (pela sobrevivência à competição, da empresa ou instituição); e

            - segundo, ganhar cada vez mais para cada vez ter mais segurança e conforto.   

           

           

 

E o que deseja o empresário ou seu patrão?

            - primeiro, sobrevivência à competição, da empresa ou instituição; e

            - segundo, ganhar cada vez mais, para crescer.

            Não precisamos de cuidado excessivo para verificar que os interesses são os mesmos. E que isso é inteiramente verdadeiro tanto para o Governo como para os seus militares.

             É uma constatação tácita, portanto, ser vital o atendimento das necessidades   básicas mais elementares, fisiológicas e de segurança. como interesse tanto do empregado (sejam militares ou não), como do empresário (seja governo ou não), e o fomento das demais necessidades no âmbito de cada setor de trabalho, de modo a promover o crescimento do ser humano dentro da sua instituição, principalmente aquelas que dizem respeito ao social, ao ego ou auto-estima, e à auto-realização.

             Como corolário, podemos afirmar que sem uma adequada Política Salarial (e uma vez que, na maioria dos casos dos militares, a estabilidade está garantida) a perda de indivíduos da instituição será de tal monta que ela certamente estará fadada ao insucesso da sua missão. m outras palavras, a Qualidade na instituição estará seriamente comprometida. 

O MILITAR – UM CASO PARTICULAR 

No caso da instituição militar, o interesse do Governo (como empresário) está muito além do lucro – o que ele deverá promover é a SEGURANÇA, e nela, a DEFESA, em benefício dos nacionais governados.

            Como as atividades fundamentais que promovem a SEGURANÇA/ DEFESA dizem respeito, principalmente, mas não excludentemente,  à garantia da SOBERANIA  e da INTEGRIDADE TERRITORIAL,  como Objetivos Fundamentais Nacionais,  uma política de salários defasada com relação aos militares, que acarreta a deterioração da QUALIDADE  da instituição  é, no mínimo, um crime contra o próprio Estado Brasileiro

            Uma perversa particularidade é corolário dessa situação. Sem maiores comentários, revivamos o pensamento de um eminente Chefe Naval, que alerta sobre possíveis conseqüências dessa perda de qualidade:  

           

"Esta falta de cuidado para com as Forças Armadas, por considerá-las sem importância por desnecessárias, traz desdobramentos indesejáveis, tanto para o campo militar como para o campo político. Refiro-me à desprofissionalização do militar que vai minando seu caráter e, assim, lenta, silenciosa, insidiosa, mas continuadamente, transforma-o no militar burocrata, cumpridor do horário e do expediente, não mais pertencente a uma organização militar, célula-máter do espírito de corpo, porém a uma repartição pública, com ócio bastante para tratar de todos os assuntos, menos daqueles pertinentes à profissão que livremente escolheu. Daí, para o militar contestador e político, onde se destacarão, de modo geral, aqueles desajustados com a profissão, o caminho é curto. Chegar-se-ia a um ponto de Forças Armadas mais políticas que profissionais e, em decorrência, mais fáceis de serem tentadas, caso as dificuldades no campo interno persistissem, a intervir no processo político. " (Mario Jorge da Fonseca Hermes AE (RRm) in Simpósio  Escola de Guerra Naval, jun/1991 - As Forças Armadas em Tempo de Paz) 

            Urge, pois, o Governo brasileiro atender às reivindicações que são tanto do Estado como da instituição castrense, e atribuir,  aos militares, salários adequados, para que não se esvaziem as Forças Armadas, deteriore-se a sua qualidade,  e comprometa-se a SEGURANÇA  e a DEFESA NACIONAIS.

 

VAlte (Ref) Ruy Capetti

 

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Fev/2008