PORQUE TODOS NA MARINHA DEVEM SE INTERESSAR POR LOGÍSTICA, PRINCIPALMENTE OS ENGENHEIROS

Tiudorico Leite Barboza CA EN (RM1)

1.0-SUMÁRIO

Este artigo tem como objetivo procurar mostrar a importância que os conhecimentos em Logística representam para a MB, principalmente em se tratando daqueles encarregados de conceber, adquirir e manter os meios navais.

2.0-INTRODUÇÃO

            O conceito de logística é muito abrangente, não possuindo uma definição aceita universalmente, considerando-se por isso de maior objetividade invocar diretamente as chamadas funções logísticas, adotadas na MB como sendo: Suprimento, Manutenção, Salvamento, Saúde, Pessoal, Transporte e Desenvolvimento de Bases.

            Como pode ser visto, será difícil que algum recurso humano pertencente aos quadros desta Força não esteja envolvido com a logística, mesmo de forma indireta ou até mesmo imperceptível, haja vista que o próprio componente Pessoal a que todos nós pertencemos está entre as sete funções logísticas concebidas e constantes da documentação oficial da Marinha.

            No caso de um meio naval, incluindo não somente os de superficie e submarinos, mas também os meios aeronavais e fuzileiros navais, a logística começa desde a fase do chamado "procurement" (compreendendo planejamento estratégico, identificação das ameaças e dos meios, requisitos de estado maior e requisitos de alto nível dos sistemas) quando são impostos os requisitos do meio e se estende até a sua baixa quando este é alienado do cenário de utilização operativa.

 

3.0-0 PAPEL DA LOGÍSTICA QUANDO DA FORMULAÇAO DOS REQUISITOS

            Embora possa ser imperceptível, as necessidades logísticas se não consideradas por ocasião da formulação dos requisitos podem ter como resultado dificuldades futuras. Tal qual num desenho, usa-se uma escala grande para bem identificar os aspectos que não percebemos numa escala pequena, embora possa ser o caso extremo, será usado como ilustração, por ser bastante claro, o caso da obtenção de um submarino nuclear. Assim não basta bem saber o porquê do ponto de vista estratégico que estabelece a necessidade de o país ter um submarino nuclear; é preciso também saber muito bem como será seu processo de obtenção e manutenção, como por exemplo: onde construí-lo, onde estacioná-lo (função  logística desenvolvimento de bases), onde e como obter os seus componentes vitais tais como o núcleo do reator .

            Este é um exemplo também de como a Ciência e a Tecnologia inerentes ao meio devem ser bem dominadas pelos formuladores dos seus requisitos e de como estes influenciam a logística a este dedicada.

3.0 - 0 PAPEL DA LOGÍSTICA DURANTE O PROCESSO DE AQUISIÇÃO DO MEIO.

A referência 1 que serviu de base de inspiração para este artigo é bastante enfática ao procurar mostrar que mesmo numa marinha como a Americana onde o processo de obtenção é por concepção, projeto e construção ou fabricação no próprio país, isto é, sem contemplar as aquisições ditas "de oportunidade", a logística tende a ser considerada como uma atividade de exclusividade dos chamados profissionais da logística. Sendo uma atividade que, como já foi dito, começa com a concepção do meio e se estende até a sua baixa, é natural que a necessidade e a importância desta sejam mais percebidas por aqueles que participam do processo de obtenção do meio e, com maior antecipação, se a obtenção é por projeto e construção no país.

            A referência 2 exemplifica a cultura que se desenvolveu na nossa marinha sobre o tema ao mencionar o fato de que o Programa de Ajuda Militar Americano (Military Assistance Program ou MAP) que permitiu ao Brasil receber, a preço simbólicos, um grande número de navios, além dos sobressalentes para sua manutenção, representou uma fonte de desestimulo a autocapacitação como também de um mau entendimento do processo de apoio logístico como se este fosse demasiadamente simples, sem grandes preocupações com procura, obtenção e custos envolvidos.

  

Entre os que participam do processo de concepção, obtenção e manutenção dos meios, daqueles que compõem o corpo técnico, são os engenheiros, principalmente os que mais necessitam estar afinados com os conhecimentos inerentes à logística em todas as suas fases. Isto porque cabe aos engenheiros o conhecimento do projeto de engenharia e do controle dos seus resultados. Nestes resultados, vários fatores cada qual com sua importância relativa, alguns conflitantes em relação a outros como custo, peso, dimensões e desempenho, requerem a utilização de ferramentas disponibilizadas pelas ciências e pelas técnicas inerentes aos diversos ramos da Engenharia. Embora alguns engenheiros desempenhem um bom trabalho na área de logística, pode-se dizer que estes estão em minoria e a causa pode ser atribuída dois fatos geradores: Um de natureza conjuntural que é a continuidade do processo de obtenção sem contemplar o projeto e a construção, agraciando mais e mais aquisições "de oportunidade" e outra de natureza estrutural que é a própria formação do engenheiro: Não porque o assunto logística seja tão complexo para um engenheiro aprender e entender, mas porque os currículos dos cursos de graduação não incluem, normalmente, disciplinas que abordem os conceitos de confiabilidade, disponibilidade, manutenibilidade e apoiabilidade e como estes podem ser aplicados aos projetos de máquinas. Normalmente tais conceitos somente vem a ser abordados nos cursos de pós-graduação que envolvem a área de Engenharia de Confiabilidade, com exceção, talvez, dos cursos de Engenharia Nuclear.

            Exemplificando, o projeto das corvetas da Classe Inhaúma, que foi inédito em termos de exploração de vários ramos da Ciência e da Engenharia, não incorporou, em nenhuma das suas fases, para nenhum sistema ou do meio naval como um todo, estudos para explorar e quantificar os "lados do triângulo", composto pelos termos confiabilidade, disponibilidade e manutenibilidade já mencionadas, como ocorre nos projetos de meios navais desenvolvidos pelas marinhas mais avançadas, desde os estudos de exeqiiibilidade. O projeto SNAC1, que se seguiu ao das corvetas da classe mencionada, o qual não saiu do papel e o da Corveta Barroso, em construção, projetados na DEN tiveram limitações semelhantes, o mesmo podendo-se dizer do SMB 10, cujos estudos de exeqüibilidade foram desenvolvidos pelo Centro de Projetos de Navios (CPN).

4.0-CONCLUSÕES

            Acreditamos não ser motivo de constrangimento endossar as recomendações da referência 1 para prover aos engenheiros conhecimentos que devem ser adquiridos para o próprio aprimoramento dos processos de aquisição e manutenção dos meios e equipamentos navais, as quais são abaixo resumidas:

            a)-Atribuir a responsabilidade aos engenheiros projetistas pela produção de um projeto voltado para a apoiabilidade;

            b )-Prover aos engenheiros o devido treinamento para a consecução da atribuição proposta no item a) acima;

            c)-Introduzir nos currículos dos engenheiros disciplinas inerentes à logística. Esta recomendação pode ser aplicada ao próprio currículo da Escola naval;

BIBLIOGRAFIA

1. _______. LIGHT Stephen P. Why Engineers Don't Understand Logistic April 1991.

2. _______. VIDIGAL, Armando Amorim Ferreira, EGN.1994.