DOS INGREDIENTES AO BOLO

Criada em 10/jul/2005                                                                                                                                              VAlte (RM1) Ruy Capetti


Aviso importante: este artigo versa sobre logística. Se você tem aversão, ou simplesmente não gosta, não leia.

     Realmente o Jones [1] tem razão quando afirma que sua mulher é a melhor profissional em logística que conhece. Como ele, a melhor profissional em logística que conheço é a minha mulher, Célia. Outro dia, ela me deu aula e tanto, que achei perfeitamente adaptável às coisas de Marinha.
     Cheguei à cozinha de casa e vi sobre a mesa ovos, farinha de trigo, fermento, manteiga e leite. Havia mais algumas coisas, mas não me lembro. Ao deparar-me com aqueles ingredien-tes, exclamei entusiasmado:
     - Este bolo é para mim? ao que ela retrucou:
     - Olhe bem, isto não é um bolo, ainda.   Po-derá se transformar em muitas coisas, até mes-mo num bolo, mas vai depender de como vou integrar os ingredientes e processá-los.
     Sabia que ela ia fazer um bolo e por isso causou-me surpresa sua resposta.
     - Vendo esses ingredientes, reunidos tão próximos, estou vendo o bolo! Não tem outra!
     Ela então me explicou, com paciência, que não bastava ter os ingredientes. Mesmo que fos-sem ainda misturados e eu comesse a massa, pensando que fosse um bolo, não seria um bolo. Era apenas massa de bolo.
     - Se no ambiente doméstico você comesse essa massa, poderia até ficar satisfeito. Digo isso por ver como você raspa a forma em que a mas-sa é preparada e faz cara de felicidade. Mas pen-se bem: poderia eu oferecer a massa a amigos que nos viessem visitar? Seria correto você sair por aí se vangloriando que lá em casa come o melhor bolo do mundo, se só comesse massa?
     Seria um vexame, pensei, não sem concordar que a massa, mesmo sem ter ido ao forno, era uma delícia. Aliás, há muito tempo esta é minha teoria - para que levar a massa ao forno se por si só ela já é uma delícia?
     Ela continuou:
     - Claro, muitas pessoas pensam que basta ter os ingredientes e o livro de receitas explicando como fazer um bolo, para ter o bolo. Não é bem assim. Primeiro que tudo, é preciso carinho ...
     - Carinho? achei que ela já estava de gozação em cima de mim
     - Carinho, pois sem ele você não terá von-tade de fazer o bolo corretamente. Pode até ir à padaria e comprar um bolo pronto, daqueles sem gosto, feito com água no lugar do leite, enten-deu? Ou então parte para confeccioná-lo pelo que se lembra de cór. Como fazem alguns co-zinheiros, e aí o bolo sola, ou não cresce por dose errada de fermento, e coisas mais. Nada que impeça de comê-lo, e o guloso sai por aí dizendo que lá em casa se come o melhor bolo do mundo. Muitos irão acreditar, são capazes até mesmo de encomendar um bolo, mas aí é que vão perceber que estão levando gato por lebre.
     Sentei-me à mesa da cozinha, para ouvir sua peroração. Ela continuou:
     - Conhecimento, é o ingrediente seguinte. Veja bem, mesmo que não seja eu a fazer o bolo, devo saber como fazê-lo, para acompanhar sua confecção por nossa cozinheira, de modo a verificar se todos os procedimentos, materiais e processos são os mais adequados para garantir a qualidade do produto final. Claro que não preciso ficar na cozinha o tempo todo, mas de tempos em tempos volto a ela, principalmente nos momentos mais críticos da confecção do bolo e verifico se os procedimentos foram corretos. Por exemplo, como foi batida a massa, por quanto tempo, se a forma foi untada adequadamente, se a temperatura do forno é a ideal, etc., etc., etc. Em resumo, faço uma auditoria para garantir a qualidade do bolo final!
     - Mas para que tudo isso? Não bastaria mandar a cozinheira seguir a receita? ela não seria capaz de fazê-lo corretamente?
     - Não sei, respondeu minha mulher, acrescentando:
     - Se ele fosse profissional bem preparada por meio de cursos e estágios de treinamento, eu teria toda a confiança. Mais ainda, em se tra-tando de uma atividade tão complexa como fazer um bolo, se ela fosse certificada, aí eu nem me preocuparia com seu trabalho. Como nor-malmente isto não acontece, o normal a esperar é que ela exerça um controle das atividades que está realizando da melhor forma possível - o que podemos identificar como controle de qualidade. E por todas essas razões eu continuaria a auditar seu trabalho, para garantir um bolo de qualidade, ao final do processo.
 

     Fiquei realmente impressionado como minha mulher era experta (e esperta, também!).
     - Mas, para que tudo isso? É só para fazer um bolo?
     - Não, retrucou, é que aqui em casa temos um sistema de qualidade permanente e seguimos as regras para que tudo dê certo. Sem esta preocu-pação, a casa viraria um caos, e você não iria parar de reclamar!
     Achei que ela já estava se aborrecendo com meus questionamentos. Afinal, era só para fazer um bolo ...
     - Tem mais, acrescentou ela, sentando-se ao meu lado, tendo à frente todos os ingredientes do bolo.
     - Para fazer um bolo, existe todo um processo de "engenharia culinária", que deve ser muito bem "gerenciado", e uma seqüência de "atividades logísticas", o que se não for bem compreendido, resultará num produto de qualidade no mínimo du-vidosa. Pode até dar certo uma vez, mas nada garante a próxima.
     Achei que já era exagero. Sempre vi fazer bolo, era coisa simples, e agora minha mulher estava fa-lando de engenharia, gerência e logística, compli-cando uma coisa tão trivial.
     - Parece até que um bolo, para você, é produto de um sistema complexo! arrematei triunfante, para dar um basta àquele papo que ia tomando um rumo muito didático.
     - Não que seja tão complexo, exclamou ela, mas que o conjunto de todas os componentes, ações e relacionamentos do lar pode ser encarado como um sistema, ah, não tenha a menor dúvida. Se o bolo não sair bom, a retro-alimentação vai funcionar e teremos ou que trocar de cozinheira, ou mandar regular o fogão, ou comprar ingredientes de melhor qualidade, enfim, sei lá, o que sei é que teremos que encetar alguma ação corretiva.
     - Você se lembra da buchada de bode? per-guntou-me de chofre.*
     Achei melhor nem responder. Este é um outro episódio doméstico que em oportunidade melhor pretendo trazer à baila, pois ainda acho que eu estava com a razão. Mas, por ora, deixa pra lá.
     - O bolo, em si, explicou Célia, é um projeto. Projeto este que deve ser conduzido dentro de um ambiente de qualidade e segundo uma programação definida. Para fazer o bolo devo seguir um procedimento de engenharia já consagrado (feliz-mente alguém, ou alguma entidade estudiosa já o estabeleceu), praticar atividades consagradas de gerência do projeto (felizmente alguém, ou alguma entidade estudiosa já as estabeleceu) e gerenciar a logística apropriadamente (felizmente alguém, ou alguma entidade estudiosa já a estabeleceu). É claro que não vou pensar em criar um sistema de manutenção para o bolo, até porque ele não vai durar muito, mas tenho que providenciar para que ele seja distribuído apropriadamente.
      Minha mulher parou um pouco, tomou fôlego e completou:
     - E além da qualidade e prazo, não devemos esquecer os custos, os quais procurei otimizar, buscando comprar os ingredientes em locais que reconhecidamente praticam preços baixos.
     Célia já se levantara e estava procedendo a mistura dos ingredientes. Levava-os, neste exato momento, ao processador, para garantir a con-sistência e homogeneidade da massa. Aproveitei a oportunidade para levantar-me e sair de fininho.
Sentei-me em frente à televisão, na sala de estar, mas não consegui fixar a atenção no programa, pois era um jogo do meu Flamengo que, coerentemente com seu padrão de mediocridade nos últimos jogos, já estava perdendo de dois a zero.
     Meu pensamento voou para o ambiente naval. Já algum tempo vinha me perguntando as razões pelas quais o processo de Apoio Logístico Integrado não era bem entendido e praticado. Acabara de ler uma publicação oficial que se referia ao "sistema de apoio logístico integrado", quando na realidade o ALI é um processo para garantir a otimização do Sistema de Apoio da MB.
     As explicações da minha melhor logística aflo-raram em minha mente. Pude, então, perceber por que vários problemas navais vêm se perpetuando.     As explicações recebidas eram bastante coerentes e boas para fundamentarem oportunidade de aprimo-ramento da gestão de material na Marinha.
    O Flamengo levou mais um gol. Levantei-me mal humorado, desliguei a televisão e a mim e fui dormir. Por um outro lado, talvez um pouco mais aliviado, pois afinal, aqueles problemas de sobressalentes, de falhas de manutenção, de falta de pessoal, de documentação incompleta, de insufi-ciência de recursos, entre tantos outros, tinham solução. C3I neles, pensei! Carinho, Conhecimento, Competência e Integração! 

[1]JONES, JAMES V. na obra de sua autoria INTEGRATED LOGISTICS SUPPORT HANDBOOK. McGraw Hill. 2nd edition. 1994

*A BUCHADA DE BODE