MANUTENÇÃO DO NAVIO

(PARTE II - final: Continuação do número anterior)

Uma das características do bom Comandante é a habilidade de inspecionar.  Seja ela de material, pessoal ou administrativa, uma inspeção só pode ser bem conduzida se o inspetor souber o que inspecionar. Esta capacidade não nasce com os homens, mas é adquirida após longos anos de prática, principalmente no lado sob inspeção.

Se o Comandante sabe realmente como inspecionar, boas coisas irão acontecer, no curto prazo. Cresce um sentimento de orgulho  no navio e discrepâncias, até então desapercebidas, começam, agora, a serem notadas e rapidamente corrigidas. O oficial Comandante que sabe como conduzir uma inspeção de material  logo identificará itens  que merecem comentários desfavoráveis, na medida em que a prontidão do material evolui para melhor.

USO DE FORMULÁRIOS DE INSPEÇÃO.

Ao se preparar para a inspeção é de bom alvitre rever o relatório anual de deficiências do navio, como registradas pela junta de Inspeção, pelo Type Commander Operational Readness Examinations e pela Fleet Operational Reactor Safeguards Examinations. Esses relatórios são fornecidos a cada navio e constituem um índice geral útil no sentido de antecipar possíveis fontes de problemas. O Apêndice XIII provê alguma orientação  na condução de  inspeções de material.  Você pode usar este Apêndice para auxiliar os oficiais mais modernos  a adquirirem experiência necessária para torná-los bons inspetores de material.

A VISÃO DE FORA DO SEU NAVIO

                 Um bom Comandante é aquele que, ocasionalmente, se posta de fora para ter a visão que os outros têm do seu navio. Isto não é fácil. Para começar, procura saber sob aspectos físicos. Embora a conduta do quarto d'alva no convés seja problema do Imediato, você estará navegando em águas perigosas se for o único oficial do esquadrão que não sabe que as formaturas no seu navio são referidas, na praça d'armas,  como a "malta das 0800".  A aparência militar das formaturas do seu navio, a agilidade de seus quartos de serviço, o manuseio apropriado da bandeira nacional, das luzes de fundeio, do pavilhão de Comandante ausente, a limpeza da tolda e conveses superiores - tudo isto é considerado, pelo restante da esquadra, como sinais externos do estado interno do seu navio e, mais do que provavelmente, eles estarão certos.

                Sem se deixar iludir pela aparência de formalismo dos uniformes, que pode por muito tempo esconder realidades menos agradáveis cobertas abaixo, você deverá se empenhar para realizar verificações periódicas inopinadas, que identifiquem como esses símbolos externos se apresentam quando vistos da ponte de comando, bem como checar os detalhes do serviço e da manutenção, cobertas abaixo.

                Uma vez que este texto trata primordialmente dos aspectos da manutenção é apropriado também considerar, neste momento, como o estabelecimento mantenedor vê o seu navio.

                Aos olhos desse estabelecimento, os melhores clientes são aqueles que resolvem  os problemas, durante os Períodos de Manutenção, no mais baixo escalão de manutenção possível.  Isto pode ser conseguido por você ao encorajar as comunicações entre elementos de cada escalão de ambas as  cadeias de comando.  Isto ocorre naturalmente quando houver um bom relacionamento entre o pessoal do navio e os do estabelecimento reparador, ou seja, quando se conhecerem bem, mutuamente.

                Os Comandantes das instalações de manutenção muito apreciam que os Comandantes das unidades mantidas os mantenham informados. Assim, devem trabalhar em conjunto para melhorar seus relacionamentos. O outro extremo deste espectro é o Comandante da unidade mantida que "leva tudo para cima" a cada dificuldade, comunicando ao seu superior imediato na cadeia de comando (isto é, o Comodoro).

                Os navios que têm sucesso nos Períodos de Manutenção são aqueles que se valem bastante do Superintendente da Manutenção. Levam ao seu conhecimento o que precisam e o mantém bem informado de condições do navio que podem precisar  de manutenção específica ou testes.

                As instalações mantenedoras apreciam navios que reajam rapidamente à novos e emergentes desafios de trabalho, submetendo, o mais cedo possível, os correspondentes pedidos de serviço. Atrasos neste procedimento podem ocasionar problemas para baixo, em escalões nos quais muitos itens de trabalho são programados simultaneamente. A este respeito, as instalações mantenedoras também reagem positivamente  em face dos navios solicitarem testes logo após os reparos, ao invés de esperarem até o final do período de manutenção.

                Os Comandantes de estabelecimentos mantenedores se sentem seguros quando lidam com  Comandantes de unidades apoiadas preocupados com a segurança, pois são particularmente sujeitos à problemas decorrente de falhas na segurança do mergulho e ao fato de que os períodos de manutenção extensas impõe muitas condições perigosas aos homens e ao maquinário. O Comandante de navio alerta  concentra seus esforços na segurança geral, com particular ênfase na integridade do casco e na segurança do pessoal.

                Finalmente, os marinheiros do estabelecimento reparador apreciam os elogios. Este elogio, quando praticado, os inspiram a aumentar a qualidade do Período Geral de Manutenção ou de qualquer tipo de período de manutenção em curso.

                Mantendo em mente esses  alertas, você pode contribuir para melhorar a chance de sucesso do seu navio, e ter um bom período Manutenção.

PLANEJAMENTO DO PERÍODO DE DISPONIBILIDADE

               "Período de Manutenção" é o período assinalado ao navio  para a execução ininterrupta de trabalhos que demandam serviços de instalações mantenedoras de terra, ou a partir de outro unidade. É referido, normalmente, como período de disponibilidade da unidade reparada ao estabelecimento reparador.

                A chave do sucesso no planejamento do Período de disponibilidade, seja qual for, é a preparação antecipada e ampla. Isto começa educando-se os supervisores de oficinas na preparação adequada de todos os pedidos de serviço. Este treinamento deve abranger o preenchimento correto dos formulários de pedidos de serviço, mas deve, em adição, assegurar que os seguintes itens estarão claros para a instalação mantenedora quando você submeter o pacote de serviços:

  1. Identificação precisa do problema, definindo exatamente a assistência que necessita.

  2. Disponibilização de todos os dados de placa nominais  necessários, publicações de referência, desenhos e procedimentos de reparo.

  3. A localização precisa do equipamento.

  4. Identificação do pessoal de bordo com conhecimento sobre o equipamento, para contato.

  5. Determinação do nível correto da assistência à manutenção; se Intermediária (IMA) ou de terceiro escalão (depot, drydock).

  6. Identificação dos eventos-chave.

  7. Identificação de controles especiais, se aplicável.

                       (a) Assinatura do Comandante ou do seu representante designado.

                Uma vez que o supervisor de oficina esteja bem familiarizado com o preenchimento dos pedidos de serviço (PS), o Comandante deve assegurar que seu Departamento identifique todo o trabalho necessário, antes de submeter os PS à atividade reparadora.  A submissão intempestiva de pedidos de serviço de trabalhos já identificados diminui a eficácia do Período de Manutenção e cria uma atmosfera desagradável entre o navio e a atividade de manutenção.    

                Atualmente, a maioria das organizações de manutenção  realizam certos itens de rotina durante a Período de Manutenção. Isto inclui o revestimento térmico de tubulações, trabalhos da oficina de velas, análise de óleo combustível  e de lubrificantes, como exemplos. O navio atento  assegura-se de que os objetos dos trabalhos que necessitam serem relacionados, tais como o revestimento de tubulações, sejam propriamente preparados, indicando o problema e sua exata localização.

                Outro insumo relevante para o planejamento da Período de Manutenção  é o Programa de Manutenção referente ao seu navio em particular (Current Ship Maintenance Program, CSMP).  O produto final do CSMP é a listagem  de todos os itens de trabalho do navio a serem realizados, com a indicação da responsabilidade, estado e completa descrição.  Navios que gerenciam bem seus programas de manutenção trabalham para mantê-lo atualizado permanentemente.  Isto provê, à instalação mantenedora,  um quadro geral  dos trabalhos já realizados e permite que ela planeje as atividades para o Período de Manutenção com bastante antecedência em relação à chegada do pedido para o  pacote de serviços.  Os resultados são óbvios. Quanto melhor os insumos para o planejamento daquele Período de Manutenção, melhor será a sua  execução.

                Uma vez definido o pacote de serviços, o próximo evento notável num Período de Manutenção, que contribui para seu sucesso, é a inspeção pré-Período de Manutenção, ou inspeção de chegada..  Esta inspeção de chegada permite ao navio, ao Comando imediatamente superior e à atividade de manutenção, discutir o pacote de serviços em detalhe e identificar e listar os itens de serviço que servirão de controle do andamento dos serviços.

                O Comandante ajudará seu navio e contribuirá para sua reputação se estiver bem preparado para discutir todos os itens de serviço em detalhe. Ele deve conhecer com profundidade todos os aspectos referentes à cada item de serviço de modo a poder estabelecer suas próprias recomendações nas decisões gerenciais. Mais ainda, ele deve sair da inspeção de chegada com um claro entendimento  das ações que serão desencadeadas  em função dos pedidos de serviço e deve passar essas informações aos membros da  tripulação. Desde que a inspeção de chegada é que estabelece o clima do Período de Manutenção, o Comandante e seu coordenador da manutenção (usualmente o CheMaq) devem a ela comparecer.  Se possível, oficiais das divisões e os suboficiais mais antigos devem, igualmente, ser convidados. Eles aprenderão com esta experiência e serão capazes de transmitir informações de primeira mão  ventiladas na inspeção de chegada aos seus subordinados.

                A maioria das organizações mantenedoras conduzem reuniões regulares de reavaliação dos trabalhos durante a Período de Manutenção. Geralmente somente o Comandante e seu coordenador são convidados. Estas reuniões visualizam os itens de serviço no sentido de ordená-los para a maior eficiência do desempenho da organização mantenedora. É durante essas reuniões  que a eficiência dos fornecimentos é avaliada, trabalhos emergentes são revistos e os pontos críticos de controle do andamento dos serviços têm suas validades checadas.

                Para ser efetivo nessas reuniões, o Comandante deve estar bem informado do estado do andamento de todos os itens de serviço, a bordo. Ele deve se informar e ter a mão todos os fatos pertinentes, antes da reunião. Alguns Comandantes bem sucedidos têm usada a técnica de discutir cada item de serviço pertinente com seu Chefe de Departamento na presença do Superintendente de Manutenção do navio, imediatamente antes da reunião. Isto lhe dá uma visão atualizada do estado do andamento do serviço, segundo a  visão tanto do seu Chefe de Departamento como da atividade de manutenção.

                Durante a reunião o Comandante de navio deve evitar emitir ordens agressivas, principalmente se não tiver domínio de todos os fatos. De qualquer maneira, se sentir necessidade de abordar um assunto altamente preocupante,  na reunião, é prudente "azeitar as engrenagens" junto à organização de manutenção e sua cadeia de comando.

                Em resumo, o sucesso ou insucesso, quando realizando uma manutenção ou  Período de Manutenção  ou de Grande Manutenção (overhaul), depende grandemente das relações estabelecidas entre o pessoal do seu navio e o pessoal da organização de manutenção, em terra, ou embarcada. São fontes de atrito freqüentemente encontradas  a falta de entendimento entre os oficiais do navio e pessoal da organização de manutenção e a falta de conhecimento à respeito das diferentes responsabilidades do navio e da organização de manutenção.

                Indo para contrabordo de um tênder para uma manutenção, ou indo para um estaleiro para um Período de Grande Manutenção, é boa prática obter o organograma da organização de apoio de manutenção.  Estude-a e dissemine-a aos seus subordinados líderes.  Pode se assumir que tanto o tênder, como o estaleiro,  sabe o que esperar deste ou daquele departamento de bordo, mas uma boa parte de tropeços, entrechoques e reclamações provêm do fato do pessoal do navio pensar que esta ou aquela oficina do tênder , ou do estaleiro, seja responsável por determinado assunto quando na realidade ele é da responsabilidade de outra. O sucesso nos Períodos de Manutenção ou de Grande Manutenção pode ser melhor alcançado quando os gerentes do navio sabem exatamente quem, na hierarquia da organização mantenedora, é a interface com cada item de manutenção.  Figura 8-6  mostra a correspondência  entre os níveis de reparo  durante a realização de um período de manutenção por um tênder.

                A rede de comunicações no navio é da maior importância em estabelecer quais os tipos de relatórios apropriados que devem ser trocados com a organização mantenedora.

                Para questões jurisdicionais, há alguns artigos chave nas Navy Regulations que se aplicam:

Artigo 0750 estabelece que: "Exceto em matéria da alçada do campo do regulamento de bordo, o Comandante não deve exercer qualquer tipo de controle  sobre os oficiais ou operários  do estaleiro ou estação naval onde seu navio estiver atracado, a não ser com a permissão do Comandante do estabelecimento. "

Artigo 0751 estabelece que:

  1. Nenhum navio ou embarcação pode se movimentar ou realizar experiências de cais  durante a permanência num a estação naval exceto por determinação, ou com a aprovação, do Comandante da estação naval.

  2.  Aos navios chegando ou saindo de uma estação naval deve ser provida assistência , incluindo rebocadores, quando disponíveis, os quais , na opinião do Comandante, possam ser necessários para sua manobra segura.

Artigo 0752:

1.   (a) O Comandante de uma estação naval é responsável pelo cuidado e segurança de todos os navios e embarcações na estação, que não tenham Comandante, ou este já foi assinalado a outras autoridades, e por qualquer dano que possa ser feito por eles ou nele;

     (b) Será da responsabilidade do Comandante do navio em comissão que esteja se dirigindo para um período de grande manutenção ou que esteja imobilizado numa estação naval ou estaleiro,  requerer os serviços necessários de modo a assegurar-lhe atracação segura.  O Comandante da estação naval ou estaleiro será responsável por fornecer-lhe  os serviços requeridos, oportuna e adequadamente.

2.       Quando um navio ou embarcação estiver sendo manobrado sem propulsão própria, sob a direção do Comandante da estação naval, o oficial que o estiver manobrando será responsável  por qualquer avaria que possa resultar  da sua manobra. O prático ou patrão designado para esta finalidade  deve ter o controle direto da manobra e todo o pessoal de bordo deve cooperar  com ele e auxiliá-lo como necessário.

                A regulamentação acima transcrita para os estaleiros se aplica, igualmente, aos tênderes. É boa prática para um navio amarrado à contra-bordo de um tênder  tomar conhecimento do seu regime  de uniformes e suas ordens internas e instruir sua própria guarnição desses detalhes, de modo a evitar atritos.

                Os tênderes  normalmente coordenam as necessidades de barcas d'água e lixo com os navios atracados ao seu contrabordo, e assim, quanto mais cedo o navio se enquadrar nos procedimentos  estabelecidos, mais contribuirá para um relacionamento rotineiro suave com  seu hospedeiro.

DOCAGEM

     A docagem normal é programada durante o período regular de overhaul. A docagem pode ser também realizada entre overhaul regulares (interim drydocking) para manutenção de rotina ou para reparo ou substituição dos hélices, reparo dos eixos, sonares, ou outra avaria abaixo da linha d'água, ou ainda examinar o fundo do navio quanto à possíveis avarias ou deterioração.

                A docagem é realizada num estaleiro ou estação navais de reparo, ou estaleiro comercial, em contrato com a USNavy. Quando a docagem for num estabelecimento comercial, serão conduzidos os necessários arranjos por um gerente industrial.

                Antes de docar, deve ser realizada uma reunião entre o Comandante da unidade a ser docada e o oficial de docagem, ou o mestre civil de docagem, para acertar a data, rebocadores e patrões, as condições do navio para entrada no dique e todos os demais preparativos para a chegada.  Isto consiste na instalação de pestanas, providencias para fornecimento dos serviços utilitários, de serviços sanitários como necessário, remoção de lixo e restos de comida e todos os demais serviços necessários. Providências concernentes à segurança dos reatores devem ser discutidas quando se tratar de navios com propulsão nuclear.

                Nesta mesma conferência, forneça ao estaleiro todas as informações referentes à última docagem, os planos de docagem do navio, se aquele já não os tiver, e providencie os entendimentos relativos aos grupos de trabalho e faxinas para manuseio das espias.

                Uma reunião similar deve ser conduzida próximo do términos dos trabalhos de modo a definir a data da desdocagem  e demais eventos relacionados, tais como o alagamento do dique. Os deslocamentos de peso devem ser devidamente relatados e revisto e discutido o assentamento nos picadeiros.

RESPONSABILIDADE PELO NAVIO DURANTE A DOCAGEM.

O Artigo 0752-4 do "Navy Regulations" estabelece que quando um navio opera sob suas próprias máquinas para a docagem, o Comandante é inteiramente responsável até que a primeira extremidade do navio a entrar no dique cruze a soleira e o navio esteja perfeitamente alinhado. Assume a manobra, então, o oficial de docagem  e retém sua responsabilidade até que o dique esteja completamente esgotado.  Na desdocagem, o oficial de docagem assume a responsabilidade  no início do alagamento do dique e a devolve ao Comandante quando a última extremidade do navio cruza a soleira da porta do dique e o navio esteja perfeitamente alinhado. Num dique comercial as responsabilidades são as mesmas, com o supervisor da construção naval sendo responsável por assegurar que o contratante aja satisfatoriamente.

SEGURANÇA NA DOCAGEM.

Na docagem, o Comandante é responsável por garantir a integridade do navio, quando desguarnecido,  de todas as válvulas e aberturas no fundo nas quais nenhum trabalho esteja sendo conduzido pelo estabelecimento reparador.  O Comandante deste estabelecimento reparador, por seu turno, é responsável pelo fechamento, ao final de cada jornada de trabalho, de todas as válvulas e aberturas no fundo do navio que estiverem sendo trabalhadas por seu pessoal.  Antes da desdocagem, o Comandante do navio deve reportar ao oficial de docagem  qualquer mudança material na quantidade e localização de pesos feitas pelo pessoal de bordo e que todas as válvulas de mar e outras aberturas no fundo do navio estão fechadas. O alagamento não começará até que seja feito tal comunicado.

PREPARAÇÃO PARA O OVERHAUL REGULAR.

Experiência adquirida na realização de vários overhaul indica que seu sucesso depende grandemente nos preparativos feitos pelo Comandante do navio durante o período pré-overhaul.  Durante o overhaul, a guarnição tem muito o que fazer relativo à operação da planta auxiliar e da propulsão, como a manutenção preventiva, os trabalhos de overhaul que lhe cabem, o monitoramento dos trabalhos do estaleiro e o adestramento. Os navios que tiverem se preparado para estas fainas durante o período de pré-overhaul, têm mais disponibilidade de tempo para atendê-las durante o período do overhaul propriamente dito.

A fim de auxiliá-lo nos preparativos para o próximo overhaul, discutiremos a seguir as áreas que requerem especial atenção antes do seu início.

TESTES PRÉ-OVERHAUL

Uma vez que os resultados dos testes pré-overhaul são usados para definir a profundidade dos trabalhos a serem realizados no overhaul propriamente dito, são muito importantes tanto a realização cuidadosa desses testes como o registro acurado de seus resultados.

PLANEJAMENTO DO PACOTE DE TRABALHO DO OVERHAUL

Um dos elementos chave para o sucesso de um overhaul é o planejamento. Anos antes dele, ou de um período para conversão começar, representantes da esquadra, estaleiros e comandos técnicos devem trabalhar juntos para definir o pacote de trabalho desejado.  Como resultado das alterações aprovadas, das ações de manutenção a serem realizadas e de técnicas aperfeiçoadas de reparo, este pacote é periodicamente refinado. Idealmente o planejamento deve estar completo logo no início dos trabalhos do estaleiro, tendo sido estabelecido, então, um  cronograma para o atendimento do pacote de trabalho. Na prática, não é bem isso que ocorre. deste modo, então, começam a surgir trabalhos adicionais em decorrência da inspeção de chegada, da abertura de equipamentos e constatação de suas deficiências, e da falha de equipamentos durante o período de overhaul. É fácil perceber que qualquer maior desvio do pacote inicial de trabalhos levantado confundirá o planejamento ordenado e pode, mesmo, ainda que eventualmente,  destruir  o melhor cronograma estabelecido. Neste caso muito trabalho do estaleiro é desperdiçado e serão inevitáveis os atrasos, com o conseqüente aumento do custo total.

                O pessoal do navio pode significativamente afetar o esforço de planejamento pela impacto da introdução de "obras novas". É de sua responsabilidade preparar-se completamente para o overhaul. Isto é conseguido revendo-se o pacote de trabalho proposto e submetendo-se pedidos de serviço para todos os itens necessários não incluídos.

                Quanto mais cedo você identificar esses trabalhos, tanto mais cedo eles podem ser assimilados no pacote, minimizando a interferência.  Revisões recentes de trabalhos suplementares submetidos a uma lista de serviço de overhaul, depois dele começado, mostraram que o s preparativos pré-overhaul não foram adequados. Adicionalmente, deve ser levado em consideração que um estaleiro pode recusar-se a encarar obras novas, identificadas depois que começou o overhaul, baseado na sua capacidade de mão-de-obra. Esta rejeição só deixa duas opções ao Comandante da Força-tipo: (1) determinar que o trabalho seja classificado como mandatório e aceitar uma programação paralela, ou (2) desaprovar o trabalho.

REVISÃO DOS PROCEDIMENTOS OPERACIONAIS E INSTRUÇÕES: 

Quando realizando testes pré-overhaul ou de overhaul, o pessoal do navio estará se expondo a instruções e procedimentos operacionais raramente usados. O navios devem se utilizar do período que antecede o overhaul para familiarizar -se com estes procedimentos e instruções.

MANUTENÇÃO PREVENTIVA.  A manutenção preventiva deve ser mantida em dia antes e durante o período de overhaul. Numerosos atrasos em programas de teste pós-overhaul podem ser evitados se os equipamentos foram apropriadamente mantidos durante o overhaul.

VIGILÂNCIA DO PESSOAL DE SERVIÇO SOBRE OS TRABALHOS DO ESTALEIRO. Durante o overhaul, a combinação de condições anormais a bordo e a presença de operários do estaleiro não familiarizados com o navio, torna imperativo que  o pessoal de bordo mantenha cerrada vigilância, para garantir a segurança. A guarnição deve ser muito bem doutrinada antes de começar o overhaul nas seguintes áreas:

  1. Necessidade de marcar os sistemas, de acordo com os procedimentos do navio, antes do começo dos trabalhos.

  2. Necessidade e os procedimentos envolvidos em prover adequada apoio para proteção contra incêndios e de manter o número de possíveis focos de incêndio no mínimo.

  3. Manutenção dos padrões de limpeza dos sistemas e componentes.

CONTATO ANTECIPADO COM O ESTABELECIMENTO QUE VAI REALIZAR O OVERHAUL  - Durante períodos de manutenção antes de overhaul, o pessoal do estaleiro  deve visitar o navio para verificar planos de alterações e de que todas as interferências tenham sido identificadas. Isto pode evitar muito desperdício de tempo. O estaleiro pode, também, solicitar acesso aos registros do navio, a fim de ajudar seu planejamento e obtenção de material. Você pode usar estes contatos com o estaleiro de modo a obter documentos que sirvam para familiarizar a tripulação com os procedimentos administrativos do estaleiro, tais como controle de desmontagem, etiquetagem de sistemas e verificação do alinhamento de válvulas antes de começar o overhaul.

                Em resumo, conheça suas tarefas, trabalhe duramente, realizando boas inspeções de acompanhamento e você conseguirá um overhaul eficiente, como era comum anos atrás, e mesmo nos dias atuais, em que os equipamentos são cada vez mais complexos. A conduta de uma preparação adequada para um overhaul e a sua condução não são novidades na Marinha.

                No início de 1940 o velho destroyer John D. Ford entrou no estaleiro de Cavite, nas Ilhas Filipinas, para um overhaul nada convencional. Navio construído na Primeira Grande Guerra, serviu na Esquadra do Asiático por 20 anos, deteriorando-se progressivamente cada ano pela umidade e calor tropicais. Contudo, seu Comandante estava determinado a trazê-lo do seu overhaul como um efetivo navio de combate. Ele podia ver que a guerra no Pacífico era inevitável e que cada navio seria necessário. Assim, por meio de arranjos com o Supervisor de navios conseguiu conduzir um extensivo e completo overhaul para o sistema de propulsão e para os sistemas de armamento do Ford. A tripulação trabalhou além do tempo regulamentar, em princípio com algum ressentimento mas, mais tarde, com crescente entusiasmo, na medida em que descobriam os conhecimentos do Comandante sobre máquinas e a sua dedicação. O Supervisor do estaleiro fez seus homens trabalharem igualmente duro e insistiu em inspeções cuidadosas de garantia da qualidade. Depois do overhaul de 1940 o Ford operou por 18 meses sem perder sequer uma das missões assinaladas, ou a qualquer solicitação do telégrafo de máquinas.

                Quando os japoneses atacaram Pearl Harbor, o Ford se encontrava  fundeado ao largo de Cavite, pronto para entrar no estaleiro para um novo overhaul. A nuvem de 54 bombardeios japoneses rapidamente mudou aquela programação e a guarnição rapidamente colocou em cima, em total condição operativa,  todos os equipamentos e maquinaria.  Daquela data até junho de 1942, o Ford tomou parte em cada batalha naval da campanha Asiática, finalmente retornando a Pearl Harbor, via Austrália, a tempo de juntar-se a um grupo de apoio à força de ataque torpédico para a batalha de Midway. Seu Comandante foi condecorado com três Cruzes Navais e o Ford recebeu a Citação Presidencial para Navios. Ele cumpriu todas as missões a ele assinaladas e nunca  teve uma avaria de máquinas, ou perdeu um disparo. Suas máquinas e armamento se comportaram soberbamente, a despeito da sua idade e de ter perdido seu último overhaul.  Seu desempenho foi um tributo ao seu Comandante e ao Supervisor de navios na ocasião, durante o overhaul de 1940.

Ambos acreditavam que a chave para o sucesso de um bom overhaul era o conhecimento profissional, o trabalho duro e o acompanhamento. Seus nomes?     O Comandante do Ford era o CF  ROBERT L. DENNISON. O Supervisor de navios do estaleiro era o CF HYMAN G. RICKOVER.

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