GRUPO DE INTERESSE EM ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA DE OBTENÇÃO

VAlte (RM1) Ruy Capetti

1. APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA

Ao longo de muitos anos, iniciando-se antes mesmo de entrarmos para a MB, seguindo-se durante o período em que estivemos no serviço ativo e até a presente data, vimos observando, com as devidas reservas quanto à deficiências de apreciação, que a Função Logística Manutenção vem sendo tratada mais como uma incumbência, do que como uma função logística, de natureza estratégica.

Tal abordagem leva a uma postura condenada quando considerando os aspectos de qualidade, qual seja, a perversa prática de se focalizar mais nos freqüentes resultados indesejáveis (efeitos indesejáveis), do que no processo de obtenção do apoio e da manutenção (causas), com excelência. Esses resultados indesejáveis recebem correções na medida em que ocorrem, mas voltam a se repetir, segundo o nosso entendimento, por não haver, no mínimo, aperfeiçoamento do processo dos quais resultam.

Aprofundando um pouco mais neste tema observamos que muitos outros resultados indesejáveis ocorrem com certa freqüência, na MB, principalmente no setor de material (mas não exclusivamente), por falta do que viemos denominando de Gerência do Material. Podemos exemplificar analisando o processo de obtenção de meios navais (aí englobamos os meios flutuantes, os de FFNN e os aéreos navais), pelo qual são obtidos sistemas, ainda que, em grande parte, carentes do adequado apoio logístico, e sem qualquer referência à otimização dos custos envolvidos. Disto são testemunhos a constante falta de sobressalentes/peças de reparo, situação esta freqüentemente atribuída à falta de recursos, sem que tal seja, propriamente, a única razão; a falta de pessoal habilitado e qualificado, nos diversos níveis de manutenção; a falta de oficinas apropriadas; a falta de equipamentos de apoio e de testes, de treinamento, entre diversas outras razões.

Não acreditamos que tudo isso se dê, exclusivamente, por falta de recursos financeiros. Seguramente algo será decorrência de falhas no planejamento, ou de falhas pessoais. Alguns outros resultados indesejáveis decorrerão, até mesmo, de deficiências da estrutura organizacional e dos processos praticados.

Muitos acreditam que a organização de gerenciamento do material das FFAA têm sido boa, ao longo das últimas décadas, sem levar em consideração que muitas melhorias já poderiam ter sido introduzidas. Esta acomodação, fruto principalmente da estagnação cultural na disciplina considerada, vem se exacerbando, na atualidade, vis a vis da constante escassez de recursos financeiros que as FFAA brasileiras vem sendo objeto, nos últimos governos. De fato, entendemos que as maiores dificuldades por que passam nossas FFAA, decorrem da falta de visão estratégica de recentes administrações, as quais governam com visão de muito curto, ou quando muito, de curto prazo, sem levar em conta o horizonte estratégico. Isso acarreta que as FFAA não sejam contempladas com recursos em nível de grande estratégia, por inépcia ou, infelizmente, por inexplicáveis revanchismos, pelos atuais planejadores do orçamento nacional.

Há, contudo, aspectos políticos e organizacionais do problema. Um deles foi a inserção, no contexto da expressão militar, do Ministério da Defesa, criado mais pela motivação política do que técnica e, por isso mesmo, deixando de absorver muitas funções próprias da sua natureza ministerial, não gerando a propalada economia em decorrência de uma esperada integração, ainda não alcançada.

A desatenção, por muitos anos, ao princípio logístico elementar de que para dada situação de perplexidade a determinação das necessidades independe dos recursos, acarretou que o projeto de forças, no Brasil, se condicionasse quase que exclusivamente à polarização orçamentária, relegando os aspectos do grau das ameaças, das estratégias e das forças já existentes, do enfoque das incertezas, da abordagem de cima para baixo e da de baixo para cima, entre outras. Deste modo, as FFAA brasileiras planejaram em alto nível (e ainda planejam) segundo enfoques quase que exclusivamente independentes, quase sempre se auto-limitando (pelos recursos orçamentários) pela austeridade e seriedade de seus planejadores, profissionais competentes, é certo, mas radicais por isso mesmo. E com o advento do Ministério da Defesa os planejadores militares de alto nível cada vez mais passaram a se subordinar a uma política muito mais próxima da de governo, do que dos aspectos técnicos pertinentes. Em outras palavras, em poucas ocasiões, ao longo da história, os planejadores navais produziram PLANEJAMENTOS para definir a dimensão do poder naval necessário ao país, mas sim PROGRAMAS de reaparelhamento da força, esses sim, mais apropriadamente condicionados aos recursos existentes para horizontes temporais pré-estabelecidos.

O fato acima desbalanceou a visão do dimensionamento da expressão militar, ficando, na atualidade, ao critério (mais politizado) do Ministério da Defesa estabelecê-lo. Se bem que tecnicamente falando, tal postura seja essencial para a integração e uso das forças militares, segundo a abordagem do conceito de jointness, por outro lado, como este Ministério não executa muitas das funções das quais deveria se encarregar, exacerbou-se o problema de planejamento e de falta de recursos para as FFAA. Sem a capacidade de se manifestar independentemente, o fato é que essas ficaram à deriva no cenário nacional, a mercê do tiroteio desvairado de ignorantes, frustrados e revanchistas.

Outro aspecto do problema que requer cuidadosa e constante atenção é que da evolução política do Brasil decorreu a contestação das instituições militares, cobrando a realidade de que devam ser, hodiernamente, fruto da abordagem contingencial da administração, onde a tecnologia e o meio ambiente têm papel preponderante no estabelecimento de modernas estruturas organizacionais. Assim, também, nossas FFAA vêm sendo e serão, cada mais intensamente, contestadas pela sociedade sadia e inteligente, no sentido de atuarem adaptadas à realidade, isto é (e acima de tudo é), atuarem com eficiência. Os desperdícios não serão tolerados, cada vez com maior intransigência.

Do exposto podemos concluir que, internamente, as FFAA devem perseguir diuturnamente o aperfeiçoamento de seus processos, sempre com vistas à otimização do conjugado custo-benefício (obter navios com custos minimizados, gerenciar os meios navais mais eficientemente, etc), no cumprimento de sua missão institucional, qualquer que seja a que lhe impuser a sociedade. E para se aperfeiçoar, seus elementos precisam de conhecimentos relativos ao meio ambiente e às modernas tecnologias disponíveis

Segundo a compreensão de que as FFAA, em particular a MB, por nos interessar mais de perto, precisam evoluir tanto em hardware quanto em software e se adaptarem à realidade preconizada, apresentamos à vários chefes navais a idéia de que deveriam ser desenvolvidos estudos (Meu Último projeto! Exemplar 10)*, principalmente no setor de material, visando ao aprimoramento organizacional e, conseqüentemente, dos procedimentos decorrentes, para que, quando a ocasião se apresentar oportuna pela disponibilização de maiores recursos, sejam aperfeiçoadas suas estruturas e os procedimentos relativos. Em outras palavras, se não se dispunha de recursos de qualquer natureza para proceder às mudanças de aperfeiçoamento identificadas, que se estudasse, no presente, o estado dos conhecimentos para deles fazer uso em prol de uma mudança cultural progressiva no setor considerado.

* Publicada na INTERNET em – IÇA O DOIS - Exemplar 10 Jan/Fev/Mar 2004) (http://planeta.terra.com.br/relacionamento/submarinosdobr/Exemplar10.htm)

A título de ilustrar a idéia ventilada, lembramos o caso da Inglaterra. Valendo-se da abordagem de que uma das maneiras de evitar o problema de excessivos gastos com manutenção x disponibilidade inadequada, a RN procedeu estudos do processo de manutenção e o melhorou – para tanto, no caso do presente exemplo, adotando metodologia de análise para estabelecer as rotinas de manutenção dos navios da sua esquadra. Observa-se, naquela marinha, que foi implementada a Manutenção Centrada na Confiabilidade, acarretando substancial redução no esforço de mantenimento e, acima de tudo, no uso de sobressalentes. Como resultado prático advieram as fragatas das classes Hunt e 23. Tais navios não mais são submetidos a extensivos períodos de reparo e de docagens, passando a atender a um sistema de manutenção contínua. Em outra palavras, a introdução da Manutenção Centrada na Confiabilidade pôde alterar, significativamente, as oportunidades disponíveis de manutenção para os equipamentos.

Nota: No Brasil, houve ocasiões em que procedemos de maneira inversa, acarretando o agravamento de problemas – haja vista o caso do PMG do NDD Ceará.

Se outros países puderam, por que nós não podemos?

2.UMA POSSÍVEL LINHA DE AÇÃO

Fazendo o papel de observador da MB a partir do meio ambiente e procurando evitar a polarização na determinação de alternativas de solução pela cultura institucional vigente, que privilegia o combate à resultados (efeitos) em detrimento da abordagem de aprimoramento dos processos (causas), vimos estudando o assunto e, quando possível, publicando artigos sobre seus aspectos de interesse.

Breve, por várias razões, não mais teremos a oportunidade para prosseguir na luta de levar aos nossos pares pensamentos a respeito, pelo menos, sobre a gerência de manutenção. Assim, além de já termos levado ao conhecimento de vários chefes navais o que pensamos, vislumbramos a possibilidade de que essa luta seja continuada por um grupo de oficiais mais jovens e mais competentes, com profundos conhecimentos do assunto e que disponham, no merecido repouso da aposentadoria, de algum tempo para dedicá-lo às FFAA/MB em especial e, acima de tudo, vontade para fazê-lo.

Vislumbramos que uma possível Linha de Ação seria o uso do mecanismo de Grupos de Interesse, que o Clube Naval (CN) disponibiliza aos associados.

A Ordem Permanente 22 daquela instituição esclarece o alcance de tal ferramenta e estabelece as regras para institucionalizá-lo.

Proposta esta linha de ação e na falta de alternativa de solução mais adequada, apresentamos sugestão do termo de solicitação, ao CN, para instituir o GI, que poderia receber o título de GRUPO DE INTERESSE EM ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA DE OBTENÇÃO, COMO APLICADAS NO SETOR DE DEFESA, abreviadamente GI DE ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA.

Ruy Capetti - VAlte (SB)(RM1)

3. PROJETO GRUPO DE INTERESSE

OBJETIVO: CRIAR UM GRUPO DE INTERESSE EM ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA DE OBTENÇÃO, como aplicada no SETOR DE DEFESA

DENOMINAÇÃO: ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA DE OBTENÇÃO como aplicada no SETOR DE DEFESA

JUSTIFICATIVA : A obtenção de sistemas militares deve desenvolver-se segundo um processo racional que garanta, no seu final, a obtenção de um sistema operacionalmente apto para atender às necessidades dos clientes/utilizadores, e que ao mesmo tempo se beneficie de um adequado sistema de apoio logístico, tudo a um custo otimizado. A estratégia de obtenção para a consecução deste propósito é a aplicação de um processo racional de obtenção que conjugue os elementos do casamento perfeito entre a Engenharia de Sistemas e o que é conhecido como Logística de Obtenção. Um exemplo que ratifica esta postura é a declaração do DoD (USA):

"To provide more affordable logistic support for material systems the Department of Defense is focusing on total cost of ownership throughout the life cycle. Achieving affordable support depends upon effective acquisition logistics management and planning." MIL-HDBK-502 pg i.

Deste modo se pode perceber que a Logística de Obtenção é parte inerente no processo de Engenharia de Sistemas.

As razões de ser especial o estudo do combinado Engenharia de Sistemas com Logística de Obtenção no Setor de Defesa são:

1) a falta de estabelecimentos de ensino que abordem o problema logístico segundo o enfoque de obtenção dos sistemas (concomitantemente com o processo de Engenharia de Sistemas) com forte polarização para o estabelecimento do sistema de apoio adequado, diferentemente do setor empresarial, freqüentemente tratado pelas instituições civis de ensino, e cujo enfoque é mais preponderante na DISTRIBUIÇÃO de itens de menor complexidade logística (itens de consumo, em contrapartida a sistemas/supersistemas); e

2) a falta de literatura sobre o assunto na nossa língua.

4. TENTATIVA DE UM PROGRAMA DE TRABALHO

UM POSSÍVEL PROGRAMA DE TRABALHO PARA O GI PODERÁ SER:

  1. PROFERIR PALESTRA(S) MOTIVADORA(S) PARA A CONSCIENTIZAÇÃO INTERNA DO GRUPO (E PARA PÚBLICO EXTERNO)

- ENFATIZAR A OBTENÇÃO DE RESULTADOS PRÁTICOS COMO POR EXEMPLO A OBTENÇÃO DE UM CMMS, PUBLICAÇÃO DE UMA OBRA, PUBLICAÇÃO DE ARTIGOS, PRODUÇÃO DE MONOGRAFIAS, REVISÃO DE UMA PUBLICAÇÃO DA MB (se requisitado), etc

  1. ESTABELECER UMA FRASEOLOGIA PADRÃO (POR CONSENSO) MAS QUE TENHA A PRETENSÃO DE SER PERMANENTE.

- COMO CONSEQÜÊNCIA ELABORAR UM GLOSSÁRIO ONDE POSSAM ATÉ SER INCORPORADOS NEOLOGISMOS, TAIS COMO USABILIDADE, PRODUCIBILIDADE, CUSTEABILIDADE, ETC.

  1. PRODUZIR UM CMMS

  1. PRODUZIR UM LSAR

  1. ELABORAR UMA ESTRUTURA TENTATIVA PARA A LOGÍSTICA NAVAL

  1. PRODUZIR UM MANUAL DO ALI E PUBLICÁ-LO

  1. PRODUZIR UM LIVRO SOBRE A ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA COMO CASAMENTO PERFEITO PARA ATINGIR OS OBJETIVOS DO SETOR DE DEFESA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS MILITARES.

  1. CRIAR E GERENCIAR UM SITE SOBRE ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA APLICADOS AO SETOR DE DEFESA

  1. INDICAR OBRAS TÉCNICAS PERTINENTES PARA A BIBLIOTECA DO CLUBE NAVAL

  1. ETC.

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CONCLUSÃO: AOS 24 DE JANEIRO DE 2005 FOI CRIADO O GRUPO DE INTERESSE EM ENGENHARIA DE SISTEMAS/LOGÍSTICA, no Clube Naval.

Foi criado, paralelamente, um grupo de discussão para que sejam debatidos diversos assuntos correlatos em Yahoo!Grupos sob o título logistica_obtencao (logistica_obtencao@Yahoo!Grupos.com.br)