Exemplar 12                                Out-Dez/2004 VAlte(RRm) Ruy Capetti

            Quando Daniella Cicarelli (modelo) declarou, em recente entrevista no programa do Jô Soares, que o sucesso de seu desempenho na maratona de Nova York deveu-se à Logística, acendeu, em mim, um sinal verde, liberando-me para discorrer  sobre tema tão importante, uma vez que se popularizava, perdendo muito de sua aridez. Falar de Logística, nos muitos anos passados, soava cafonice, pedantismo ou falta de assunto, uma vez que era considerado um interesse típico e particular dos militares.

            Modernamente, contudo, a logística é tema profundamente explorada no meio empresarial, como fator de promoção do lucro, uma vez que aqueles conhecimentos cujo interesse era somente atribuído às operações militares, vem sendo aplicados no aperfeiçoamento organizacional das instituições civis de produção e prestação de serviços, tornando-se cada vez maisabordagem obrigatória para as que aspiravam a crescer, devido, principalmente, ao fenômeno da globalização, da universalização das fontes de  fornecimentos, da qualidade cada vez mais crescente requerida e da maior complexidade dos produtos e serviços comercializados.

            A ênfase na Logística, nos países de cultura elevada, não ficou no âmbito dos negócios. Enquanto que nesses se tratava da Logística Empresarial e da Administração de Material, também no Setor de Defesa, nas principais nações industrializadas do mundo, a Logística recebeu ênfase cada vez maior. E disso não se davam conta os países menos desenvolvidos, entre eles o Brasil, cujas Forças Armadas, muito embora tivessem à disposição o conhecimento e o acesso às informações pormenorizadas sobre o que vinha ocorrendo, por força do hábito e deficiência educacional, deixaram de se atualizar sobre o desenvolvimento da Logística como vinha ocorrendo. O modelo da Cadeia de Suprimento, que serviu e vem servindo de base para enfatizar a Logística  Empresarial, tem sido desprezado no Setor de Defesa dos países menos desenvolvidos.

            Outro fator que contribui para a desatualização é a falta, no meio militar, de uma instituição educacional no nível do Ministério da Defesa (do tipo, apenas para exemplificar, da National Defense University/EUA) que promova a disseminação dos conhecimentos comuns necessários ao desenvolvimento do setor de defesa, como um todo.  Cada Força Armada adota um modelo para entrosamento com a Universidade civil, mas que não é suficiente para o aprimoramento do Sistema Educacional Militar, pois deixa muitas lacunas, principalmente daquelas disciplinas que, particular e unicamente, lhe dizem respeito, e que não são tratadas por nenhuma instituição civil.

            Referindo-se ao exposto no parágrafo anterior, o caso do estudo de Lgística é típico - que as escolas de Altos Estudos Militares, anos a fio, vem ministrando o ensino da Logística segundo a abordagem do Teatro de Operações. Referente á Logística Naval, por exemplo, tal postura vem priorizando o aspecto da Distribuição logística, numa referência quase que total ao principal problema com que se defrontou os EUA por ocasião da Segunda Grande Guerra. Nem mesmo os cursos de MBA, que passaram a ser adotados pela MB, resolvem o problema de não enfatizar o uso da Logística no Setor de Defesa como um todo (e segundo a abordagem da Cadeia de Suprimentos), pois disto não tratam. E como as Escola de ensino de Altos Estudos Militares enfatizam o ensino da Estratégia e da Tática, a Logística aplicada ao âmbito do Ministério da Defesa fica relegada a um segundo plano. Ora, num mundo em que, cada vez mais, são escassos os recursos e quando gerenciá-los se torna verdadeira artedeixar a Logística em segundo plano, em relação à Estratégia e a Tática, é uma verdadeira temeridade. Afinal, os militares são chamados a gerenciar esses escassos recursos colocados a sua disposição, desde o tempo de paz, num ambiente de globalização e  de alta competitividade, e na obtenção de sistemas cada vez mais complexos, que sóem usar, e deles se espera a maior efetividade. Mas, como fazê-lo, se nem sequer existe instituição de ensino no Setor de Defesa que ventile métodos e técnicas para fazê-lo? 

revisitando a Logistica, como aplicada nos diferentes Setores de Defesa, das nações mais industrializada, observamos que a Logística evoluiu, a partir da Segunda Guerra Mundial, para conceitos mais elaborados, como o  conceito de Apoio Logístico Integrado (ILS de Integrated Logistic Suport), desenvolvido em meados dos anos 1960, quando era definido como

uma composição de todas as considerações de apoio necessárias para assegurar um eficaz e econômico apoio a um sistema ou equipamento em todos os níveis de manutenção durante todo seu ciclo de vida programado. O ILS é parte integral de todos os demais aspectos da obtenção e operação dos sistemas.

O ILS, como inicialmente entendido, incluía uma "abordagem de ciclo de vida para o planejamento, desenvolvimento, obtenção e operação de sistemas e equipamentos de modo a maximizar a prontidãoo e otimizar os custos." Os principais elementos do ILS abrangiam as interfaces de projeto/apoio do sistema, confiabilidade e manutenibilidade, planejamento, equipamentos de testes e de apoio, apoio de abastecimento, transporte e manuseio, dados técnicos, instalações físicas, pessoal e treinamento, recursos financeiros para apoio logístico, informações de gerenciamento para o apoio logístico e serviços de apoio de contratados. A ênfase é, aqui, na logística no que diz respeito aos sistemas (em contrapartida ao abastecimento e distribuição de pequenos componentes e consumíveis) e no apoio eficaz e eficiente desses sistemas durante todo seu ciclo de vida planejado. Abrange não somente a manutenção e apoio sustentados desses sistemas durante seus períodos de utilização, mas também seus projetos com vistas à confiabilidade, manutenibilidade e apoiabilidade.

Os princípios e conceitos do ILS foram mais profundamente desenvolvidos pelos idos de 1970, 1980 e 1990, sendo sua definição expandida para constituir uma  

Abordagem disciplinada, unificada e iterativa, do gerenciamento e atividades técnicas necessárias a (1) integrar considerações de apoio aos projetos de sistemas e equipamentos; (2) desenvolver requisitos de apoio que são consistentemente relacionados aos objetivos de prontidão tanto ao projeto, como entre si; (3) obter o referido apoio; (4) prover o apoio necessário durante a fase operacional ao custo mínimo.[1]

 

 

A ênfase agora é no desenvolvimento e implementação de uma eficaz e eficiente infra-estrutura de manutenção e de apoio e de todas as atividades correlacionadas. O apoio necessário para um sistema operacional pode ser provido por diferentes níveis dependendo dos requisitos da missão global do sistema, a complexidade do sistema, suas confiabilidade  e eficácia, recursos disponíveis, custo, etc.

Inerente no contexto desta definição jaz o requisito atual de projetar com vistas à apoiabilidade. Isto se relaciona com o grau que um sistema pode ser apoiado, tanto em termos das características embutidas nos componentes diretamente responsáveis pelo cumprimento da missão principal do sistema, quanto às características da infra-estrutura global de manutenção e apoio e seus elementos (o apoio de abastecimento, os equipamentos de testes, as instalações de manutenção, etc.). Falamos aqui de características tais como padronização, intercambialidade, acessibilidade, diagnóstico, acondicionamento funcional e compatibilidade entre os vários elementos de apoio e entre os elementos de apoio e os componentes diretamente responsáveis pelo cumprimento da missão principal do sistema. A ênfase é dirigida ao projeto do sistema, relativo aos dois primeiros itens na definição acima.

Mais recentemente têm sido posta maior ênfase na Logística (e no projeto com vistas à apoiabilidade) nos estágios iniciais do projeto do sistema e no processo de desenvolvimento, pela introdução do conceito de Logística de Obtenção, que é   

Uma disciplina multi-funcional de gerenciamento técnico associada com o projeto, desenvolvimento, testes, produção, colocação em campo, sustentação, e alterações de melhoria, de sistemas custo-eficazes, os quais atendam aos requisitos dos utilizadores de prontidão, tanto em tempo de paz como de guerra. Os principais objetivos da logística de obtenção são os de assegurar que as considerações de apoio fazem parte integral dos requisitos de projeto dos sistemas, que os sistemas podem ser apoiados custo-eficazmente durante todo seus ciclos de vida, e que os elementos necessários de infra-estrutura para a inicialização em campo e o apoio operacional ao sistema sejam identificados e desenvolvidos por ocasião da sua obtenção.[2]

A ênfase em considerar a Logística no processo de projetar é baseada no fato de que (como demonstrado pela experiência passada) parte significativa do ciclo de vida de um sistema pode ser atribuída diretamente a sua operação e apoio em campo, e muito do custo envolvido é baseado em decisões de projeto e gerenciamento tomadas nos estágios iniciais do seu desenvolvimento. Em outras palavras, decisões tomadas nos estágios iniciais podem produzir imenso impacto no custo das atividades subseqüentes associadas com a operação e manutenção do sistema. Deste modo, se torna mandatório que a Logística (e o projeto com vistas à apoiabilidade) sejam considerados desde o início.

            Para enfatizar ainda mais a necessidade de considerar a Logística, no processo de projetar sistemas, o Departamento de Defesa dos EUA  introduziu, recentemente, o conceito de Logística Baseada no Desempenho (PBL de Performance Based Logistics).[3]        O propósito é enfatizar a importância e necessidade das infra-estruturas de manutenção e de apoio pelo estabelecimento de algumas medidas específicas e incluí-las como requisitos quantitativos para o projeto com vistas ao desempenho, nas especificações apropriadas. Estes requisitos podem estar cobertos dentro do espectro global dos requisitos de nível de sistema (como a disponibilidade operacional, a eficácia do sistema, o custo do ciclo de vida, o nível da capacidade de operar sem solução de continuidade [sustentabilidade] ) e/ou por elementos específicos  das infra-estruturas de manutenção e de apoio (entre as quais a eficácia do pessoal, metas quantitativas para os tempos de transporte e custos, eficácia do apoio de abastecimento, utilização das instalações de apoio e resultados, tempos de acesso ás informações e dos processos, confiabilidade dos equipamentos de testes). Esses fatores de desempenho relacionados com a Logística devem ser integrados com  (e apoiarem) os fatores de desempenho do alto nível do sistema, na medida que eles dizem respeito à missão global do sistema.

De tudo acima exposto torna-se evidente a necessidade de revisão do ensino de Logística no Setor de Defesa, e demais ambientes militares, valorizando o emprego da disciplina no dia a dia, de modo a otimizar o gerenciamento daqueles bens que a nação entrega aos cuidados dos militares para administrar.  Assim agindo, talvez pela criação e atuação de uma Instituição de Ensino de assuntos atinentes ao setor de Defesa como um todo,  no nível do Ministério da Defesa do Brasil, e que focalize estes assuntos comuns de maneira mais apropriada, possam as Organizações Militares gerenciar mais eficazmente os escassos recursos colocados à disposição.

Depois da declaração da Cicarelli, assisti a sua entrevista até o final, com redobrada atenção. Claro, por puro interesse na Logística!

***


[1] DSMC, Integrated Logistics Support Guide, Defense Systems Management College, Fort Belvoir, Va., 1994. (DSMC é atualmente reconhecido como um dos elementos principais da Defense Acquisition University).

[2] MIL-HDBK-502, Department of Defense Handbook on Acquisition Logistics, Department of Defense, Washington, DC, maio, 19967.

[3] Dod 50002.2-R, Mandatory Procedures for Major Defense Acquisition Programs (MDAPS) e Major Automated Information System (MAIS) Acquisition Programs, Department of Defense, Washington, DC, 5/abril, 2002.