IÇA O DOIS!  abr/2004

 

APENAS MAIS UMA MISSÃO

CT Michael Vinicius de Aguiar*

 

            Estávamos concentrados em uma Área de Reunião Clandestina (ARC), próximos à Enseada de Abraão na Ilha Grande, aguardando o fundeio dos navios inimigos na área, representados pelos navios de nossa Esquadra que participavam da comissão ADEREX.

            Chovia e não tínhamos onde nos abrigar, apenas aquele velho poncho aliviava um pouco o desconforto por qual deveríamos passar para nos manter bem posicionados e com a discrição necessária para aquela missão. Pouco antes do pôr do Sol, os navios aproximaram-se lentamente da Enseada do Abraão, e como se não estivessem sendo observados fundearam bem na entrada da enseada, arriaram suas respectivas lanchas e botes, que navegavam sem parar por toda a parte a fim de prover segurança aos navios na tentativa de evitar o ataque de Mergulhadores de Combate.

Observando o movimento das embarcações de segurança e da vigilância no convés dos navios, aprontávamos nossos equipamentos de mergulho de circuito fechado, os antigos mas ainda eficientes OXIGERS-57, e toda aquela parafernália de mergulho indispensável, bem como as minas de casco que seriam colocadas nos navios alvos. Tudo era feito em absoluto silêncio e com muita concentração para que nada fosse esquecido. Ainda tivemos tempo de degustar nossas frias rações de combate, frias pois não poderiam ser aquecidas na nossa ARC, pois o fogo e a fumaça poderiam nos denunciar colocando em risco toda a missão.

            Chegada a hora do início do ataque, deixamos a ARC completamente equipados e fomos ao encontro das águas da enseada, nosso ambiente de infiltração, a fim de iniciar o mergulho tão esperado com destino ao alvo. Estávamos com água a altura do peito prontos para deixar a superfície, faltando apenas retirar o rumo para o alvo, quando fui surpreendido com o sussurro do meu dupla mostrando-me sua máscara para mergulho com o tirante arrebentado. Por sorte, eu tinha uma máscara reserva, que havia deixado junto do meu material na ARC. Perdemos algum tempo para voltar e pegar a máscara. Reiniciamos a equipagem, retirei o rumo até o alvo e iniciamos o mergulho.

            Durante o mergulho, observávamos com grande frequência a movimentação das embarcações de segurança dos navios que não paravam de nos fustigar e passavam sobre nossas cabeças, deixando um longo rastro de espuma na superfície proveniente do movimento dos hélices dos motores dentro d'água.

            Sem que nada tivesse acontecido, senti que o bocal do meu OXIGERS-57 folgou, a ponto de cair da minha boca caso não o mordesse. Verifiquei através do tato, o que havia acontecido e constatei que o meu tirante do bocal do equipamento havia se partido. Quando olhei para o meu dupla para apenas mostrar-lhe o que havia acontecido, percebi que o mesmo encontrava-se com o mesmo tirante do bocal partido e continuava o mergulho, como se nada tivesse acontecido.

            Continuamos nosso mergulho com os tirantes dos dois bocais partidos, já que os mesmos não nos impediriam de alcançar o objetivo. Pensávamos que mais nada poderia acontecer num mesmo mergulho e estávamos, como sempre, determinados a chegar ao alvo e colocar nossas minas de casco no alvo. Foi quando percebi que meu OXIGERS apresentava um fluxo contínuo de oxigênio que inflava o saco respiratório sem parar. Rapidamente fechei a ampola de oxigênio do equipamento e fui obrigado a exalar todo o excesso de gás para a superfície, pois o volume interno do saco respiratório trazia-me a superfície involuntariamente comprometendo a missão, sem contar o risco de ser atingido por uma das embarcações dos navios que não paravam de nos procurar.

            Por ainda estarmos bem afastados do alvo, as bolhas que exalei do equipamento não foram detectadas na superfície escura daquela noite. Seguimos em frente sendo que a partir deste instante eu precisava controlar o fluxo de gás que vinha para o equipamento manualmente, através da válvula da ampola de oxigênio do equipamento. Não medi esforços e prossegui determinado a chegar ao alvo, apesar das dificuldades.

            A partir deste momento, as dificuldades fizeram com que o alvo parecesse estar cada vez mais longe. Eu estava concentrado na minha navegação e controle manual do fluxo de gás do meu equipamento quando meu dupla me alertou que estávamos embaixo do nosso alvo. A ansiedade aumentou e fomos rápidos, não podíamos perder tempo. Nossas minas de casco foram colocadas no casco do alvo sem que nossa presença fosse percebida. Retraímos, com o orgulho do dever cumprido até a nossa ARC, onde ficamos até o término do exercício. Digo exercício pelo menos para alguns, pois arriscávamos nossas vidas durante todo o mergulho. Para nós apenas as minas de casco eram de exercício pois não continham cargas de demolição.

            Saibam que só aqueles que optam pela inquietação e insegurança, pelo desconforto e pelo sacrifício sabem o verdadeiro sabor de uma vitória.

 


*Michael Vinicius de Aguiar é Capitão Tenente, Mergulhador de Combate. serve atualmente no grupamento de Mergulhadores de Combate.

(O Periscópio ano XLI nr 57/2003)