IÇA O DOIS!

NOSSOS GRANDES SONHOS

Almirante Henrique Rubem da Costa Velloso Iça o dois! abr/2004

(Da obra MARINHA UMA CARREIRA FANTÁSTICA jan/2004, com especial autorização do autor)

     "Tive a especial satisfação, como já mencionei, de comandar dois Submarinos - os inesquecíveis "TUPI" e "BAHIA" .Contei uma história sobre o primeiro deles. Vou tratar agora de uma outra, muito importante e bem mais séria, passada entretanto quando comandei a Força de Submarinos.

            Nós, submarinistas, sempre perseguimos dois grandes sonhos. O primeiro deles era operar com Submarinos convencionais construídos no Brasil ou melhor "brasileiros natos" e não mais "italianos", "norte-americanos" ou "britânicos" de "nascimento" .

            O segundo era alcançar o avanço tecnológico que nos permitisse construir, mais tarde, o verdadeiro Submarino, de propulsão nuclear, que nos propiciaria um notável avanço operacional e nos libertaria, portanto, das severas restrições que as baterias determinam.

            O Comandante da Força de Submarinos, graças, à clarividência daqueles que me antecederam, era assessorado de forma completa. Assim, para o trato das atividades do presente contava com um Estado Maior composto de especialistas; para a orientação e o planejamento quanto ao futuro dispunha do Grupo de Desenvolvimento de Submarino (GDS), constituído por experientes submarinistas; e para relembrar o passado e manter sempre viva nossa admiração pelos que nos antecederam tinha um grupo de Oficiais submarinistas dedicados à nossa história, entre os quais saliento o, na época, Tenente MARCO POLO, que muito me ajudou.

            Sem dúvida, mutáveis são o presente e o futuro - perene é o passado, daí nossa profunda e justa preocupação com aqueles que nos antecederam e os inesquecíveis exemplos que nos legaram. Hoje lamentavelmente, em âmbito nacional em nosso País, assistimos, estarrecidos, as tentativas de maus brasileiros em apagar o passado e reescrevê-lo ou reensiná-lo, transformando patriotas em vilões e vilões em patriotas.

MINISTERIO DA MARINHA

COMANDO DA FORÇA DE SUBMARINOS

 S "RIO GRANDE DO SUL"I (Capitânia)

RIO DE JANEIRO, RJ.,

Em 17 de julho de 1978.

ORDEM DO DIA N° 0027/ 78

Assunto: Aniversário da Força de Submarinos

Para conhecimento do pessoal das Unidades e Estabelecimentos sob o meu Comando e devidos fins.

 

            Faço público o seguinte:

            Diria, neste momento em que, com imensa satisfação para todos nós, comemoramos o 64° aniversário da Força de Submarinos, que o orgulho quanto ao passado constitui uma vigorosa e perene força que nos anima a vencer as dificuldades do presente e ter esperanças quanto ao futuro.

            Aproveitemos a data de hoje para reverenciarmos aqueles que nos precederam nas inesquecíveis Flotilha de Submersíveis e Flotilha de Submarinos e que, pelos seus atributos profissionais e morais, nos ofereceram esta grande dádiva de hoje - a nossa querida Força de Submarinos.

            A mística que envolve e inspira os que servem em qualquer Organização Militar se assenta na grandeza de seu passado, que cria e perpetua um saudável espírito de corpo. Somos felizes porque o possuímos e agradecemos àqueles muitos que nos legaram esse sentimento, entre os quais hoje destacamos as ilustres figuras dos Almirantes FELINTO PERRY, JOSE MACHADO DE CASTRO E SILVA E ÁTTILA MONTEIRO ACHÉ,  paradigmas das qualidades que devem nortear os Submarinistas e Mergulhadores.

            Permitam que lhes diga que o maior bem que nos transmitiram não foi material, mas sim o grande desafio que representa sermos dignos deles.

            Desejava lembrar que estamos construindo, no presente, o passado de amanhã e, no futuro, os novos Submarinistas e Mergulhadores precisam ter de nós impressão semelhante àquela que possuímos em relação aos que nos antecederam.

            Não é difícil sintetizar os sentimentos básicos que nossa atividade profissional cria e exige. Somos profundamente inter-dependentes - todos dependem de cada um e cada um depende de todos. Temos de acreditar quase sempre, no que não vemos. Creio que a inter-dependência gera a união. Julgo que a impossibilidade de ver para acreditar gera a fé. Penso que com união e fé construiremos o nosso presente e, tenho confiança, venceremos o desafio que o passado nos impõe.

HENRIQUE RUBEM COSTA VELLOSO Contra-Almirante    

Comandante

          O Ministro da Marinha, Almirante HENNING, ilustre submarinista, foi o primeiro a desenvolver vigorosos e efetivos esforços no sentido de ser atendido nosso primeiro grande objetivo. Tive a felicidade de poder colaborar nesse longo trabalho, pois foi o GDS, da época em que comandei a Força, que estudou inicialmente e a fundo as três propostas para a Construção de Submarinos em nosso País - alemã, italiana e francesa.

 

 

 

            Foram realizadas na Força de Submarinos amplas exposições e debates com as comitivas que defendiam cada projeto e pudemos assim opinar, com grande correção quer quanto a parte material quer quanto a operacional, em auxílio das autoridades que iriam dar a solução final (recordo-me que muitas foram as discussões a respeito da estanqueidade entre os compartimentos dos Submarinos).

            Lembro-me, ainda de uma forma muito viva, que o Chefe da delegação alemã, vencedora da concorrência, era tratado com especial deferência por todos os seus componentes. Herr Professor (como sempre o tratavam) GABLER, velho e simpático engenheiro naval, era considerado uma das maiores autoridades mundiais em construção de Submarinos.

           Não podemos nos esquecer que durante a II Guerra Mundial a Força de Submarinos alemã contou com um total de 1.162 unidades, sem incluir aquelas empregadas em reabastecimento e treinamento de pessoal. Tal fato demonstra, sem dúvida, uma extraordinária capacidade de projetar, construir, reparar e manter essa complexa arma.

            O esforço foi necessário para compensar os 754 Submarinos perdidos, dos 863 que efetivamente realizaram longas patrulhas. O trabalho quanto ao contínuo preparo de pessoal também foi imenso, pois, dos cerca de 39.000 submarinistas que tripularam os Submarinos alemães, 27.491 morreram em ação e aproximadamente 5.000 foram feitos prisioneiros.

            Os dados mencionados foram obtidos do extraordinário livro "WOLFPACK" "Uboats at war 1939-1945", de autoria dos britânicos PHILIP KAPLAN e JACK CURRIE, onde ressaltam a grande bravura e o trágico destino dos submarinistas alemães, face à evolução dos meios de detenção e ataque aos Submarinos, e cuja leitura tomo a liberdade de sugerir aos nossos estimados companheiros submarinistas.

            Disse-me o Professor GABLER, numa das raras ocasiões em que pudemos conversar somente nós dois, que estava para se aposentar e sempre tivera uma profunda e muito especial admiração pelo Brasil. Assim, resolvera me fazer uma consulta sobre a possibilidade de exercer sua profissão em nosso País. Confesso que fiquei entusiasmado com a idéia e disse-lhe que ia transmitir sua intenção, de inequívoco interesse para nós, à uma influente autoridade naval superior que muito poderia ajudar.

            Julguei que possivelmente Herr Professor GABLER seria muito útil para o Curso de Engenharia Naval da USP, que era apoiado financeiramente pela Marinha. A autoridade com quem contava, infelizmente creio eu, não se interessou e teceu fortes críticas à pretensão do engenheiro alemão.

            Relembro que o fato se deu pouco antes do 63° Aniversário da Força de Submarinos, quando foi rezada uma Missa na Igreja da Candelária, tendo como celebrante o Cardeal Dom EUGÊNIO SALES e onde, pela primeira vez, foi tocada bela sinfonia especialmente composta pelo Maestro MANOEL QUADRA, que tinha como temas centrais as nossas admiradas e peculiares saudações - o "VAMOS TODOS..." e o "GLÓRIA GLÓRIA..."

            A Missa foi muitíssimo concorrida e as palavras de Dom EUGENIO, fazendo referência à nossa especialidade, não somente oportunas, mas também extraordinariamente inteligentes.

           A mesma autoridade que desaprovou o propósito do Professor GABLER, ao término da Missa, disse-me que ela tinha sido digna da Força de Submarinos Alemã! Pensei que era um elogio pela indiscutível beleza do ato religioso, mas, para minha decepção, fora uma sarcástica crítica. Creio, lamentavelmente, que ele confundiu a imensa desigualdade operacional e de meios com a profunda simpatia e o especial apreço que envolvem os submarinistas de todas as Marinhas. Recordo-me, para confirmar, que certa vez, no comando do S "TUPI", atraquei o navio ao cais do porto de Angra dos Reis, pela proa de um mercante de bandeira alemã, quando fui (modesto submarinista brasileiro ), logo depois, convidado pelo seu Comandante para almoçar a bordo. Era ele um ex-submarinista alemão. O S "TUPI" o deixou saudoso.

            O nosso primeiro objetivo, ou melhor antigo sonho, já foi realizado e nas cerimônias em que compareci ao AMRJ, relativas aos lançamentos e batismos dos novos Submarinos "TAMOIO", "TIMBlRA" e "TAPAJÓ", lembrei-me, todas as vezes e com saudade, do simpático Herr Professor GABLER, notável engenheiro naval alemão que muito admirava o Brasil.

            O segundo grande objetivo, apesar dos esforços de muitos Oficiais de Marinha, em especial dos submarinistas, continua a ser hoje um sonho, face à gravíssima situação econômico-financeira atual de nosso País. Não sei se, desta feita, terei tempo de vida que me permita comparecer ao AMRJ e poder vibrar com a concretização de nosso segundo, derradeiro e mais importante sonho. "

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