IÇA O DOIS!

Meu último projeto!

VAlte(RRm) Ruy Capetti  Exemplar 10               Jan/Fev/Mar 2004
 

Quando me retirei do serviço ativo, não saí da Marinha. Continuei a viver os mesmos problemas com que me deparava no dia do serviço ativo, agora sem o poder ou força de atuar diretamente na organização, implantando ou implementando medidas que visassem a aperfeiçoar nossa instituição.

Se por um lado perdi este privilégio, fui beneficiado com maior disponibilidade de tempo para aprofundar estudos que contribuíssem para fundamentar minhas idéias.

Por outro lado, as rápidas variações conjunturais, polarizadas pela globalização e suas conseqüências, pelas alterações organizacionais, como o advento do Ministério da Defesa,  pelas deficiências das ações políticas dos governos brasileiros, pelas perdas culturais, entre tantas outras razões, resultaram em têmpero novo para muitas das idéias antigas, referentes à ações visando a melhoria da instituição naval, de modo a propiciar que fossem  reapresentadas, fundamentadas na nova realidade.

O veículo que escolhi, para disseminar meu pensamento, tem sido os vários artigos que venho escrevendo, enfatizando a necessidade de mudanças e de paradigmas de mudanças nas organizações das FFAA, principalmente a que mais conheci, a marinha de guerra. 

O contacto direto e as discussões de idéias com meus pares é praticamente impossível, em face dos afazeres diários a que cada um se obriga, com uma persistente falta de tempo, o que leva a crer na predominância do esforço executivo, sem qualquer possibilidade do enfoque "pensante". Em outras palavras, o tempo é tão escasso para os chefes militares executarem, que pouco ou nada sobra para estudarem novas soluções para velhos problemas, nos tempos atuais. E assim impera a mesmice.  

Segundo este aspecto sempre defendi a necessidade de um Instituto Técnico Naval, nos moldes do MIT, por exemplo, ou da NDU,  que, complementado pela universidade brasileira,  pudesse tratar mais explicitamente dos problemas e soluções navais. Imaginar que a EGN possa assim atuar, para quem conhece a realidade, chega as raias da insensatez.  Um outro exemplo, igualmente, é o CASNAV, casa de saber notável, mas que não tem produção expontânea em benefício da marinha. Faz estritamente o que lhe encomendam, e nem tudo que lhe encomendam é obrigatoriamente inteligente ou útil para a marinha. Estas encomendas têm o mérito, segundo se afirma, de "manter afiadas suas armas", mas apenas ao custo de sustento próprio. Como não desejo ser enquadrado apenas como "pensador estratégico", parto para o pragmatismo deixando aqui uma sugestão, a de que, àquela instituição, fossem alocados, anualmente, mesmo a fundo perdido, determinados recursos financeiros além dos que teria que gerar para sustento próprio, para que, por obrigação, apresentasse algum trabalho de lavra própria de utilidade corrente para a marinha, naquele exercício. Seria esta uma forma, talvez até, que propiciasse a avaliação da sua eficácia.

Farpas a parte, volto ao tema a que me propus. Meu último projeto não é meu último projeto. Espero que, enquanto tiver forças, pois vontade não me falta, eu continue a disseminar minhas idéias. Muitas, nem sempre exeqüíveis ou mesmo corretas, mas até agora sem oposição explícita. E assim, vou continuar errando.

Meu último projeto diz respeito às últimas idéias que procurei disseminar, para discussão,  na Marinha. Vou resumi-lo  pela publicação de trechos de uma correspondência, entre outras, que encaminhei a uma alta autoridade de marinha.

Depois das saudações de praxe, etc., etc., escrevi:

"Contando com a paciência de V. Exª., aproveito a oportunidade para ventilar algumas idéias que poderão, de algum modo, contribuir para o aprimoramento dos processos navais, principalmente no Planejamento de Alto Nível - da previsão e preparo da aplicação do Poder Naval.

A problemática da Manutenção ainda é uma das questões críticas em qualquer instituição, e, na nossa, até hoje parece carecer de melhor organização, definição e execução,para que alcance os resultados esperados. Como combater conseqüências pode se assemelhar a malhar em ferro frio, sempre acreditei que determinando as causas primeiras, e nelas atuando, poder-se-ia obter melhores resultados de aprimoramento. Por isso, a questão que me pareceu mais adequada para abordar o problema foi definir qual a origem desses descompassos.

Um dos problemas mais flagrantes decorrentes do seu trato meramente como incumbência, ao invés de considerá-la como função estratégica, são as constantes queixas quanto às dotações de sobressalentes, nem sempre bem levantadas e adquiridas inicialmente, e as rotinas de manutenção, que seguem uma sistemática bastante confusa. Haja vista não termos realmente um sistema de manutenção, mas sim o SMP de uma unidade, o SMP de outra, embora muitas vezes sejam da mesma classe.

Enquanto não houver a CENTRALIZAÇÃO DA GERÊNCIA da Manutenção, que possa tratá-la estrategicamente, esta função logística está, realmente, fadada a não poder ser aprimorada, pois os diversos órgãos que dela se incumbem, não falam a mesma linguagem. A DSAM pratica a sua, a DEN uma outra, as comunicações outra, o armamento outra, e assim por diante.

 

Menos flagrante, mas existentes de fato, são as dificuldades para bem definir e disseminar REQUISITOS OPERACIONAIS e CONCEITO DE MANUTENÇÃO, em alto nível, de modo a que possam ser traduzidos, nos escalões inferiores, como parâmetros de construção. Eis aí uma arte que, me parece, ainda não dominamos inteiramente (faço a ressalva que esta minha opinião se fundamenta nos conhecimentos que extraí da leitura das obras que mencionarei mais tarde).

Parece que todos estes óbices são provenientes da falta de macro abordagem do problema, na nossa Força, e dificilmente, se todos seus integrantes não falarem a mesma linguagem, e não praticarem os mesmos princípios básicos, será muito improvável, se não impossível, organizar a função, em moldes de gestão moderna, segundo os mais adiantados conceitos que a orienta e regula.

No caso particular da MANUTENÇÃO, o enfoque hoje em dia, após mais de vinte anos de constantes mudanças nas suas atividades, quando se pôde verificar (1)um aumento bastante acelerado do número e diversidade dos itens físicos (instalações, equipamentos, e edificações) que têm que ser mantidos; (2) projetos muito mais complexos; (3) o surgimento de novas técnicas de manutenção; e (4) novas abordagens da organização da manutenção e suas responsabilidades, o enfoque moderno, dizíamos, e a INACEITABILIDADE do sistema ou equipamento parar de maneira não prevista.

Até bem pouco tempo o conceito predominante era de que a missão da Manutenção era a de restabelecer as condições originais dos equipamentos/sistemas, mas prevalece, na atualidade, o conceito de que a Missão moderna da Manutenção é

"GARANTIR A DISPONIBILIDADE DA FUNÇÃO DOS EQUIPAMENTOS E INSTALAÇÕES DE MODO A ATENDER A UM PROCESSO DE PRODUÇÃO OU DE SERVIÇO, COM CONFIABILIDADE, SEGURANÇA, PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE E CUSTOS ADEQUADOS."

Houve, no cenário industrial, mudanças de paradigmas, impulsionadas pela acirrada luta pela produtividade, o que, num mundo globalizado, cada vez mais vem obrigando seus atores a lutarem pela competititvidade, sem o que estariam alijados do curso normal da modernidade. As principais mudanças de paradigmas, no campo da manutenção, ocorreram, nesse mundo industrializado, quando a manutenção preventiva cedeu vez à preditiva, e quando esta teve que ceder ao que chamamos "engenharia de manutenção", a qual está voltada para o aprimoramento constante, garantindo, às organizações que as adotaram, seu lugar ao sol.

As principais mudanças aconteceram impulsionadas, principalmente, pelas necessidades do mundo industrial, muito embora a cultura para tanto tenha sido gerado no ambiente militar dos países desenvolvidos. Neste ambiente militar a Manutenção tem algumas características muito particulares, muito embora a maioria delas seja idêntica ao que acontece com relação à produção e à distribuição, no mundo dos negócios. Por tudo isso, podemos afirmar que a Manutenção,  na área militar, tem muito das técnicas correntes no mundo industrial, mantendo, contudo, peculiaridades inerentes ao trato das questões logísticas da guerra.

Mas as mudanças só foram possíveis graças aos conhecimentos adquiridos, no campo considerado, o qual, cada vez mais, não comporta o amadorismo.

A MB, sem preparar adequadamente seus elementos humanos para a manutenção, privilegiando os operadores com estas tarefas, sem lhes fornecer elementos básicos de desenvolvimento cultural, vem se colocando cada vez mais, à margem do progresso, e dia a dia sentirá as maiores dificuldades para manter adequadamente e aceitavelmente o material que a sociedade lhe confia para administrar.

Muito embora, como já mencionamos, tenha origem no meio militar dos países do primeiro mundo as técnicas gerenciais que fizeram a manutenção dar os saltos apontados, estes conhecimentos não chegam graciosamente aos países da periferia, por mais interessado que possam estar, dada às dificuldades naturais com que estes convivem, entre elas a escassez de recursos para fazer cursar no exterior, a falta de recursos para a compra de obras de referência, a falta de cursos especializados no país, a intensa especialização da matéria, a inadequada modernização das nossas instituições de ensino, e acima de tudo, a falta de acesso à referências bibliograficas adequadas, seja em língua estrangeira, seja na própria língua pátria.

As dificuldades são tantas que naturalmente se refletem nas estruturas das próprias instituições, como o caso interno da Marinha, que, salvo melhor juízo, não tem uma gerência de material à altura das suas necessidades. Exemplo disto, é este caso da Manutenção, que não conta com CENTRALIZAÇÃO DE GERÊNCIA, apenas uma supervisão da execução espalhada por diversos órgãos, que não falam a mesma linguagem. Enfatizamos a abordagem da centralização gerencial, para evitar confusão com a centralização da execução, a qual não endossamos. Não adianta, por exemplo, nem pensar em criar uma Diretoria de Manutenção, pois ela passaria a ser mais uma Diretoria no nível das demais (DEN, DSAM, etc.) disputando o exercício de atividades e ações de manutenção para as quais também não estaria preparada.

Gostaria de deixar claro que, uma vez me parecendo, salvo melhor apreciação, que as mazelas referentes à Manutenção resultam da abordagem inadequada de todo um processo de obtenção de um meio naval, aéreo ou de fuzileiros navais, ou qualquer outro objeto, fruto de uma necessidade definida na MB, os CONHECIMENTOS  a que me refiro são aqueles que cobrem desde a necessidade declarada, passando pela concepção, projeto, construção, uso e retirada do serviço desses meios. Assim, estes conhecimentos serão úteis para ajudar a definir adequadamente os REQUISITOS OPERACIONAIS, além da CONCEPÇÃO DE MANUTENÇÃO, da qual resultará a melhor organização da Manutenção. Talvez seja esta a causa primeira das dificuldades de gerenciamento da função logística  Manutenção.

Urge, pois, ser adotada alguma estratégia que permita a MB avançar para a posição que merece, na vanguarda dos conhecimentos sobre o PROCESSO DE OBTENÇÃO DOS MEIOS NAVAIS. E parece que o caminho só pode passar pela EDUCAÇÃO, e pelo treinamento.

Segundo esta abordagem, parece-me, salvo melhor juízo, que uma estratégia a ser adotada poderá ser:

1. A Escola de Guerra Naval receber a incumbência de preparar, em dois ou três anos, grupos de alunos que dominem conhecimentos básicos sobre ENGENHARIA DE SISTEMAS (dentro dela o tema APOIO LOGÍSTICO INTEGRADO). Tal poderá ser feito por meio de monografias, que servirão, inclusive, de subsídio a esse EMA, para elaboração de suas intruções normativas, como o caso do EMA-420. Se no futuro for reconhecida a necessidade de incorporar tal matéria aos currículos, o passo inicial já terá sido dado.

2. Prover imediato conhecimento sobre a matéria ENGENHARIA DE SISTEMAS - APOIO LOGÍSTICO INTEGRADO, como cadeira de formação de nossos engenheiros navais, na USP,  CTMSP.

3. Serem  tomadas providências imediatas para incluir a matéria MANUTENÇÃO, dando conhecimento aos alunos  das suas peculiaridades, em  nível dos cursos de especialização, no CIAW, no Curso de Submarinos, de Aviação, de Hidrografia, e nos cursos apropriados dos FFNN, no CI, e todos aqueles que a alta administração julgar por bem usar para disseminar tais conhecimentos.

4. O CPN implantar e implementar a sistemática de obtenção dos meios navais (cujo embasamento fundamental seria o EMA-420 e Instruções específicas da DGMM), segundo o enfoque moderno da ENGENHARIA DE SISTEMAS, em particular o APOIO LOGÍSTICO INTEGRADO (como apontado nas obras de referência a seguir citadas), apoiado pelo CASNAV, demais DEs, e aqueles oficiais envolvidos com o assunto. O PRM, incluído nesta sistemática, implementaria imediatamente uma estrutura de custos, como considerada na Análise de Custos do Ciclo de Vida, ferramenta do processo de ALI, que servisse, ao final, de referência para avaliação do binômio custo-benefício, dos meios e das "coisas" que a MB viesse a desenvolver.

5. Muito embora sem querer sugerir mudanças de estrutura da MB, julgo, no entretanto, oportuno lembrar que o DGMM poderia constituir imediatamente uma Divisão (ou o que for) dentro da sua estrutura, para permanentemente tratar do APOIO LOGÍSTICO INTEGRADO, alocando elementos capacitados a tratar do assunto (o que mais tarde, quando consolidado, poderia se transformar numa Diretoria, ou Subdiretoria de uma talvez Diretoria de Navios, que viesse a ser criada), de modo a harmonizar procedimentos doutrinários, padronizar  o entendimento dos vários conceitos envolvidos, padronizar linguagem para facilitar o entendimento, etc.; e,.

6. Outras medidas julgadas adequadas pela alta administração naval.

Volto a enfatizar que estas sugestões se reportam ao curto prazo, num ambiente de profunda escassez de recursos, e no qual parece que uma medida apropriada e oportuna seja investir na disseminação de conhecimentos sobre o assunto, pois quando todos o conhecerem e falarem a mesma linguagem, as soluções irão brotar com mais facilidade.

Tudo isto vem a ser um um processo a mais inserido na Gestão Contemporânea, já adotada na nossa MB.

Certo que o caminho a trilhar passa pela EDUCAÇÃO  e pelo treinamento, além de indicar como referências básicas as obras a seguir indicadas, coloco-me à disposição dessa [organização]  para os esclarecimentos que se fizerem necessário, inclusive prontificando-me a defender estes pontos de vista, se assim V. Exª. venha julgar conveniente.

E para maior clareza, envio a V. Exª o folheto traduzido em anexo, exemplo de aplicação do ILS na Royal Navy, além da cópia "desautorizada" do Integrated Logistics Support Handbook, pois assim estarão melhor consubstanciadas as idéias aqui ventiladas.

Certo de contar com a compreensão de V. Exª. de que, longe de ser uma intromissão nos assuntos da Marinha, é um forte desejo meu de cooperar e ver corrigidos problemas que julgo existirem cronicamente, e na certeza que a sensibilidade de V. Exª para este tipo de problema continua ilimitada, haja vista o trabalho desenvolvido na Subchefia do EMA que V. Exª orientou, e que foi o grande impulsionador da GQT, hoje GECON, uma realidade na MB, e à qual GQT o assunto ora ventilado está intimamente associado.

Se, por outro lado, estes problemas já tiverem sido resolvidos na nossa MB, fico feliz, e peço a compreensão de V. Exª para o desconhecimento do fato, tendo em vista já estar na reserva desde 1994, sem dispor de informações sobre a evolução dos problemas navais cotidianos.

Atenciosamente"

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Referências recomendadas:

1. The ILS Manager's LSA Toolkit: Availability Engineering -- by Dick Biedenbender, et al; Hardcover (Price: $60.00  -- used from $45.14)

Comentários editoriais:

"From Book News, Inc.

Including practical ideas for both parties preparing logistics support analysis (LSA) requirements (RFPs) and proposals/plans/procedures, this guide helps integrated logistics support (ILS) managers, system engineers, and other systems specialists achieve better product support at lower cost, and enables prime contractors and subcontractors to write successful proposals. Includes sample documents, worksheets, and checklists.

Book Description

This book provides logistics support managers, system engineers, and other systems specialists with a complete working model of logistics support analysis (LSA) management. This model, which is thoroughly tested by the Department of Defense, includes how-to guidelines on LSA requirements and on the execution of specific tasks--for example, creating ``departure point'' checklists and designing customized project development strategies. The interrelationship of LSA techniques and new management  initiatives is described from the perspectives of both the government manager and the contractor. The book describes important new engineering and modeling tools (TQM, CALS, Concurrent Engineering) that may be utilized in coordination with LSA. The checklists, worksheets, and sample documents that are included will simplify interpretation of government standards. Most important, the focus is on the implementation of practical LSA strategies that enable government agencies to achieve better product support at lower cost; and enable prime contractors and subcontractors to write winning proposals.

Ingram

A detailed discussion of LSA from government and industry points of view. Table of Contents: Introduction; LSA and Related Management Processes; Preparing LSA RFP and Contract Requirements; Executing the LSA Tasks; Modeling; Management; Appendices. 200 illustrations."

2.  Integrated Logistics Support Handbook, Special Reprint Edition by James V. Jones 2nd edition feb/1998 (Original na biblioteca do Clube Naval) List Price: $64.95

3. Logistic Engineering and Management (5th Edition) by Benjamin S. Blanchard. Price: $91.00. Used from $73.84

4. Systems Engineering and Analysis. BLANCHARD, Benjamin S. FABRYCKY, Wolter J.

Prentice-Hall,Inc., New Jersey. 3ed. 1981.

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